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O acesso à informação na “caixa negra” que é a Coreia do Norte /premium

O "Reino eremita" não é, apesar de tudo, totalmente isolado. Seja através da roupa chinesa, dos filmes americanos ou dos telefonemas dos familiares exilados, os norte-coreanos descobrem um mundo novo.

“No que diz respeito à cimeira histórica entre a República Democrática e Popular do Norte e os Estados Unidos, temos apreciado no nosso íntimo o Presidente Trump por ter tomado a decisão ousada, que outros presidentes dos EUA não tomaram, e por ter feito esforços para que se realizasse um evento tão crucial como a cimeira.” Esta é uma das frases incluídas numa declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros norte-coreano, divulgada no final de maio através da agência de notícias estatal do país KCNA, sobre o encontro entre Kim Jong-un e Donald Trump marcado para dia 12.

O tom contrasta em tudo com o que é habitual nos media estatais do país. Senão, vejamos este exemplo, a propósito da paralisação dos serviços públicos norte-americanos por falta de acordo no Congresso sobre o teto da dívida: “O shutdown do Governo dos EUA, o segundo nas últimas três semanas, é motivo de chacota em todo o mundo e revela a miserável condição de uns Estados Unidos em declínio”, podia ler-se no jornal oficial Rodong Sinmun, a 5 de março deste ano.

Dois meses separam estas duas declarações e o tom elogioso para com os norte-americanos é, nas palavras da académica Sandra Fahy, “intrigante”. “Eles costumam utilizar estes adjetivos hostis para acompanhar certos nomes: os ‘fantoches’ sul-coreanos, os ‘canalhas’ dos norte-americanos…”, descreve ao Observador a antropóloga e autora do livro “Marching through Suffering: Loss and Survival in North Korea” (livro sobre o dia-a-dia dos norte-coreanos, sem edição em português). “Essa ausência pode ser um sinal de permissão para a audiência interna de apaziguamento para com os americanos. Mas desconfio que não será um sinal da postura do próprio Estado.”

Uma barbearia em Pyongyang com uma televisão a passar o canal estatal (ED JONES/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Num país onde os únicos tipo de media são os estatais e onde a informação é altamente controlada, restam poucas hipóteses aos norte-coreanos para tentar interpretar o mundo — e o seu próprio país — de outra forma que não a que a dinastia Kim lhe sugere. A televisão pública passa os noticiários às 18h e às 21h, onde se destacam os supostos feitos incríveis da nação coreana e a grande sagacidade dos seus líderes. Os aparelhos de rádio estão programados para que não seja possível alterar a frequência, obrigando os ouvintes a escutar exclusivamente a estação pública. Até o cinema serve para louvar feitos heróicos da Coreia do Norte e para retratar os norte-americanos como vilões.

O discurso em todos estes meios é sempre semelhante, com palavras e expressões praticamente iguais nos vários formatos. A uniformidade é propositada. Como exemplo, Fahy recorda a história de um desertor que conheceu na Coreia do Sul: tinha sido enviado para a prisão por ter deixado passar “uma gralha no nome de Kim Jong-il”, no jornal onde trabalhava. “Se conseguirmos controlar a informação, controlamos a forma como as pessoas interpretam as coisas, a forma como elas interpretam o mundo”, diz a professora universitária, que dá aulas no Japão. O controlo dos media e as violações de direitos humanos são, diz, “unha com carne”.

A opacidade e a uniformidade da informação na Coreia do Norte ajudam a cimentar a ideia de “país mais isolado do mundo”. “Reino eremita”, chamam-lhe alguns, repetindo o chavão até à exaustão. Uma “caixa negra”, definem outros. Mas, ao longo dos anos, os norte-coreanos têm encontrado formas de quebrar esse isolamento e os contactos com o exterior são muito mais frequentes do que se pode pensar à primeira vista.

Há o contrabando que traz telefones capazes de fazer chamadas internacionais, as calças de ganga feitas no estrangeiro compradas no mercado ilegal ou ainda as telenovelas sul-coreanas comprimidas numa pen USB. Já para não falar da informação passada de boca em boca, entre amigos e vizinhos. Tudo isso serve para deixar entrar um pouco mais de luz na caixa impenetrável que é a Coreia do Norte. E todos esses fenómenos se têm vindo a acentuar com o passar dos anos e com o desenvolvimento da tecnologia.

O poder dos jangmadang, os mercados ilegais

A grande fome da década de 90 acabou por ser o catalisador para abrir mais a Coreia do Norte ao mundo. O colapso do sistema de distribuição estatal de alimentos levou ao surgimento dos chamados mercados ilegais — jangmadang, em coreano — para colmatar as falhas no acesso à alimentação. Os jangmadang foram crescendo em número e em tamanho: hoje em dia há centenas de mercados por todo o país que vendem não apenas comida, mas também bens importados, sobretudo da China. Ao todo, segundo estimativas do especialista em estudos coreanos Andrei Lankov, o sector privado norte-coreano contribui entre 30 a 50% para o PIB nacional. Não admira que as autoridades os tolerem.

Mulheres vendem fruta num mercado improvisado nos arredores de Pyongyang (ED JONES/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Os efeitos desse desenvolvimento económico fazem-se também sentir nos mais jovens, como explica ao Observador Jieun Baek: “Com a grande fome, as pessoas passaram a ter de depender delas próprias para sobreviver. E esta mentalidade, aliada ao acesso a bens estrangeiros, criou um estado de espírito muito diferente entre as gerações mais novas”, afirma a autora do livro “North Korea’s Hidden Revolution: How the Information Underground is Transforming a Closed Society” (“A Revolução Escondida da Coreia do Norte: como o Submundo da Informação está a transformar uma Sociedade Fechada”, sem edição em português).

“Os mais velhos costumam dizer ‘Temos fé no nosso líder, quando esta crise passar seremos recompensados’. Os mais novos dizem-lhes ‘Avô, não percebo o que dizes, os centros de distribuição de comida de que falas já nem sequer existem’”, ilustra a académica de Oxford.

Baek dá o exemplo de um jovem desertor que conheceu na Coreia do Sul, Joon-hee, nascido no final dos anos 90. Joon-hee era um adolescente bonito, que causava sensação na escola. Parte desse sucesso explicava-se pelo seu estilo: o seu lenço vermelho dos pioneiros, que faz parte da farda escolar, estava sempre impecavelmente engomado e liso, um sinal de status no ecossistema escolar. O truque era só um, conta Jieun: “Ele pedia dinheiro à mãe para ir ao mercado comprar a farda, em vez de usar a que lhe era dada pelo Estado. ‘Porquê se já tens um?’, perguntava-lhe ela. ‘A qualidade do material é má, mãe… O lenço vermelho amachuca-se muito facilmente’, respondia-lhe.” O melhor mesmo era ir ao jangmadang comprar um lenço vindo da China, cujo material é de melhor qualidade.

Dois alunos da escola primária aprendem a mexer num computador numa aula (Feng Li/Getty Images)

Getty Images

Segundo dados oficiais compilados pelo MIT, 85% dos bens importados pela Coreia do Norte vêm da China — e esta estimativa não tem em conta a informação do mercado negro.

O papel dos contrabandistas chineses é fulcral: “Eu trago todo o tipo de coisas, produtos para as pessoas normais”, revelava um dos camionistas que atravessa a fronteira à agência Reuters, em 2016. Nas camionetas de passageiros, garantia um dos camionistas, levam-se produtos de cosmética, escondidos. “Se alguém quiser comprar uma peruca através dos canais formais, custa mil yuans [cerca de 130€], mas se a obtiver através dos canais do mercado negro só custa uns 200 ou 300 yuans [25 ou 40€]. E o condutor ainda fica contente porque também consegue fazer algum dinheiro”, contou um deles.

As redes de tráfico estão tão desenvolvidas que, no Norte do país, é possível obter um filme sul-coreano apenas um dia depois de ele ter sido lançado em Seul. O impacto de novelas e filmes vindos da Coreia do Sul ou dos EUA é tremendo. Já nos anos 90 a jornalista Barbara Demick dava conta, no seu livro “A Longa Noite de um Povo”, dos efeitos dessa exposição: “As pessoas que não dispunham de meios para ver DVD estrangeiros ouviam outras falar neles. Espalharam-se historias incríveis sobre a riqueza e o desenvolvimento tecnológico dos países vizinhos. Dizia-se que os sul-coreanos tinham criado um carro tão sofisticado que só arrancava se o condutor soprasse para um alcoómetro para provar que estava sóbrio (falso) e que os camponeses chineses comuns que viviam do outro lado da fronteira eram tão ricos que comiam arroz branco três vezes ao dia (verdadeiro).”

Se este efeito de abertura económica se pode traduzir ou não em impacto político, é difícil saber. Especialistas como Lankov acreditam que sim, mas a longo prazo: “O fluxo de bens estrangeiros a entrar expõe o público a uma cultura de consumo diferente e a outras formas de informação sobre o mundo lá fora. A qualidade destes bens fala bem alto sobre a sofisticação tecnológica dos países estrangeiros, sobretudo a Coreia do Sul”, explica no relatório “O ressurgimento de uma economia de mercado na Coreia do Norte”. “A exposição a gadgets eletrónicos, produtos de cosmética, utensílios de cozinha e todo outro tipo de bens sul-coreanos está a minar um dos mitos centrais da propaganda de Pyongyang — o que de a Coreia do Sul é um lugar indigente e desesperado.”

Equipa norte-coreana do Mundial de futebol de 1966 assiste a uma comédia estrangeira no quarto de hotel (Central Press/Hulton Archive/Getty Images)

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É claro que a utilização destes bens e o acesso a entretenimento estrangeiro continua a ser absolutamente proibido e criminalizado. Não se veem filmes sul-coreanos de outra forma que não seja quase sem som, no escuro, por vezes de headphones ou debaixo dos lençóis. “Há muito mais circulação deste material do que compra”, diz Baek, explicando que tudo assenta nos chamados “círculos de confiança”. A mensagem resume-se a: “‘Tu és meu amigo, eu confio em ti e gostava muito que visses isto.’” E assim se passa um episódio da novela sul-coreana “Descendentes do Sol” escondido numa pen USB.

Telefones traficados, rádios artesanais e folhetos que chegam dentro de um balão

As relações de confiança são fulcrais para levar um norte-coreano a interessar-se pelo que se passa fora das suas fronteiras. Um dos casos mais óbvios é o do contacto com familiares que fugiram do país e que, muitas vezes — e apesar do elevado risco —, se mantém. Graças à rede de contrabandistas, é possível, e até certo ponto fácil, enviar por exemplo um telemóvel chinês para um familiar que ficou na Coreia do Norte. Assim podem conversar por telefone através de uma chamada internacional.

Oficialmente, a Coreia do Norte tem desde 2008 um serviço móvel de telefone operado pela empresa egípcia Orascom, o Koryolink. Contudo, desde 2013, o Estado norte-coreano começou a operar uma segunda rede móvel, a Byol. De acordo com um investigador da Universidade Johns Hopkins, Yonho Kim, em 2017 estimava-se que existiam na Coreia do Norte 4,7 milhões de telemóveis ligados a uma das duas redes.

Estes números não incluem os telefones chineses ilegais, que permitem fazer chamadas para o estrangeiro. Baek estima que, só entre as duas Coreias, serão feitas até duas mil chamadas por dia. A antropóloga Fahy sublinha a importância deste acesso direto a familiares: “Estes telefones permitem que ocorra aquilo a que eu chamo uma ‘rádio-difusão pessoal’”, afirma a académica, que estudou o fenómeno no paper “Famílias de Desertores, Telemóveis e Dinheiro: Práticas de Unificação da Península Coreana”, publicado em 2015. “As pessoas na Coreia do Norte passam a poder ter acesso a informação em tempo real que vem de famílias e amigos que desertaram. Essas são relações normalmente de confiança, por isso isto é muito relevante.

Mulher filma com o telemóvel uma parada nas ruas de Pyongyang (ED JONES/AFP/Getty Images)

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Para além do envio de telefones, os desertores geralmente conseguem também mandar remessas de dinheiro para a família, como quaisquer outros emigrantes. O processo é que, como explica a história de um desertor publicada no site Politico, é altamente complexo: é necessário arranjar um traficante, pagar-lhe, proteger bem os bens e dinheiro que se quer enviar e à chegada verificar com a família que o contrabandista não desviou alguns dos medicamentos ou equipamentos eletrónicos.

Segundo Jieun Baek, 60% dos cerca de 30 mil desertores norte-coreanos que vivem na Coreia do Sul enviam dinheiro para o Norte. Um estudo de 2016 do Centro de Dados pelos Direitos Humanos na Coreia do Norte, em Seul, conclui que 64% dos desertores inquiridos enviavam dinheiro para o seu país de origem. Em 2015, terão mandado cerca de 240 milhões de wons (aproximadamente 190 mil euros). Um valor que, numa Coreia do Norte onde o PIB per capita se fica pelos mil euros por ano, faz muita diferença.

Os telefones podem ser uma “rádio-difusão pessoal”, mas os norte-coreanos também têm formas de aceder a estações de rádio que de facto vêm de fora. Normalmente tal só acontece nas zonas mais perto da fronteira, ou com a China ou com a Coreia do Sul, devido ao alcance das ondas de rádio. Mas é possível contornar o problema criado pelos aparelhos oficiais, que têm de ser registados e só conseguem apanhar uma frequência: comprar um rádio chinês, pagar a alguém que tenha conhecimentos para adulterar o aparelho ou até criar um pequeno rádio artesanal, feito de madeira.

Um dos pequenos rádios enviados por ativistas para a Coreia do Norte (JUNG YEON-JE/AFP/Getty Images)

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A partir daí, é possível ouvir emissões de estações como a Radio Free Asia ou a Voice of America, tentar perceber o que dizem as rádio chinesas ou até apanhar um programa da North Korea Reform Radio — um projeto criado por um desertor, Kim Seung-chul, que transmite emissões diárias a partir de Seul, direcionadas a norte-coreanos.

Engenheiro civil de formação, Kim cresceu a ouvir as estações de rádio proibidas às escondidas. Anos depois, quando foi enviado para trabalhar num projeto de construção na Sibéria, ficou espantado ao ver as condições de vida dos russos, que lhe pareciam bem melhores do que na Coreia — e decidiu desertar. Agora, como responsável pela Reform Radio, fez do seu ativismo o seu trabalho: “O objetivo estratégico é fazer a Coreia do Norte mudar por si própria”, admite. Seung-chul estima que pelo menos 10% dos norte-coreanos tenham acesso frequente a media internacionais — a maioria fará parte da elite económica e política.

Será também essa elite que, contrariando a imagem de país isolado, tem acesso à internet. Não é possível conhecer o número de utilizadores em concreto, mas sabe-se que será muito baixo. Um ex-diplomata em Pyongyang ouvido pelo Observador, James Hoare, recorda como os funcionários das embaixadas tinham acesso a muito mais informação e entretenimento vindo do estrangeiro: “Todos sabiam cantar a música ‘Edelweiss’, do ‘Música no Coração’”, recorda o antigo cônsul britânico, que esteve no país no início dos anos 2000.

“Fui embora em 2002. Mas até nessa altura a informação entrava. As pessoas ouviam rumores… Na altura havia pouca internet, mas quando saí estavam a começar a instalá-la nas embaixadas”, recorda. A empresa de análise tecnológica Recorded Future conseguiu ter acesso a alguns dados de utilização de internet no país recentemente e concluiu que os padrões de consumo são muito semelhantes aos do mundo ocidental, com utilização durante as mesmas horas do dia e no mesmo tipo de sites (redes sociais, compras online, etc.)

Curiosamente, segundo a mesma empresa, ao analisar os dados é possível perceber que, se até então os poucos utilizadores norte-coreanos iam a sites como o Facebook e o Instagram, desde o final de 2017 passaram a migrar todas as contas para redes sociais semelhantes chinesas. “Nuns curtos seis meses, as elites norte-coreanas migraram quase totalmente das redes sociais e serviços ocidentais para sítios como a Alibaba, a Tencent e o Baidu.” O motivo, diz a empresa, pode estar relacionado com questões de segurança operacional.

Para além deste limitado acesso à internet, a Coreia do Norte tem ainda uma intranet chamada Kwangmyong que pode ser acedida em universidades, serviços estatais e bibliotecas. “Não é verdade que o país esteja 100% offline e a intranet existe também. Mas as barreiras para aceder a redes ilegais são tão altas que o risco é demasiado”, resume Jieun Baek. A autora sabe do que fala, já que trabalhou no passado como consultora da Google para a Coreia do Norte.

Até mesmo no uso de tecnologia mais simples, a malha aperta. Se um norte-coreano quiser ter um equipamento em casa — seja um rádio, uma televisão ou um telemóvel —, tem de o registar junto das autoridades locais. E os truques para tentar descobrir o acesso a conteúdo ilegal são muitos, como, por exemplo, cortar a eletricidade e depois entrar em casa das pessoas e verificar os equipamentos de DVD. Com a luz cortada, não é possível ejetar os discos — e os infratores são assim apanhados.

O avanço tecnológico vai permitindo contornar alguns destes problemas, como por exemplo através do uso das pens USB, que podem ser removidas manualmente caso apareça alguém. Mas as autoridades também estão a acompanhar essa modernização, garante Baek: “Os telefones norte-coreanos, por exemplo, têm um software de atualizações automáticas que consegue detetar imediatamente que ficheiros estão ali que não foram produzidos na Coreia do Norte. E consegue também detetar o rasto digital dos aparelhos onde esses ficheiros estiveram. Se alguém usa o seu aparelho norte-coreano para ver um ficheiro estrangeiro, pode não ser logo apanhado só porque eles estão à espera para ver com quem o ficheiro é partilhado e assim apanhar uma rede inteira de contactos.”

Por vezes, os filmes e séries a que se assiste são enviados por ativistas do outro lado da fronteira. É o caso, por exemplo, do grupo Lutadores por uma Coreia do Norte Livre, liderados pelo desertor Park Sang-hak. As suas ações de propaganda são altamente mediatizadas: o grupo envia balões pela fronteira entre as duas Coreias que levam lá dentro dinheiro, filmes e folhetos com propaganda. Neles pode ler-se, por exemplo, que “os nossos irmãos e irmãs na Coreia do Norte perderam a visão e a audição e nós prometemos trazer-lhes a verdade e a realidade do que aprendemos no mundo livre.”

Ação de lançamento de balões junto à fronteira das duas Coreias (JUNG YEON-JE/AFP/Getty Images)

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“Os desertores são politicamente muitos ativos e por isso não colocam nos balões coisas ao calhas: pode ser um relatório da ONU [sobre a Coreia do Norte], um filme como o ‘Pantera Negra’”, diz Fahy, referindo-se à película que adapta uma história da Marvel sobre um país isolado e as transformações que ocorrem com a transferência do trono de um pai para um filho. A antropóloga considera este tipo de ações altamente positivas, mesmo que o seu impacto seja limitado.

Baek destaca que grupos como o de Park “querem a maior visibilidade possível, convidando jornalistas para acompanhar as suas ações e envolvendo-se propositadamente em lutas com as autoridades”, como “forma de estratégia”. “Quantas pessoas conseguem alcançar? Não temos ideia”, resume a investigadora.

Outros grupos fazem ações semelhantes, mas pela calada da noite, sem grande destaque. Certo é que os balões são detestados, quer por norte-coreanos quer pelo Governo sul-coreano, pela “tensão que trazem à fronteira” — razão pela qual o acordo assinado em abril entre as duas Coreias determina o “fim das hostilidades entre os dois países”. Fahy acredita que, para ambos os governos, tal possa incluir o lançamento de balões na fronteira.

O braço de ferro da propaganda

“Os media norte-coreanos chamam a todos estes contactos ‘guerra psicológica’, levada a cabo pelas ‘forças imperialistas’. O próprio Kim Jong-un já admitiu que ‘a próxima guerra é a guerra interna’, ou seja, que é uma guerra ideológica”, conta a académica. Um relatório de segurança interno do Governo coreano, divulgado em 2014, dava mesmo conta que as “gravações inapropriadas e publicações de propaganda” estavam em crescimento.

Não é por isso de admirar que o regime tente castigar todos os que têm acesso a informação vinda do exterior, seja ela de que tipo for. Caso o norte-coreano em causa conheça o agente da autoridade que o apanhou, um simples suborno pode resolver o assunto. Mas nem sempre isso chega. As penas aplicadas podem ir desde a multa até à prisão num centro de detenção.

Alguns, no entanto, são enviados para campos de trabalho ou até mesmo para campos de concentração, reservados aos que cumprem penas por crimes políticos. E já houve, inclusivamente, execuções públicas por crimes desta natureza. A sentença é, por isso, altamente discricionária, variando consoante o tipo de crime, o seu grau e o lugar que a pessoa apanhada ocupa no songbun, o sistema de castas político existente no país.

Apesar do grande risco, tal não impede muitos norte-coreanos de continuarem a comprar lenços vermelhos vindos da China, de falarem ao telefone com o filho que está na Coreia do Sul ou de assistirem a filmes norte-americanos debaixo do cobertor à noite. Os laços com o exterior são cada vez mais firmes e as influências vindas do estrangeiro são cada vez mais profundas. O regime teme estes movimentos — mas terá de facto razões para se preocupar? Pode este acesso à informação pôr em causa a dinastia Kim?

“Há um braço de ferro. Às vezes as pessoas são influenciadas; outras vezes a propaganda é tão extrema que as faz pensar ‘o nosso líder tem razão, esta gente é louca’”, resume Jieun Baek, que teve a oportunidade de entrevistar dezenas de desertores que cresceram na Coreia do Norte. “Mas, a longo prazo, ajudará a criar um pensamento mais crítico, não só em termos políticos mas na vida do dia-a-dia. Ajudará a criar uma ideia de ‘eu não só quero uma vida melhor, eu mereço uma vida melhor’. Este tipo de pensamento é fundamental para haver mudanças, mas não se pode ensiná-lo e ele não surgirá do dia para a noite.”

Sandra Fahy, que também ouviu testemunhos de muitos norte-coreanos, concorda: “É claro que o efeito é limitado, mas isso não significa não devemos fazê-lo”. E, para isso, acha que é necessário dar um último passo: colocar um espelho à frente dos próprios norte-coreanos. “A perceção do mundo dos norte-coreanos muda quando veem o mundo através de filmes estrangeiros. Veem que os carros são melhores ou que os edifícios são diferentes… Mas a perceção do seu próprio país não muda”, resume.

“Os norte-coreanos precisam de se ver a si próprios. Na mesa onde estão espalhadas as opções que podem consumir está a dieta dos media estatais, está a informação que vem da Coreia do Sul, está o que é feito nos EUA. Mas não há nada que seja feito por eles próprios. Este é o espaço que falta preencher.” Talvez assim, um dia, seja possível deixar entrar a luz que falta na caixa negra que é a Coreia do Norte.

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