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Cirurgia bariátrica em regime de ambulatório, com recurso a uma técnica única no mundo -  ‘koala sleeve’ - que  foi apresentada em maio de 2024 no Congresso Europeu de Cirurgia de Obesidade em Viena, na Áustria, Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, 3 de março de 2025. O ‘sleeve’ – gastrectomia vertical ou cirurgia de redução do estômago – consiste na remoção de cerca de 70% do estômago fazendo com que este em vez de se parecer com um saco que armazena comia, fique como uma banana, um tubo estreito.Na prática, a ‘koala sleeve’ consiste na adaptação do ‘sleeve’ tradicional, acrescentando-lhe a colocação de uma espécie de válvula que tenta impedir o refluxo dos alimentos do estômago para o esófago. ( ACOMPANHA TEXTO) JOSÉ COELHO/LUSA
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JOSÉ COELHO/LUSA

JOSÉ COELHO/LUSA

Número de doentes a aguardar cirurgia fora do tempo máximo sobe 30% em 2025, mostram dados do Governo

Situação agravou-se no ano passado em relação a 2024, tanto nos doentes oncológicos como nos restantes. Gestores hospitalares e médicos pedem medidas estruturais. Ministério e DE-SNS em silêncio.

O número de doentes que aguardam cirurgia no Serviço Nacional de Saúde (SNS) fora do tempo clinicamente recomendado — e que ainda não têm sequer operação marcada — aumentou consideravelmente em 2025. No final de dezembro do ano passado, 23.561 pessoas encontravam-se nesta situação, mais cinco mil do que no final de 2024. Ou seja, no espaço de um ano, o número de doentes que viu ultrapassado o Tempo Máximo de Resposta Garantido (TMRG) para cirurgia subiu cerca de 31%. Questionados sobre a evolução negativa das listas de espera para cirurgia, quer o Ministério da Saúde quer a Direção Executiva do SNS mantiveram-se em silêncio.

A 31 de dezembro do ano passado, 23.561 doentes aguardavam por uma cirurgia no SNS, de acordo com os dados que constam no portal que monitoriza a execução do Plano de Emergência e Transformação da Saúde. Para além de o prazo clinicamente recomendado já ter sido ultrapassado, estas pessoas ainda não tinham sequer uma data para a realização da operação, isto é, continuavam sem perspetivas de resolução do seu problema. A grande maioria dos casos refere-se a doentes não oncológicos mas, ainda assim, havia 577 doentes oncológicos nesta situação — uma realidade que pode comprometer seriamente o prognóstico clínico.

Ao Observador, o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), Xavier Barreto, admite que a procura “está a crescer mais depressa do que a capacidade de resposta do SNS” e pede mudanças estruturais que permitam dar resposta aos doentes. Já o secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos pede o reforço das equipas e a contratação de mais profissionais para dar resposta aos doentes a aguardar cirurgia.

A procura "está a crescer mais depressa do que a capacidade de resposta do SNS"
Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares

Maior aumento de doentes a aguardar cirurgia fora do TMRG e sem agendamento registou-se nos doentes oncológicos

O número de doentes a aguardar cirurgia fora do TMRG e sem agendamento no final do ano passado compara com os 18.037 que aguardavam nas mesmas condições a 31 de dezembro de 2024, o que significa que houve um agravamento de 30,6% das listas de espera no período de um ano. A evolução negativa registou-se tanto nos doentes oncológicos como nos não oncológicos. No primeiro grupo, aguardavam cirurgia fora dos TMRG e sem agendamento 22.984 pessoas no final de 2025, mais 28,5% do que um ano antes. No caso dos doentes oncológicos, a subida foi muito mais expressiva: o número de doentes na lista de espera fora do TMRG e sem agendamento passou de 148 para 577 no período de um ano (mais 289%).

A recuperação das listas de espera cirúrgicas foi uma das prioridades definidas no Plano de Emergência para a Saúde, apresentado em maio de 2024. O primeiro Governo de Luís Montenegro deu prioridade às cirurgias oncológicas, tendo lançado o programa OncoStop, que tinha como objetivo reduzir a zero o número de utentes a aguardar para lá dos TMRG e com cirurgia oncológica por agendar até agosto de 2024. Para isso, o Governo criou um regime excecional, que distribuía 90% do valor da cirurgia pela equipa de profissionais.

O objetivo foi cumprido mas desde agosto de 2024, e uma vez terminado o programa, que o número de doentes oncológicos nesta situação tem vindo a aumentar progressivamente. Até março de 2025, o número fixou-se sempre abaixo dos 200 mas desde o último verão que a situação se tem agravado mais. Em junho de 2025, eram mais de 300 os doentes oncológicos a aguardar fora do TMRG e sem agendamento; em setembro mais de 400 e no final do ano passado, 577.

Plano para acelerar cirurgias falha. Mais de 18 mil ainda esperam para lá dos tempos máximos (e lista para cirurgia oncológica até aumenta)

Na área não oncológica, o Governo apostou também, em novembro de 2024, num plano transitório (o Plano de Curto Prazo de Melhoria do Acesso a Cirurgia Não Oncológica), que praticamente não teve impacto na redução da lista de espera. Logo no mês seguinte à publicação do primeiro despacho que criava o programa — em dezembro de 2024 — inverteu-se a tendência de crescimento do número de utentes a aguardar cirurgia fora dos TMRG e com a operação por agendar, mas apenas até fevereiro de 2025. Em março, os números voltaram a aumentar e têm-se avolumado de forma contínua desde aí. Em abril, eram mais de 19 mil os doentes nessa situação; em julho, mais de 20 mil; e no final do ano quase 23 mil.

Número total de doentes à espera para lá do TMRG subiu 11% no período de um ano

Contudo, o número total de doentes a aguardar cirurgia que é exibido no site criado pelo Governo para monitorizar o cumprimento do Plano de Emergência (23.561) não corresponde ao número total de utentes do SNS à espera de cirurgia para além dos tempos máximos clinicamente recomendados. Isto porque o Ministério da Saúde apenas opta por revelar o número de utentes fora do TMRG e sem agendamento da operação. Há, no entanto, muitos outros doentes que, apesar de já terem uma data para a operação, estão à espera para lá do TMRG. Segundo os dados do Portal da Transparência do SNS, havia registo, em novembro de 2025, de 81.781 doentes a aguardar cirurgia fora dos TMRG (com e sem cirurgia agendada), mais 11,3% do em novembro de 2024 (no Portal da Transparência os últimos dados disponíveis dizem respeito a novembro).

Apesar do aumento dos doentes em lista de espera para cirurgia, a produção cirúrgica do SNS voltou a aumentar em 2025, segundo os dados do portal do Plano de Emergência para a Saúde. O número de doentes oncológicos operados subiu 1,2% (para 78.635) e o número de doentes oncológicos operados também aumentou, 5,1% (para 714.629).

O presidente da APAH sublinha que o agravamento das listas de espera mostra a incapacidade de o SNS responder ao aumento da procura. “O SNS está a produzir mais, mas mesmo assim a lista de espera cresce. A procura está a crescer mais depressa do que a capacidade de resposta”, realça Xavier Barreto, lembrando que a “complexidade clínica aumentou e a produção nem sempre é resolutiva”.

Para o secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos, o ano de 2024 foi marcado por programas excecionais de regularização das listas de espera para cirurgia, pelo que, considera Nuno Rodrigues, seria expectável um agravamento em 2025. Acresce a isso, sublinha, o aumento “previsível” da procura, associado ao envelhecimento da população e à maior prevalência de doença crónica e oncológica, “o que faz com que, mesmo com níveis elevados de produção cirúrgica, o volume de entradas possa superar a capacidade instalada”.

O secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), Nuno Rodrigues, durante entrevista à agência Lusa, na Sede do SIM, em Lisboa, 03 de abril de 2024. O novo secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM) aponta como “grande prioridade” do seu mandato a estabilidade dos profissionais, o que passa pela sua valorização salarial, progressão na carreira e pela melhoria das condições de trabalho. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 05 DE ABRIL DE 2024). MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

▲ Secretário-geral do SIM pede valorização do trabalho normal dos médicos face aos incentivos "perversos" da atividade extra

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Administradores hospitalares e médicos pedem medidas estruturais e menos foco nas cirurgias extra

Ainda assim, o líder do SIM considera que o Governo tem de responder a esta realidade. “É indispensável reforçar as equipas e contratar mais profissionais para dar resposta às necessidades da população, temos de garantir equipas estáveis e uma organização eficiente dos blocos operatórios”, pede o responsável, criticando a demora na implementação do SINACC, o novo sistema de gestão de acesso a consultas e cirurgias (que virá substituir o SIGIC), que “continua dependente de portarias de regulamentação”.

Xavier Barreto salienta que, se o Governo e a Direção Executiva do SNS (DE-SNS) quiserem inverter a tendência de aumento das listas de espera para cirurgia, a solução tem de ser estrutural e não deverá passar pelo aumento da produção adicional — uma medida à qual o executivo recorreu em 2024, com efeitos transitórios ou limitados. “Não basta fazer mais horas ou viver de produção adicional. É preciso uma lista única em rede, priorização transparente baseada em risco, dedicar mais horas às primeiras consultas e casos de maior impacto, e um task shifting sério para enfermeiros, farmacêuticos, técnicos para libertar os médicos para o que só eles podem fazer”, defende o presidente da APAH.

Doentes a aguardar cirurgia fora dos tempos máximos aumentam 20% e já são mais do que quando 1º. governo da AD tomou posse

Também Nuno Rodrigues lembra que para fixar médicos no SNS é importante valorizar o trabalho em horário normal e não apenas o adicional, o que acaba por criar “incentivos perversos”. “É essencial um investimento contínuo na retenção de médicos no SNS e isso passa pela valorização do trabalho normal e não apenas do adicional. Caso contrário, cria-se um incentivo perverso em que o sistema passa a depender do extra, sem resolver estruturalmente as listas de espera”, refere o secretário-geral do SIM, acrescentando que a “realidade é que, neste momento, alguns médicos mantêm-se no SNS pelo adicional, mas a maioria dos médicos que saem fazem-no por causa das condições do trabalho normal”.

O Observador questionou o Ministério da Saúde e a Direção Executiva do SNS sobre o aumento da lista de espera para cirurgia e sobre que medidas estarão a ser equacionados para reverter a situação, mas não obteve resposta.

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