Carlos Moedas acredita que se nada for feito para responder às reais necessidades das pessoas, se o poder for entregue aos “radicalismos” e às “teias dos interesses partidários ” o regime tal como o conhecemos terá o mesmo fim que teve a I República. Num artigo exclusivo para o Observador, o candidato à Câmara Municipal de Lisboa chega a sugerir que Alexandra Leitão é o rosto dessa mesma atitude de desligamento e negligência que, no passado, contribuiu para a desintegração da República.

Este ano, Marcelo Rebelo de Sousa entendeu que a cerimónia do 5 de Outubro não deveria ter os habituais discursos do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e do Presidente da República. Nesse sentido, o Observador desafiou os dois principais candidatos à Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas e Alexandra Leitão, a escrever o discurso que fariam se esta cerimónia tivesse lugar noutro ano que não um ano autárquico. Neste exercício virtual, Moedas recupera grande parte do argumentário que tem usado contra Alexandra Leitão e contra os adversários de esquerda, que se julgam, escreve o social-democrata, os “donos da democracia em Portugal”.

De resto, Carlos Moedas aponta diretamente o dedo ao PS e acusa aquele partido de ser responsável por tudo o que ficou por fazer em matéria de regulação da imigração, no domínio da habitação, na elevada carga fiscal e na criação de bolsas de insegurança na cidade. Para o atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o PS é hoje incapaz de perceber as reais necessidades dos portugueses e dos lisboetas em particular.

“Foi precisamente por não corresponder às necessidades e expetativas das pessoas que a Monarquia novecentista caiu; e foi também por isto que a República se desintegrou. A classe política tinha falhado para com as pessoas. Hoje temos esta missão clara: responder aos problemas das pessoas. Olhos nos olhos. Sem medos. Sem cair nas ilusões dos radicalismos e nas teias dos interesses partidários”, remata o social-democrata.

Leia aqui na íntegra o que seria o discurso de Carlos Moedas nesta cerimónia:

5 de outubro, 115 anos depois

Há 115 anos atrás Lisboa era palco de uma das maiores transformações na história portuguesa: a implantação da República. No entanto, poucos anos depois de instaurada, fervorosos republicanos avisavam sobre a desvirtuação do seu propósito originário. Recordo em particular Leonardo Coimbra, um dos grandes filósofos portugueses daquele tempo e figura destacada do movimento da Renascença Portuguesa, que, perante o domínio de um partido único e da entrada na guerra europeia, alertava que a República não podia reduzir-se a um “simples formalismo político”.

O que tinha então acontecido a um regime novo que tanto prometia? Esta questão é fundamental hoje. Mais de meio século volvido do 25 de abril, não podemos deixar de fazer as mesmas questões sobre o regime em que vivemos, sobre uma certa descrença nos seus princípios fundacionais e uma desconfiança quase generalizada na classe política que fez crescer extremismos e populismos.

Porque é que falhou, então, a República instaurada em 1910? Porque é que vingou, 16 anos depois, a Ditadura? Porque o radicalismo tomou e monopolizou o poder, tentando transformar o país à sua imagem, atropelando a realidade com a ideologia e ignorando os problemas reais das pessoas e do país.

Alertei para estes problemas em 2022, no meu primeiro 5 de Outubro como Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, quando disse que a República não podia ter sido a República de um só partido. Hoje parece que a história se repete, ainda que sejam outros aqueles que se acham os donos do regime. O atual Partido Socialista e o seu atual aliado Bloco de Esquerda julgam-se os donos da democracia em Portugal, e como donos da democracia pensam estar no direito de determinar aquelas que são as necessidades das pessoas. Movem-se não pelas preocupações reais das pessoas, mas sim pelo que a sua ideologia determina que devem ser as preocupações das pessoas. Vi isso em Lisboa durante 4 anos.

Vi-o na imigração, na imigração descontrolada cujo pai é o PS. Em Lisboa vemos hoje casas sobrelotadas, imigrantes a viver nas ruas porque chegaram sem quaisquer condições de humanidade, e redes de tráfico humano a proliferar. Alertei para este enorme problema logo em 2022. O PS tratou-me com os piores adjetivos possíveis. Hoje os portugueses sabem que há um problema com a imigração, mas esse mesmo PS nega que há – votou ainda a semana passada contra a nova Lei dos Estrangeiros. Assim se reafirmam como os promotores da imigração do caos.

Vi também aquela negligência em relação às preocupações das pessoas na habitação. O PS governou durante 14 anos e entregou uma média de 17 casas por ano aos lisboetas. Em apenas 4 anos, nós entregámos 2881 chaves, reabilitámos e construímos 2500 casas e apoiámos mais de 1200 famílias a pagar a renda. Agora o PS diz que vai resolver o problema da habitação. Será mesmo que podemos acreditar que quem criou este problema o vai resolver?

Na segurança passou-se exatamente o mesmo. Sei que muitos lisboetas se sentem preocupados com a segurança em certas zonas da cidade. O PS responde-lhes que são “perceções” – como se as pessoas estivessem a mentir, ou fossem talvez menos iluminadas do que as elites da Esquerda. Sempre fui claro quanto a este tema: Lisboa precisa de mais polícias na rua. Mais PSP’s, mais polícias municipais (e com mais competências!) e mais guardas noturnos. Já o PS continua a assobiar para o lado, ignorando que as pessoas querem mais segurança.

Também nos impostos vi esta falta de tato social do PS, que mostra exatamente o quão afastado está das pessoas. Os portugueses vivem afogados em impostos, por isso decidi devolver a totalidade da participação municipal de IRS aos lisboetas. São 5% de IRS que devolvemos. Hoje os lisboetas pagam menos impostos. É uma medida da mais elementar justiça. Quando apresentei esta medida ao executivo da Câmara, os parceiros políticos do PS votaram contra. E até hoje a candidata do PS parece querer que os lisboetas paguem mais impostos.

Na imigração, na habitação, na segurança, nos impostos fica visível a mesma característica: um afastamento brutal do PS e dos seus parceiros políticos da extrema-esquerda face às pessoas, às suas necessidades e expetativas. Ora, foi precisamente por não corresponder às necessidades e expetativas das pessoas que a Monarquia novecentista caiu; e foi também por isto que a República se desintegrou. A classe política tinha falhado para com as pessoas.

Hoje temos esta missão clara: responder aos problemas das pessoas. Olhos nos olhos. Sem medos. Sem cair nas ilusões dos radicalismos e nas teias dos interesses partidários. Não o fazer é um ato de irresponsabilidade, o mesmo que deitou a perder a República de 1910, uma República que tanto prometia e que tão depressa se desfez.

Nota: O Observador também desafiou Alexandra Leitão a revelar que discurso faria se fosse presidente da câmara municipal de Lisboa neste 5 de Outubro, mas a candidata da coligação “Viver Lisboa” não enviou até à hora de saída deste artigo.