Melo e Cristas em campanha: “Isto quase parece o Titanic”. Mas só “pelo lado romântico”

20 Maio 20191.198

Juntos num barco de pescadores, "isto parece o Titanic". "Mas só pelo lado romântico", não pela tragédia. Melo e Cristas atiram-se ao PSD: não veem "utilidade" no voto em quem "dá o braço" a Costa.

“Isto quase parece o Titanic”. Nuno Melo recorda-se de uma das cenas mais icónicas do cinema norte-americano quando, a bordo de uma embarcação no Sado, os fotógrafos lhe pedem, a ele e a Assunção Cristas, para se deslocarem para a proa da embarcação, para não ficarem em contra luz.

A comparação é dada a muitas interpretações e quase todas pelo final infeliz. É a deixa perfeita para perguntar se isso é o mesmo do que dizer que o CDS, com Cristas e Melo à cabeça, está a afundar. “Não, não, parece o Titanic mas só pelo lado romântico, não pela parte em que afunda“, apressa-se a dizer Nuno Melo. Ou seja, na versão centrista do Titanic, a parelha improvisada de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet aparece como “os salvadores” daquele navio. Quanto a Cristas (ou Kate), também não tem dúvidas de que o barco que conduz não afunda: “Vamos de vento em popa, cada dia que passa temos mais gente a aderir e a dar-nos força, para provarmos que não somos a alternância, mas somos a alternativa”.

A segunda-feira da última semana de campanha é dia de debate televisivo entre os candidatos, por isso a manhã é calma e dada à reflexão. A bordo da embarcação (que é turística, no caso, não tem redes de pesca), Nuno Melo e Assunção Cristas aproveitam o passeio de duas horas para falar da importância do mar como “desígnio estratégico” e, mais uma vez, para alertar para a fraca execução dos fundos comunitário do Mar 2020: o dinheiro de Bruxelas destinado ao mar foi apenas aproveitado em 25%, numa altura em que faltam apenas nove meses para terminar o quadro comunitário de apoio. “É com tristeza que olhamos para a execução do Mar 2020, aliás, mais do que tristeza, é por incompetência e por incapacidade do Governo”, sublinhou a líder do CDS que foi ela própria ministra do Mar no governo anterior.

“No dia europeu do mar, se há país que deve assinalar a data é Portugal, que tem a obrigação de ser a voz mais ativa na Europa em relação ao aproveitamento das potencialidades do mar”, disse Cristas, com Nuno Melo a acrescentar que falar de mar também é falar de “emprego”. “Ser português e não falar de mar não faz sentido”.

Com o sol a bater na dose certa, e a brisa (às vezes intensa) a fazer o seu papel para o calor não ser demasiado, o candidato aproveitou para descansar da correria dos mercados e feiras. “Também sabe bem”. Está nervoso para o debate de logo à noite? Nuno Melo diz que “não, nada nervoso”. “Gosto muito mais de debates do que de discursos, não tem comparação”, diz aos jornalistas, lembrando que é advogado e que, portanto, a veia pulsa por um bom momento de argumentação com direito a contraditório.

LUSA

Votos fúteis vs. votos úteis. CDS atira-se ao PSD: “Qual é a utilidade de votar no PSD, que faz acordos com o PS?”

E se, na véspera, António Costa tinha apelado ao voto útil (no PS), e Paulo Rangel tinha dito que qualquer voto que não fosse no PSD seria um “voto fútil”, Assunção Cristas e Nuno Melo responderam na mesma moeda, atirando-se ao PSD. É que o voto no CDS é o único voto que não vai permitir viabilizar nenhum acordo com o PS de António Costa. “Dentro do espaço de centro-direita, de quem faz oposição a António Costa, a utilidade vai toda para o voto no CDS”, disse Nuno Melo, sublinhando que não há utilidade em votar em partidos que, “dizendo-se da oposição, dão o braço ao PS de António Costa”.

É uma guerra sobre a utilidade dos votos onde, ainda assim, Nuno Melo diz não querer entrar — “em democracia todos os votos são úteis, não há votos fúteis”. Mas já entrando… “Qual é a utilidade de votar em quem faz acordos com o PS de António Costa?”, começou por atirar Nuno Melo ainda no barco, em resposta direta a Paulo Rangel. Lembrou que foi o PSD de Rui Rio que se sentou à mesa com António Costa no dia a seguir a tomar posse, e que já admitiu que em circunstâncias excecionais poder viabilizar um governo socialista. “Portugal precisa da garantia de que o voto é para ser oposição e não para ser muleta do PS”, disse ainda.

O CDS agarra-se a isso para dizer que, postas as coisas desta forma, só um voto no CDS é um verdadeiro voto de chumbo ao Governo. E só um voto no CDS permite que não aconteça um bloco central no futuro. “É preciso dar o voto a quem sabe que o caminho não é o socialismo, mas também não é o caminho do bloco central”, complementaria Assunção Cristas. O ataque do dia é centrado no PSD, e não no PS, como de costume. Nuno Melo até recorda que o governo do PS é apoiado “pelo PCP e BE”, mas também tem “o apoio do PSD, às vezes”. Por isso, o raciocínio é simples.

No fim, ainda a bordo da embarcação, e enquanto relaxavam ao sol, o mestre do barco ofereceu uma garrafa de moscatel de Setúbal. Um brinde? Porque não? Assunção Cristas encheu (pouco) os copos e Nuno Melo, que até já tinha bebido um, lá teve de beber outro. “Vá lá, é para brindarmos à vitória”.

“Minuto Europa”: uma medida para impulsionar a pesca artesanal

Num dia atípico na campanha (dia em que as cinco caravanas param em Lisboa para os candidatos se defrontarem no último debate televisivo), até o almoço foi atípico. Longe da rota da tradicional carne assada, a refeição desta vez foi feita entre pescadores, ao estilo acolhedor e familiar: de tacho em cima da mesa, Nuno Melo, Mota Soares e companhia deliciaram-se com uma massada de peixe, regada a picante e hortelã. A comitiva agradeceu o reforço de energia e aplaudiu o “mestre” (nome que se dá ao condutor do barco de pesca), que a partir dali passou a ser o “master chef”.

Foi também entre pescadores que Nuno Melo quis fazer o seu “minuto Europa” — aquele momento do dia em que apresenta a “medida do dia para a Europa”. O mote é esse: um tema por dia, uma medida para a Europa por dia. As medidas têm sido quase todas a ver com execução e alocação de fundos comunitários para determinadas aéreas, mas desta vez era mais específica, destinando-se a combater as dificuldades que os pescadores artesanais têm em competir com a pesca industrial, vendo-se muitas vezes impedidos de ir para o mar por causa das quotas.

Assim sendo, a medida do dia passa por, primeiro, pôr a comunidade científica a validar a sustentabilidade das espécies (porque “a Comissão Europeia não aceita nada que não seja válido cientificamente”) e, depois de validada, aumentar as quotas de pesca, atribuindo uma parcela específica só para a pesca artesanal.

Está feito o “minuto Europa”, agora é hora de recolher — de barriga cheia –, para o candidato se preparar para o debate da noite. Vai repetir o número e levar novamente uma fotografia de José Sócrates para o debate? Nuno Melo não quer estragar a surpresa mas diz que de Sócrates é pouco provável — “a lembrança de Sócrates já ficou suficientemente sedimentada”. Mas não descarta a hipótese de levar outra imagem. “Logo se vê, ainda não decidi”.

Oiça as melhores histórias destas eleições europeias no podcast do Observador Eurovisões, publicado de segunda a sexta-feira até ao dia do voto.

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