Índice
Índice
Comentador em canal aberto ao domingo, ex-líder do PSD, ex-líder da oposição que não foi a votos em legislativas e potencial candidato presidencial. O percurso de Luís Marques Mendes parece tirado a papel químico do de Marcelo Rebelo de Sousa — e em muitos momentos foi comum. Mas, por estilo e necessidade, o conselheiro de Estado tem começado a firmar diferenças para o atual Presidente da República: na relação com a direção do partido, no timing da candidatura, na confrontação com outros candidatos e até no posicionamento sobre alguns temas (da estabilidade política à segurança).
Conheceram-se nos anos 80, num dos regulares jantares de fafenses em homenagem ao pai de Marcelo, Baltasar Rebelo de Sousa, que tinha uma longa ligação afetiva com a cidade de onde Marques Mendes é natural. Em 1987, apesar de não terem intimidade, Marcelo vaticinou que Mendes ia ser ministro da Presidência de Cavaco Silva. Acertou. Foram-se cruzando várias vezes ao longo da vida política: quando Marcelo deu um 8 de nota a Mendes na TSF, quando se reuniram no Hotel da Lapa para Mendes dizer a Marcelo (antes de Cristo descer à Terra e ser líder do PSD) que seria candidato a líder parlamentar. E foi. Durante a liderança de Marcelo falavam madrugada dentro ao telefone e tornaram-se próximos.
O Presidente tem direito a indicar apenas cinco pessoas como conselheiros de Estado e não hesitou em nomear Luís Marques Mendes. Cavaco Silva tinha feito o mesmo com Marcelo Rebelo de Sousa. A relação vai tendo altos e baixo, mas Marcelo e Mendes dão-se bem. No final de 2022, o Presidente da República lembrou num evento da Trofa que Marques Mendes era um “jovem fogoso” e antecipava que “continuará nos próximos anos” a ser, numa referência às ambições para Belém. O Presidente diz publicamente que não pode ter preferências pelo sucessor, mas nos seus círculos mais próximos nunca escondeu que prefere Mendes a um candidato visto como sendo anti-sistema (como Gouveia e Melo).
Marques Mendes, cauteloso, tem vindo a descolar de Marcelo, mas apenas q.b. e quando é estritamente necessário. Sobre as coincidências com o atual chefe de Estado, o próprio Marques Mendes já o admitiu, mesmo que não seja o melhor dos presságios: “A história não se repete“. Afinal, quais são as diferenças (e as ainda muitas semelhanças) entre Marcelo e Marques Mendes?
As diferenças: o partido, o timing, o candidato-mor e as bandeiras
O partido: PSD é mau vs PSD é bom
Marcelo Rebelo de Sousa tinha uma má relação com a direção do partido antes de se assumir candidato a Belém e foi mesmo forçado, em 2014, a ir ao Congresso meter o pé na porta. Apesar dessa necessária prova de vida entre os “laranjinhas”, tentou sempre afastar-se da ideia de que seria um candidato do partido. Passos Coelho — que considerava Marcelo um “catavento” pouco compaginável com a sobriedade que exige a função presidencial — ainda chegou a admitir apoiar outras candidaturas e a conversar com Rui Rio, sem nunca lhe dar um sinal definitivo, mas depois acabou por render-se às sondagens (o atual Presidente estava bem posicionado para vencer à primeira volta). Ainda assim, Marcelo tudo fez para forçar a ideia de que era um homem sozinho, a conduzir o seu carro até Celorico de Basto, terra da avó Joaquina, sem um séquito partidário atrás. Chamou Pedro Duarte para mandatário nacional — que era o líder da JSD no momento em que Marcelo deixou de ser líder do PSD — e pouco mais. Na pré-campanha e campanha, até havia partido por todo o lado, mas Marcelo tudo fez para o esconder. Não se viu bandeiras do PPD nem merchandising com tons de laranja. Com Marques Mendes, tudo é diferente.
Ao contrário de Marcelo, Marques Mendes opta por uma estratégia de se unir ao PSD. De puxar, no sentido figurado, pelo pin das setinhas na lapela. Não teme ser visto como o candidato do PSD, até porque isso pode ajudá-lo a subir nas implacáveis sondagens. O comentador escolheu a rentrée do partido, a Universidade de Verão, para dar mais um passo para se tornar no inevitável candidato do PSD. Depois disso, fez questão de marcar presença no Congresso do partido, que não lhe correu da melhor forma, e até terá ficado agastado pela forma como a sua entrada foi desprovida de uma preparação cénica. Já no último sábado, em Ovar, tudo mudou. Marques Mendes foi anunciado pelo speaker como se de uma estrela se tratasse e não teve pejo de falar como um autêntico pré-candidato presidencial. O partido também está com ele e respondeu da mesma forma. Metade do Governo está pejado de mendistas (com Castro Almeida à cabeça, mas que está na companhia de outros, como António Leitão Amaro). Luís Montenegro disse logo em outubro que Mendes é dos que “encaixa melhor” no perfil que definiu e, no sábado, só faltou dizer que é ele a sua escolha para candidato presidencial. “Sabemos que a solução está perto”, disse em frente a Mendes, que estava sentado a poucos metros na fila da frente.
Se Marcelo não se queria colar demasiado ao partido para arrumar a eleição à primeira volta com votos da área do PS, Mendes precisa do PSD (dos “laranjinhas”, como lhes chama) para forçar o almirante a uma segunda volta. Essa é uma grande diferença: a marca PSD vai estar muito mais presente na candidatura de Mendes.
[Já saiu o quinto episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto episódio]
O timing: outono marcelista vs primavera mendista
Marcelo Rebelo de Sousa adiou ao máximo a decisão sobre se seria candidato, naquilo que foi um verdadeiro tabu. Na base das hesitações estava um eventual avanço da candidatura de António Guterres, pois Marcelo acreditava que não teria hipótese contra o socialista. Além disso, vivia uma espécie de trauma do derrotado-favorito desde as autárquicas de 1989 em Lisboa, quando perdeu a capital para Jorge Sampaio contra todas as previsões. Até ao último momento, muita gente, incluindo dirigentes do PSD, acreditavam que Marcelo se podia acobardar, lembrando que, mesmo para a liderança do PSD, só tinha avançado quando garantiu ter o apoio de mais dois terços do aparelho. Nessa corrida das presidenciais de 2016, outros candidatos foram aparecendo e Marcelo deu-se ao luxo de esperar pelo momento certo para avançar.
Marques Mendes não tem condições para esperar tanto. Se Gouveia e Melo tivesse continuado na Marinha até abril — como o ex-líder social-democrata chegou a pensar ser possível — isso permitia ao comentador apresentar-se mais perto do verão. O facto de o almirante já estar no terreno e de tudo se estar a precipitar, fará com que Marques Mendes tenha de decidir mais cedo. O próprio já revelou que fará essa antecipação de calendário: está a “ultimar a reflexão”, que parece ter como um cada vez mais inevitável desfecho a formalização da candidatura. Na última mudança de ciclo, havia eleições legislativas antes de Presidenciais, o que também ajudou Marcelo a adiar o calendário e só a avançar no outono. Mendes precisa de fazer uma demonstração de força e uma campanha (e pré-campanha) em crescendo, o que o deverá fazer avançar na primavera. Esta antecipação de calendário é mais uma diferença, neste caso forçada, para Marcelo.
O candidato-mor: o favorito vs não-favorito
No anterior ciclo político, Marcelo Rebelo de Sousa foi, desde o início, o favorito a vencer as presidenciais. As sondagens davam-no a vencer à primeira volta ou perto disso e com os adversários a uma distância mais-do-que-confortável. Isso fez com que Marcelo Rebelo de Sousa nunca tivesse de atacar os outros protocandidatos. O único momento de agressividade foi guardado para o debate com Sampaio da Nóvoa, onde o social-democrata pôs as garras de fora. Em pré-campanha, Marcelo foi atacado por todos, mas não teve de atacar ninguém.
Já Marques Mendes não é favorito, é challenger. Isso obriga-o a ir a jogo e atacar o seu maior adversário, Henrique Gouveia e Melo. Já outros o tinham feito. O amigo e ministro Castro Almeida chegou a dizer que um militar na Presidência era uma “anormalidade”. Agora o próprio entrou no tiro ao almirante. No evento do PSD em que participou no sábado, Marques Mendes atirou: “Alguns cá dentro e lá fora começam a alimentar a ideia de que mais verbas para a segurança, para a defesa e para as forças armadas deve ser feito à custa do Estado social. Pois eu penso exatamente o contrário por uma questão de equilíbrio, de prioridades e de sensibilidade social”. Era uma resposta a Gouveia e Melo que 24 horas antes tinha dito no Expresso da Manhã: “O que interessa termos despesas sociais se não tivermos país? Ou se tivermos de obedecer a uma autoridade exterior, ainda por cima ditatorial?”. A posição de ataque relativamente a outro candidato é uma diferença significativa de estratégia face a Marcelo — que era o alvo dos ataques e não quem ataca.
A mensagem: a carta, a estabilidade e a agenda woke
Luís Marques Mendes, ao longo dos mais de nove anos de mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, concordou com a esmagadora maioria das posições do atual Presidente da República. No último ano, em particular nas últimas semanas, o comentador e conselheiro de Estado desalinhou com estrondo do chefe de Estado. E sobre uma matéria relacionada com o cargo.
O Presidente decidiu questionar os conselheiros de Estado sobre o desafio que André Ventura lhe fez de convocar um Conselho de Estado dedicado à segurança. Em horário nobre, Marques Mendes arrasou Marcelo: “Marcar um Conselho de Estado, marcar a data do Conselho de Estado, e a agenda do Conselho de Estado é uma competência exclusiva do Presidente da República. Sublinho: exclusiva. Portanto, não é revogável, nem referendável.” No próprio caminho para Belém — de mostrar moderação e de se posicionar ao centro — Marques Mendes não podia poupar Marcelo.
Em sentido contrário — apesar do esforço em se posicionar ao centro (e poder protagonizar a candidatura “abrangente” que Luís Montenegro pede) — Mendes também não quer ser confundido como um defensor de uma agenda mais “woke”. Quando Marcelo Rebelo de Sousa abriu a porta a indemnizar as ex-colónias, o comentador foi fulminante: “Teve o dia mais infeliz do seu mandato”.
Em matéria de discurso, Mendes também se quer apresentar como alguém mais estável do que o atual Presidente da República. Numa das ações de rua que fez junto da sociedade civil, Marques Mendes disse em declarações ao Observador: “Eu não sei quem é que vai ser Presidente da República, mas há uma coisa que eu sei: o Presidente tem de ter algumas preocupações centrais. Tem de ser um construtor de pontes. Não podemos passar a vida, sempre que há uma crise, a pensar em dissoluções ou eleições antecipadas”. Aqui quer igualmente marcar uma clara diferença para Marcelo, que já dissolveu várias vezes parlamentos (entre os regionais e o nacional). Dias depois, repetiria a mesma ideia no programa de domingo.
As semelhanças: o palco televisivo, o Estado social, os autarcas e a importância das raízes
Comentário em horário nobre: o palco televisivo
Um dos pontos em comum que Marques Mendes tem com Marcelo é que também chega a potencial candidato presidencial depois de anos de comentário em horário nobre ao domingo. Esse espaço deu-lhe notoriedade pública superior até à que conseguiu como líder do partido e um palco privilegiado para chegar às casas dos portugueses com os temas que escolhe semanalmente. Marcelo utilizou esse espaço até poucas semanas antes de formalizar a candidatura a Belém, apesar de ser alvo de críticas pelos seus adversários.
À semelhança de Marcelo, embora já tenha admitido vir a ser candidato presidencial, Marques Mendes vai mantendo o seu espaço de comentário em canal aberto. A partir do momento que formalizar a candidatura, provavelmente vai ter de abandonar ou suspender a participação no programa. E, aí, perde tempo de antena. Para já, vai fazendo como Marcelo: aguentar a presença no comentário domingueiro o máximo de tempo que conseguir.
As prioridades: o combate à pobreza, os sem-abrigo e a defesa do Estado Social
Se as prioridades de Marcelo na Presidência eram o combate à pobreza, a erradicação dos sem-abrigo e a defesa do Estado Social, o protocandidato Marques Mendes tem mais ou menos as mesmas bandeiras. No encontro de autarcas em Ovar, no último sábado, o comentador político que é necessário “resolver as questões da pobreza envergonhada, dos sem-abrigo, da pobreza em geral, sobretudo da habitação que é dos maiores dramas da sociedade portuguesa”.
Mendes faz visitas onde Marcelo iniciou última campanha. Decisão sobre Belém “cada vez mais próxima”
Numa das primeiras ações que fez junto da sociedade civil, Marques Mendes seguiu os passos de Marcelo e foi a duas instituições que o atual Presidente costuma visitar: o Espaço Júlia e a mercearia social Valor Humano. As prioridades que elegeu para a chefia de Estado são muito idênticas às que tinha Marcelo quando se candidatou (e se recandidatou): “O [futuro] Presidente tem de ser também uma pessoa com enorme espírito de ambição nas grandes causas nacionais. Não é o Presidente que governa, isso é claríssimo. Agora, é um Presidente que pode lançar e potenciar causas fundamentais. A ambição no combate à violência doméstica, a ambição na melhoria do Estado Social e a ambição para que o país cresça com outra pujança”.
O Estado Social foi também a primeira área (como vimos em cima) que Marques Mendes utilizou como arma de arremesso político contra o almirante Gouveia e Melo.
Os autarcas na antecâmara
Apesar de Marcelo Rebelo de Sousa ter tentado despartidarizar a candidatura, aproveitou os 40 anos do PSD para fazer uma verdadeira “rota da carne assada” pelas estruturas do partido. Passos não estava nem aí, mas José Matos Rosa, então secretário-geral, acompanhou-o em quase todos esses eventos. Marques Mendes não só foi ao encontro de autarcas, como mantém contacto permanente com vários presidentes de câmara do PSD. No verão andou a encontrar-se com autarcas no Alentejo e fez o mesmo nos Açores. Aceita com regularidade desafios das estruturas, mantendo — tal como Marcelo fez antes de 2016 — essa ligação ao aparelho viva.
A importância das raízes: Fafe é o novo Celorico
Marcelo Rebelo de Sousa nunca dispensou, na sua pré-campanha e campanha, destacar as suas raízes e lembrar várias vezes a sua ligação a Celorico de Basto, terra da sua avó Joaquina. Apesar de viver há décadas em Cascais, o atual Presidente fez questão de votar naquela vila do distrito de Braga durante vários anos.
Marques Mendes também não dispensa a ligação à sua terra, que é menos forçada do que a de Marcelo. O ex-líder do PSD é mesmo de Fafe (Marcelo não nasceu em Celorico). Foi lá nasceu, casou e onde nasceram os filhos. No último sábado, Mendes voltou a lembrar que foi vereador e vice-presidente da câmara de Fafe com apenas 19 anos. Essa ligação à terra será outra das suas tónicas de campanha, o que é mais uma semelhança com Marcelo.
A história não se repete, como diz Mendes, mas há coincidências. António Marques Mendes, pai de Luís Marques Mendes, último presidente da câmara de Fafe no período do Estado Novo, teve como um dos últimos atos públicos como autarca, a 8 de março de 1974, a atribuição do título de “Cidadão Honorário do Concelho” de Fafe a Baltasar Rebelo de Sousa — pai de Marcelo Rebelo de Sousa.