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OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

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Maria Gambina: "Tenho de me afastar do que me levou a afastar-me da moda" /premium

O nome Maria Gambina funde-se com a história da moda nacional. No Porto, a criadora fala do passado, do regresso à passerelle e de uma carreira marcada pela experiência e por uma identidade forte.

“Já tenho quase tudo pronto”. A dois dias de mais um desfile, o stress é relativo. Afinal, estamos a falar com Maria Gambina, na loja e atelier que está prestes a reabrir ao público. Nem a designer é uma novata nestas andanças, nem o espaço é um novo poiso. Estamos na Foz, onde a invicta encontra o mar e para onde Maria Cristina Lopes, nome de batismo, se mudou aos 15 anos. Foi precisamente aqui, ainda nos tempos liceu, que recebeu a alcunha — Gambina, porque Maria já era.

Em outubro do ano passado, regressou às passerelles. Momento significativo para a moda nacional, já que pôs fim a um hiato de seis anos, numa carreira que começou lá atrás, no início dos anos 90. Escolheu o Portugal Fashion, embora a sua história esteja igualmente interligada com a da ModaLisboa. A casa está arrumada, mas também, outra coisa não se aconselha a quem quer recomeçar. Ao Museu do Design e da Moda doou praticamente todo o acervo de peças de antigas coleções. Ficou uma saia. “Esta foi a única peça com que fiquei. É de uma coleção inspirada na minha cadela que já morreu. Foi toda estampada às camadas. É pesada”, justifica.

Gambina é a designer da música, do soul, do funk e dos discos de vinil que põe a tocar sem pedir dinheiro. Gráfica (quase lúdica), adepta das t-shirts estampadas e dos acabamentos industriais e criadora do seu próprio “streetwear de alta-costura”, ao longo dos anos criou uma linguagem própria. Em tempos, alguém a descreveu como a “Amália do fio e da agulha”. Depois, existe a Gambina professora. Por ela passaram nomes como Nuno Baltazar e Paulo Cravo, outros mais recentes como Tânia Nicole, Rita Sá e David Catalán. Por isso, é com propriedade que diz: “Ter talento não é nada”.

Celebrou, este ano, 50 anos de vida, mas já foi, ela própria, uma menina prodígio da moda portuguesa de autor. Ganhou duas edições consecutivas do concurso Sangue Novo (da ModaLisboa), por sinal, as primeiras. Com José António Tenente, amigo de há anos, desenhou as fardas da Expo 98, missão que lhes valeu outra distinção. Este sábado, volta a pisar na Alfândega do Porto para apresentar “Gambina F.C.”, coleção primavera-verão 2020 da marca que fundou em 1993.

À conversa com o Observador, desabafou sobre o que a fez abraçar a moda de autor, o que a fez afastar-se dela e o que a fez regressar. Neste vaivém, a relação com os holofotes nem sempre foi a mais feliz. Batemos-lhe à porta, na Foz, e tomámos-lhe parte de uma manhã valiosa. Mas a verdade é que antes aqui do que nos bastidores de um desfile.

No andar de cima da loja, o atelier que Maria Gambina comprou com os pais há cerca de 20 anos © Octávio Passos/Observador

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Este espaço de loja e atelier não é novo, pois não?
Não, não. Já o abri, se não me engano, em 1998. Foi no século passado. Comprei-a, é minha e dos meus pais, e sempre trabalhei aqui. Aqui em cima é atelier, lá em baixo é loja. Fechei-a na altura em que apresentei a minha última coleção, em 2012. Foi quando me dediquei ao ensino e também estava um bocadinho cansada. Entretanto, ainda tive um atelier no Mercado de Matosinhos, mas, quando resolvi voltar a abrir a loja, achei que não fazia sentido ter um atelier no mercado e vir para aqui.

Esteve fechada durante uns anos, portanto.
Durante esse tempo, ficou cheia de roupa, principalmente peças de desfile, únicas, peças que não tinha vendido ou que nunca tinha posto à venda por ter um carinho enorme por elas ou então por achar que eram tão caras que ninguém ia comprar. O meu estilo sempre foi mais streewear e sportswear, mas estou sempre a dizer que que é um streetwear de alta-costura — é tão trabalhado, tem tantos detalhes e o processo através do qual as peças são produzidas é tão minucioso.

Nesses cinco anos em que a loja esteve fechada, durante os primeiros dois, quase nem punha cá os pés. Quis mesmo cortar relações com a moda. Vinham os meus pais, de vez em quando, buscar o correio. Depois, resolvi dar uma arrumação nas peças todas que tinha. Comecei a catalogá-las, a pôr tudo por ordem. Tinha peças de concursos que ganhei que ainda estudava no CITEX. Era muita coisa mesmo. Entretanto, enchi-me de coragem e mandei um e-mail à Bárbara Coutinho, do MUDE. Era uma pena ter aquelas coisas. Na altura, o meu trabalho ainda era visível. Continuava a apresentar na ModaLisboa e no Portugal Fashion, mas desde que deixei… Nem os meus próprios alunos sabiam quem era a Maria Gambina, o que é que ela tinha feito. Muitas das ideias que eles tinham, eu já tinha feito. Parecia pretensioso, mas era um facto. Agora, houve este boom do streetwear. Há uns anos, ninguém trabalhava isso, muito menos da forma como trabalho — mais feminino, delicado, sem ser aquele tuff.

"Olhando para a visão que se tem do trabalho dos designers, acho que, como tudo, se tornou mais fútil. Não há aquela coisa de ir ver porque se aprecia, porque se quer, porque se gosta. Vão ver porque querem ser vistos. Isso acontece muito mais agora do que acontecia na altura"

Havia muita coisa para arrumar, estou a ver.
Alguns alunos também me ajudaram nesse processo… O David Catalán, a Rita Sá. Eles próprios motivaram-me muito — “Ah, a professora devia arrumar as suas coisas, devia abrir a loja outra vez, devia voltar”. Esteve lá também a Joana Braga, a Tânia [Nycole], todos a ajudarem-me a catalogar, a arrumar milhares de revistas, a tirar as capas, a tirar os artigos, a pôr tudo em dossiers. Foram para aí três anos a arrumar coisas. Então, perguntei à Bárbara Coutinho se estavam interessados em ver as peças que tinha, estava disposta a doá-las ao museu. Ela veio cá e levou tudo, foi espetacular. De repente, a loja ficou vazia.

Não lhe custou?
Não, porque sei que vão ficar bem tratadas. O MUDE está em obras agora, mas tenho a certeza de que, mais tarde ou mais cedo, poderão fazer uma exposição. Ter as peças aqui fechadas para quê? Para mim, não fazia sentido. Quer dizer, custou-me um bocado tomar esta atitude, não pelas peças, mas por estar viva e por parecer que estava assim… Mas, ao mesmo tempo, comecei a ver que, de repente, todas as grandes marcas estavam a pegar em logótipos de outras marcas que não têm nada a ver com roupa e a brincar com os nomes. Eu ganhei um concurso, em 1994, em que peguei no G da Galp e escrevi Gambina. Tinha o símbolo da Goodyear e escrevi Gambina, quer dizer. Aí sim, acho que é importante que se saiba que, em Portugal, alguém já fez uma coisa daquelas, muito antes de virar tendência. Se existe design de moda em Portugal, é importante haver um sítio onde haja um bocadinho dessa história. E que não seja só eu, que os outros designers também estejam representados lá.

Mas sendo Portugal um país tão periférico no que toca à moda, essa história acaba sempre por ficar aqui dentro.
Fica aqui dentro, é pouco divulgada. Mas se não fizermos por isto… Temos um museu de design e de moda lindíssimo em Lisboa, porque não? Faz todo o sentido.

Estamos na Foz. Tem uma ligação especial com esta zona da cidade?
Moro na Foz, os meus pais moram na Foz. Nasci em Oliveira de Azeméis, mas vim para o Porto com 15 anos. A minha irmã veio estudar medicina, o meu pai, entretanto, tinha subido para outra categoria num banco em Paços de Ferreira, os meus pais decidiram mudar-se para o Porto e viemos para a Foz. Gosto muito desta zona, é muito tranquila. Às vezes, até digo que vou ao Porto, esqueço-me. É um bocado distante, para sair à noite tenho de pegar no carro, não há metro. Mas tem o mar e, ao mesmo tempo, é muito aldeia — o café, a padaria, toda a gente se conhece, é pequenino.

Lembra-se na primeira coleção que apresentou num desfile?
Foi a minha coleção de final de curso, mas foi um desfile coletivo, com todos os meus colegas. Depois, com essa coleção, fui selecionada para o primeiro Sangue Novo e ganhei o primeiro prémio. Concorri na edição seguinte, com outra coleção, e voltei a ganhar. Aí é que eles me convidaram para apresentar na ModaLisboa. A coleção chamava-se “Brasil” e elas iam com os balões presos à cabeça para lhes levantar o cabelo. Assim sozinha e com uma coleção grande, essa foi a primeira.

Sentiu o peso da responsabilidade quando foi chamada para a passerelle principal?
Não, as coisas eram muito diferentes. Ou eu é que era muito diferente. A vontade de mostrar o que vinha de dentro de mim e de partilhar isso com o público era tanta, que nunca senti essa responsabilidade. Mesmo agora, não sinto. Apenas no sentido em que tenho de estar ao nível do patamar em que me põem. Não posso ir para lá com peças antigas, não vou repetir um modelo das calças dez vezes. Tudo tem de estar impecável e organizado, mas isso tem a ver comigo, sou um bocadinho perfecionista… Um bocadinho, não. Até porque isto é o meu trabalho e o que gosto de fazer. Tirando isso, não vivo muito o mundo da moda.

Coleção "Butterfly", apresentada em outubro de 2006, na ModaLisboa © ARQUIVO MODALISBOA / FOTOGRAFIA RUI VASCO

Rui Vasco

Havia uma segurança de que era aquilo que queria fazer?
Sempre senti isso. Mas as coisas eram diferentes. Era quase como se fosse um encontro de amigos, não era como agora. A moda era vista de uma forma mais espontânea, tudo muito mais descontraído, autêntico e familiar. Ia para a ModaLisboa e aquilo era a minha família. Era amiga dos designers, aliás, o José António Tentente era e é um dos meus melhores amigos. O Nuno Baltazar e o Paulo Cravo foram meus alunos, depois meus assistentes e depois começaram a participar. A Isabel Branco trabalhava lá, o Paulo Gomes fazia parte da organização. De seis em seis meses, reencontrávamo-nos, era assim uma coisa muito fixe. Não quer dizer que agora não seja, mas é diferente.

Mas ao longo dos anos, foi vendo as coisas mudarem à sua volta.
Muitas das mudanças também foram para melhor. Na altura, quando o Portugal Fashion apareceu, era um desfile coletivo dos designers. Não tínhamos os nossos cabelos, a nossa maquilhagem. Compreendo, as pessoas que estavam por trás do Portugal Fashion não eram como as pessoas que estavam por trás da ModaLisboa. A Eduarda [Abbondanza] e o Mário Matos Ribeiro eram designers de moda, o Paulo Gomes é produtor de moda. Tinham outra sensibilidade. Quando começou o Portugal Fashion, traziam manequins caríssimas, super conhecidas, que depois abafavam as nossas roupas. Só se falava na Claudia Schiffer, na Eva Herzigova. Eu, o Buchinho e o Nuno Gama, na altura, começámos a chamar a atenção de que não era esse o objetivo.

"Se quisesse ir a Barcelona, não podia apresentar na ModaLisboa. Não gostei. Revolucionária como era, e como não gosto que mandem em mim, disse: 'Ok, então não vou a Barcelona e fico com a ModaLisboa'"

Também havia o Portugal Fashion internacional. Chegámos a ir a Paris, a Barcelona e era outra vez tudo coletivo. Quando estive a fazer essa recolha de revistas e de coisas que tinham saído sobre mim, li cada coisa que dizia. Meu Deus, como é que tinha coragem? Era mesmo revolucionária. Era miúda. Mas foi importante, fez com que o Portugal Fashion mudasse. Hoje em dia, dá-nos todas as condições, trabalha com ótimos manequins, a equipa é espetacular, os sítios são ótimos, somos super bem tratados. Essa mudança foi boa. Olhando para a visão que se tem do trabalho dos designers, acho que, como tudo, se tornou mais fútil. Não há aquela coisa de ir ver porque se aprecia, porque se quer, porque se gosta. Vão ver porque querem ser vistos. Isso acontece muito mais agora do que acontecia na altura.

Fala com muito carinho da ModaLisboa, mas acabou por deixar essa plataforma.
Não deixei de apresentar na ModaLisboa. Simplesmente, deixei de apresentar coleções, em 2012. Nessa altura, também já não apresentava no Portugal Fashion desde a coleção de 2005, acho eu. O Portugal Fashion e a ModaLisboa estavam a tentar juntar-se. Os designers do Porto ficavam no Portugal Fashion, os de Lisboa ficavam na ModaLisboa. Tinham decidido que ia ser a semana de moda portuguesa. As únicas exceções era eu e o Nuno Baltazar, que continuávamos lá em baixo. Entretanto, ia pela terceira vez a Barcelona com a minha coleção e perguntei ao Portugal Fashion se podia continuar a ir. Disseram-me que uma coisa não tinha a ver com a outra. O certo é que essa semana de moda portuguesa não foi para a frente e puseram-me entre a espada e a parede. Se quisesse ir a Barcelona, não podia apresentar na ModaLisboa. Não gostei. Revolucionária como era, e como não gosto que mandem em mim, disse: “Ok, então não vou a Barcelona e fico com a ModaLisboa”.

Claro que foi uma atitude irrefletida. Hoje em dia, mais velha, olho para trás e penso: “Fogo, perdeste uma oportunidade ótima”. Já estava a ter imenso sucesso em Barcelona, aparecia em revistas internacionais. Para dizer a verdade, se calhar perdi uma oportunidade, mas não me arrependo. Acho que a minha vida tem tomado o caminho certo. Continuei a apresentar na ModaLisboa, mas a coleção de outono-inverno 2012/13 foi a última. Quando resolvi voltar, no ano passado, decidi pelo Portugal Fashion porque estava ótimo, tinha exatamente as mesmas condições que a ModaLisboa, a equipa era aquela com que já estava habituada a trabalhar, sou do Porto, tenho uma loja no Porto, os meus clientes são do Porto e tinha de ser objetiva. Voltei, não para continuar a dar peças ao MUDE, mas para apostar na minha linha mais comercial, nas t-shirts, nas sweats, nos estampados.

Coleção "Brasil", outubro de 1993, ModaLisboa; 1994, Primeiro Prémio do Concurso Jovens Criadores da Europa e do Mediterrâneo; coleção "Dub", outubro de 1996, ModaLisboa

Não pensa em voltar a desfilar em Lisboa?
Não, deixem-me estar no Porto.

Acredita que a união entre Portugal Fashion e ModaLisboa se poderá concretizar um dia?
Não, não acredito. Só se forem encostados à parede com cortes muito grandes nos apoios.

Há um artigo de uma revista francesa, de janeiro de 1998, que lhe chama la portugaise funky. Era uma ideia generalizada sobre o seu trabalho?
As minhas coleções sempre estiveram ligadas à música. Agora é moda, mas na altura não era. Sempre tive referências de músicas, de determinadas tribos urbanas associadas a um determinado estilo. Sempre fui mais soul, funky. Há um artigo que diz que sou a “Amália do fio e da agulha” e foi depois de um desses desfiles em Barcelona.

Mas depois, Portugal acaba por ter uma relação muito menos próxima com a moda de autor do que outros países. Se falarmos de França, então.
Não tem essa história. Mas isso cresce. Quer dizer, comprei a minha loja. Se a comprei, é porque vendia. E não tenho pais ricos que ma deram, embora tenha comprado a meias com eles. As minhas coisas funcionavam muito bem, mas também não eram artigos muito caros. O que vendia melhor eram as t-shirts e esses artigos feitos em série, mais acessíveis. Não é uma saia ou um casaco que custa 300 ou 400 euros. Estamos a falar de peças de 50 euros. Aliás, era em escudos.

"Quando decidi voltar, foi para tornar isto um negócio. Demorei um ano, mas não tenho uma empresa a injetar-me dinheiro. Vou na terceira coleção e está tudo pago. Para isso, há coisas que tive de ir deixando de fazer, como pintar o chão da loja, que estava péssimo"

Mas nunca se sentiu limitada a criar dentro desse segmento de peças?
Não, porque uma t-shirt com um estampado também é um trabalho criativo. Criatividade não é só coisas esquisitas ou muito elaboradas. Aquela t-shirt com o G da Galp é criativa. Sou muito gráfica também. Um poster de um designer de comunicação do Teatro Nacional de São João ou da Casa da Música é criativo.

Mas nunca deixou de desenhar nada por constrangimentos de viabilidade comercial?
Claro que não. No final de cada coleção, tenho de pensar quais são as peças mais comerciais e quais aquelas que consigo reproduzir em série com bons preços. Neste momento, considero que todas as partes superiores, com estampados ou sem estampados, de malha, são as mais comerciais.

Tendo em conta o seu percurso, mas também o dos designers mais novos, diria que ter talento é o suficiente para vingar?
Não, de todo. Ter talento não é nada. Nem é só por mim, é como professora que agora vejo isso. Ao longo dos anos, passaram por mim muitos estudantes com talento. Hoje em dia, ninguém sabe nada deles, porque não passavam disso. Não tinham método, ficavam só pelas ideias, não sabiam pô-las em prática, ou não queriam, ou quando o faziam, faziam-no mal. A um designer de moda, como em todas as profissões ligadas ao design e às artes, não basta ser criativo. Acho que, na área do design, a nossa profissão é a mais abrangente de todas. Temos de saber de  modelação, de confeção, de saber trabalhar a parte gráfica, explicar às costureiras, desenhar tudo, fazer desenhos técnicos, fichas técnicas, escolher os materiais, os acessórios… Ufa. E ainda tens de fazer a lista de convidados para o desfile. É muito complexo e exigente. É preciso ter muita força de vontade e por isso é que o talento não basta. Aliás, digo aos meus alunos que não estamos ali a formar designers para o Portugal Fashion ou para a ModaLisboa. Estamos a formar bons designers. Eles depois que optem pela indústria ou por ter uma marca própria, uma loja, participar em concursos.

E há espaço para os novos designers se lançarem em nome individual?
Cada vez mais, acho. A moda está tão igual.

"Voltei, não para continuar a dar peças ao MUDE, mas para apostar na minha linha mais comercial, nas t-shirts, nas sweats, nos estampados"

Mas depois também não há uma proximidade real entre possíveis clientes e essas marcas de autor. Começa logo com a distribuição, com os pontos de venda. E ainda há designers que apresentam coleções e não produzem nada.
Esse é o grande problema. Aí, entra o sentido de responsabilidade. Não seria capaz de estar a apresentar um desfile, sabendo que estavam a apostar em mim e a gastar imenso dinheiro — porque em cada desfile que é feito, quer no Portugal Fashion, quer na ModaLisboa, gasta-se imenso dinheiro –, só por uma questão de ego. Só agora é que vou abrir esta loja, mas sabia que ia abri-la. Quando decidi voltar, foi para tornar isto um negócio. Demorei um ano, mas não tenho uma empresa a injetar-me dinheiro. Vou na terceira coleção e está tudo pago. Para isso, há coisas que tive de ir deixando de fazer, como pintar o chão da loja, que estava péssimo. Fui fazendo pequenas coisas à medida que ia conseguindo. Mas sei que nunca vou apresentar um desfile só para chegar ao fim e ter toda a gente olhar para mim na passerelle, ou para me reconhecerem da rua. Isso não me diz nada.

Sempre a vimos fazer outras coisas, dentro e fora da moda — figurinos, fardas, indústria, mesmo na música. Foram um escape criativo ou uma tábua de salvação financeira?
Uma tábua de salvação financeira, mas não a música. Embora, como designer, estar envolvida em vários projetos fora do design de moda de autor, traga uma experiência enorme. Uma pessoa não pode ficar aqui fechada nas suas coisinhas. Há um mundo lá fora, a indústria, a ser completamente atualizado todos os dias. Lembro-me de, há uns anos, ter andado a estampar peças já feitas, a assumir os erros, a ter peças em camadas. Passava a vida na estamparia e comecei a perceber como é que as coisas eram feitas. É uma característica minha, até. Utilizo muita coisa que vem da indústria, principalmente a nível de acabamentos. Claro que isso não se vê num desfile, só com as peças na mão. É a diferença entre um professor doutor e um professor com anos de experiência. O doutor é um teórico, o que tem a experiência é porque foi para o terreno. Mas sim, sou muitas vezes contactada para desenhar coleções para outras marcas. Faço e gosto muito.

É também um apoio para manter a marca?
Sim. Mas como disse, se comprei esta loja é porque vendia. E acredito que vou continuar a vender. Agora, que ajuda, ajuda. Faz-te ter mais ideias e, às vezes, pegar em coisas a que as pessoas não estão habituadas. Ando na rua e estou sempre a ter ideias. Olho para uma coisa e, não sei porquê, estou a ver outra. Até é bom para a própria indústria. Aparecemos com outras ideias para tirar partido do que eles fazem e com coisas que eles nunca pensaram que podiam fazer.

Olha muito para coisas, não tanto para pessoas.
Não, para pessoas não. Principalmente, para imagens. Ainda há bocado fui tomar café e estava a princesa de Inglaterra agora… a Meghan. Ela tinha um casaco com uma gola branca, olhei e vi logo ali um buraco, parecia um corte… “Ah que giro”. Mas não, eu é que já estava a ver coisas.

Na loja, pronta a reabrir ao público © Octávio Passos/Observador

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Mas disse que a música era algo à parte de tudo.
Gosto de pôr música, mas não o faço por dinheiro. Já me convidaram a pagar super bem — mas assim mil euros para pôr música numa discoteca — e não fui. Não sou DJ de discotecas, só ponho vinil, não faço misturas nem ponho música para as pessoas dançarem. Ponho música para as pessoas ouvirem. Não compro música para tocar, os discos que compro é porque gosto deles. Cada vez mais, só ponho música em sítios especiais, ou quando conheço quem me convida, quando é um clube de jazz ou uma coisa pequenina.

Estamos em 2019. A marca fez 25 anos recentemente, a Maria fez 50 já este ano. Como é que se vê como designer?
Nunca olho para mim como designer. Sinto-me feliz, sinto que fiz as coisas certas nas alturas certas. Não acho que tenha cometido muitos erros. Sempre fui muito fiel aos meus valores e às minhas convicções. Nunca prejudiquei ninguém, subi por mim — se é que foi subi, não sei. Neste momento, só quero mesmo solidificar a marca em Portugal. Aqui, na minha loja. Nem faço tenções de vender para outras lojas. Primeiro, ia encarecer imenso as peças. Depois, porque a indústria ainda não está recetiva a fazer poucas quantidades. Acontece que as peças, com exceção das t-shirts e das sweats, ainda são feitas em atelier e ficam muito caras. à venda noutras lojas ficariam exorbitantes.

"Tenho de me afastar do que me levou a afastar da moda. Senão, qualquer dia, afasto-me outra vez. Além do cansaço, foi a falta de imprensa nacional especializada ou, no fim dos desfiles, as figuras públicas a tirarem fotografias e jornalistas a perguntarem-me: "Então qual é a tendência da sua coleção?"

Há muito gente a achar que se chama mesmo Maria Gambina?
Não faço a mínima ideia. Na moda, toda a gente me chama Maria Gambina, ou só Maria. Quem trabalha comigo chama-me Cristina. Mas sim, a nova geração deve achar que me chamo Maria Gambina, só se forem à Wikipedia ver.

De onde veio esse nome?
Foram uns amigos meus aqui da Foz, por acaso. Quando andava no liceu, alguns eram surfistas e, quando começava a ficar muito calor, íamos para a praia. Adorava apanhar sol sem protetor, aquelas coisas de antigamente, e ficava vermelha que nem uma gamba. Eles chamavam-me Maria Gambina por causa disso. Entretanto, ficou. Quando quis registar a minha marca, havia uma Cristina Lopes, uma estilista em Lisboa. Nas duas vezes que ganhei o Sangue Novo, apareci como Cristina Lopes e ela quis processar-me, dizia que eu utilizava o nome dela para ganhar os prémios. Queria continuar e não estava para ter chatices. Registei-me como Maria Gambina. Esse tinha sido inventado, não havia nenhuma de certeza.

Nos anos 90, foi distinguida com vários prémios — duas edições do Sangue Novo, as fardas para a Expo 98 e um Globo de Ouro. Há uma ressaca quando um período de muito reconhecimento chega ao fim?
Para dizer a verdade, todos os meus prémios estão em casa dos meus pais. Até a minha filha pergunta porque é que o Globo de Ouro não está lá em casa. Eles gostam mais. Não acho que sejam os prémios a dar-me reconhecimento. É bom, é gratificante, mas não é isso que me alimenta. E não estou a ser humilde. Quando foram os Globos de Ouro até foi uma dor de cabeça para saber o que ia vestir.

Nunca teve receio de cair no esquecimento?
Não, senão também não tinha parado de trabalhar. O mal das pessoas é continuarem para o nome não seja esquecido, porque isso depois nota-se no trabalho. Quando voltei para o Portugal Fashion, candidatei-me, não telefonei a dizer que queria voltar. Fiz uma candidatura como toda a gente pode fazer. Acho que é a forma mais justa. Aí estão os meus valores. Não quero passar à frente de ninguém. E para mim própria, é bom saber que estou lá porque a minha candidatura foi aceite e não porque fiz um telefonema.

O que é que a fez parar em 2012?
Fiquei desapaixonada. E fui mãe solteira, fiquei com uma filha, sozinha na moda, na roupa, em tudo. Estava cansada. Também comecei a dar aulas e a ter uma vida mais estável. Até acho que foi bom ter parado, voltei com outra visão. A Maria Gambina está lá. Quem conhece o meu trabalho detrás, olha para as minhas coleções e percebe que são Maria Gambina. O cunho continua lá, mas é diferente. Eu própria estou diferente, muito mais calma, muito mais serena. Muito mais na minha, não quero que me chateiem, deixem-me fazer o meu trabalho.

Coleção apresentada no Portugal Fashion, em outubro de 2018 © João Porfírio/Observador

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Tenho de me afastar do que me levou a afastar da moda. Senão, qualquer dia, afasto-me outra vez. Além do cansaço, foi a falta de imprensa nacional especializada ou, no fim dos desfiles, as figuras públicas a tirarem fotografias e jornalistas a perguntarem-me: “Então qual é a tendência da sua coleção?”. A certa altura, nem podia estar perto dessas coisas, punham-me nervosa. É a tal futilidade. Agora, podem achar que sou uma parva, mas nestes meus desfiles não falo com imprensa. E as fotografias, essas coisas todas. Não estou lá para isso, estou lá para mostrar o meu trabalho, é ele que tem de ser fotografado. Estou disponível. Agora, antes de um desfile? A meio das provas? Depois do desfile, quando tenho de pegar na coleção e tirar tudo dos bastidores, quando estou exausta e cansada. Ainda por cima, quando não tenho uma grande equipa. Essa falta de respeito… Não percebem que aquilo é trabalho. Se calhar, as pessoas também não estão educadas. Se houvesse mais designers como eu, marcavam horas. Quando fazes o teu trabalho com muita paixão e percebes que ele não é valorizado, o que está à volta, e que é fútil, acaba por te absorver. Mais o facto de estar sozinha, de não ter uma estrutura, nem ninguém a injetar dinheiro na marca, de trabalhar de manhã à noite, fins de semana, feriados. Rebentei.

É por isso que agora põe os objetivos num nível alcançável?
Sim, claro. Não quero voltar a estar como estava. Quer dizer, vou deixar de fazer o que mais gosto por ter interferências? Tenho é de me libertar dessas interferências.

Por isso é que disse no início que não é muito deste mundo da moda.
Pois não. O Margiela também não aparecia e não deixou de ser o Margiela. Não me estou a comparar, fogo. Mas acho que há mais designers a pensar como eu. Tenho muitos amigos designers que não compactuam com essas coisas, a vida deles é perfeitamente normal. Há muito aquela coisa do designer estrela e não é verdade.

Mas essa ideia existe porque foi propagada por algumas pessoas, não?
Há muitos, mas também há muitos que não.

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