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Artur Paredes, que "viveu dedicado à guitarra para si próprio", nasceu em 1899 e morreu em 1980

Artur Paredes, que "viveu dedicado à guitarra para si próprio", nasceu em 1899 e morreu em 1980

"Nada chega aos calcanhares daquilo que Artur Paredes fez há 100 anos com a guitarra portuguesa" /premium

Antes do filho, Carlos Paredes, houve Artur, músico que não quis deixar legado, apenas tocar e ser excecional a fazê-lo. Falámos com Ivan Dias, o realizador do documentário que se estreia na RTP1.

Há quem faça pactos com o diabo. Ou, neste caso, com o divino. Prestemos atenção às palavras do realizador Ivan Dias sobre Artur Paredes (1899-1980), para muitos “o pai de Carlos Paredes”, mas bem mais do que isso. O mesmo que, ali entre o fim da primeira República e o Estado Novo, revolucionou a guitarra portuguesa a partir de Coimbra. E tudo começou aos 20 anos. “Há um momento absolutamente primordial onde se percebe o génio: em 1920, mal aparece na universidade, mal é absorvido pelos estudantes, surge já com uma linguagem musical, técnica, com coisas para dizer. Não é um génio em criação. Esse e é o mistério: de onde vem aquilo tudo?”, pergunta Ivan Dias, em conversa com o Observador.

Essa dúvida, daquelas que surgem quando tentamos entender “mitos fugidios” como o que rodeia esta figura, é a linha que orienta a narrativa de “Artur Entre Paredes”, o novo documentário da RTP1, com a produção da Zerkalo, EGEAC e Museu do Fado, que se estreia esta segunda-feira, dia 15, pelas 23h00. Além de alguns vinis e discos de 78 rotações, há poucos registos da obra deste homem “austero”, mas profundamente envolvido na busca do “excecional”. Ivan Dias procurou quem privou com Artur Paredes — e com a história da sua família — para construir um documentário feito de memórias. O espectador, que poderá conhecer bem a carreira do filho, vai encontrar a percurso de alguém profundamente comprometido com a sua arte. Compromisso esse que foi também uma autêntica revolução.

Nesta conversa, ficamos não só a conhecer o que levou Ivan Dias a tirar da gaveta um projeto com muitos anos — desde que foi estudar para Coimbra e ouviu histórias sobre Artur Paredes contadas pelo professor Jorge Gomes — mas também quem era, afinal, este génio. E o porquê de a sua obra não ter ainda chegado a mais gente. Não que lhe interessasse chegar, deixar legado. Artur Paredes queria apenas “desfrutar da sua genialidade”.

A esperança, diz-nos Ivan Dias — o mesmo realizador que produziu “Fados”, de Carlos Saura, e que realizou “Carlos do Carmo: Um Homem no Mundo” –, é a de que o filme abra a curiosidade, não só do público, mas também do meio musical: “Há coisas que têm de estar mesmo escondidas até aparecerem. Espero que o filme faça surgir uma catadupa de eventos subsequentes que façam com que a obra de Artur Paredes chegue às pessoas”.

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[veja o trailer de “Artur Entre Paredes”:]

Comecemos pela relação pai e filho. O nome Carlos Paredes é muito conhecido, mas há pouca informação sobre o pai, Artur. Porque é que não lhe demos mais atenção?
Tem muito a ver com o tempo em que cada um viveu. O tempo do Artur Paredes era um tempo que exigia algum conservadorismo, era um tempo em que eventualmente a publicidade à volta de quem tocava guitarra não era a mesma. O Carlos Paredes (1925-2004) viveu noutro tempo: um tempo em que a liberdade estava a chegar e a sociedade portuguesa também sentia isso; e um tempo em que a guitarra dele fazia mais a diferença em termos sociais e políticos. Por outro lado, o Artur Paredes, creio eu, viveu dedicado à guitarra para si próprio. Dedicou o seu tempo à guitarra, para dentro.

Procurou mostrar isso neste filme?
No filme fica explícito isso mesmo: que ele tocava as coisas para o seu próprio agrado. Quase todos os intervenientes referem isso. Enquanto o Carlos tocava as coisas para fora, para fazer a diferença, para contar uma história para fora. Se o Artur não saía de casa e não queria publicitar a obra, esta não tinha como chegar às pessoas. Ainda por cima num tempo sem meios de comunicação social, muito menos como os de agora. O Carlos usou a sua cantiga, a sua guitarra, como uma arma. É aí que reside toda a diferença. Obviamente que vivendo num tempo onde era tão difícil fixar os registos, fixar a imagem, sobrou-nos pouco para avaliar o Artur Paredes, enquanto o Carlos chegou-nos mais e toca-nos mais. Cada um deles era um homem do seu tempo e o seu tempo era muito diferente, é essa a grande diferença.

No filme percebemos que há um “mito fugidio” à volta de Artur Paredes. Porque é que ele era um génio?
Podemos classificá-lo como génio por não o podermos definir. Os génios são indefiníveis. E os génios são “mitos fugidios” precisamente por terem mistério e uma aura à volta. Não sabemos que toque divino é que lhes aconteceu para eles se elevarem. É muito difícil imaginar como é que alguém que nasce em Coimbra, num meio popular, mesmo que o seu pai e o seu tio tocassem guitarra, como é que dentro daquela cabeça lhe surgiram aquelas composições. Por muito que as pessoas digam que ele se baseava na cultura popular, nas canções populares do baixo Mondego. Todos os outros guitarristas e músicos do seu tempo também usaram as mesmas prerrogativas e não chegaram lá.

"É impossível ouvirmos o Artur Paredes sem deixarmos de cantar e assobiar as melodias. Porque, por muito complexas que elas sejam -- e são -- as notas são muitas, mas fazem todas sentido. Não são muitas notas em quantidade, são muitas notas numa excelsa qualidade."

Mas como é que se pode desconstruir esse génio? Porque é que se criou esse mito à volta dele?
Há algo realmente de genial, de insondável, de intocável na genialidade de Artur Paredes, e parte da beleza reside no facto de não o conseguirmos definir. O que conseguimos definir é a excelência, o trabalho, a dedicação, a entrega, isso sim. É o que em chinês se designa de “kung fu”. As pessoas acham que “kung fu” é uma arte marcial, mas em chinês significa apenas “tempo dedicado a determinada coisa”. Quem faz bem o dito “kung fu” fá-lo porque dedicou muito tempo a essa determinada coisa e a faz bem. Neste caso, diria que o Artur Paredes era um verdadeiro mestre do “kung fu”, porque dedicou todo o seu tempo de toda a sua vida, não para exibir a sua arte, mas para a elevar de acordo com os seus próprios parâmetros. Daí ele tocar em casa, em reuniões de amigos, até aos últimos dias de vida. Por isso não consigo identificar a razão do génio, mas consigo identificar o génio porque ele é palpável e visível. Porquê? Porque nos toca. É só ouvir. É impossível ouvirmos o Artur Paredes sem deixarmos de cantar e assobiar as melodias. Porque, por muito complexas que elas sejam — e são — as notas são muitas, mas fazem todas sentido. Não são muitas notas em quantidade, são muitas notas numa excelsa qualidade. Todos estes mistérios fazem parte do retrato que tentámos fazer aqui.

Como é que define a personalidade deste homem? Pelo que se percebe no filme, não era um homem muito alegre, mas depois tinha uma grande alegria no que fazia… como é que se define a figura?
Mais uma vez volto a dizer que era um homem do tempo dele. Que homens eram estes que vindos das classes populares trabalhavam duro para obter o seu salário, a sua sobrevivência, num tempo em que, não podemos esquecer, vivia-se o caos do fim da primeira República e o início do Estado Novo em que todas as liberdades foram sendo subtraídas. Ele é um homem que tem de jogar com isto tudo: tem de pôr o pão na mesa, à parte do seu desejo maior de tocar guitarra e de evoluir na guitarra. Daí também surge a relação que fazemos com outro momento do filme, que o liga ao filho, que passa por ele não estar num tempo que lhe permita ser tão expansivo politicamente como o filho.

Ele também era quase obsessivo no apreço que tinha sobre o que fazia…
Creio que o Artur Paredes não foi mais expansivo politicamente por feitio, em primeiro lugar, mas também porque o tempo não o permitia. Enquanto o Carlos Paredes já viveu um tempo em que alguns rasgos de liberdade existiam. Daí o pai ser uma pessoa fechada, entregue a si própria, desconfiada, porque ao longo da vida foram-lhe fazendo algumas diabruras — e não gostava que tocassem coisas dele, não gostava que o imitassem, não gostava que se fizessem passar por ele ao copiarem-lhe as coisas que compunha de forma tão apaixonada, por muito que isso fosse praticamente impossível. Recordo-me de uma observação que alguém fez, e que nem está no filme, que todos os que querem tocar Artur Paredes parece que estão a escrever à máquina. Não conseguem dar o embalo, o balanço que o Artur Paredes dava às suas coisas, porque aquilo era um organismo vivo. Quando ele compunha algo e tocava, sentia-se um carrossel de emoções: avança, pára, acelera. Quando as pessoas tentam interpretar o Artur Paredes, fazem-no como se estivessem a escrever à máquina. O homem é esse: virado para dentro, não para fora.

"Em 1920, mal aparece na universidade, mal é absorvido pelos estudantes universitários, aparece imediatamente com esse dito génio."

antónio martinó

Pensa que também tem alguma coisa a ver com o facto de ter outra profissão (bancário), isso provavelmente também não lhe permitia ser muito expansivo…
Acho que até nisso a relação com o filho reflete, não só o feitio dele, mas o tempo em que viveu: era um homem austero. A austeridade era necessária em certa medida, não havia outra forma. E essa austeridade, aliada à entrega que ele tinha à guitarra, sabendo por outro lado que tinha de ganhar o seu salário e pôr pão na mesa, fazia dessas pessoas, não só do Artur Paredes, pessoas muito peculiares. Imagino que houvesse melhores vidas nesses anos, anos 40/50, mas não devia haver muitas pessoas que pudessem ter muito melhores vidas. Por algum motivo o Estado Novo teve de cair, porque a vida das pessoas não era agradável em termos económicos e sociais, não só políticos.

Sobre a relação que Artur paredes tinha com o filho e com o resto da família, era uma relação muito fechada?
A relação com o filho e com a mulher era reflexo desse tempo. Hoje em dia vivemos um tempo de expansão, de entrega, de sensações e sentimentos, e aquele tempo não era esse. Imagino que ele tivesse uma relação muito conservadora com a esposa, mas de muita dedicação porque era assim que tinha de ser. Depois, o Artur Paredes tenta dar ao filho determinada educação, tanto musical como humana, porque ele tinha todo esse caudal político, ideais e valores dentro dele que foi passando ao filho — e que depois o filho resolveu explanar, aderindo ao PCP.

O filho tornou-se politizado na vez do pai.
Obviamente, porque o tempo o exigia. Nos anos 60, quem não fosse do Partido Comunista, como artista, não estaria bem na sua pele, porque era uma forma de liberdade e de luta pela liberdade de quem acreditava nessa liberdade. Também havia muita gente que se punha à sombra da bananeira e que não se dedicava a lutar por isso. Mas o Carlos Paredes sentia que tinha uma arma, que era a sua guitarra e a sua excelência, e pô-la ao serviço dessa luta. O Artur Paredes não entendia as coisas dessa maneira, também porque já tinha visto muita coisa: tinha nascido na monarquia, tinha vivido a primeira República, e levou com o Estado Novo em cima. Tornou-se uma pessoa muito desconfiada e muito sábia nesse sentido, e isso faz com que as relações que tinha com quem estava à volta dele — com a mulher e o filho –, fossem resultado dessa carga que carregou durante a vida toda.

"Não conseguimos entender como é que aos 20 anos ele já tinha tudo aquilo dentro dele. Esse é que é o mistério: de onde vem aquilo tudo? A genialidade também é essa: não precisou de chegar à idade adulta para se tornar a referência no género."

Em relação ao valor artístico, é possível identificar um momento da vida dele em que se percebe o valor que está ali em causa?
Há um momento absolutamente primordial onde se percebe o génio: em 1920, mal aparece na universidade, mal é absorvido pelos estudantes universitários, aparece imediatamente com esse dito génio. Ou seja, ele não é um génio em criação. Há pessoas que, de repente, parece que fazem um pacto com uma entidade superior, numa noite de lua cheia, e a vida delas muda a partir daí — costuma-se dizer muito isto em relação a Bob Dylan, que era um músico razoável que andava por Nova Iorque e há uma altura em que desaparece do mapa durante uns meses e quando volta, regressa com canções geniais e com um jeito que o caracterizou a partir daí.

Parece que dizem que aquele momento de fuga foi o pacto com o divino, e o Artur Paredes, pelo contrário, imediatamente aos 20 anos de idade, aparece já com uma linguagem musical, uma linguagem técnica, com coisas para dizer, e isso foi visto logo como genial. Ou seja, não conseguimos entender como é que aos 20 anos ele já tinha tudo aquilo dentro dele. Esse é que é o mistério: de onde vem aquilo tudo? Eles não eram uma família que pudesse ter acesso a milhares de discos porque na altura havia poucos. Imagino que tivesse os seus, e se tivesse inspirado em alguma música lá fora, mas ele já tinha essa carga toda e aparece aos 20 anos como uma figura incontornável e como a grande referência da guitarra. A genialidade também é essa: não precisou de chegar à idade adulta para se tornar a referência no género.

E que influência teve Artur Paredes no meio? A partir de que momento é que o trabalho dele começa a ser, de facto, influente?
A guitarra de Coimbra, ao fim de 100 anos, é a guitarra do Artur Paredes. O fado de Coimbra, ao fim de 100 anos, é o do Edmundo Bettencourt. Ou seja, nós vivemos uma revolução tal naquele tempo que, ainda hoje, tudo o que são acompanhamentos, introduções, fraseados, são os mesmos. Apesar de haver gente a fazer novos, nada chega aos calcanhares daquilo que Artur Paredes fez há 100 anos. E isso é que é absolutamente incrível. E quando digo 100 anos são mesmo 100 anos, porque se o Artur Paredes nasceu há 120 anos foi exatamente há 100 anos que ele apareceu na academia de Coimbra com esta pujança, e isso é absolutamente único e um mistério. E os mistérios não devem ser respondidos, porque não têm resposta.

Vemos o Artur Paredes com 20, 30 anos. Não é possível perceber, em momento algum, o que é que ele pensava sobre o legado que ia deixar, ou conseguiu perceber isso?
Não, porque ele não queria saber do seu legado. Isto é, não queria saber o que é que os outros pensavam sobre o seu legado. Ele apenas queria fazer coisas excecionais para ele próprio. Pode-se pensar que ele devia ser egoísta ou egocêntrico, mas é totalmente o inverso. Uma pessoa egoísta e egocêntrica se calhar tem tendência a expor-se, e ele não. Ele fazia aquilo porque queria desfrutar daquilo que fazia. Queria desfrutar da genialidade. Mas não olhava para o legado, não estava preocupada sobre o que iam dizer dele. Acho — agora num exercício de “achismo” — que ele estava perfeitamente convencido de que era o melhor guitarrista, de longe, mas isso não fazia dele uma pessoa arrogante. Ele já sabia disso, não precisava que ninguém lho dissesse. Ele queria era fazer essa evolução para dentro, para si. Mesmo no filme não conseguimos decifrar tudo, apenas deixamos estas ideias para que as pessoas possam interpretar isto que estou aqui a interpretar, pondo-me no lugar do espectador.

"É quase uma palavra de poder usar o nome dele para quem o conheceu. Impõe respeito e admiração."

Coimbra tem aqui um papel fundamental. Noutra cidade não seria possível construir este mito?
É óbvio. É óbvio porque num lugar pequeno há sempre maior capacidade de gerar mitos e mistérios, enquanto num espaço grande, onde a pessoa é vista por toda a gente, é mais complicado. Por outro lado, toda a base da sua cultura é uma cultura popular do Baixo Mondego, é uma cultura popular coimbrã, é uma cultura universitária de Coimbra, que é muito particular. A universidade de Coimbra vai para os seus 800 anos, durante 600 ou 700 foi a única universidade em Portugal, e isto é muito peculiar. Acaba por gerar um caldeirão de coisas que fez surgir esta personagem. Estas canções melodiosas em que ele se inspirou são altamente cantáveis, que entram no coração e no ouvido, e acho que só poderiam ter surgido ali.

A nostalgia e a recuperação de um outro tempo tem muuito valor, mesmo comercial. Acredita que o legado de Artur Paredes possa ser vendável hoje? Ou, por outras palavras, porque é que ainda não foi possível explorar tanto esse legado?
Há dois motivos. O primeiro é que Coimbra, como o Levi Batista dizia, nos anos 30, continua a ser um meio muito fechado. Coimbra continua a ser um lugar onde todos se põem em bicos de pés, mas ninguém tem sustentação. Ou seja, um lugar que fala de boca cheia, mas depois chega a poucos lugares, e nesses bicos de pés em que às vezes a canção de Coimbra se põe não consegue pôr o seu maior génio à frente e levá-lo mais longe. Isso é um problema de Coimbra. O outro lado é que eu acho que há coisas que têm de estar mesmo escondidas até aparecerem. E acho, e espero, que este filme faça surgir uma catadupa de eventos subsequentes que façam com que a obra do Artur Paredes chegue às pessoas. E chegue às pessoas não só aquilo que ele tocou.

Diz que o génio se revelou automaticamente aos 20 anos. Que tipo de pessoa era esta antes de chegar à genialidade que tinha?
Esse é o mistério. Esses são aqueles meses em que o Bob Dylan esteve longe de Nova Iorque, isso é o que não conseguimos destrinçar. Porque nada faria crer que naquele meio onde ele nasceu, com as condições que ele tinha, por muito que o pai e o tio fossem bons, nada levaria a crer que alguém vindo deste meio pudesse produzir esta revolução. Porque isto é uma revolução. É uma revolução musical, sonora, técnica, de estilo, por isso é muito difícil responder a isso. Até aos 20 anos, diria que o Artur Paredes não se terá dedicado muito a jogar à bola, nem aos jogos que as outras crianças jogavam. Imagino que ele se deve ter agarrado à guitarra desde muito cedo, porque senão seria muito difícil atingir aquele nível de excelência.

"Nos documentários, por vezes, caímos no erro de documentar demasiado. De mostrar e despir tudo. Aqui, ao contrário, a narrativa foi construir através de memórias. E quase que apenas os depoimentos de quem conviveu com ele seriam suficientes para cada espectador criar a sua imagem do Artur Paredes."

Vamos ao processo de construção deste documentário. Sendo uma personagem desconhecida do público e tendo um filho, Carlos Paredes, muito mais mediático, como foi construir esta história? Realizar o desconhecido, no fundo.
É uma viagem muito para trás. Comecei a aprender a tocar guitarra portuguesa em Braga. Depois fui para Coimbra estudar e é aí que me apercebo, através do professor Jorge Gomes, porque metia a tónica no ensino da obra do Artur Paredes, que existia alguém antes do Carlos Paredes. Foi ao descobrir esse universo extraordinário, ao perceber esse génio todo de matéria e técnica que deixou para o filho, que depois construiu a sua linguagem, que veio este projeto, que é quase anterior ao meu trabalho como realizador e produtor. Era algo que me acompanhava. Desde 1992, quando fui estudar bioquímica, foi um mistério que quis sempre resolver.

Mas não havia grande registo da sua carreira, certo?
Não havia fotografias, nada filmado. Havia discos em 78 rotações e alguns, mais tarde, nos anos 50, em vinil. Mas, segundo se dizia, era muito pouco para aquilo que se sabia que o Artur tinha feito. Entretanto, desde há 20 anos que estou nas artes da produção e da realização, sabia que era muito difícil contar uma história de alguém ausente, sobre a qual não há registo, pouca memória ou nenhuma. Há apenas um conceito mítico.

É quase uma palavra de poder usar o nome dele para quem o conheceu. Impõe respeito e admiração. Mas, de facto, é muito difícil construir este puzzle. Já fiz algumas biografias, nomeadamente do Joel Pina, por quem tenho um carinho eterno e profundo e que nos deixou esta semana. Também fiz da Argentina Santos ou do Carlos do Carmo. Acabei sempre por conhecer bem as personagens, de me envolver e de ser amigo. De perceber que estas pessoas, por terem estado num momento mediático, tinham muitas fotografias, vídeos e gravações. Havia um cem número de ferramentas para construir uma história. Com o Artur Paredes, não. Há menos de duas mãos cheias de fotografias, por exemplo. Além dos tais discos, não há gravações. Havia a ideia de que tinha deixado uma secreta, mas não existe como tal. Descobriram-se coleções do Alexandre Brandão da Emissora Nacional com algumas variações que fazia em direto.

Foi, então, um trabalho arqueológico.
É. Por outro lado, quando comecei a perceber que tinha de fazer este projeto que trago na gaveta há muitos anos, entendi que a ausência de material podia ser benéfica para construirmos uma imagem. Nos documentários, por vezes, caímos no erro de documentar demasiado. De mostrar e despir tudo. Aqui, ao contrário, a narrativa foi construir através de memórias. E quase que apenas os depoimentos de quem conviveu com ele seriam suficientes para cada espectador criar a sua imagem do Artur Paredes. O seu perfil histórico, artístico e psicológico. É isto que poderá acontecer: em vez de termos uma personagem una, vamos ter um Artur Paredes para cada espectador.

"As poucas imagens que temos mostram um Artur Paredes com 20 anos, depois com 30 e depois com 50 anos. Meia dúzia de momentos de uma pessoa que nem parece a mesma."

Picasa

Portanto a ausência pode ser uma vantagem até para o público. Mas e durante o processo de realização, mudou muito em comparação com outros documentários seus?
Mudou radicalmente. Tal como disse, conhecia as outras pessoas. Aqui vem de uma admiração profunda que tenho pela sua obra e pelo professor Jorge Gomes, a quem dedico o filme. Foi a única pessoa que preencheu um vazio e, se não fosse ele, ter-se-ia perdido. Seria de lesa-pátria fazê-lo. Por isso, mudei toda a minha forma de construir um documentário porque também tinha a ver com palpitações, vontades e admirações, que não aconteceram nos outros. Aqui é construir quase do nada. As poucas imagens que temos mostram um Artur Paredes com 20 anos, depois com 30 e depois com 50 anos. Meia dúzia de momentos de uma pessoa que nem parece a mesma. Imaginemos nós, nesta imersão em que vivemos de selfies, só tirarmos uma fotografia a cada 20 anos. Não nos reconheceríamos.

Seria estranho, de facto. Para encontrarem estas pessoas foi preciso fazer que tipo de pesquisa? Muito trabalho de campo?
Foi-me relativamente fácil por ter ido estudar para Coimbra. Fiz parte da secção de fado da Associação Académica de Coimbra. Passei a conhecer o meio: o Paulo Soares, o guitarrista, que me apresentou ao Octávio Sérgio. Quando vim para Lisboa fiz alguns documentários sobre a guitarra portuguesa e conheci o Gilberto Grácio. Aliás, o Paulo já me tinha levado ao Gilberto em 1993 quando comprou a sua primeira guitarra. São coisas muito antigas, onde há raízes. Não foi um filme que estudei. Na minha cabeça já existia. Agora como é que o alinhava? Essa é que foi a dúvida que tive até ao fim pela primeira vez no meu processo de trabalho. Desconstruir-me e ao filme também. A cada momento, afigurava-se diferente. Há a história do Carlos Paredes e do pai, porque é que estavam de costas voltadas, mas depois afinal não estavam, admiravam-se profundamente, cada um com o seu feitio. Este talvez seja o elo mais importante para o espectador, porque conhecem melhor o filho. Se fizéssemos só um documentário sobre o desconhecido, não suscitaria curiosidade.

Quanto tempo demorou até estar tudo pronto?
Um ano, praticamente. Começámos em março de 2020. Foi um projeto de pandemia. É daqueles que estão na gaveta, que dificilmente vão ver a luz do dia. Sendo um “mito fugidio”, normalmente, quem contrata este tipo de trabalhos não vê com bons olhos onde possa estar o potencial de sucesso. Ou o interesse das pessoas. O diretor de programas da RTP1, José Fragoso, percebeu que havia aqui um momento interessante. Noutra altura, não sei se teria tempo, paciência e se haveria vontade do outro lado. Houve um casamento de oportunidades entre a RTP e até o Museu do Fado de perceber quem era o Artur Paredes. Há histórias, pequenas biografias, sim. Queriam saber que imagem saía deste guitarrista no fim disto.

"O filme começa e acaba com imagens inéditas de 1930 do próprio Artur Paredes. São os dez minutos finais com imagens únicas sem som. Vê-se o guitarrista a tocar para o Armando Góis. Não estavamos à espera de as encontrar, falava-se que existiam."

Se o filme remete para um passado histórico com uma figura pouco conhecida, como vai reagir o público?
Se houve algo de positivo neste tempo em que estivemos parados ou confinados, foi o de nos levar a pensar as coisas de outra forma. A querermos descobrir as coisas de outra forma. Havia disponibilidade apenas para o imediato. Agora penso que não. As pessoas relativizaram o seu modo de viver. É aborrecido estar em casa, já estamos um bocadinho fartos, mas levou-nos a encarar a vida de outra maneira. A ser menos urgentes. Um filme destes, com uma personagem com quem se tem uma ligação ténue, vai fazer com que haja tempo para essa curiosidade. E dedicar esta hora no sofá a verem esta figura, porque é uma descoberta.

Por exemplo, quando o documentário do “Sugar Man” surgiu, tinha uma história quase desconhecida. Apenas uns fãs na África do Sul nos anos 60. Não temos de fazer filmes em televisão só sobre o óbvio para chegar às pessoas. Temos esta ditadura das audiências, mas estamos no momento ideal para as pessoas verem isto. Ainda por cima, o filme emite na véspera do nascimento do Carlos Paredes. Pode ser entusiasmante descobrirem a própria memória.

E no fim ajuda que sejamos surpreendidos.
Para mim é crucial este documentário dar um relevo muito particular ao filme final com ele, porque é esse filme que realmente nos faz redescobrir o Artur Paredes. Sem ele, este documentário era apenas um encadeado de ideias. Se a sua pessoa, a sua existência, não fosse vista no filme, seria um exercício tão complicado que acho que as pessoas o abandonariam. O filme começa e acaba com imagens inéditas de 1930 do próprio Artur Paredes. São os dez minutos finais com imagens únicas sem som. Vê-se o guitarrista a tocar para o Armando Góis. Não estavamos à espera de as encontrar, falava-se que existiam. Em Coimbra percebo que há uma família que tem umas bobines de 9, 5 milímetros, num formato francês, porque um dos seus familiares, Francisco Ferreira Jr., tinha vindo do Brasil com uma câmara, adorava cinema e música, e dedicou-se nos anos 30 a filmar vários eventos da cidade, incluindo a Queima das Fitas. No meio disso, filmou o Artur Paredes. É absolutamente único e um bombom no fim. Acho que pode marcar a curiosidade suprema das pessoas. Vemo-lo com 31 anos, muito jovial e divertido, que nem era muito seu apanágio e que depois iria perder com a idade, ficaria mais carrancudo e virado para dentro. Já tinha o Carlos com 5 anos. São imagens únicas de um tempo também. Parece que foi ontem e de um tempo que nunca existiu. É muito estranho mas altamente cativante.

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