Em Coimbra, uma associação cultural tem mergulhado no passado da música tradicional regional — e nacional — para construir um futuro com memória. Graças às investigações, restauros, edições, eventos e muitas iniciativas que tem promovido, a MUSMUSCBR — Associação Cultural Museu da Música de Coimbra tem revertido a extinção de instrumentos musicais como a viola toeira, o guitarrinho, o bandolão ou o banjo português.
Instalados no Colégio da Graça, num espaço cedido pela Liga dos Combatentes, esta associação não tem ainda, de facto, um museu. Contudo, apresentam exposições temporárias e têm, em permanência, uma escola de música e um laboratório de restauro de instrumentos de cordas. A ambição passa por terem um espaço próprio que tanto seja museu como inclua as valências necessárias para todas as restantes vertentes da sua atividade.
Foi nesse sentido que apresentaram ao executivo da Câmara Municipal de Coimbra, que não foi reeleito nas mais recentes eleições autárquicas, um projeto arquitetónico para ocuparem e transformarem a estação de comboios Coimbra A, localizada no centro da cidade e desativada no início do ano. “Nas nossas reuniões já lhe chamamos a Estação da Música e esperamos ter em breve uma reunião com a nova presidente da câmara, Ana Abrunhosa, que visitou o nosso projeto e achou que tinha muito mérito”, conta um dos fundadores e principais dirigentes da associação, o músico e investigador Eduardo Loio.
“É um sítio que tem ótimas condições para ser adaptado, não perdendo a traça arquitetónica do edifício, e é onde temos a ambição de construir um futuro museu da música. Também queremos ter um auditório, porque andamos sempre a saltar entre vários sítios em Coimbra para apresentarmos espetáculos. Queremos ter um arquivo, um depósito, espaços de gravação, precisamos de escritórios, enfim, será sempre uma área bastante significativa e, neste caso, ficaria num sítio bastante central. Sabemos que Coimbra não é só procurada por aquele turista que se contenta ao observar as fachadas, também temos um turista que é intelectualmente mais exigente, por isso é que a Universidade de Coimbra é tão procurada. As pessoas precisam de outros estímulos e o Museu da Música de Coimbra, naquele sítio, seria o ideal.”
Instrumentos em vias de (des)extinção
Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, não faltavam em Portugal tunas (académicas e não só) e trupes de jazz que utilizavam instrumentos — sobretudo de cordas — que entretanto praticamente desapareceram. No pós-Segunda Guerra Mundial, com a expansão da música elétrica e uma crescente hegemonia cultural anglo-saxónica, a procura por vários destes instrumentos diminuiu acentuadamente. Por outro lado, a guitarra portuguesa de Coimbra — herdeira da famosa guitarra de fado de Lisboa e da guitarra de fado do Porto, hoje extinta e quase desconhecida — também se tornou dominante no circuito do fado, deixando para trás outros instrumentos.
▲ “Além dos instrumentos que estamos a tirar da extinção, queremos divulgar os repertórios desconhecidos e não utilizados”, explica Eduardo Loio, músico e investigador
“Por exemplo, durante o Estado Novo surgiu um instrumento que é o banjo português, que vem do banjo inglês e do francês. O Estado Novo nunca incentivou qualquer jingle comercial com este instrumento ou com o jazz. Eles investiam no fado, mas estas manifestações culturais externas não eram muito valorizadas. No entanto, os portugueses tinham estes estímulos culturais e transformavam músicas tradicionais e populares para os ritmos do chalk, charleston ou foxtrot”, conta Eduardo Loio.
“Temos encontrado partituras dos grupos de baile que eram as trupes de jazz. Tinham como objetivo tocar música de dança para as pessoas se divertirem e, pelo meio, faziam adaptações de músicas tradicionais portuguesas a estas novas linguagens. E, como estas coisas têm piada, apresentámos no Convento de São Francisco, numa iniciativa que é o Arrancado ao Esquecimento, o Foxtrot do Mondego. Gostamos muito de fazer esta investigação e divulgação.”
À medida que conhecem o projeto da MUSMUSCBR — Associação Cultural Museu da Música de Coimbra, várias pessoas têm contactado os investigadores para lhes cederem os banjos portugueses guardados há décadas em sótãos ou arrecadações, juntamente com fotografias e informações dos antepassados a quem pertenciam.
Se o banjo português tanto era tocado na zona centro do país como em Lisboa e no Porto, a viola toeira é especificamente de Coimbra. Tendo em conta as investigações que têm desenvolvido e os indícios que vão recolhendo, Eduardo Loio acredita que o fado de Coimbra começou por ser tocado com esta viola, que tanto era usada em circuitos mais intelectuais como populares, antes da invenção e disseminação da guitarra de Coimbra no final do século XIX. “Acreditamos que a guitarra portuguesa substituiu a viola toeira porque a guitarra, tecnicamente, era muito mais fiável, fácil de afinar e durava mais tempo. Além disso, como tem as cordas com maior tensão, projeta mais o som e não é tão tímida como a viola toeira.”
Outro dos grandes protagonistas do trabalho que têm feito é o guitarrinho de Coimbra. Este pequeno instrumento de cordas, que era muito usado por tunas, foi recuperado para se tornar na estrela de grupos como os Guitarrinhos do Mondego. José Rebola, mais conhecido por fazer parte dos Anaquim, tem sido um dos principais músicos dedicados a este instrumento — assumindo-se como um aluno sem professor, um autodidata em formação, uma vez que não há outra forma de aprender a dominar um instrumento que ficou perdido e esquecido no tempo.
“Além dos instrumentos que estamos a tirar da extinção, queremos divulgar os repertórios desconhecidos e não utilizados”, explica Eduardo Loio. “Também somos editora, por isso editámos recentemente o disco de Estaca Zero, em que o guitarrinho é o protagonista, com composições originais do José Rebola, que tem sido um dos principais guitarrinhistas do país — este termo é um neologismo. Também editámos o livro O Guitarrinho de Coimbra do Nuno Cristo, um etnomusicólogo que nos tem ajudado nas investigações, e este é o primeiro documento que explica como é que este instrumento surge no panorama musical português no fim do século XIX, a importância que teve, como é que viaja até ao século XX e por que ganha esta designação.”
A associação organiza ainda o Festival do Guitarrinho de Coimbra, cuja quinta edição se realizou neste mês de outubro, em que o principal objetivo é dar a conhecer o instrumento. Promovem concertos, palestras, debates, aulas abertas e exibem documentários. “Nos últimos dois festivais, criámos também uma nova modalidade em que emprestamos um guitarrinho a um músico que trabalha com instrumentos tradicionais portugueses e ele prepara um concerto de propósito para o último dia de festival.”
Apesar do quase desaparecimento, houve exemplares da viola toeira, do guitarrinho e do banjo português que sobreviveram até aos dias de hoje. O mesmo não se pode dizer de outros instrumentos, que os investigadores descobriram em fotografias e registos antigos, mas dos quais não se conhecem quaisquer amostras. É o caso do bandolão, um bandolim de grandes dimensões que é tocado como um contrabaixo. Uma fotografia da Tuna Comercial de Lisboa, captada em 1904 e que ilustra o instrumento, foi fundamental para a equipa desenvolver e construir aquilo a que chamam uma “réplica especulativa” — tendo em conta que não se conhecem bandolões que tenham sobrevivido ao longo do século XX.
“Ainda temos muitos itens nas nossas linhas de investigação, mas pelo que sabemos era muito usado em Lisboa e em Santarém, ainda não encontrámos vestígios do bandolão em Coimbra. É curioso porque a Gibson também fez na América uma espécie de bandolim gigante, a que eles chamam o mandobass, mas foi só nos anos 30, portanto o bandolão português precede-o três décadas.”
Outros instrumentos extintos estão prestes a voltar à vida pelas mãos da associação. “Sabemos que havia uma cítara baixo, portanto, uma guitarra portuguesa baixo. Também estamos a trabalhar na réplica especulativa desse instrumento. E temos várias fotografias da família dos guitarrinhos, em que um dos maiores é equivalente a uma bandola ou mandola de quatro cordas. Mas aquele que já estamos mesmo a construir é o bandoloncelo, de quatro cordas. Entretanto irão certamente aparecer outros.”
Além do futuro museu da música, pretendem fundar um instituto para obter linhas de financiamento para os investigadores darem continuidade aos processos de pesquisa, documentação, preservação e divulgação.
Os festivais, a ligação à natureza e as iniciativas de um passado que alimenta o futuro
Para Eduardo Loio, tudo começou com a ambição de ser músico e ao estudar guitarra portuguesa na Tuna Académica de Coimbra. Como também estava a tirar um curso ligado às artes plásticas, no qual produzia objetos tridimensionais, começou a encarar aquela “máquina de fazer música que é a guitarra de Coimbra” com os olhos de quem quer perceber como funciona, que história tinha e como tinha chegado desta forma ao presente.
“Felizmente, em Coimbra há um luthier fabuloso, o Fernando Meireles, que foi um ótimo professor para eu aprender a construir a guitarra de Coimbra.” Eduardo Loio foi fazendo, ao longo dos anos 2000, vários restauros de instrumentos. Teve a ideia de abrir um curso superior de construção de instrumentos, tal como existe em França ou no Brasil, mas acabou por não conseguir concretizar a ideia — na altura, em parceria com a Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco — em plena crise da Troika.
Acabou por fazer, como aluno, um curso de construção de viola beiroa. “E, durante a pandemia, pareceu-me uma tontice não experimentar fazer algo semelhante em Coimbra com a viola toeira, porque é a cidade que considero a minha casa.” Com uma sala cedida e uma turma de seis pessoas, construíram violas toeiras e lançaram as sementes para aquilo que viria a ser a MUSMUSCBR – Associação Cultural Museu da Música de Coimbra.
“Percebemos que, associado a este instrumento, havia muita matéria que poderíamos investigar, e dava-nos satisfação explorar um campo que era pouco estudado. Encontrámos coisas maravilhosas que acabámos por publicar, fizemos um grupo que é a Toeira Trupe, que ainda existe, e aí tocamos música revivalista. Encontrámos o guitarrinho de Coimbra, que também estava extinto, e outros instrumentos, para os trazer para o panorama musical da atualidade. Não queremos só fazer um revivalismo, em que tocamos música da época, queremos trazer estes instrumentos para uma estética contemporânea.”
▲ José Rebola (na foto da esquerda, em pé), mais conhecido por fazer parte dos Anaquim, tem sido um dos principais músicos dedicados ao guitarrinho
Considerando o tecido cultural da cidade, e o facto de “o fado ou a canção de Coimbra já estar extremamente bem estudado”, havia outros fenómenos a que dar atenção e sobre os quais ninguém estava a investigar e a desenvolver trabalho. Decidiram então, em busca de apoios, fundar a associação sem fins lucrativos em 2019, após quatro anos enquanto grupo informal de interessados por estas temáticas.
“Temos consciência de que precisaremos sempre do apoio do nosso principal parceiro, a Câmara Municipal de Coimbra, da comunidade intermunicipal, e que teremos de fazer isto com apoios europeus. Da nossa parte, o que temos de fazer é continuar a investigação e as exposições temporárias, que fazemos tanto no Colégio da Graça, nos festivais e quando somos convidados para as mostrar fora de Coimbra. Uma das valências que também nos dá muito valor aos olhos da cidade é o facto de levarmos o museu às pessoas.”
Têm um serviço educativo, direcionado para os alunos do primeiro ciclo, em que os músicos ligados à associação visitam escolas, apresentam estes instrumentos raros e demonstram canções de repertórios da época. No sentido inverso, também recebem visitas de escolas no espaço que ocupam no Colégio da Graça. “Têm oportunidade de visitar o laboratório, podem até serrar algumas peças, lixar algumas madeiras, é uma atividade que deixa os miúdos bastante surpreendidos e entusiasmados.”
Além disso, fazem visitas a lares da terceira idade com o mesmo intuito de divulgar o trabalho feito em torno destes instrumentos tradicionais. “O que não estávamos à espera era que alguns dos utentes dos lares conhecessem este repertório antigo. Alguns até trouxeram quadras que não estavam registadas, e que estamos a registar. Agora também vamos abrir esta possibilidade às universidades séniores.”
Ambas as iniciativas, de ligação aos mais jovens e aos mais idosos, são coordenados pelo músico Miguel Calhaz — ele que colocou nas mãos da associação a reabilitação de um velho rabecão de três cordas, como nos tempos antigos se chamavam os contrabaixos, que sempre se habituou a admirar na casa do povo da Sertã, vila onde cresceu. Hoje, esse instrumento do século XIX, totalmente restaurado, é uma das estrelas da coleção da associação.
São várias as outras iniciativas que desenvolvem. Organizam em Coimbra o festival mensal Instrumental, itinerante e com curadoria de José Rebola; o IndieVidual, que se foca nas artes visuais contemporâneas em diálogo com a música; ou o Festim Percebes? Com Cordas?, um festival de música e gastronomia na Casa do Sal da Figueira da Foz, que também se preocupa em envolver uma série de plantas locais como forma de promover a consciencialização ambiental.
Têm vindo ainda a desenvolver um projeto com o nome Biodiversidade em Baixo, com a curadoria do músico e ecólogo Joel Palhas, que associa estes instrumentos em vias de extinção — neste caso, apenas instrumentos baixos — às plantas autóctones que também se encontram sob ameaça.
“Os músicos escolhem uma espécie ameaçada e vão para o terreno fazer música inspirada nessas plantas”, explica Loio. “Para depois divulgarem as espécies, as áreas em que crescem e em que estão ameaçadas, e isto são exercícios de cidadania. Agora estamos a planear um projeto que se vai chamar da Praia à Raia, da Tamargueira à Fonte da Lameira, e que vai envolver pequenas associações culturais nesta cintura central do país, da Figueira da Foz a Almeida, na Guarda. Tem como objetivo a consciencialização em relação ao flagelo que são os incêndios. O projeto chama-se Futuro da Cinza e queremos consciencializar as populações para a importância das árvores sapadoras que possam conter os incêndios. Serão estímulos criativos pluridisciplinares, músicas com letras que possam falar destes temas; ou imaginemos que uma associação ligada à dança faz um bailado em que o cenário está todo negro e foca-se nesta realidade. É a arte ao serviço dos cidadãos.”
Pretendem gravar um álbum com uma importante componente visual, de fotografias e performance, mas também um documentário, sendo que a iniciativa só estará concluída em 2026, depois de um primeiro ano de recolha de estímulos criativos. “Queremos mostrar as dificuldades e também as coisas boas que os criadores encontram no campo, para consciencializar para estas espécies no nosso país que estão em vias de extinção e que podemos salvar. Depois também teremos um catálogo e várias publicações, mas o principal estímulo é a música.”
O Observador viajou a convite do Cu.Co — Encontro de Jornalismo Cultural de Coimbra