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Mon Laferte: é dela a voz do desamor caribenho /premium

Vencedora de um Grammy, lançou "Norma" em 2018 e estreou-se este ano no festival de Coachella. Conversámos com a estrela latina que faz dueto com António Zambujo em “Madera de Deriva”.

O cabelo despenteado, as tatuagens, a maquilhagem carregada e os vestidos vermelhos fazem parte da imagem de Mon Laferte que junta rock e ritmos latinos com naturalidade – e boa dose de dramatismo. A voz potente unifica o conjunto que em abril encantou um dos maiores festivais de música do mundo, o americano Coachella, na Califórnia.

Nascida no Chile, filha de um pintor e de uma poeta, sempre soube que seria cantora. Há 12 anos a viver na Cidade do México, a chilena tornou-se uma sensação: conta 8 nomeações para os Grammy latinos – 5 delas só no ano de 2017 em que levou para casa a estatueta para a melhor canção alternativa, “Amárrame”, tema em que canta com o colombiano Juanes. Norma Monserrat Bustamante Laferte, mais conhecida por Mon Laferte, passou por Portugal e conversou com o Observador. A artista visitou Lisboa para gravar o videoclipe de “Madera de Deriva”, o tema em que faz dueto com António Zambujo – canção que faz parte de Do Avesso, último álbum de originais do cantor português.

Do quarto de hotel com vista para o coração da cidade, Mon falou-nos das inspirações: da avó e da guitarra, do cinema de Lars Von Trier ou até dos ex-namorados que, volta e meia, se veem retratados nas canções.

[“Madera de Deriva”, a canção que Mon Laferte canta com António Zambujo:]

Como surgiu a oportunidade de cantar com o António Zambujo?
Pelos vistos o António ouviu-me, gostou da minha voz e convidou-me a cantar com ele. Eu não o conhecia: pus-me a ouvir a música dele e apaixonei-me pela sua arte… tem uma voz muito honesta, real, transparente. E então aceitei imediatamente. Há uns tempos encontrámo-nos em Madrid e cantámos pela primeira vez juntos a canção.

Já conhecia a música portuguesa?
Já conhecia algo de fado apesar de não ser uma especialista. Do que conheço, parece-me lindíssimo.

Como se apresentaria aos portugueses, em poucas palavras?
Não sei [risos]. Sou compositora, escrevo as minhas canções. Conto histórias reais, tudo o que escrevo é a minha vida, sou muito honesta. Mas se forem a um dos meus concertos vão encontrar algo muito teatral também, porque gosto de interpretar. Tenho muitos tipos de ritmo. Posso ser uma cantora de guitarra, mas também atuo com uma big band e posso tocar uma cumbia.

Está a lançar o seu sexto álbum, Norma. De que forma é diferente dos anteriores?
É um álbum muito dançável, com uma música tropical, caribenha. Também é um disco conceptual em que me dei a oportunidade de experimentar. O álbum aborda a relação de um casal desde que se conhecem até que terminam, ficam amigos. Falo das suas experiências que são comuns a todas as relações amorosas. Gravei o disco de uma vez, numa hora.

A capa de “Norma”, o disco de Mon Laferte

Numa hora apenas?
É uma loucura, eu sei. Éramos 13 pessoas dentro do estúdio, com todos os músicos de percussão e gravámos numa hora. Mas esse era o meu plano, que fosse como se fazia antigamente e que não tivesse nada acrescentado. Tocámos e assim ficou. Nunca tinha feito nada do género.

Queria fazer algo cru, puro?
Queria um som diferente. Hoje a música está muito editada e passa por muitos processos. E eu gosto da música antiga, de como soa. Queria fazer um álbum como se fazia antes, em que não soa perfeito, mas humano: a voz não está perfeitamente afinada, ouvem-se os movimentos, os instrumentos. Queria isto, que soasse a um disco antigo.

Na sua música encontram-se os ritmos mais tradicionais. É algo intencional, de colocar a sua identidade cultural?
Acho que nem sequer dou conta disso. É a música de que gosto. E como gosto, permito-me divagar. Se calhar sem querer, às tantas, faço um registo cultural da América Latina porque neste álbum tenho cumbia, bachata, salsa, mambo que são de diferentes países. Deixo uma marca cultural para as gerações atuais, que já não ouvem tanto esse tipo de música – estão mais para o reggaeton.

É uma carta de amor à América Latina?
Ai que lindo! É isso mesmo, totalmente.

Há também algum humor negro nas suas músicas – é mais óbvio em “Funeral” em que canta, tragicamente, a história de uma separação entre o pequeno-almoço e a lavagem da loiça.
Acho piada que digas isso porque há muita gente que acredita que a música é muito densa e forte e eu, na verdade, acho que tem muito humor. Quase quis fazer uma partida com esta música. Acho que não se deve levar a vida demasiado sério. Às vezes esqueço-me disso, mas acho que é fundamental viver como se fosses uma criança.

"No Chile diz-se que há um tipo de música que é para te fazer chorar, chama-se 'música cebola'. Sempre foi mal vista de uma perspetiva social, sempre se associa com as pessoas dos bairros, pobres, sem educação. Há algo classista e muito feio nessa visão. Eu sempre gostei da música cebola, parece-me muito necessária."

Por falar em humor, na capa deste último álbum segura uma faca e uma cebola. Há uma história por trás desta imagem?
No Chile diz-se que há um tipo de música que é para te fazer chorar, chama-se “música cebola”. Sempre foi mal vista de uma perspetiva social, sempre se associa com as pessoas dos bairros, pobres, sem educação. Há algo classista e muito feio nessa visão. Eu sempre gostei da música cebola, parece-me muito necessária, essa música que ouvem as mães enquanto cozinham. Com um lado humorístico quis reforçar esta ideia que venho de uma classe trabalhadora.

Diz que este é o seu álbum mais cinematográfico. De que forma estão o cinema e a música ligados, para si?
Muito. Este álbum é muito cinematográfico também porque literalmente fizemos um filme. Vai sair, ainda, mas não tenho as datas. No álbum, cada canção, cada videoclip, conta uma etapa da relação do casal. O mesmo se passa no filme em que contraceno com o Diego Luna, que é um ator incrível mexicano [e que recentemente foi um dos protagonistas da série “Narcos”]. Conhecemo-nos, tornamo-nos namorados e passam uma série de coisas até… chegar ao “Funeral” (risos).

[“Funeral”:]

Inspirou-se em algum filme ou realizador em particular?
Sou fã de muitos realizadores. Sinto que a minha arte tem muito a ver com Almodóvar, mas também gosto de Lars Von Trier, em especial do musical dele com a Björk [“Dancer in the Dark”]. Mas também sou fã de Tarantino, Wes Anderson…

A sua música tem muita intensidade: amor e desamor. Sente que o desamor é necessário para criar algo forte?
Acho que é necessário viver. E viver e inclui tudo. Tens de ouvir, de observar, de envolver-te. E tens de te permitir tudo. Sinto que hoje em dia a mensagem é que tens de ser feliz e as pessoas ficam stressadas com essa pressão. Acho que é necessário viveres tudo: também as tristezas, os finais de relações… mas não tens necessariamente de passar o tempo todo a sofrer para criar.

Se vive um momento triste, escreve nesse instante?
Passo por todas as etapas. Por exemplo, escrevi “Funeral” quando estava a terminar uma relação. E lembro-me do dia concreto em que estava a tomar o pequeno-almoço e só me apeteceu rir ver-me naquela situação de estar esgotada e o meu companheiro também. A canção começou naquele momento, mas só a terminei depois, quando estava mais tranquila. Há momentos em que não me sinto bem e não quero fazer nada, e há outras vezes em que essa tristeza é o catalisador para escrever. Também escrevo quando estou muito feliz ou quando não consigo dormir…

E o que pensam os ex-namorados de ficarem gravados nas canções?
Pobres. Houve um que passado uns anos me veio dizer “linda piada aquela” [risos]. Foi a minha vingança porque não terminou bem, ele tinha-se portado mal.

Tem sempre papel e caneta por perto?
Antes andava sempre com papel, caneta e um gravador. Agora já não, é tudo no telemóvel.

"Quando entrei na escola já sabia ler e escrever. A minha professora deixava-me cantar o tempo todo, fazer teatro, quase que não estudava, ficava no atelier de guitarra. Mas quando cresci e me tornei adolescente já não estava na mesma escola e já não era mesma menina especial, acabaram-se os privilégios."

Cresceu com a sua mãe, avó e irmã, num ambiente muito feminino. Isso influenciou-a como artista?
Sim, totalmente. A minha avó também era cantora e compositora de música tradicional do Chile. E a minha mãe nunca se dedicou formalmente, mas é poeta, escreve muito bem e também pinta. A minha irmã também é super artista, canta, pinta, compõe. Cresci rodeada de arte.

E o seu pai também é pintor. Sempre soube que seguiria o mundo da arte?
Sim, sempre o soube. Sempre cantei e saía-me bem a voz, afinada, e divertia-me muito a fazê-lo. E sempre gostei de dançar e atuar. Queria ser cantora também pela minha avó, que contava as histórias de quando era mais jovem. Ficou-me esta ideia romântica da mulher solitária que canta e viaja. Imaginava-me a conhecer o mundo. E é o que faço agora.

Deixou cedo a escola. Não lhe interessava?
Bom, quando entrei na escola já sabia ler e escrever. A minha professora deixava-me cantar o tempo todo, fazer teatro, quase que não estudava, ficava no atelier de guitarra. Mas quando cresci e me tornei adolescente já não estava na mesma escola e já não era mesma menina especial, acabaram-se os privilégios. Aborrecia-me muito estar nas aulas. Nunca ninguém me disse, na altura, mas acho que tinha défice de atenção porque não me conseguia concentrar nos números… as aulas de matemática eram uma tortura para mim. Sentia que não podia continuar a estudar.

Deixou os estudos para se dedicar à música?
Sim. Aos 13 anos deram-me um trabalho para cantar. Cantava para uma campanha política de uma deputada. O Chile está muito marcado politicamente e eu, de repente, já estava ligada a esse universo, a cantar para uma candidata de esquerda, mulher. Era muito aventureira. Andei a tocar pelas cidades. Era um trabalho diário e então não estudava, não fazia os deveres. Disse à minha mãe que não queria estudar mais. Claro que ela na altura se chateou comigo, mas depois entendeu. Também na altura estudar era muito caro e não tínhamos essas possibilidades, era bom que eu fosse trabalhar.

“Quando estava em palco a tocar é que pensei ‘como assim estou no Coachella?'”

Lançou o seu primeiro disco em 2003, tinha só 20 anos. Como foi essa experiência?
Era muito jovem e tinha estado num programa de TV. Então esse disco não gostei nada dele, apenas lia as letras das canções, porque era um disco muito de televisão. Eu não tinha nenhuma expectativa só queria cumprir com o meu trabalho. As composições não eram minhas. Encarei como experiência, de estar num estúdio e tal. Nem o considero um álbum próprio, mas parte de uma aprendizagem.

A sua verdadeira estreia só aconteceu com “Desechable”, em 2011?
Sim, considero esse o primeiro álbum. Foi a primeira vez que juntei dinheiro com os meus amigos para entrar num estúdio e escrevi todas as músicas, estive na parte de produção. Estava muito nervosa, foi tudo muito emocionante.

De que forma mudou enquanto artista desde os tempos da televisão?
Sou menos preconceituosa e menos dura comigo. Porque antes fazia um disco que não gostava e ficava o tempo todo a pensar “está horrível.” Agora encaro tudo como um processo. Mas também mudam os gostos musicais: são muito diferentes os meus cinco discos. Um é mais pop, outro mais rockero, outro mais eletrónico, já este último é muito caribenho.

Nos últimos tempos tem tido várias novidades: gravou uma música com Gwen Stefani, foi ao Coachellla. Como sente a entrada no gigante mercado norte-americano?
Não sei. Ainda nem consegui assimilar bem. Quando estava em palco a tocar é que pensei “como assim estou no Coachella?”, é muito estranho. É lindo que o idioma já não seja impedimento no mundo e que possas ir a qualquer sítio comunicar com as pessoas, mesmo que não entendam nada do que dizes.

[“Amárrame”, a canção que gravou com Juanes:]

Dos concertos à vida pessoal: partilha um pouco de tudo no Instagram. Como é a relação com os fãs?
Ainda ontem partilhei o quão feliz estava por estar em Portugal e alguém comentou algo como: “Nunca viajei nem saí da minha cidade e contigo sinto que conheço o mundo. Pus-me a ver o mapa para ver onde estava Portugal e está super longe.” É muito emocionante, sinto que posso ligar as pessoas. Afinal os telemóveis são como a nova televisão, não é?

Também pinta e partilha a sua arte – até tem uma conta exclusiva onde mostra os seus acrílicos.
Pinto muito. Acho que nos últimos anos até pinto mais do que escrevo canções. Acho que é o que gosto mais de fazer na vida. Mas não é um trabalho, não quero vender os meus quadros. Faço só porque gosto.

Então não mudaria as coisas: tornar a música o hobbie e a pintura a profissão?
Agora que pões as coisas nesses termos, também seria bonito que a música se tornasse o meu hobbie. Seria lindo vender as minhas pinturas e fazer música só para mim.

Que planos tem para o futuro?
Continuo a fazer música nova, mas agora estou em tour, vou andar pela Europa este mês, Madrid, Barcelona, Berlim, vou viajar muito. E depois em agosto vou estar nos Estados Unidos, em setembro estarei na América Latina. Para já, os planos são só de concertos. E depois não sei o que farei: posso continuar ou posso pôr-me a pintar. Logo se verá.

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