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Dos cidadãos anónimos que se recusaram a cancelar os seus planos de viagem mesmo quando o mundo já estava “em chamas”, aos políticos que asseguraram que estava tudo sob controlo ou que a covid-19 era uma fantasia criada pelos media, a presente pandemia tem deixado vislumbrar aspectos pouco tranquilizadores da natureza humana.

Vírus, temperatura e viagens de avião

A análise das primeiras fases da propagação dos casos de covid-19 num mapa-mundi pode levar a concluir que a doença terá dificuldade em progredir nos climas quentes. Isto parece ser confirmado por alguns estudos que sugerem que a sobrevivência do SARS-CoV-2 é menor quando a temperatura é alta e a humidade é baixa (a sua temperatura óptima rondará os 8-9ºC); outros defendem que o factor determinante não é a temperatura nem a humidade, mas a insolação, uma vez que o vírus será sensível à exposição aos raios ultra-violeta. Em qualquer dos casos, poderia esperar-se que, tal como acontece com a gripe comum, a covid-19 se atenuaria no Hemisfério Norte com a chegada do Verão. Porém, há virologistas e epidemiologistas que admitem que não sabem em que medida é que a meteorologia e o clima afectam a propagação e virulência do SARS-CoV-2. E, por outro lado, há outra forma de interpretar os mapas acima referidos: eles também reflectem a riqueza e pobreza das nações.

Embora a proximidade geográfica e a intensidade dos vínculos com a China tenha sido determinante numa primeira fase, com a doença a chegar ao Japão, Taiwan e Coreia do Sul, quando a epidemia alastrou a todo o mundo é notório que tem chegado de forma moderada e com atraso aos países com PIBs per capita baixos – aqueles em que apenas uma pequena elite possui rendimentos que lhes permitam viajar regularmente de avião para o estrangeiro em turismo, e que não são destinos turísticos muito procurados (note-se, por exemplo, que o primeiro caso em Timor Leste só surgiu a 20.03.20).

PIB per capita: O rendimento aumenta do tom mais claro para o mais escuro (dados de 2019)

Por outro lado, a covid-19 tem tido forte incidência na Europa, com Itália, Espanha, Alemanha, França, Suíça, Reino Unido, Holanda, Bélgica, Áustria, Noruega, Suécia, Dinamarca e Portugal a figurar no top 20 do número de casos (por esta ordem), países com uma classe média cujos rendimentos permitem viajar regularmente de avião ou que são destinos turísticos muito procurados – França, Espanha e Itália são, respectivamente, o 1.º, 2.º e 5.º países do mundo que mais turistas recebem (89.4, 82.8 e 62.1 milhões, dados de 2018).

Fúria de voar

As viagens de avião são, em circunstâncias normais, uma fonte de prazer e enriquecimento pessoal, mas com um vírus como o SARS-CoV-2 à solta, transformam-se numa arma de destruição maciça. Seria de esperar que os viajantes estivessem conscientes disto e cancelassem os seus voos e as suas reservas de hotéis ou que quem já estava no estrangeiro fizesse os possíveis por antecipar o regresso a casa.

Aviões estacionados em Berlim

Porém, a maioria dos viajantes, regulares ou esporádicos, parece aprender tanto com as suas deambulações pelo mundo como os patos nas suas migrações sazonais, e manteve as suas rotinas. A vida nos países desenvolvidos tornou-se tão cómoda, previsível, prática e segura e as memórias de tempos de calamidades, dificuldades e privações são tão remotas e baças que a percepção do risco ficou embotada e se gerou um sentimento de invulnerabilidade. Mesmo quando as contagens de infecções e mortes começaram a subir, não faltou quem mantivesse os planos de viagem e afluísse aos aeroportos, aos resorts e aos locais turísticos, com a mesma determinação obtusa que leva os lemmings, nas suas migrações em massa, a empreender a travessia de extensões aquáticas que excedem os seus dotes natatórios.

Na língua inglesa foi cunhada a expressão “air rage” (os espanhóis chamam-lhe “rabia aérea”) para designar o comportamento disruptivo, agressivo e irracional com que alguns passageiros reagem ao confinamento prolongado no interior de um avião e que, em cerca de metade dos casos, é potenciado pelo consumo de álcool. Porém, existe uma forma muito diferente de “air rage”, bem mais disseminada, potencialmente mais perigosa e menos estudada, que afecta muitos milhões de pacatos cidadãos das classes média e elevada e que se manifesta como um impulso irreprimível para viajar de avião quando o mais elementar bom senso ditaria que ficassem em casa.

Bando de estorninhos

Mas as responsabilidades não podem ser assacadas apenas às hordas obstinadas da idade do jacto; também as autoridades sanitárias e os governos se mostraram relutantes, numa primeira fase, em impedir de imediato todas as viagens de avião para fins recreativos e a submeter todos os viajantes, independentemente da sua proveniência, a testes e medidas de quarentena.

Apenas Taiwan tomou a decisão, logo a 31 de Dezembro de 2019, de impor controlo sanitário aos passageiros provenientes de Wuhan e de proceder, retrospectivamente, à monitorização de quem tivesse chegado de Wuhan nos dias anteriores. O governo de Taiwan também foi rápido a impor restrições nos contactos com a China continental e de adoptar medidas rigorosas a nível interno, que terão contribuído para que o país, que tem 23 milhões de habitantes, registe apenas 135 casos, menos do que San Marino, que, com 33.000 habitantes, registou 151 casos.

Pode perguntar-se o que estará por trás da lentidão na reacção dos países europeus ao alastramento da covid-19. O receio de, ao impor restrições nos contactos com a República Popular da China, melindrar um poderoso parceiro comercial? O risco de infligir prejuízos a companhias de aviação, agências de viagens, hotelaria, restauração e indústria aeronáutica? A ideia, completamente anacrónica, de que a China é um país “distante”? Ou a convicção íntima de que a Europa estaria relativamente imune a problemas típicos de países exóticos e subdesenvolvidos?

Shanghai, c.1900

Preconceitos (mais ou menos) subterrâneos

A epidemia de covid-19 começou por ser apresentada nalguns media e por alguns governantes como um problema “chinês”. Uma das personalidades que aderiu a esta prática foi Donald Trump e o seu emprego recorrente do termo “Chinese virus” não foi visto com bons olhos na China nem por quem dá importância à forma como nos expressamos. Face às críticas, Trump persistiu no uso do termo e defendeu-se de quem o acusava de racismo argumentando que aquele apenas denotava que o vírus tinha tido na China a sua origem, mas pode perguntar-se se o presidente americano se agarraria tão firmemente ao “vírus chinês” se não estivesse em curso uma guerra comercial entre os EUA e a China.

A maioria dos governantes, políticos, figuras públicas e media pelo mundo fora designa o vírus e a doença com as siglas cunhadas pela Organização Mundial de Saúde – SARS-CoV-2 e covid-19, respectivamente – ou emprega o termo “coronavírus”, sendo a designação “vírus chinês” restrita a jornais tablóides e a políticos que aspiram a estar nas boas graças de Trump, como o presidente brasileiro Jair Bolsonaro e a sua entourage.

Mesmo quem não adere à designação “vírus chinês” não deixou nos primeiros momentos de ver a covid-19 como um problema essencialmente chinês. É certo que as autoridades chinesas têm culpas na expansão inicial da epidemia, ao terem tentado negar a sua existência e encobri-la (o que já tinha acontecido com a epidemia de SARS em 2003), o que deu ao vírus oportunidade para alastrar antes da tomada de medidas de contenção. Mas os primeiros casos de covid-19 surgiram em Wuhan no final de Dezembro e as autoridades ocidentais pouco ou nada fizeram durante quase dois meses, enquanto a doença se espalhava a velocidade fulgurante pela província de Hubei e saltava para países vizinhos, como a Coreia do Sul, Taiwan e Japão. Julgaram, porventura, os europeus que se trataria de uma idiossincrasia chinesa, em resultado de associarem o país a hábitos alimentares repugnantes, práticas de higiene duvidosas, ruas esconsas apinhadas de gente e sistemas de saúde rudimentares?

Ninguém em cargos de responsabilidade disse isto e talvez nem sequer o tenha formulado explicitamente na sua mente, mas é possível que os quase dois meses de inacção europeia possam ser parcialmente explicados pela sobranceria moral: as epidemias são coisas de países sub-desenvolvidos, não da ordeira, bem iluminada e asséptica Europa.

O triunfo da Morte, por mestre anónimo, c.1446, fresco no Palazzo Abbatellis, Palermo, Itália

As epidemias são tão século XIV…

O Irão, onde o vírus chegou em força antes da Europa, foi sistematicamente retratado nos media ocidentais como tendo gerido a crise da covid-19 de forma desastrosa, nomeadamente por as autoridades políticas e religiosas se terem recusado, numa primeira a fase, a admitir que a covid-19 era uma ameaça séria: quando instadas a limitar o acesso dos peregrinos a locais de culto na cidade santa de Qom, as autoridades religiosas responderam que “os santuários são locais de cura”, não fontes de doença; e o Ministro da Saúde, Iraj Harirchi, minimizou o risco e pôs de lado a possibilidade de recorrer à quarentena, por ser “uma prática da Idade da Pedra”. Pouco depois da conferência de imprensa de 24 de Fevereiro de 2020 em que Harirchi fez estas declarações, enquanto tossia e transpirava abundantemente, foi anunciado oficialmente que o ministro negacionista estava infectado com o SARS-CoV-2.

24 de Fevereiro de 2020: Conferência de imprensa sobre a epidemia de covid-19 no Irão, com o Ministro da Saúde, Iraj Harirchi (à esquerda), e o porta-voz do governo iraniano, Ali Rabiei

O alastramento da covid-19 no Irão foi interpretada na Europa como resultando da combinação de um sistema de saúde pouco sofisticado (e debilitado pelas sanções impostas pelo Ocidente), com a atitude negacionista do governo iraniano na primeira fase da epidemia e, quiçá, com o obscurantismo e escassa racionalidade que se associa ao mundo islâmico.

Porém, à data da finalização deste texto (22.03.20) o Irão foi ultrapassado pela Itália, Espanha, EUA e Alemanha no número de casos de covid-19 e a Europa Ocidental tem o infortúnio de ter 13 países no top 20. Esta incidência preferencial na Europa torna-se ainda mais notória quando se considera o rácio entre o número de casos (ou de mortes) e a população total.

Desinfecção contra o SARS-CoV-2 na cidade de Piroozi, Irão

No Irão o número de casos é de 20.610 numa população de 83 milhões, ou seja 0.25 casos por mil habitantes (dados de 22.03.20, tal como os que se seguem abaixo), enquanto na Europa das Luzes e da Civilização e que teve mais tempo para se preparar do que o Irão, há oito países com taxas de infecção iguais ou superiores:

Itália: 53.578 casos em 60 milhões, 0.89 por mil habitantes

Luxemburgo: 670 casos em 0.6 milhões, 0.81 por mil habitantes

Suíça: 6.575 casos em 8.6 milhões, 0.76 por mil habitantes

Espanha: 25.496 casos em 47 milhões, 0.54 por mil habitantes

Noruega: 2169 casos em 5.3 milhões, 0.41 por mil habitantes

Áustria: 3062 casos em 8.9 milhões, 0.34 por mil habitantes

Alemanha: 22.364 casos em 83 milhões, 0.27 por mil habitantes

Bélgica: 2815 casos em 11.5 milhões, 0.25 por mil habitantes

Dinamarca: 1420 casos em 5.8 milhões, 0.24 por mil habitantes

França: 14.459 casos em 67 milhões, 0.22 por mil habitantes

Holanda: 3640 casos em 17.4 milhões, 0.21 por mil habitantes

Suécia: 1770 casos em 10.3 milhões, 0.17 por mil habitantes

Portugal: 1280 casos em 10.3 milhões, 0.12 por mil habitantes

É digno de nota que Portugal tenha actualmente um número de infectados similar ao do Japão (1280 em Portugal, 1054 no Japão), apesar de:

1) O Japão ter uma população 12 vezes maior do que a de Portugal;

2) A epidemia no Japão já ter começado a estabilizar, enquanto em Portugal ainda está na fase de crescimento exponencial;

3) Portugal ter tido mais um mês e meio para se preparar: o primeiro caso no Japão foi registado a 16 de Janeiro, enquanto a doença foi confirmada em Portugal pela primeira vez a 2 de Março.

Note-se que estas comparações dizem respeito ao número de casos, que reflecte apenas a disseminação da doença, e não ao número de mortos, que é influenciado pela estrutura da pirâmide etária de cada país e pela maior ou menor qualidade e universalidade dos serviços de saúde. Porém, o segundo factor também pode distorcer as comparações do número de infectados entre países, pois nos países com serviços nacionais de saúde mais eficazes e universais, haverá uma proporção maior de identificação de casos.

Uma epidemia “progressiva”

A relação entre covid-19 e rendimentos não tem apenas uma vertente geográfica: tem havido um número apreciável de figuras públicas infectadas – governantes, actores, músicos, banqueiros, jogadores e treinadores de futebol – o que levou a que houvesse comentadores que apontassem o carácter “democrático” da epidemia. Mas é possível que a epidemia de covid-19 não se limite a ser equitativa e tenha antes um carácter “progressivo”, isto é, penalizando os segmentos superiores da sociedade. A razão para isto é óbvia: são eles os mais cosmopolitas, os que alternam entre as suas casas de Belgravia e Beverly Hills; os que dão um salto a Milão para fazer compras e a Los Angeles para uma festa de aniversário de uma amiga; os que costumam fazer ski em Cortina d’Ampezzo e kitesurf nas Seychelles; os que apertam as mãos a ministros de 20 países diferentes em cimeiras e fóruns; os que convivem no plateau de filmagens com actores e técnicos vindos de uma dúzia de países; os que em quinze dias dão concertos em dez países diferentes.

Cartaz turístico, c.1920

A lista de famosos infectados inclui o actor americano Tom Hanks e a esposa, Rita Wilson; a actriz franco-ucraniana Olga Kurylenko; o actor britânico Idris Elba; o actor norueguês Kristofer Hivju (A Guerra dos Tronos); a actriz britânica Indira Varma (A Guerra dos Tronos);a actriz espanhola Itziar Ituño (La Casa de Papel); o actor americano Daniel Dae Kim (Lost); o apresentador de talk shows Andy Cohen; o escritor chileno Luís Sepulveda; a cantora Charlotte Lawrence; o músico de jazz Manu Dibango; o rapper Mwana FA; o presidente do Santander Totta António Vieira Monteiro; o CEO do grupo editorial Universal Lucian Grainge; o CEO da ADP, empresa gestora dos aeroportos de Paris, Augustin de Romanet; o basquetebolista francês Rudy Gobert (Utah Jazz); os basquetebolistas americanos Donovan Mitchell (Utah Jazz), Marcus Smart (Boston Celtics), Christian Wood (Detroit Pistons) e Kevin Durant (Brooklyn Nets); o treinador de basquetebol americano Sean Pyton (New Orleans Saints); o treinador de futebol basco Mikel Arteta (Arsenal); o director técnico do AC Milan Paolo Maldini, o futebolista britânico Callum Hudson-Odoi (Chelsea); o futebolista francês Blaise Matuidi (Juventus); o futebolista italiano Daniele Rugani (Juventus); o ciclista colombiano Fernando Gaviria; o vice-presidente iraniano Masoumeh Ebtekar; o ministro francês da Cultura Franck Riester; a secretária de Estado francesa da Transição Ecológica Brune Poirson; as ministras espanholas Irene Montero (Igualdade) e Carolina Darias (Administração Pública); Begoña Gómez, esposa do primeiro-ministro espanhol; Santiago Abascal, líder do partido populista espanhol Vox; o negociador-chefe da UE no processo de Brexit, Michel Barnier; Sophie Trudeau, esposa do primeiro-ministro canadiano; o ministro australiano da Administração Interna Peter Dutton; os presidentes de câmara de Miami, Francis Suarez, e de Nice, Christian Estrosi. A velha aristocracia não foi poupada pelo novo vírus e a lista de infectados inclui Karl von Habsburg, arquiduque da Áustria, e Alberto II do Mónaco, notícia que nada tem de surpreendente, já que o estatuto do principado como paraíso do jet set apátrida faz dela um foco privilegiado de contaminação.

Cartaz turístico, c.1920

É certo que os casos entre as figuras públicas poderão beneficiar de visibilidade acrescida, por concitarem mais interesse do que os anónimos e por terem acesso mais imediato a testes ao vírus (se necessário pagos do próprio bolso), mas também têm muito mais milhas de voo e muito mais interacções cosmopolitas do que o comum dos mortais e estes são factores de risco cruciais na epidemia de covid-19.

Claro que, mesmo que estejam mais expostas, as figuras públicas possuem também meios para desfrutar de melhores cuidados médicos e podem recorrer aos seus jactos privados e às suas influências para se evadirem das cidades e regiões sob quarentena, infringindo as regras sanitárias, como fez o futebolista argentino Gonzalo Higuaín, da Juventus (ver Em quarentena e com dois colegas infectados, Higuaín escapou-se de Itália num jacto privado). É uma situação que evoca os tempos em que, quando as epidemias se abatiam sobre as insalubres cidades da Europa, as classes possidentes buscavam refúgio nas suas herdades no campo, enquanto à populaça não restava alternativa senão entregar-se à lotaria da doença.

A peste de 1720 em Marselha, por Michel Serre, 1721

Um surto de conspirações

Quando surge um surto epidémico, sejam quais forem os factos e o desfecho, os adeptos das teorias conspirativas ganham sempre.

Se, como aconteceu com os surtos de SARS, em 2002-04, ou da gripe A em 2009, a Organização Mundial de Saúde alerta para o risco de uma pandemia devastadora e a opinião pública fica inquieta mas a epidemia acaba por desvanecer-se, causando apenas algumas centenas de mortos, tratou-se, obviamente, de um esquema para vender vacinas congeminado pelas multinacionais farmacêuticas com a conivência da OMS.

Se, como no caso da covid-19, os alertas da OMS se revelam justificados e o surto atinge proporções de pandemia, é claro que o vírus resultou de manipulação genética nos laboratórios secretos de uma superpotência que aspira a dominar o planeta. E, uma vez que as duas superpotências que neste momento lutam pela supremacia global e têm estado envolvidas em acesa guerra comercial são a China e os EUA, é natural que muitos americanos creiam que o SARS-CoV-2 foi fabricado num laboratório chinês e que muitos chineses creiam que é o produto de um laboratório americano – uma visão partilhada por gente tão sensata e credível quanto o presidente venezuelano Nicolás Maduro e os líderes religiosos iranianos. Em resumo: argumentar com um conspiracionista é como tentar derrubar um sempre-em-pé.

Há quem creia que o SARS-CoV-2 é obra de um Dr. Fu Manchu do nosso tempo: Na foto, Christopher Lee no papel de Dr. Fu Manchu, no filme A vingança de Fu Manchu (1967)

O presidente norte-americano viu na covid-19 uma conspiração destinada a prejudicar a sua reeleição em 2021 – uma reacção nada inesperada num sociopata narcisista que interpreta tudo o que acontece no universo em função do seu admirável umbigo – e, a 10 de Março, num discurso em Miami, Jair Bolsonaro, que tem feito tudo para estar nas boas graças de Trump, defendia que a pandemia de covid-19 tinha uma forte componente de fantasia.

Por outro lado, os anti-americanistas impenitentes vêm na hipótese, que tem sido defendida por numerosos epidemiologistas e veiculada pelos media, de que o SARS-CoV-2 teve origem num mercado de animais selvagens em Wuhan, uma campanha de desinformação lançada pelos EUA com o intuito de desacreditar o seu rival chinês – uma sugestão expectável vinda de quem vê todo o mal do mundo como fruto das maquinações dos malditos ianques.

Numa era em que cada vez mais pessoas obtêm informação exclusivamente das redes (ditas) sociais, pouco há a fazer para travar a onda de atoardas gerada por milhões de iluminados ociosos. Uns afadigam-se em seguir o rasto no SARS-CoV-2 até aos seus ódios de estimação, outros, mais prosaicos, atribuem culpas a quem está a lucrar com a pandemia e, se é certo que os fabricantes de papel higiénico estão a fazer um extraordinário volume de negócios (mas com margem de lucro necessariamente baixa), o gel desinfectante está a ser comercializado a preços que rivalizam com os Grand Crus louvados na Wine Enthusiast e as mais banais (e ineficazes) máscaras cirúrgicas atingem cotações dignas de acessórios da Versace e da Gucci.

Para além dos tolos comuns, que são muitos mas de imaginação limitada e previsível, há o usual número de lunáticos de haute voltige, que têm apresentado teorias tão descabeladas quanto a cura pela cocaína – snifar cocaína produziria um efeito esterilizador que impediria a entrada do vírus por via nasal – ou a conexão da covid-19 ao 5G, esta com pelo menos duas variantes: uma pretende que o vírus é um mutante gerado pelos campos electromagnéticos das redes 5G, outra que a pandemia de covid-19 é uma manobra de encobrimento criada pelos fabricantes de telemóveis que atribui a um vírus imaginário uma doença que na realidade é causada pelos ditos campos electromagnéticos 5G.

Tudo isto é lamentável e, nalguns casos, risível, mas pode tornar-se perigoso se milhões de pessoas adoptarem práticas insensatas que conferem uma ilusão de segurança e descurarem regras de segurança, quer por escolha pessoal quer porque um governante iluminado assim determinou.

Napoleão Bonaparte visitando os pestíferos de Jafa em 1799, por Antoine-Jean Gros, 1804

“Está tudo completamente sob controlo”

A pandemia de covid-19 é um teste a todos nós mas, sobretudo, aos políticos que elegemos para nos governar.

Donald Trump começou pela negação, afirmando que o SARS-CoV-2 não produzia efeitos mais graves do que a gripe comum, adicionou umas doses de fanfarronice, sugerindo que o vírus não teria hipóteses contra os formidáveis recursos e a tecnologia dos EUA e que estava “tudo completamente sob controlo” e recorreu à vitimização, denunciando a pandemia uma criação dos media que teria como único propósito manchar a sua presidência e impedir a sua reeleição. Quando se tornou demasiado evidente que a situação era séria, enveredou pelo alijamento de responsabilidades, imputando a culpa da ineficácia do sistema de testes ao SARS-CoV-2 ao Centro para a Prevenção e Controlo de Doenças e a “alterações” (não especificadas) introduzidas por Barack Obama. Só a 16 de Março admitiu que o surto da covid-19 nos EUA estava fora de controlo, mas, dois dias depois, voltava ao modo de gabarolice, afirmando que “Estamos em guerra contra um inimigo invisível, mas esse inimigo não é capaz de medir-se com o espírito e determinação do povo americano”. Se a situação piorar muito, poderá sempre barricar-se no seu resort de luxo de Mar-a-Lago, na Florida, de onde poderá continuar a “tweetar” incongruências, atoardas, bazófias e acusações.

[As sucessivas declarações de Donald Trump sobre a pandemia de covid-19, entre 22 de Janeiro e 19 de Março de 2020:]

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro, cujo narcisismo só perde para o de Trump, asseverou que, tendo sobrevivido a uma facada, “não é uma gripezinha que vai me derrubar, não”, como se a covid-19 fosse uma quezília entre ele e o vírus e não uma pandemia e, em particular, uma ameaça aos 210 milhões de brasileiros que é suposto ele governar. Bolsonaro começou por alinhar na toada negacionista de Trump e mesmo o rápido alastramento da epidemia não o impediu de continuar a rotular de excessivas e “lunáticas” as medidas de contenção sugeridas ou postas em prática por autoridades sanitárias e pelos governos estaduais e outras entidades. Incitou os seus simpatizantes a juntarem-se numa manifestação de apoio à sua excelsa pessoa e rotulou de louca a ideia de encerrar centros comerciais e locais de culto religioso, poucas horas antes de o seu Ministro da Saúde admitir que previa o colapso do sistema de saúde brasileiro no final de Abril.

O primeiro ministro do Reino Unido, fiel à sua visão de que o seu país é excepcional (tal como ele próprio) e que deste-lado-do-Canal-fazemos-as-coisas-de-modo-diferente, recusou tomar as medidas de contenção adoptadas no resto do mundo e apostou na “imunidade de grupo”. Assim, foram levantadas poucas barreiras à circulação de pessoas, não foi recomendado o “distanciamento social” e não se apostou no teste sistemático dos casos suspeitos, no pressuposto de que, quando 60% da população estivesse infectada, se geraria imunidade contra o vírus. O que, numa primeira e benevolente apreciação poderia ser interpretado como uma manifestação da proverbial fleuma britânica, acabou por revelar-se um erro de julgamento e Boris Johnson viu-se obrigado a arrepiar caminho e a adoptar as medidas que a Europa continental tomara dias ou semanas antes. Johnson não faz parte do mesmo “campeonato” de Trump e, menos ainda de Bolsonaro, mas também não deu, até agora, mostras de ser a reencarnação de Winston Churchill que imagina ser: tem, em forma atenuada, alguma da verve, petulância, excentricidade e obstinação do seu role model, mas, tudo leva a crer, pouca da sua fibra, tenacidade e clareza de visão.

Estas três personalidades, volúveis, frívolas, inconsequentes e auto-centradas seriam sempre pouco recomendáveis para estar ao leme de um grande navio, mesmo em tempos de bonança; com uma tempestade como a que está em curso, podem contribuir para empurrar o navio para as rochas.