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O atentado de 1937 contra Salazar e as consequências para o PCP /premium

O Observador faz a pré-publicação do livro "Os Anos Esquecidos: a refundação do Partido Comunista Português", com um excerto sobre o atentado de 1937 contra Salazar.

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“Os Anos Esquecidos: a refundação do Partido Comunista Português” é o livro que recupera a história do PCP no período compreendido entre os anos 1929 e 1939. Uma década em que este partido funda a estrutura que será decisiva para uma existência clandestina, que procura tanto o combate contra o regime então instalado — o Estado Novo — como uma luta pela afirmação dos valores comunistas em Portugal.

Arnaldo Madureira, economista, professor universitário e investigador de história moderna, é o autor do livro publicado pela editora Clube do Autor a 23 de outubro, e junta a recuperação de factos e depoimentos históricos com documentos inéditos para dar nova luz sobre um período fundamental de uma das mais importantes instituições políticas do século XX português.

O Observador faz a pré-publicação de “Os Anos Esquecidos” com um excerto que regressa ao atentado do qual Salazar escapou ileso, em 1937, e que resultou numa série de manobras, investigações e detenções de membros do PCP.

O livro é colocado à venda a 23 de outubro

O calendário não parou. Na manhã de 4 de julho de 1937, quando Salazar saía do carro que o levara até à porta de Josué Trocado, na Avenida Barbosa du Bocage n.º 96, no quarteirão situado entre as Avenidas da República e 5 de Outubro, ouviu-se uma forte explosão, acompanhada do voo de pedras e de terra da placa central daquela avenida e do estilhaçar de vidros de prédios vizinhos.

Como era costume aos domingos, dirigia-se o chefe do Governo para a capela daquela residência. A crer nos jornais do dia seguinte, sacudindo a terra que tinha no fato, virou-se para o chefe de gabinete, Leal Marques, e disse: “Vamos assistir à missa.”

Agitado por mãos hábeis, um fervor religioso tomou conta do país. Nesse mesmo dia, à casa do chefe do Governo chegaram cartões de visitas e telegramas de todos os pontos do continente. Subscreviam-nos, entre outras personalidades, o secretário da Presidência da República, todos os ministros, representantes da Câmara Corporativa, deputados, governadores civis e oficiais das Forças Armadas. A avalanche continuou nos dias seguintes, com mensagens enviadas das ilhas, das colónias e do estrangeiro. Dedicaram-lhe palavras de estímulo, confiança e admiração Mussolini, Adolfo Hitler, a rainha D. Amélia, o rei Afonso XIII, o presidente da Confederação Suíça, os bispos portugueses, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mário Pimenta Brandão, o cardeal Pacelli, futuro Pio XII, o presidente do Conselho de Ministros da Hungria, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Roménia, o embaixador do Brasil em Roma, o presidente da Ação Mundial das Mulheres contra o Bolchevismo e a Guerra, o governador civil de Leon, o bispo de Tui, etc.

No dia do atentado, a Legião e a Mocidade Portuguesas organizaram, pelas 23 horas, um imponente desfile, que saiu do Marquês do Pombal em direção à Rua Bernardo Lima, onde Salazar vivia. Aqui, depois de ouvir palavras de ordem o chefe do Governo disse: “Meus Senhores: Uma só palavra! Somos indestrutíveis, a Providência assim o destinou e na terra vós o quereis!” Como os presentes queriam mais, Salazar fez-lhes a vontade com estas palavras: “Agradeço-vos do fundo da alma esta manifestação, não por mim, que sou inacessível à vaidade e à glória, mas por consoladora certeza de que a nossa obra já não pode morrer.”

As manifestações e as missas de ação de graças fizeram caminho durante dias. Sem que lhe tivesse sido recomendado os governadores civis enviavam relatórios ao ministro do Interior com os nomes e os lugares que ocupavam no aparelho do Estado, dos que não estiveram presentes nelas. O de Bragança, por exemplo, indicava no seu relatório que “na grandiosa manifestação pública não foram vistos o juiz de direito da comarca, o delegado da Procuradoria da República e a conservadora do Registo Civil.

Já o Avante, da segunda quinzena de julho de 1937, era contraditório na sua apreciação. Se por um lado dizia "nada é mais compreensível que, num país onde um tirano é tão odiado como é Salazar, se cometam atentados contra a sua existência", por outro, afirmava que analisados os factos tornados públicos, "somos levados a concluir que se trata de mais uma monstruosa farsa levada a efeito pelo próprio fascismo".

Por se terem negado a assinar um telegrama que o corpo docente do Liceu de Viseu enviou, foram suspensos, e depois demitidos, Domingos Gusmão de Araújo, Ernesto Morais Júnior e José Marinho. Este viria a ser um reputado filósofo.

A imprensa afeta ao regime foi rápida nas acusações. Numa das suas peças, intitulada “O Infame Atentado de Ontem contra o Chefe do Governo”, o jornal O Século, do dia 5 de junho, afirmava:

“Só aos portugueses que lá fora, ligados a Valência, se entretêm a publicar notícias falsas e a escrever grotescos panfletos e mensagens em línguas estrangeiras e aos seus aliados vermelhos, podia convir o desaparecimento do homem cujo Governo salvou o país da ruína e o tornou modelo universalmente consagrado.”

Em contrapartida o Unir, órgão da Frente Popular Portuguesa, apresentou a seguinte interpretação dos factos:

“O simples relato denuncia a origem do suposto atentado. Se dermos crédito à versão oficial, espalhada pelos serviços de propaganda de Salazar, o atentado teria sido preparado na noite de sábado para domingo. Vários indivíduos teriam sido vistos na Avenida Barbosa du Bocage, dentro de um automóvel, que tinha os faróis apagados. Esses seriam os autores do atentado. Perguntamos: como é possível que, numa cidade tão fortemente policiada que, por vezes, se tem a impressão de que as próprias pedras colaboram com os esbirros, um grupo de homens, em atitude mais do que suspeita, pudesse preparar impunemente um atentado desta natureza? Tudo isto cheira a Polícia que tresanda.”

Já o Avante, da segunda quinzena de julho de 1937, era contraditório na sua apreciação. Se por um lado dizia “nada é mais compreensível que, num país onde um tirano é tão odiado como é Salazar, se cometam atentados contra a sua existência”, por outro, afirmava que analisados os factos tornados públicos, “somos levados a concluir que se trata de mais uma monstruosa farsa levada a efeito pelo próprio fascismo”.

As investigações

A PVDE, a PIC e a PSP iniciaram as investigações. A par das informações que recolhiam dispunham das que em catadupa lhes chegavam. Boa parte do país participava na caçada. Não houve automóvel e chauffeur de praça que não fosse suspeito, canalizador referenciado, hotel e pensão que não tivesse de entregar a sua lista de hóspedes, etc.

Chamado à diretoria da PVDE, o cidadão alemão Robert F. Schulz, diretor comercial da Companhia de Eletricidade Siemens, teve de explicar que o o que lhe mostraram era produzido pela sua firma na Alemanha e vendido em todo o mundo a revendedores e que os restos do aparelho explosivo encontrado no local do atentado pertenciam a uma bateria de automóvel.

No dia 10 de julho, numa altura em que a imprensa mantinha acesa a chama do atentado e os informadores engrossavam a lista dos suspeitos, o secretário-geral da PVDE, capitão Catela, informava os jornalistas de que os autores da façanha contra o presidente do Conselho tinham sido Francisco Horta Catarino, José dos Santos Rocha, condenados a pena maior por tentativa de assalto à Repartição de Finanças da Lourinhã e por homicídio voluntário do seu secretário, e António Conrado Júnior, que nas oficinas dos Caminhos de Ferro, em Santo Amaro, baleara o agente daquela Polícia que o fora prender.

Mal a notícia foi conhecida, caíram na sede da PVDE informações que davam conta da sua presença em vários locais do nordeste transmontano. Esta jogada forte transformou-se no seu contrário quando o Avante, da 4.ª semana de julho de 1937, numa precisão cirúrgica, no artigo “Morto Há Mais de Três Semanas”, afirmou:

“Para dar um tom de veracidade à farsa do atentado a Polícia tratou logo de descobrir os seus autores. Tratava-se de pessoas que, pela sua situação de perseguidos, não podiam apresentar-se para desmentir as acusações que lhes eram feitas. […] A Polícia falhou num pormenor… José dos Santos Rocha, um dos indigitados autores do atentado, morreu há mais de três meses em Espanha, como as emissoras espanholas noticiaram. É assim que se põe a nu, graças à grosseria dos seus verdadeiros autores, mais esta miserável maquinação do atentado.”

Apanhados por se suspeitar de que tinham participado nesta ação, foram presos pela PIC, no dia 28 de julho, Augusto Alves Macedo e o seu irmão Joaquim Alves de Macedo. A sua captura foi ditada pelo facto da Polícia de Investigação Criminal ter sabido que, dois dias depois do atentado, o primeiro procurara o irmão para lhe arranjar um quarto. No ato da captura ao Augusto foram encontrados desenhos a lápis, que, de acordo com a sua confissão, se referiam a centros de agitação comunista e a locais onde seriam distribuídos exemplares do Avante.

Como o Augusto Costa Macedo apenas se referiu a um João, e a PVDE não encontrou provas que o ligassem ao atentado ou às atividades comunistas foi julgado e condenado a oito meses de prisão correcional, expiada com a detenção sofrida, e à perda dos direitos políticos por cinco anos. A avaliação que a Polícia Política e o TME lhe fizeram mostrou-se errada, como veremos mais à frente, nomeadamente no final desta obra.

Nesta altura ainda não sabia a PVDE que a atividade política do Augusto Alves Macedo estava a ser acompanhada pelo legionário Mário Mota Cruz, a quem a empregada doméstica da mãe entregara um exemplar do Avante e um envelope de formato comercial, dirigido a José Crespo, Passeio Alegre n.º 3, Porto, que lhe surripiara.

Com 23 anos o Augusto era um falso estudante. Frequentava o ensino secundário enquanto outros, com a sua idade, terminavam o superior. Passara pelos liceus Passos Manuel e Camões sem sucesso. Esteve num colégio na Póvoa do Varzim para se matricular, de seguida, no Instituto Industrial de Lisboa, de cuja frequência desistiu. Procurou, depois, sem êxito, fazer o 7.º Ano [equivalente ao atual 12.o] no Liceu de Santarém.

Filho de uma viúva que vivia com dificuldades, o tio, coronel Augusto Costa Macedo, custeava-lhe os estudos e dava-lhe uma mensalidade de 500$00, importância razoável na época. Toda a família passou pelas instalações da Polícia Política. A mãe, o irmão António, primeiro-sargento cadete no Regimento de Telegrafistas, aquartelado na Penha de França, o irmão Joaquim, que geria a drogaria da mãe, na Avenida Conde de Valbom n.º 24, e estudava à noite, e as irmãs Emília Mariete e Maria de Jesus, sendo a primeira catalogadora da Maternidade Alfredo da Costa.

Como o Augusto Costa Macedo apenas se referiu a um João, e a PVDE não encontrou provas que o ligassem ao atentado ou às atividades comunistas foi julgado e condenado a oito meses de prisão correcional, expiada com a detenção sofrida, e à perda dos direitos políticos por cinco anos. A avaliação que a Polícia Política e o TME lhe fizeram mostrou-se errada, como veremos mais à frente, nomeadamente no final desta obra.

Como nos papéis apreendidos a Augusto Alves de Macedo houvesse referências a um empregado de Alhandra, por solicitação da PVDE a PIC iniciou uma investigação na área de Vila Franca de Xira. Como esta desse conta de que fora distribuído o Avante naquela vila, e suspeitasse de que ele tinha participado no atentado contra Salazar, no dia 22 de julho de 1937, prendia António Guerra, trabalhador, residente em A dos Loucos.

Outras prisões

Dois dias depois, a mesma Polícia enviava ao diretor da PVDE a informação de que, quando procedia a investigações sobre aquele atentado, fora-lhe entregue pelo secretário da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira um envelope de formato comercial, dirigido a Francisco Barata, Rua 5 de Outubro, Alhandra, em cujo interior estavam um exemplar do Avante, referente à 3.a semana de maio de 1937 e um suplemento do mesmo jornal.

Na pista de vários suspeitos, no dia 24 de julho de 1937, a PIC prendia em Alhandra o operário da Fábrica de Cimentos Tejo, Vitorino Marques, o ferroviário José Vieira, o Bailarino, que prestava serviço nas oficinas dos Caminhos de Ferro Portugueses, em Santa Apolónia, o comerciante Artur Fernandes Belo e o sapateiro João Silva.

Por mais perguntas que lhes fizessem, sempre negaram a sua participação no atentado ou em atividades comunistas, e quanto aos exemplares do Avante que as autoridades lhes encontraram não sabiam como lhes foram parar às mãos. Atendendo a estes factos e à prisão sofrida para averiguações, a PVDE, a quem foram entregues, propôs que fossem restituídos à liberdade. O TME aceitou.

Dois dias depois da prisão de Alves de Macedo caía nas mãos da PVDE Álvaro Cunhal, que esta Polícia sabia que estivera em Moscovo a assistir aos Congressos da IC e da IJC e que integrara o Comité Central da FJCP. Jovem habituado a reagir ao perigo não se perturbou nos interrogatórios, nem no decorrer do julgamento. Para quem se apresentava com um currículo tão pesado o TME foi de uma grande benevolência ao condená-lo à pena de três meses de prisão correcional, dada por expiada com a prisão sofrida, e na perda dos direitos políticos por cinco anos. Igualmente condescendentes foram o Ministério do Interior e a própria Polícia Política, o primeiro ao ordenar a sua libertação para o dia 21 de julho de 1938, e a segunda ao cumprir a determinação. Por razões menos fortes outros estavam no Tarrafal, ainda que a sua pena já tivesse expirado há muito.

Os falsos autores do atentado

Pressionado pela necessidade de apresentar os autores do atentado, no dia 22 de agosto de 1937, o diretor da PVDE, capitão Agostinho Lourenço, tomou a decisão de os dar a conhecer aos jornalistas. Eram eles: Manuel Francisco Pinhal, Jacinto Estevão de Carvalho, Alfredo de Assunção Elói, António Pires da Silva e José Horta. Em cada um existia o desejo de confessar o que a PVDE quisesse.

Quando elogiaram aquela Polícia, ninguém se preocupou se o faziam por terror ou por ser verdade. O próprio Chefe do Estado telefonou ao seu diretor para o felicitar.

Sabendo de ciência certa de que tinham sido eles, O Século, do dia 24 de agosto, afirmava:

“O atentado planeado e executado, felizmente sem resultado, contra o Sr. Presidente do Ministério é prova agrante do que foi afirmado. As confissões dos autores e executores dessa sinistra façanha demonstram, sem sombra de dúvida, que também neste país há gente para tudo, mesmo para tentar fazer em pedaços um homem eminente, que tem sido o reconstrutor da sua Pátria e ao bem da Nação tem consagrado, trabalhando sem descanso, os melhores anos da sua vida. Averiguou-se, fazendo falar os cinco celerados nas mãos da polícia, que não é difícil arrebanhar quem se preste às mais hediondas missões, cumprindo ordens de quem nunca aparece, para que a verdadeira urdidura dos atentados realizados jamais possa ser conhecida.”

A verdade veio ao de cima quando a direção da PVDE admitiu que havia perseguido, prendido, interrogado e condenado quem nada tivera que ver com o atentado. Contra o que seria normal não se ouviu uma palavra, nem se viu um gesto favorável a um pequeno grupo de homens que vira as suas vidas destruídas, bem como as das suas famílias.

O êxito da Polícia Política vigorou até o capitão José Baleizão do Passo, que já a servira, por intermédio do subsecretário de Estado das Finanças, Costa Leite [conde de Lumbrales], dizer ao ministro do Interior que, na sua avaliação, os autores do atentado não eram os que a PVDE apresentara. Parco em palavras, adiantava ainda que se mostrava disponível para ser ouvido em auto. O que aconteceu no dia 6 de outubro de 1937, no comando da PSP, onde Baleizão confirmava ao juiz que dirigia a investigação o que dissera ao subsecretário de Estado.

Conhecendo os seus limites, a Secção Política e Social da PVDE, que não participara na investigação, apoiou o ponto de vista de Baleizão do Passo. Lourenço e Catela interrogaram de novo os presos que mantiveram a versão. O pavor que sentiam era tal que quando os acarearam com os verdadeiros autores do crime não modificaram uma vírgula.

A verdade veio ao de cima quando a direção da PVDE admitiu que havia perseguido, prendido, interrogado e condenado quem nada tivera que ver com o atentado. Contra o que seria normal não se ouviu uma palavra, nem se viu um gesto favorável a um pequeno grupo de homens que vira as suas vidas destruídas, bem como as das suas famílias. Nada também se ouviu contra Lourenço e Catela quando admitiram que quem planeara e executara a ação contra Salazar fora Emídio Santana, Jaime Duarte, António Granja, Francisco Damião, Raul Pimenta e Vaz Rodrigues, e que antes dessa ação houvera “uma primeira versão frustrada, prevista para o dia 28 de fevereiro, com recurso a uma barragem de fogo sobre o ditador, para o que seriam utilizados dois carros. Um para estabelecer a confusão no trânsito, o outro para conduzir três indivíduos armados de metralhadoras.”

A direção tinha também de estar com a consciência pesada por ter ignorado a informação que os Serviços da Legião Portuguesa lhe enviaram, a 28 de abril desse ano, de que se preparava um atentado contra a vida de Salazar.

Prisões que nada tiveram que ver com o atentado

No dia seguinte ao da execução da tentativa contra a vida do chefe do Governo, agentes daquela Polícia prenderam António Lima, Guilherme Xavier Godinho da Fonseca, Deolinda da Conceição Barreiros e Pedro Viseu da Silva, a que seguiram, dois dias depois, as capturas de António Maria Ferreira da Cruz, José Apolinário Alexandre, Mário Palma, José Fernandes Barata, e, no dia seguinte, mais uns quantos.

A violência policial levou-os a fazer extensas declarações sobre a atividade partidária. A todos foram apreendidos manifestos, panfletos e jornais e, a alguns deles, dinheiro proveniente de quotizações e da venda de selos do Partido e do SVI.

Contaram como foram aliciados e quem os recrutou, o pseudónimo que usavam, a Célula a que pertenciam, o nome e o pseudónimo adotado pelos outros camaradas que a integravam, quem a controlava e onde reuniam. O mesmo fizeram em relação ao Comité de Zona que integravam. Graças à sua incontinência verbal a PVDE tomou conhecimento de outros factos.

As detenções prosseguiram nos dias seguintes. A Polícia apurou que quando se reuniam junto à Cervejaria Portugália, na Avenida Almirante Reis, no Jardim Constantino ou na Rua Morais Soares, combinavam as ações que iam executar e a forma como iam efetuar a distribuição de jornais e manifestos.

Em relação à Deolinda soube que, um ano antes de ser presa, Guilherme Xavier Godinho da Fonseca integrou-a na Secção Feminina do PCP, que mais tarde a apresentou a uma Maria Teresa, que era nem mais nem menos do que a Helena Faria, para casa de quem, na Estrada de Benfica, foi trabalhar, por se encontrar desempregada. Envolveu-se com um tal de Fernando, com quem viveu até 27 de março de 1937, dia em que procurou o Guilherme. Como já soubessem quem era, os agentes colocaram-lhe diante dos olhos a fotografia de Domingo dos Santos, destacado dirigente da FJCP. Era ele. Domingos dos Santos seria preso cerca de dois meses depois.

Ao dar conta dessa catástrofe, o Comité Central do PCP, no seu Boletim Interno cujo primeiro número saíra em fevereiro de 1937, dizia que a direção do Partido usaria da máxima severidade em relação aos seus membros que na Polícia fizessem revelações comprometedoras, ou confirmassem declarações feitas por outros, ainda que fossem exatas. Quem fizesse testemunhos desta natureza não podia continuar nas fileiras do PCP, sendo denunciado às massas como um traidor.

Embora tivessem sido referidos no decorrer deste processo, não constavam nele, por serem arguidos noutros, Manuel Pereira, Domingos dos Santos, Emídio Almeida dos Santos, Aníbal dos Santos Bizarro e Maria Helena Faria da Silva.

Informados de que numa taberna na Calçada da Picheleira n.º 113 se reuniam indivíduos que defendiam a subversão da ordem social, uma vez conhecidos os nomes de alguns e as suas moradas, guardas da Secção de Informações do Comando da PSP, no dia 19 de julho daquele ano, detiveram José da Silva Rato, seringueiro; Isaías Gomes, estucador; Manuel Marques de Oliveira, serralheiro; José Augusto Pereira da Silva, lavador de auto- móveis; e Edmundo Gomes Farelo, estojeiro.

As detenções prosseguiram nos dias seguintes. A Polícia apurou que quando se reuniam junto à Cervejaria Portugália, na Avenida Almirante Reis, no Jardim Constantino ou na Rua Morais Soares, combinavam as ações que iam executar e a forma como iam efetuar a distribuição de jornais e manifestos.

No dia 5 de agosto de 1937, a vida tornou-se mais difícil para os primeiros-cabos Alberto Carlos Borrego, Constantino Nunes e José de Carvalho, do Regimento de Infantaria n.o 2 [Abrantes], quando o subsecretário de Estado da Guerra, Fernando Santos Costa, determinou que fossem entregues à PVDE, afim de esta fazer “completa luz sobre o assunto”. Até então tinham vivido no clima pesado da prisão da unidade, por serem acusados pelo primeiro-cabo João Santo de o insultarem por pertencer à Legião Portuguesa, de lerem o Avante, e de estarem sujeitos a uma investigação dirigida pelo tenente Alfredo de Almeida Barros da Silva Ramos. Entregues à Polícia Política esta ouviu as pessoas indicadas na participação e aquelas que no decorrer das averiguações lhe pareceu necessárias ouvir, e procedeu a acareações.

Perante uma situação que lhes podia estragar a vida os acusados negaram as acusações. Reconhecendo de que não tinha argumentos suficientes para convencer o TME a condenar os réus, a PVDE fez acompanhar o processo com um exemplar do Avante. Porém, como não encontrou razões para o fazer o presidente do TME mandou-os pôr imediatamente em liberdade no dia 14 de janeiro de 1938.

No dia 19 de agosto de 1937, o chefe do posto da PVDE em Beirã [Marvão] comunicava à sede que em Valência de Alcântara estava preso um indivíduo, de nome Joaquim Pires Jorge, que fora grumete [músico] na Armada. Nada sabendo acerca da sua situação política pedia instruções quanto à conduta a seguir. Depois de ter dito que nada constava nos registos policiais sobre esse Pires Jorge, o subdiretor daquela Polícia corrigiu a informação. Recordaram-lhe aqueles que Pires Jorge conspirara ao lado dos grandes líderes republicanos, como Sarmento de Beires, para depois aderir ao PCP. No estrangeiro conviveu com Pavel, Álvaro Duque da Fonseca e outras figuras de menor expressão no Partido, e, em Portugal, entre outros, com Manuel Rodrigues Júnior, o Brás, que conheceu como o Pompeu. Ao tempo Jorge usava o pseudónimo de Sérgio. Por via dessas atividades fora já condenado várias vezes, a última das quais no dia 17 de julho de 1937. Quando a Polícia Espanhola o entregou às autoridades portuguesas, em princípio nada tinha a temer. Os dois anos de prisão correcional que o TME lhe conferira foram dados como expiados pela prisão sofrida.

Na sequência de ter encontrado, no dia 15 de agosto de 1937, uma pistola FN, um revólver Smith e uma grande quantidade de balas em casa de Augusto Gregório Xavier Mourato, no Campo das Amoreiras, n.º 14, 1.º, a PVDE chegou a um grupo de indivíduos que recebia, lia e divulgava o Avante. Entre eles estavam Adelino Pedroso, Eliseu Alves Batista, António Rodrigues Pereira, Fernando Machado Ferreira e Manuel da Silva Nunes, o Canário. A imprensa comunista que aparecia na Charneca do Lumiar e na Ameixoeira era levada para lá pelo Canário, que a recebia em Sacavém de um indivíduo que trabalhava na Fábrica de Loiças que existia nesta localidade.

Em relação aos que tinham praticado esse crime o TME só condenou o Eliseu a 24 meses de prisão correcional. Os outros foram mandados em liberdade. Já outro tratamento teve Augusto Gregório Xavier Mourato, que, por no seu currículo constar uma tentativa de assalto ao Forte da Ameixoeira e defender, amiudadamente, a aniquilação do regime, aquele Tribunal condenou-o a oito anos de degredo numa colónia à escolha do Governo. Diga-se que o Campo das Amoreiras se situava na Ameixoeira, localidade que integrava uma região que abastecia Lisboa de cou- ves, alfaces e outros legumes.

Na sequência de informações que lhe chegaram a PVDE apertou o cerco à zona oriental de Lisboa, por saber que a população operária que aqui trabalhava e/ou residia, bem como alguma que vivia da agricultura, recebia de braços abertos a propaganda comunista que lhe chegava, nomeadamente os jornais Avante e Solidariedade. Em média seriam distribuídos 1.000 exemplares por semana.

Oito dias depois de Xavier Mourato ter sido preso, acusado de distribuir exemplares do Avante no Matadouro Municipal onde trabalhava, Domingos Verso era capturado por guardas da PSP. Aos agentes daquela Polícia e da PVDE declarou que desconhecia o nome e a morada de quem periodicamente lhe entregava aquele jornal, apenas sabendo que trabalhava perto do Matadouro. Porém, a verdade acabou por vir ao de cima, como veremos um pouco mais à frente. Para já o Verso foi libertado.

Na sequência de informações que lhe chegaram a PVDE apertou o cerco à zona oriental de Lisboa, por saber que a população operária que aqui trabalhava e/ou residia, bem como alguma que vivia da agricultura, recebia de braços abertos a propaganda comunista que lhe chegava, nomeadamente os jornais Avante e Solidariedade. Em média seriam distribuídos 1.000 exemplares por semana.

Seguindo os passos de vários trabalhadores, a Polícia Política penetrou nas Células de diversas empresas, como as constituídas na Fábrica da Borracha, de Vítor C. Cordier, com sede na Rua do Açúcar, na Fábrica de Material de Guerra de Braço de Prata, na Fábrica de Estamparia de Cabo Ruivo, na Companhia Industrial Portugal e Colónias, na estação de Cabo Ruivo, da Companhia Portuguesa dos Caminhos de Ferro, e no Matadouro Municipal, nos Olivais.

A mesma polícia foi informada de reuniões no Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Armazéns de Vinhos e Correlativas do Distrito de Lisboa e no Sindicato Nacional dos Operários Manipuladores de Tabaco, onde se trataram assuntos do PCP e da Intersindical, e teve conhecimento de encontros de militantes daquelas Células com representantes do Comité de Zona n.o 4, na Rua Gualdim Pais, na Voz do Operário e noutros locais.

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