Em noite de mínimos históricos para a esquerda à esquerda do PS, liderar esse pelotão seria o único consolo possível para Catarina Martins. Mas o pior resultado de sempre de um candidato presidencial apoiado pelo Bloco de Esquerda não permitiu suavizar o sabor da derrota. A eurodeputada reconheceu um resultado “muito abaixo do que esperava”, mas enquadrou-o num “mau resultado para a esquerda no seu todo”. Apesar dos bloquistas terem respirado de alívio com a vitória de Seguro, encontraram na campanha do socialista o principal responsável pelo mau resultado: o apelo ao voto útil.
Mesmo partindo de uma expectativa reservada, a justificação encontrada para os curtos 2,1% de Catarina Martins foi precisamente que o eleitorado de esquerda cedeu a esse apelo. De qualquer maneira, não houve dúvidas no momento de declarar apoio ao socialista para a segunda volta. Depois de ter feito de Seguro o seu alvo de todas as horas durante duas semanas, Catarina Martins defendeu o voto no ex-líder do PS como a “resposta adequada” no atual cenário, mas pediu para que essa confiança fosse dada a Seguro de “olhos bem abertos“.
Também José Manuel Pureza arrumou a questão com facilidade e avançou que vai propor à Mesa Nacional do Bloco que se apele ao voto em Seguro. Apesar disso, não teceu nenhum elogio ao vencedor da noite eleitoral deste domingo. Pureza apenas referiu que o partido que lidera “não se engana e não hesita sobre a sua responsabilidade” e que o socialista é a alternativa para “vencer André Ventura e a extrema-direita“.
Pureza critica pressão pelo voto útil e sondagens
O diagnóstico do resultado não se afastou muito da retórica a que o Bloco tem recorrido nas recentes derrotas eleitorais. Catarina Martins lembrou que, apesar da vitória de Seguro, a esquerda tem uma mau resultado nestas eleições: os quatro candidatos apoiados por partidos desse campo político somaram pouco mais de um terço dos votos (35,5%). E, continuando a analisar a eleição através do espetro esquerda-direita, mostrou-se preocupada com o resultado “muito expressivo” para a “extrema-direita e a direita radicalizada”.
Já José Manuel Pureza visou diretamente as sondagens por considerar que reforçaram a “pressão para votar taticamente” ao projetarem como possível uma segunda volta entre Ventura e Cotrim. “Como se vê, não tinha qualquer credibilidade”, atirou. O líder do Bloco disse mesmo que nunca houve uma eleição em que a pressão para o voto útil “foi tão determinante” e sugeriu que Catarina Martins saiu particularmente prejudicada por ela.
Isto porque, defendeu Pureza, houve “tanta gente” a reconhecer a qualidade da candidatura da eurodeputada e a demonstrar apoio às suas ideias, apesar disso não ter tido “correspondência plena” em votos. Mesmo sem ter como provar a teoria de uma grande candidatura vítima do voto útil, o coordenador nacional do BE disse estar “muito orgulhoso” pelo percurso feito por Catarina Martins e, apesar do resultado historicamente mau, assumiu que esta campanha servirá futuramente como “inspiração para a ação política” do Bloco de Esquerda.
Nessa linha, quis dirigir-se diretamente às pessoas que teriam votado em Catarina Martins mas cederam ao pragmatismo. “Contamos com elas para as lutas pelo salário, pela casa, pelo hospital, pela escola, pelos direitos das mulheres”, disse. Também Catarina Martins falou para esse eleitorado — cuja dimensão é impossível de medir — que terá concordado mais consigo mas “optou por votar em Seguro” e projetou futuros encontros “nas tantas lutas que a esquerda tem pela frente”.
A vitória possível foi a derrota do Governo
Além de Seguro, foi o primeiro-ministro quem Catarina Martins mais interpelou durante a campanha. A postura da candidata apoiada pelo Bloco pareceu sempre mais próxima daquilo que seria esperado de uma candidata às legislativas, baseada numa retórica de total oposição ao Executivo. Assim, a eurodeputada não deixou de classificar o resultado de Luís Marques Mendes como uma “hecatombe” do Governo e de Luís Montenegro. “São os grandes derrotados desta noite”, atirou Catarina Martins.
É uma acusação arriscada para quem teve o terceiro pior resultado de sempre do Bloco em eleições nacionais, apenas atrás dos 1,79% com Miguel Portas como cabeça de lista às europeias de 1999 e dos 1,99% das últimas legislativas com Mariana Mortágua. Ainda assim, antes da campanha partir para a estrada seria impossível de prever que Catarina Martins (6º) ficaria a um lugar apenas de Marques Mendes (5º) e que a vantagem que este teve sobre a bloquista (9,2%) seria inferior ao que lhe faltou para garantir um lugar na segunda volta (12,2%).
Este resultado serviu como confirmação de um risco para o qual a candidata tinha avisado durante a campanha: a “reconfiguração e trumpização” da direita em Portugal. Para responder a essa “viragem” do país, Catarina Martins defendeu que a esquerda “tem de dizer presente“, atribuindo o crescimento dos extremos à incapacidade dos partidos do centro darem resposta. “Mesmo que soubesse o resultado à partida, teria feito nem mesmo esta campanha. Teria falado, como falei todos os dias, de salários, pensões, contratos de trabalho, fatura de supermercado, fatura da farmácia. As condições concretas da vida neste país.”
A fragmentação da esquerda
Catarina Martins ficou à frente de António Filipe e, ao contrário de Jorge Pinto, não sofreu a humilhação de ter um pior resultado do que Manuel João Vieira. A liderança do pelotão à esquerda não foi mencionada em nenhum dos discursos no Fórum Lisboa. Ou seja, mesmo tendo recolocando o BE como referência à esquerda do PS, essa vantagem foi desvalorizada. ”O resultado seria muito melhor se a Catarina tivesse tido 2% e os outros candidatos à esquerda tivessem 10%”, disse um bloquista ao Observador.
Assim, a conclusão desta noite eleitoral é comum para os três candidatos e respetivos partidos. Mesmo sem eleições na agenda até 2029, BE, PCP e Livre terão de se juntar para sobreviver e José Manuel Pureza acredita que as condições para tal se estão a conjugar. “Faremos todos os diálogos que temos que fazer. Começámos, aliás, a fazê-lo com as centrais sindicais e vamos certamente fazê-lo, quando o tempo for adequado, com tudo aquilo que é importante para que a esquerda seja forte, reganhe força e iniciativa.”
Apesar de se mostrar pronto para uma convergência entre partidos, o líder do Bloco apontou para a atual campanha como um primeiro passo nesse sentido, quando, na verdade, esta eleição parece ter sido uma prova da dificuldade de chegar a entendimentos à esquerda. “Ninguém tem dúvidas hoje de que a candidatura da Catarina Martins foram uma peça absolutamente essencial neste reganhar de força e de iniciativa”, disse.