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20 de julho de 2015. Há dez anos, o antigo Presidente norte-americano, Barack Obama, restabelecia as relações diplomáticas entre os Estados Unidos da América (EUA) e Cuba, interrompidas desde a Revolução Cubana. Desde que tomou posse, o ex-chefe de Estado adotou uma abordagem distinta à dos seus antecessores em relação ao principal inimigo geopolítico nas Caraíbas. O confronto deu lugar a uma reaproximação. Mas os esforços diplomáticos da administração Obama caíram por terra em apenas dois anos. Donald Trump voltou a uma postura firme contra o regime em Havana. No seu regresso à Casa Branca em 2025, ao lado de Marco Rubio (o secretário de Estado anticomunista e filho de pais cubanos), a presidência está a aplicar sanções ainda mais pesadas a Cuba.
A ilha das Caraíbas atravessa atualmente uma conjuntura bastante adversa. Vive uma profunda crise financeira sem solução à vista e tenta manter a ordem pública com pulso firme. Num país alvo de um embargo dos Estados Unidos desde 1962, ano da crise dos mísseis, Cuba enfrentou sempre várias dificuldades. Porém, muitos cubanos estão cada vez mais desiludidos com o rumo da revolução. Há quatro anos, a 11 de julho de 2021, milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra as condições económicas. O regime tremeu, mas respondeu com força — e tem vindo a esmagar a oposição interna.
Até o próprio regime admitiu recentemente as dificuldades económicas. Num país em que mais de 40% dos reformados ganham mensalmente menos de cinco euros, a ministra do Trabalho de Cuba, Marta Elena Feitó, demitiu-se após ter dito que “não há mendigos” no país. “Quando se olha para as mãos e para as roupas dessas pessoas, vê-se que estão disfarçadas de mendigos. Não são mendigos”, garantiu a governante, acrescentando que foi uma “forma fácil” para muitos cubanos de “ganhar dinheiro sem trabalhar com as formalidades necessárias”. Nas redes sociais e até no seio do Partido Comunista estas declarações não caíram nada bem.
Num regime já sob pressão por causa da crise financeira, o Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, veio a público declarar que não partilhava “alguns critérios emitidos” pela ministra. “É contraproducente fazer este tipo de juízo. Não se defende a Revolução quando se escondem os problemas que temos”, afirmou. Ainda mais vocal foi o primeiro-ministro, Manuel Marrero Cruz, que concedeu que há “pessoas, famílias e comunidades em situação de vulnerabilidade”, que sempre “foram e serão uma prioridade da revolução”.
Marta Elena Feitó “reconheceu os seus erros e apresentou a sua demissão ao cargo”. Quando normalmente um governante cubano se demite, como nota o El País, a expressão utilizada é que fica “livre das suas responsabilidades”. Desta vez, não foi isso que aconteceu, o que demonstra que o regime está consciente das dificuldades económicas vividas em Cuba. No mesmo sentido, o governo de Havana respondeu à pressão da opinião pública, algo praticamente inédito na História do país.
Em declarações ao Observador, Paolo Spadoni, professor de Ciência Política na Universidade de Alberta, refere que Cuba vive “a mais grave crise económica das últimas três décadas”. Desde a dissolução da União Soviética e o final da Guerra Fria que Cuba não tinha enfrentado tantos problemas socioeconómicos. Nos próximos tempos, as dificuldades deverão manter-se. Não só pelo “imobilismo” e pela “resistência” do governo em fazer mudanças, como também pelo endurecimento das sanções contra o regime por parte dos Estados Unidos.
▲ Cuba vive pior crise económica desde meados dos anos 90
Ernesto Mastrascusa/EPA
EUA. A ofensiva sancionatória de Trump e Rubio contra Cuba
Em 1956, o Presidente pró-americano Fulgencio Batista ainda governava Cuba; ainda faltavam três anos para começar a Revolução. Foi naquela época que os pais de Marco Rubio decidiram emigrar para os EUA, estabelecendo-se em Miami e trabalhando no setor hoteleiro. O atual secretário de Estado norte-americano nasceu em 1971, mais de uma década depois da Revolução e de o seu avô ter fugido do regime de Fidel Castro. Mesmo que o líder da diplomacia norte-americana não tenha sentido na pele as consequências diretas da mudança de governo, cresceu num ambiente profundamente antirrevolucionário e anticomunista.
Quando era pequeno, em conversas com os pais, Rubio lembrou, na sua biografia, que tinha um sonho: derrubar o regime castrista e tornar-se o primeiro Presidente de uma “Cuba livre” do comunismo. Essa ambição dificilmente será totalmente concretizada em 2025. No entanto, o secretário de Estado norte-americano acredita que pode ajudar a terminar com o regime cubano. “Sou o filho de exilados. Herdei duas gerações de sonhos por realizar”, desabafou o secretário de Estado norte-americano.
No primeiro mandato na Casa Branca, quando aniquilou anos de diplomacia da administração Obama, Donald Trump já tinha sido bastante duro com Cuba. Voltou a adotar sanções, restringiu as viagens para o país e recolocou o país na lista de Estados terroristas. Em 2025, estando a ser aconselhado por um secretário de Estado abertamente contra o regime cubano, o Presidente norte-americano já aplicou medidas ainda mais restritivas contra a ilha das Caraíbas.
▲ Marco Rubio, o secretário de Estado filho de pais cubanos que sempre foi contra o regime castrista
AARON SCHWARTZ / POOL/EPA
Por exemplo, uma das primeiras medidas que Donald Trump tomou quando regressou à presidência foi colocar novamente Cuba na lista de Estados terroristas. O antigo Presidente, Joe Biden, que mantinha uma postura mais ambígua do que Barack Obama nas relações com Havana, retirou Cuba dias antes de sair da Casa Branca. Este primeiro gesto do atual chefe de Estado norte-americano foi um prenúncio de que Washington voltaria a pressionar o regime cubano.
E Trump aproveitou o dia 11 de julho para aplicar ainda mais pressão. No X, foi Marco Rubio quem deu a notícia: “Quatro anos depois da repressão brutal contra os manifestantes [na sequência dos protestos], o Departamento de Estado vai reduzir os vistos para os líderes do regime, como o Presidente [Miguel] Díaz-Canel, pelo seu papel na brutalidade do regime contra o povo cubano”. Adicionalmente, o secretário de Estado anunciou que ia “colocar na lista de restrições” norte-americana a Torre K — um empreendimento turístico de luxo de vários andares que abriu recentemente.
Em Havana, a Torre K converteu-se num símbolo da força e do modernismo do regime, ainda que tenha sido inaugurada no meio de uma profunda crise económica. “[Queremos] prevenir que os dólares norte-americanos financiem a repressão do regime cubano. Enquanto o povo cubano sofre com falta de comida, água, medicamentos e eletricidade, o regime esbanja dinheiro”, acusou Marco Rubio.
▲ A Torre K, o grande empreendimento turístico em que o regime apostou
AFP via Getty Images
Estas novas medidas não surpreenderam os especialistas ouvidos pelo Observador, que as interpretam como uma continuidade nas políticas do atual chefe de Estado norte-americano. “A administração Trump anunciou uma série de novas medidas, que restauram as opções políticas do primeiro mandato”, comenta ao Observador William LeoGrande, professor de Ciência Política e especialista na América Latina na American University.
“É a reiteração das medidas que foram colocadas em prática em novembro de 2017, quando o primeiro pacote de sanções de Trump foi aplicado”, corrobora Paolo Spadoni, acrescentando que, desde que chegou à Casa Branca, o Presidente norte-americano “apenas anunciou novas medidas” e não fez nada para mitigar as tensões entre Havana e Washington. Será, na mesma medida, um sinal para o regime cubano: “É uma forma de mostrar que haverá um reforço das restrições em vigor” no futuro.
A retórica “antiamericana” e a busca por aliados em Pequim e Moscovo. Como pode Cuba reagir às sanções?
As sanções que têm vindo a ser aplicadas pela administração Trump prometem complicar a vida ao regime e à população da ilha, em particular as que têm como objetivo impedir o envio de remessas dos EUA. Muitos cubanos conseguem usufruir de uma maior qualidade de vida graças ao dinheiro que recebem dos familiares que trabalham nos Estados Unidos.
▲ Presidente norte-americano, Donald Trump, tem aumentado as sanções contra Cuba desde o primeiro mandato
Al Drago / POOL/EPA
Com uma retórica antiamericana e com ecos da Guerra Fria, o regime cubano reagiu a estas sanções. No X, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Bruno Rodríguez Parrilla, escreveu que Washington é “capaz de impor sanções contra os líderes da Revolução e travar uma guerra económica prolongada e implacável contra Cuba”, mas nunca terá a capacidade “para vergar a vontade do povo ou a dos seus líderes”.
Em declarações ao Observador, Daniel Pedreira, professor de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Internacional da Florida, antevê que o regime vai, nos próximos tempos, “redobrar a sua retórica antiamericana e vai usar as medidas da administração Trump como uma desculpa para aumentar a repressão contra o povo cubano”.
Por sua vez, Paolo Spadoni assinala que, a partir desses pressupostos, os líderes cubanos vão “culpar as sanções e o embargo pela maioria dos problemas económicos, apontando que os Estados Unidos não são amigos”. “Vão continuar a retratar as políticas norte-americanas dessa maneira, como uma política insensível cujo objetivo passa por acabar com o atual governo.”
▲ Embaixada norte-americana em Havana, Cuba
ERNESTO MASTRASCUSA/EPA
“O governo cubano critica estas medidas por serem uma escalada da pressão dos Estados Unidos direcionadas a prejudicar a economia e derrubar o regime”, interpreta William LeoGrande. Se em termos de propaganda para consumo interno será essa versão a que vai ser utilizada, os políticos cubanos sabem que precisam de encontrar outros apoios para fazer face aos problemas económicos que o país sofre, assimilando que as relações com os EUA manter-se-ão tensas durante a administração Trump. A solução? Procurar o apoio de outros países.
No entender de William LeoGrande, há “muito pouco que os cubanos possam fazer” para contornar as sanções, além de “procurar ajuda” em outros países, como o Brasil, a China, o Irão, o México ou a Rússia. Com governos à esquerda, os executivos brasileiro e mexicano não confrontam diretamente Cuba e tentam manter relações cordiais. Já os outros três países são rivais geopolíticos dos Estados Unidos — e procuram manter os aliados em Havana para desestabilizar os norte-americanos.
Mas vai a estratégia de contornar as sanções pedindo ajuda a aliados regionais e internacionais resultar? Paolo Spadoni tem dúvidas. O especialista reconhece que o investimento — em particular o da China e o da Rússia — “certamente ajuda”. “Mas nenhum país sozinho conseguirá dar um grande impulso à economia cubana. Nem sequer os apoios estão perto do nível de laços económicos que havia durante a Guerra Fria, quando a União Soviética subsidiava Cuba”, expõe o especialista.
“Nem a Rússia nem a China estão disponíveis para providenciar essa ajuda económica que Cuba precisa. Ajudam até a um certo ponto — alguns acordos são assinados e, eventualmente, são concretizados. Mas muitos também ficam no papel”, prossegue Paolo Spadoni. Neste momento, aliás, Pequim está a superar Moscovo no investimento que faz em Cuba e tem um projeto em mãos: um mega-parque solar na ilha. Ainda que o Kremlin se multiplique em promessas (que nem sempre cumpre), são os dirigentes chineses quem mais investe, muitas vezes em troca de puderem usar as infraestruturas cubanas para recolher informações confidenciais sobre os Estados Unidos.
Apagões, falta de comida e mendigos nas ruas. A “tempestade perfeita” em Cuba
As sanções e o embargo dos Estados Unidos efetivamente têm contribuído para a situação precária em que vivem muitos cubanos. Mas o imobilismo político e a falta de reformas por parte do regime também são fatores que prejudicam a vida dos habitantes da ilha. “Cuba tem uma economia excessivamente centralizada, altamente ineficiente e que precisa de reformas sistémicas”, caracteriza Paolo Spadoni, que diz não haver vontade política para mudar o status quo.
William LeoGrande descreve que tem havido “falta de bens essenciais e apagões frequentes”, o que leva a um aumento da mendicidade e dos sem-abrigo. Ao mesmo tempo, o especialista nota que tem havido uma “crescente desigualdade económica” em Cuba. Dito doutro modo, a elite próxima do poder e do partido vive cada vez melhor em contraste com a restante população cubana. “O regime sobrevive através de um núcleo duro coeso que ainda é dominado pela família Castro e pelos seus aliados mais próximos. O núcleo duro tem vários interesses económicos em jogo, quer dentro de Cuba, quer no estrangeiro”, indica Daniel Pedreira.
▲ Supermercados em Cuba
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Fora da elite, a população cubana atravessa inúmeras dificuldades. Um estudo do Observatório Cubano dos Direitos Humanos, publicado em 2024, mostra que 89% dos cubanos vivem em situação de pobreza extrema. Mais: sete em cada dez cubanos abdicaram de refeições — pequeno-almoço, almoço ou jantar — por falta de dinheiro ou por escassez de alimentos. Muitos sem capacidades físicas para trabalhar, são os idosos quem mais têm sofrido.
“Num cenário de escassez generalizada, falta de comida e apagões”, a solução de muitos cubanos passa “por sair do país”, constata Paolo Spadoni, acrescentando que “muitas pessoas têm saído do país. Há uma fuga de cérebros”. Devido à proximidade geográfica e com grandes comunidades de cubanos no país, os Estados Unidos, em concreto o estado da Florida, são a localização elegida por muitos. No entanto, a presidência norte-americana tem fortemente limitado o número de imigrantes cubanos que recebe no país — e, na sequência de políticas anti-imigração da administração Trump, muitos que estão em situação irregular têm sido repatriados.
A par dos EUA, muitos vêm para a Europa. Os que escolhem esta rota vão de Havana para Moscovo; apanham depois outro voo para Belgrado e vão de carro desde a capital da Sérvia até Atenas, onde entram no Espaço Schengen. Por causa da língua e da política migratória mais flexível, o destino final de muitos cubanos é Espanha. Para além disso, nos últimos tempos, muitos cubanos também têm emigrado para o Uruguai e o Brasil.
▲ Apagões tornam-se cada vez mais comuns em Cuba
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O desalento tomou conta de muitos setores da população cubana, especialmente desde 2020. Como explica ao Observador Paolo Spadoni, a pandemia de Covid-19 marcou um antes e um depois na ilha das Caraíbas. Num país fortemente dependente do turismo, o impacto foi muito significativo. “Cuba sofreu uma tempestade perfeita em termos de externalidades negativas. Uma foi a Covid, outra foi a intensificação das sanções sob a administração Trump e a última teve a ver com a crise económica da Venezuela, por causa dos laços económicos que Cuba tinha estabelecido com o país” da América do Sul, analisa o professor universitário.
“Se a isto se junta a ineficiência do sistema económico e a falta de vontade em resolver os problemas… Não é difícil imaginar por que é que a economia está tão mal. Esta atual crise económica é talvez, se não a pior, uma das piores“, prossegue Paolo Spadoni. Pior: não há quaisquer perspetivas de melhoria a médio prazo, a não ser que o regime decida mudar as suas prioridades.
Já nem o regime se preocupa em maquilhar as contas públicas, reconhecendo a situação difícil que o país vive. Na passada segunda-feira, o ministro da Economia e Planificação, Joaquín Alonso, anunciou no Parlamento que a economia cubana caiu 1,1% em 2024; em seis anos, contraiu 10%.O governante admitiu que os próximos tempos serão difíceis pelo “impacto intensificado do embargo, pela perseguição feroz dos fluxos financeiros e pelas barreiras nas transações internacionais que dificultaram os pagamentos aos fornecedores”.
▲ Governo de Miguel Díaz-Canel admite que país vive dificuldades económicas e que a situação não vai melhorar a curto prazo
MANUEL DE ALMEIDA/EPA
“Se Cuba não está disposta a fazer reformas no sistema económico para o tornar mais eficaz e próspero, será muito difícil que seja capaz de recuperar da atual crise económica”, preconiza Paolo Spadoni, acrescentando: “Não estou a dizer sequer para fazerem a transição para um sistema capitalista, mas certamente o regime devia, pelo menos, corrigir alguns dos defeitos do sistema, que já ficou provado que cria enormes impedimentos ao crescimento económico e ao desenvolvimento do país nos últimos 30 anos”.
O que mantém o regime em pé? Falta de oposição e o pulso firme das Forças Armadas
Os cubanos ou fogem do país, ou vivem com muitas dificuldades. O regime parece que não vai mudar a médio prazo, mantendo a mesma estratégia, desde que o núcleo duro que partilha o poder continue a usufruir de uma boa qualidade de vida. Tendo em conta a falta de esperança e a situação atual, impõe-se uma pergunta: como é que o governo cubano se mantém de pé?
Para Paolo Spadoni, existe um sistema que está “no poder há mais de 60 anos”. Neste sentido, existem instituições que ganharam robustez suficiente para se preservarem. “É muito difícil acabar com esse tipo de sistema. Não porque as pessoas não querem acabar com ele, mas porque está consolidado”, frisa o professor universitário.
▲ Regime cubano está "consolidado" e desenvolveu instituições que resistem aos tempos
AFP via Getty Images
Por seu turno, William LeoGrande aponta que “não há qualquer oposição organizada que seja capaz de enfrentar o governo”. Por exemplo, os dois principais opositores ao regime, José Daniel Ferrer e Félix Navarro, estão detidos. Aliás, o secretário de Estado norte-americano exigiu mesmo a Havana que mostre uma “prova de vida” de José Daniel Ferrer. No X, o principal movimento de oposição cubano acabou por fazê-lo.
Em julho de 2021, numa altura em que as condições de vida já se estavam a deteriorar, milhares de pessoas saíram às ruas — muitos espontaneamente — para protestar contra o regime. Muitos analistas consideram que aquelas manifestações foram as maiores de sempre desde a revolução. O governo cubano respondeu com pulso firme e deixou bem claro que não ia tolerar quaisquer protestos.
Esta semana, a Organização Não Governamental (ONG) Human Rights Watch publicou um relatório sobre a atuação das forças de segurança cubanas durante as manifestações de 2021. “Há quatro anos, o governo cubano levou a cabo uma estratégia repressiva contra milhares de cubanos que saíram pacificamente às ruas para exigir direitos e liberdades. Hoje, centenas ainda permanecem atrás das grades em condições deploráveis”, enfatiza Juanita Goebertus, diretora da Divisão das Américas na ONG.
Obtendo vários testemunhos de pessoas que estiveram detidas e que entretanto foram libertadas, a Human Rights Watch pinta um panorama desolador. “Várias pessoas sofreram abusos físicos por parte dos guardas prisionais. Os entrevistados descreveram condições de sobrelotação nas celas e um acesso limitado a alimentos e água potável. A comida muitas vezes tinha vermes. As pessoas que estiveram detidas descreveram também que o surgimento de doenças, como sarna, tuberculose, dengue e Covid-19”, relata a ONG.
Com mediação do Vaticano e depois da administração Biden ter mostrado alguma abertura com o regime (mesmo que estivesse no final de mandato), em janeiro de 2025, Cuba decidiu libertar mais de 500 pessoas que tinham sido detidas no rescaldo das manifestações de 11 de julho. Porém, continuam a ser constantemente vigiadas pelo regime. E algumas, como José Daniel Ferrer, voltaram a ser detidas.
O regime quis mandar uma mensagem com a resposta musculada em 2021: não vai permitir tumultos ou que alguém o desafie. “A segurança estatal tem sido muito eficaz em silenciar os dissidentes e em instigar os ativistas da oposição a abandonar a ilha”, salienta William LeoGrande. Sem uma figura de proa, “mesmo quando há protestos espontâneos, não há uma oposição minimamente organizada que consiga converter esse descontentamento numa alternativa política viável”, prossegue o especialista.
▲ José Daniel Ferrer, um dos principais opositores ao regime cubano
ALEJANDRO ERNESTO/EPA
No fundo, William LeoGrande considera que o que mantém o regime vivo é o facto de as “forças de segurança se manterem leais” a Miguel Díaz-Canel. Para além disso, continua a não haver “quaisquer clivagens políticas óbvias” dentro da liderança cubana “sobre a natureza do sistema político”. Num país em que os mais poderosos continuam a usufruir de uma boa qualidade de vida, a elite sente que não tem de introduzir mudanças — e não há ninguém com capital político suficiente para lhe fazer frente.
Derrubar o regime em Havana, o sonho de criança de Marco Rubio, não será fácil. Aliás, William LeoGrande é da opinião que as sanções norte-americanas “reforçam inadvertidamente” a coesão entre a elite cubana, que pode vender a ideia de que é alvo de uma “perseguição feroz” de Washington. Mesmo que a população de Cuba até já não adira tanto a essa tese e tenha demonstrado a sua revolta contra o governo — seja nas ruas, seja apelando à demissão de uma ministra nas redes sociais —, o regime parece ainda estar bastante consolidado, conseguindo silenciar os opositores.