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▲Observador perguntou ao camisola 10 do Brasil se está pronto para oferecer mais à equipa. A resposta foi curta e em passo apressado: “Com certeza, com certeza”.

AFP via Getty Images

▲Observador perguntou ao camisola 10 do Brasil se está pronto para oferecer mais à equipa. A resposta foi curta e em passo apressado: “Com certeza, com certeza”.

AFP via Getty Images

O "alien" virou "ajudante". Neymar regressou, mas ainda não apareceu no Mundial

20 minutos, 24 toques na bola, um remate à baliza, alguns dribles falhados, compromisso e lágrimas. O Observador esteve no regresso de Neymar, o craque que serve para "ajudar".

O jogo do Brasil frente à Escócia tornou-se viral horas antes de a bola começar a rolar. Para lá dos videos que mostravam a comunhão entre os adeptos escoceses e brasileiros, houve uma “previsão” que ocupou as páginas da imprensa brasileira e das redes sociais. A previsão inusitada foi feita por uma mulher que se apresenta como vidente e que é conhecida como “Vó Bahiana”.

Esta mulher garante que na noite de terça para quarta sonhou com uma suposta invasão alienígena durante o jogo do Brasil no Hard Rock Stadium. No vídeo que divulgou nas redes sociais, surge a chorar e a dizer que sonhou com duas naves a sobrevoar o estádio de Miami e que centenas de pessoas seriam levadas. Refere, também, que Neymar e Vinicius Júnior seriam raptados por essas naves.

O Observador esteve no Hard Rock Stadium para assistir ao Brasil-Escócia e não viu qualquer nave espacial. Também não deu por ninguém a ser raptado. Mas vislumbrou-se, durante 20 minutos, um “ex-extraterrestre”. O “menino Ney” já não é um alien, mas continua a viver entre as estrelas.

O camisola 10 da seleção brasileira regressou. O estádio reagiu em festa e não tirou os olhos do jogador que, apesar do momento de forma, continua a encantar em cada palco que pisa. Frente aos escoceses, Neymar foi jogador de equipa. Atacou, defendeu, assumiu bolas paradas e até rematou à baliza. No fim, rodeado por câmaras, chorou e abraçou a família.

A previsão da “Vó Bahiana” não se concretizou, ainda assim, há provas claras que Neymar continua a ser de outro planeta, pelo menos na cabeça dos brasileiros.

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▲ Neymar sobe com a equipa ao relvado do Hard Rock Stadium durante o aquecimento

FIFA via Getty Images

Um estádio a exigir Neymar

No Hard Rock Stadium, em Miami, o Brasil jogou praticamente em casa. Dos 64.478 adeptos presentes nas bancadas, praticamente 80% vestiam de amarelo e verde. Foram, por isso, muito audíveis os cânticos dos brasileiros durante todo o jogo.

No inicio da partida, ainda antes dos golos, os gritos eram de apoio à equipa. Assim continuaram durante todo o primeiro tempo que terminou com o Brasil a vencer por 2-0 com golos de Vinicius Júnior. Na segunda-parte, assim que a equipa subiu ao relvado, os cânticos passaram a ter apenas uma palavras: Neymar.

Foi assim várias vezes. Aconteceu ao intervalo, ao minuto 51, aos 54’ e aos 59’. Ancelotti fez ouvidos moucos. Já tinha 4 jogadores a aquecer, e nenhum tinha nos calções o número 10. Aos 60’, houve festa – terceiro golo do Brasil, marcou Matheus Cunha.

Foi nesse momento que Ancelotti considerou que o resultado e apuramento em 1º lugar no grupo estavam seguros. Já podia dar ao povo brasileiro a prenda que queriam. Ainda antes de o jogo retomar após o golo, depois de Matheus Cunha abraçar Neymar na linha lateral, o selecionador do Brasil esperou que o camisola 10 se sentasse no banco para depois lhe fazer sinal.

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▲ Neymar no aquecimento, minutos antes de entrar

FIFA via Getty Images

O estádio percebeu logo. Foi festejado como um golo e era apenas Neymar a correr com um sorriso rasgado para a zona de aquecimento. O cântico voltou e até os escoceses se juntaram à festa.

Na linha lateral, Neymar aquece com os colegas enquanto acena e sorri para as bancadas. Parece uma criança a viver um sonho. Naquele rosto alegre carrega o esforço que fez durante semanas para chegar este momento. Os meses de treino para apurar a forma física. A preparação muscular para resistir ao desgaste das lesões. A paciência para suportar as críticas. O estádio sabe disso e tem na memória os lances geniais do craque que encantou os relvados.

Aos 67’ o jogo é interrompido para a pausa de hidratação. Nesses momentos os escoceses aproveitam sempre para tocar gaita de foles. Interpretam o mítico olé, olé, olé, olé. Os brasileiros cantam: “olé, olé, olé, olé… Neymar, Neymar”. É como se não houvesse mais interesse no jogo da 3ª jornada do Mundial. Agora, com o resultado controlado, só Neymar importa.

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▲ Ancelotti conversa com Neymar antes de colocar o jogador em campo

Getty Images

O aquecimento de camisola 10 do Brasil dura 11 minutos. Aos 71’’, Ancelotti percebe que chegou a hora e chama Neymar. Os adeptos gritam e aplaudem. A conversa com o treinador dura menos de 20 segundos e ainda aos 71’ Neymar está pronto para entrar em campo. Vai esperar ainda cerca de quatro minutos, a Escócia está no ataque e conquista dois pontapés de canto consecutivos.

Aos 76’ sobe a placa. Sai Matheus Cunha, entra Neymar. É a loucura nas bancadas. Quase três anos depois, Neymar volta a vestir a camisola canarinha. Ninguém fica de pé e e o estádio divide-se entre aplausos e telemóveis ao alto para registar o momento para posteridade.

Nas bancadas, outros craques aplaudiram o regresso do menino que fez sonhar o Brasil na última década e meia. Ronaldinho, Ronáldo Nazário, Kaká, Roberto Carlos, Rivaldo, Bebeto, Cafú e Romário foram vistos nas bancadas. As estrelas alinharam-se para o momento em que o alien voltou a pisar o relvado.

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▲ Neymar entra em campo aos 76 minutos de jogo

AFP via Getty Images

20 minutos de compromisso

Neymar foi durante anos o expoente máximo da irreverência futebolística, mas no jogo frente à Escócia vai mostrar que é um jogador diferente. O estádio é que ainda não sabe disso.

Um minuto depois de entrar, faz um passe curto na zona do meio campo, uma tabelinha. Segundos depois, as bancadas voltam a cantar por ele. Aos 77’ faz o primeiro drible, não sai como quer, a bola perde-se no corredor central. Ao minuto 78’ constrói a primeira jogada de perigo desde que está em campo. Do lado esquerdo do relvado desmarca Vinicius Júnior que corre até perto da pequena área e remata para defesa apertada de Angus Gunn.

Seria assistência de Neymar, não entrou. Dá canto para o Brasil.

A partir do momento em que está no relvado, é o camisola 10 brasileiro que assume todas as bolas paradas do lado esquerdo. O primeiro acontece nesse minuto 78 e da tribuna de imprensa escuta-se um jornalista brasileiro a pedir arrojo: “bate direto Ney!”.

É curioso testemunhar a forma como a imprensa brasileira vive o jogo e o regresso do craque de mundiais passados. Neymar não “bate direto” e escolhe cruzar para o centro da área. Não dá em nada, corta a Escócia.

Sem a velocidade e agilidade de outros tempos, Neymar continua a ensaiar dribles pelo lado direto (aos 79’) e na zona central (aos 81’). Nenhum tem sucesso. Nos dois a bola acaba por se perder em ressaltos ou em passes para o lado.

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▲ Neymar prepara-se para tentar driblar os escoceses

FIFA via Getty Images

Foi nesse momento que Ancelotti quis dar mais uma prenda aos adeptos brasileiros. Aos 82’, Endrick entrou para o lugar de Rayan e o Brasil passa a ter um tridente ofensivo que entusiasma o povo canarinho. Vinicius Júnior à esquerda, Endrick à direita, Neymar ao centro.

Apesar das investidas no ataque, Neymar também defende. Joga para a equipa e nota-se que tem a lição bem estudada. Nas bolas paradas da Escócia, Neymar assume a entrada da grande área e aos 90+1’ é ele o único homem de amarelo na barreira quando a Escócia bate um livre frontal que acabou por passar por não levar perigo à baliza de Allison.

Antes disso, nos cinco minutos antes dos 90’, Neymar está em jogo várias vezes. Primeiro bate dois cantos. Aos 85′ sem perigo, com a Escócia a aliviar novamente pela linha final e aos 86′ cruza para o segundo poste onde estava Gabriel Magalhães que remata em força, mas vê a tentativa bloqueada por um escocês.

Aos 88’, Neymar é carregado em falta por Ryan Christie quando conduzia a bola para o ataque pelo lado esquerdo. O escocês vê o cartão amarelo. É o camisola 10 que bate o livre. Cruza para a área e despacha a Escócia. O Brasil segura o ressalto e é Neymar que termina a jogada com um remata à baliza. Segura Gunn, foi à figura.

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▲ Neymar bate um livre frente à Escócia

Europa Press via Getty Images

O árbitro deu seis minutos de compensação e nesse tempo Neymar mostra o compromisso com a equipa. Não consegue correr desenfreadamente para o ataque, nem consegue perseguir um adversário em velocidade. Mas quando o jogo está organizado, Neymar sabe onde deve estar.

Aos 90+3’ é Bruno Guimarães que faz um passe com demasiada força que seria para o camisola 10 brasileiro bem posicionado à entrada da área e ao minuto 90+5  trabalha defensivamente até ao limite para impedir um cruzamento escocês. Neymar faz carrinho para tentar cortar o lance. Não consegue, a bola passa, Scott McTominey remata sozinha, mas Alisson segura com uma ótima defesa.

No último lance da partida, Neymar ainda desmarca Vinicius Júnior do lado esquerdo, mas o lance acaba sem perigo para a baliza escocesa. Segundos depois o árbitro apita. Estava cumprido o regresso. Sem brilho nem magia. Não marcou, não assistiu, mas cumpriu. Foi mais um a ajudar a equipa e enquanto esteve em campo trabalhou no ataque e na defesa.

Tocou 24 vezes na bola, rematou uma vez à baliza, tentou quatro dribles, mas teve sucesso em apenas um, bateu três pontapés de canto e um livre. Jogou 20 minutos no relvado do Hard Rock Stadium. Foi um regresso que ainda não permite uma repetição da frase que Ronaldo gritou na véspera: “I’m Back!”

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▲ Neymar agrece apoio das bancadas no fim do jogo

FIFA via Getty Images

A dificuldade de tirar Neymar do relvado

Assim que o árbitro apitou para o final do jogo começou um novo espéctaculo. O Brasil conseguiu o apuramento e o primeiro lugar do grupo C, mas essa festa já tinha sido feita. Ao intervalo os brasileiros estavam apenas interessados na possibilidade de goleada e com a entrada de Neymar. Confirmou-se a segunda e, por isso, o final do jogo foi mais um episódio de euforia com o camisola 10.

O melhor em campo foi Vinicius Júnior, que marcou dois golos, só que as câmaras que sobem ao relvado no final dos jogos focaram-se no jogador que esteve em campo apenas 20 minutos e que acabou por não ter grande destaque na exibição do Brasil.

Neymar fica com todos os holofotes. É filmado a abraçar Vini e a cumprimenta escoceses. Ficam duas câmeras de televisão em cima dele e alguns fotógrafos. Neymar cumprimenta os árbitros, agradece a Ancelotti, fala com os colegas de equipa, acena para a bancada e consola os adversários. Sempre rodeado por câmaras.

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▲ Neymar em lágrimas no final do jogo com a Escócia

Getty Images

Depois da agitação do final do jogo, o “menino Ney” caminha lentamente para bancada e leva as mãos aos olhos. Tenta conter as lágrimas, mas não consegue. Visivelmente emocionado, sozinho, mas com os colegas de equipa uns metros mais atrás, começa a encaminhar-se para a bancada. Vê o filho. Chama-o e pede a Davi Lucca para chamar o resto da família. Espera alguns segundos até que surge a esposa, Bruna Biancardi. Carrega ao colo as duas filhas, Mavie e Mel. Esperam uma terceira filha da gravidez que foi anunciada este mês.

Tudo isto acontece com milhares de adeptos nas bancadas. Não querem perder este momento e continuam a filmar e a gritar o nome de Neymar. Nesta altura já Vinicius Júnior saiu do relvado e alguns jogadores que esperavam pelo camisola 10 começam a fazer o mesmo. As câmaras não largam Neymar. Este momento dura 12 minutos. Praticamente metade do tempo que esteve em campo.

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Depois, já com o rosto sem lágrimas, Neymar aproxima-se de outra bancada, aplaude para agradecer o apoio e finalmente começa a caminhar para o balneário. Deixa o relvado 14 minutos após o apito final. No momento em que chega ao túnel tem ainda milhares de adeptos à espera dele e é recebido com vénias e telemóveis em riste.

Está concretizado o regresso do menino que fez o Brasil sonhar nos últimos anos. A exibição foi pálida, mas ninguém no estádio ficou preocupado com isso.

"Ele, pelas suas qualidades, pode ajudar a equipa nesse Mundial. Neymar não precisa de motivação para jogar, nenhum jogador precisa disso para jogar com a camisa do Brasil, e com Neymar é o mesmo. Tem 34 anos e tem a mesma paixão que um menino tem para jogar pelo Brasil”
Ancelotti, selecionador do Brasil

De “decisivo” a “ajudante”

Já com toda a equipa fora do relvado começam as reações ao que aconteceu no relvado. Ancelotti foi o primeiro a falar. O selecionador brasileiro elogiou o desempenho da equipa e mostrou-se satisfeito com o apuramento em primeiro lugar. Depois, explicou a decisão de dar minutos ao camisola 10: “Teve a oportunidade de jogar porque merecia. Trabalhou e treinou para recuperar com muito profissionalismo. Ele, pelas suas qualidades, pode ajudar a equipa nesse Mundial”.

Ainda a falar de Neymar, elogiou a exibição: “Jogou bem os poucos minutos que jogou. Neymar não precisa de motivação para jogar, nenhum jogador precisa disso para jogar com a camisola do Brasil, e com Neymar é o mesmo. Tem 34 anos e tem a mesma paixão que um menino tem para jogar pelo Brasil”.

Vinicius também falou à imprensa depois do jogo. Apontou para uma equipa em crescimento e que ainda tem muita margem para evoluir neste campeonato do mundo. O jogador do Real Madrid elogiou o trabalho treinador e dos colegas de seleção. Foi, também, questionado sobre Neymar e não hesitou em responder: “É um momento muito importante para todos nós. Volta o nosso ídolo. Ele batalhou sempre para estar aqui connosco. Voltou depois de um tempo de lesão e espero que ele possa continuar a evoluir, a melhorar e a ajudar-nos no decorrer da competição, que é o mais importante.

É este o novo papel de Neymar. Em campo tornou-se em mais um “ajudante” e deixou de ter o papel principal. Nas bancadas e nos ecrãs a situação é diferente. Neymar continua a ser o centro das atenções e garante que quer mais.

Na zona mista do Hard Rock Stadium o Observador perguntou ao camisola 10 do Brasil se está pronto para oferecer mais à equipa. A resposta foi curta e em passo apressado: “Com certeza, com certeza”.

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FIFA via Getty Images

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