Negócios verdes. Estas histórias também são renováveis

02 Novembro 2014122

Reduzir custos com iluminação, voar para inspecionar turbinas eólicas ou levar a sustentabilidade a comunidades africanas: a inovação portuguesa também quer fazer negócio na energia renovável.

Quando Maria Burpee começa a apresentação da RVE.SOL naquele auditório do centro de congressos catalão, o inglês com sotaque norte-americano irrompe a sala. A blusa é verde esmeralda, para lembrar que a energia de que se fala, além de renovável, também traz esperança. O sorriso é aberto, como aberta é a forma com que fala para os empreendedores e investidores sentados na sala. Antes da apresentação, as perguntas: “quem é que aqui tem filhos?” Levantam-se uma série de mãos. “Quem é que tem mais de um filho?” e baixam-se algumas. “Mais de dois?”, e cada vez menos. “Mais de três?” e é eleito o próximo alvo da norte-americana.

É neste momento que Maria Burpee desce o palco e se desloca até meio da sala. A passada é larga, porque o tempo que detém para fazer a apresentação do projeto é curto: seis minutos. Agarra em dois euros e dá-os a um indivíduo que está sentado. Diz-lhe para imaginar como seria sustentar a família com aquele dinheiro por dia. Dá-lhe uma garrafa com água suja, um pedaço de carvão e um recipiente que tem azeite, mas que, no fundo, quer ilustrar o querosene, o óleo de parafina com que as famílias africanas iluminam as noites.

E regressa ao palco para apresentar a Kudura, uma pequena central energética que através de uma tecnologia própria proporciona aos habitantes de uma comunidade, água potável e energia a um preço mais acessível. Como? Transformando água suja, estrume e raios solares em água potável, eletricidade, biogás e fertilizante orgânico. Maria Burpee explica que a solução é única no mundo: um contentor marítimo que detém uma central solar fotovoltaica e híbrida de biomassa, outra de biogás e fertilizante orgânico, uma central de tratamento de água potável e outra para monitorizar o funcionamento destas aplicações. “Kudura” é uma palavra de origem Suaíli, que significa “poder de mudança”.

Maria Burpee e Henrique Garrido foram procurar investimento no Business Booster

A ideia não é de Maria, mas do marido, Vivian Vendeirinho, que não pode estar presente no evento que a KIC InnoEnergy, empresa europeia focada na educação, inovação e criação de negócios na área da energia sustentável, organizou em Barcelona, porque estava a promover a Kudura no Quénia e Uganda, país onde a RVE.SOL já tem duas unidades a funcionar. Em seis minutos, Maria explicou aos investidores e empreendedores presentes no Business Booster o que fazia a diferença no RVE. SOL: a forma como resolvia três dos principais problemas africanos – falta de água potável, dependência da lenha e do carvão e do querosene.

Em Barcelona, Maria Burpee e Henrique Garrido, engenheiro de sistemas na empresa, andavam à procura de investidores para avançarem para o próximo nível do projeto: montar uma base de operações em África, que permita reduzir os custos de pessoal e recrutar pessoal especializado no local. O motivo pelo qual a KIC InnoEnergy organiza o Business Booster é mesmo esse: facilitar a apresentação dos projetos, promover parcerias tecnológicas entre as várias startups europeias que apoia e criar oportunidades de investimento. As startups que integrarem a rede apoiada pela KIC recebem até cem mil euros de investimento. Em troca, a empresa recebe cerca de 10% de ações.

Em Portugal, a KIC já investiu em três startups e prevê investir em mais três até ao final do ano. A RVE.SOl é uma delas. A ProDrone a a IsGreen são as outras duas. Naquela quinta e sexta-feira de outubro em Barcelona, estavam as três à caça de capital, parceiras e de clientes. Quando aterraram em Lisboa, ainda não traziam investimento na bagagem, mas traziam contactos de empresas interessadas. Novos negócios à vista? Os empreendedores esperam que sim. Para bem deles, das famílias, da energia, e do planeta.

Maria Burpee e Vivian Vendeirinho querem montar uma base de operações em África, que permita reduzir os custos de produção e recrutar pessoal especializado no local.

Contentores em África, num bar em Madrid 

Vivian Vendeirinho estava a conversar com um amigo num bar quando teve a ideia de criar a Kudura. A atmosfera era espanhola, madrilena para sermos precisos. Era lá que o empreendedor, filho de pai português e mãe sul-africana, morava com a mulher Maria e o resto da família. Com um percurso profissional mais dedicado à área comercial, era no setor das energias renováveis que queria empreender.

Em 2010, entre copos e uma boa dose de conversa, nasceu a ideia que prometia revolucionar o acesso à energia em território africano. Despediu-se, fez as malas e viajou para Portugal. Porquê? Maria, a mulher, explica: “porque seria mais fácil lançar uma empresa em Portugal do que em Espanha. Pela segunda vez, porquê? “Por causa da mentalidade”, responde, num português com sotaque norte-americano, que continua a sorrir. Henrique Garrido dá uma ajuda. “Portugal aposta mais em projetos inovadores.”

O Business Booster juntou 330 pessoas com interesse no mercado das energias renováveis

Para avançar com a RVE.SOL, Vivian precisou de 300 mil euros. O dinheiro veio de business angels, mas Maria confessa que não foi fácil convencê-los. Não é que não achem que a ideia é boa, mas não é um projeto que lhes permita enriquecer, explica. Com o investimento que arrecadaram, montaram um projeto piloto no Quénia e, através de empresários ugandeses, já chegaram ao Uganda. Os objetivos passam por instalar 14 Kuduras em países como Quénia, Moçambique, Nigéria, Angola ou Tanzânia. Outro factor que Maria acredita que os diferencia? O modelo de negócio que a Kudura representa para a comunidade onde é instalada.

Com a central energética idealizada por Vivian, há uma transferência de valor dentro da aldeia, que envolve todo o ecossistema. Da pessoa que vende o fertilizante ao comerciante que utiliza a energia renovável para manter o estabelecimento aberto a um custo mais reduzido – o dinheiro não sai da comunidade, tornando-a autónoma em termos de recursos de energia e água. “A ideia é que todo o nosso modelo de negócio passe pelos três pilares da sustentabilidade: energia, ambiente e economia”, explica Maria.

No final da apresentação da Kudura, Maria desceu do palco e regressou ao indivíduo a quem tinha dado dois euros para sustentar a família, durante um mês, e pediu-lhe um euro de volta. E explicou: em África, 50% dos rendimentos das famílias destinam-se a pagar os custos com a energia. Com o euro que falta, têm de comprar comida, roupa e medicamentos. A blusa verde esmeralda voltou para o palco. A passada continuou larga. O sorriso permaneceu aberto. A esperança também.

"A ideia é que todo o nosso modelo de negócio passe pelos três pilares da sustentabilidade: energia, ambiente e economia"
Maria Burpee

Renato Braz é o homem responsável pela área da criação de negócios da KIC InnoEnergy, em Portugal. A aposta da empresa, apoiada pelo Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia, nas startups portuguesas começou em maio de 2014 e, desde então, que a fase de candidaturas ao programa da única incubadora de empresas especializada em energia sustentável e eficiência energética, está aberto. Quem quiser submeter o seu projeto à incubadora, pode fazê-lo aqui.

Os projetos selecionados pela KIC contam com uma equipa que ajuda os empreendedores a transformar as ideias em negócios globais. As contas da incubadora dão conta de que por cada euro que investe, as empresas conseguem três euros de investimento privado. Além da RVE.SOL, da IsGreen, e da ProDrone, presentes no evento, a KIC também está prestes a investir na WeTruck, uma startup que desenvolve soluções orientadas para otimizar os consumos energéticos das redes de transporte de mercadorias. O primeiro produto é um kit, que gera, recupera e armazena energia elétrica para alimentar sistemas como os motores de frio de camiões frigorífico.

Quais são os ingredientes certos para cozinhar uma empresa de sucesso que atue no mercado das renováveis? Renato Braz responde:  a ideia tem de ter potencial para criar impacto em termos energéticos, potencial de mercado, e uma equipa com as competências adequadas. “Às vezes, há projetos tecnológicos que são bons e percebemos que a equipa não tem estofo para levar o projeto para a frente”, comenta. Quanto ao financiamento dos projetos, diz que “se a ideia for estruturada, com bons fundamentos e com potencial de mercado, o capital não é problema”.

No Palau de Congressos de Catalunya, em Barcelona, participaram 330 pessoas. Destas, 130 eram empreendedores, oriundos de oito países europeus. Para as atividades da KIC contribuem 150 parceiros e há 27 acionistas que estão empenhados num plano industrial de sete anos. No total, a empresa que tem sede na Holanda já investiu em 70 empresas e 30 já estão ativas no mercado.

Renato Braz é responsável pela área de criação de negócios da IC InnoEnergy em Portugal

Investir na luz para poupar na luz

“Mais tempo houvesse”, dizem Carlos Rosário, 59, e Jaime Sotto-Mayor, 55. A frase chega quando o Observador lhes pergunta se estão 100% dedicados à empresa que estão a apresentar no Business Booster, a IsGreen. A resposta é afirmativa e cúmplice, mas também serena. Não é a primeira vez que Carlos Rosário lança um negócio. Jaime Sotto-Mayor conta que o sócio “é um empreendedor” e que já lançou várias empresas na área do software. Foram 35 anos na área da engenharia de telecomunicações, a trabalhar em empresas no Brasil, Estados Unidos da América ou em França e acabou por terminar a carreira na Sogeti. Quando saiu, não sabia o que ia fazer. Estava a avaliar as hipóteses. Até ao dia em que se encontrou com Jaime Sotto-Mayor, geofísico, e decidiram avançar com um produto que ajudasse a gerir a energia.

“A tecnologia estava a evoluir, os algoritmos também e chegámos à conclusão que era a altura certa [para lançar a IsGreen]” explica Jaime Sotto-Mayor. E o que é a IsGreen? Uma tecnologia que desenvolve e comercializa soluções capazes de gerir de forma inteligente a iluminação de qualquer edifício, revela, no stand em que promovem a startup que lançaram há quatro anos. Pelo caminho, uma mudança na trajetória, mas não se arrependem. Agora, querem ajudar as empresas a gerir de forma adequada a iluminação, poupando, sem interferir com as áreas de trabalho do edifício. A gestão da iluminação recorre a sensores, que analisam como é que o edifício funciona.

Carlos Rosário, Hugo Silva e Jaime Sotto-Mayor, estiveram na IsGreen à procura de parcerias

O investimento na empresa já ronda os 300 mil euros, suportado com capitais próprios e com o apoio de uma capital de risco. No Business Booster, estão à procura de “uma coisa completamente diferente”: parceiros, sobretudo comerciais. “Estamos a expandir para fora de Portugal e consideramos que é importante termos parceiros locais que possam ajudar-nos a posicionarmo-nos nesses locais. Esse é um dos motivos pelos quais estamos aqui”, contam, revelando que já tinham sido contactados, no evento, por players da Polónia e do norte da Europa.

Em Espanha, a IsGreen já tem “um pé” e os fundadores não põem de parte a hipótese de a empresa avançar para outros países, como o Chile, mercado que consideram estar “em forte crescimento” e apresentar alguma sustentabilidade. Sobre Portugal, dizem que as empresas estão recetivas, mas que precisam de parceiros financeiros que apoiem o investimento. “Nós garantimos-lhes poupança. Ganhamos todos”, revelam.

Em 2011, a IsGreen venceu o primeiro prémio, na classe “Energia”, do concurso de inovação e empreendedorismo de base tecnológica ISCTE-IUL MIT-Portugal Venture Competition, que é realizado em parceria com o Massachusetts Institute of Technology (MIT). Jaime Sotto-Mayor revela que na base da empresa está uma plataforma tecnológica, que pode ter várias utilizações. “Para já, estamos focados na iluminação e é esse o mercado que estamos a explorar, o que não quer dizer…”. Silêncio. Para depois retomar: “A plataforma existe, ela pode ser aplicável. Se seremos nós a utilizá-la ou se vamos licenciá-la a terceiros, ainda não sabemos”, acrescenta. A IsGreen é uma das startups que está incubada na EDP Starter, incubadora para empresas da elétrica nacional.

"A plataforma existe, ela pode ser aplicável. Se seremos nós a utilizá-la ou se vamos licenciá-la a terceiros, ainda não sabemos"
Jaime Sotto-Mayor

Há fúria no vento e no mar

Um “James Bond do empreendedorismo”. É disso que André Moura, 29 anos, anda à procura no Business Booster: de alguém que o ajude a liderar a ProDrone, a startup mais recente do portefólio de investimento da KIC InnoEnergy, em Portugal. O negócio do jovem licenciado em Biologia Marinha e Oceanografia, na Universidade de Southampton, presta um serviço integrado de inspeções para turbinas eólicas, através de um veículo aéreo não tripulado. Mas falta-lhe um CTO (Chief Technology Officer), “alguém que tenha a capacidade de se adaptar, crescer e ter a fome para que isto funcione”, diz.

A vida mudou em janeiro de 2014, quando André se despediu para lançar o projeto que ainda está verde. Durante vários anos, trabalhou na turbina eólica flutuante da EDP, ao largo da Aguçadoura, ocupando-se da manutenção da plataforma. Foi aí que se deu conta dos problemas que existiam no acesso à turbina: ondas, ventos, correntes. A fúria do mar. Durante quatro anos, desenvolveu uma boia de monitorização offshore, que recolhia dados no local para que as equipas pudessem tomar decisões de manutenção e operação mais eficazes.

“Muitas vezes, corria o risco de preparar a equipa de mergulhadores, chegar ao local e não conseguir”, conta. Somavam-se as janelas temporais que detinham para atuar e os custos da operação. A conclusão chegou depressa. “Achei que o processo era brutalmente ineficiente e fui à procura de soluções. Vi o que havia no mercado e não havia nada particularmente convincente”, revela. Decidiu criá-la.

André Moura anda à procura de investimento e de quem o ajude a lançar a startup

Na ProDrone, há três aspetos fundamentais, explica André Moura. O primeiro é o hardware ligado ao veículo, a parte estrutural, o segundo é o controlo do algoritmo de voo, ou seja, a tecnologia que permite que o drone voe na forma mais apropriada para esse fim. E dá exemplos: é importante que mantenha uma distância coerente em relação à estrutura e que tenha ajudas à navegação. “Tudo isto são pequenas melhorias de software que permitem que a inspeção ocorra de uma forma mais eficiente e robusta”, explica. E, por último, o tratamento dos dados que o drone recolhe. “Estamos a desenvolver um software de pós-processamento, que permite encontrar falhas, identificá-las e melhorar a linha do processo de averiguação do estado das pás”, conta.

Por enquanto, a ProDrone conta com o investimento da KIC, 100 mil euros, mas André Moura adianta que com 200 mil euros consegue construir o minimum viable product, ou seja, um produto minimamente viável. No Business Booster, está à procura de alguém com formação em engenharia aeronáutica, eletrotécnica ou mecatrónica. No próximo ano, André espera ter a equipa completa e o produto pronto.

“Eu trabalhava na mesma empresa há sete anos, mas percebi que precisava de projetos mais ambiciosos e dinâmicos, que conseguissem ter um impacto real no mundo”, revela. Principal dificuldade? Recrutar pessoas com a mesma capacidade de visão e de empenho para uma startup tecnológica, em Portugal. “Ainda existe alguma resistência”, diz. Isto não é ficção, mas a André Moura dava-lhe jeito um 007. Está o empreendedorismo “Ao serviço de Sua Majestade”?

*A jornalista acompanhou o Business Booster, em Barcelona, a convite da KIC InnoEnergy. 

 

 

 

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