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PEDRO_ROCHA

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"O clube vai aceitar a proposta mas a administração da SAD vai abdicar do aumento salarial", garante Salgado Zenha /premium

Francisco Salgado Zenha, vice e administrador do Sporting, esteve no "Nem tudo o que vem à rede é bola" da Rádio Observador e falou da crise desportiva, da reestruturação financeira e da AG da SAD.

Na véspera de uma importante Assembleia Geral da SAD do Sporting, o vice-presidente com a responsabilidade da área financeira dos leões e também administrador da SAD esteve na Rádio Observador a falar sobre a situação atual do clube, o futuro da atual Direção, os contornos do empréstimo obrigacionista feito, a reestruturação financeira que está a ser negociada e ainda a proposta de aumento da remuneração do Conselho de Administração. Francisco Salgado Zenha sublinhou que o Sporting, “se Deus quiser”, será “eterno”, e garantiu que a equipa liderada por Frederico Varandas pretende cumprir o mandato para o qual foi eleito há pouco mais de um ano. E revelou ainda que os elementos do Conselho de Administração vão abdicar do aumento proposto pela Comissão de Acionistas. A entrevista, que pode ouvir aqui na íntegra, de Francisco Salgado Zenha ao programa “Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola”.

Na primeira entrevista que deu ao Observador, ainda enquanto candidato, colocou muito a tónica numa questão que tinha a ver com a otimização de custos, que era importante, mas onde a sustentabilidade vinha sobretudo do aumento de receitas. Dentro deste contexto desportivo, é possível encontrar essa sustentabilidade através do aumento das receitas?
Sim. Nós temos a consciência de que no futebol, e no Sporting em particular, obviamente que as receitas estão extremamente dependentes também dos resultados desportivos. No entanto, é preciso criar a estrutura e as condições para, num momento mais negativo do desporto, mitigar uma eventual redução dessa receita e, num momento mais positivo, otimizar essa receita. E foi isso fizemos. Aliás, falando em números, quando chegámos tínhamos já uma quebra na receita de gameboxes e bilheteira entre os 20% e os 30%, tínhamos também uma quebra no merchandising já significativa, no final do ano demos a volta praticamente a tudo e este ano crescemos a nível de merchandising em termos homólogos. Isso foi feito não porque o ano passado começou por ser um ano fácil – não que o princípio do nosso mandato tenha sido fácil porque não foi, foi desafiante –, porque tivemos momentos desportivos difíceis, mas acabámos por dar a volta e por preparar logo bem essas alterações, por criar condições para dar a volta, para pôr parte da máquina a funcionar com os poucos recursos que tínhamos e conseguimos logo dar a volta de forma a otimizar, lá está. Potenciar quando tivemos os resultados desportivos melhores e mitigar naquele momento de janeiro/fevereiro em que as coisas foram muito difíceis do ponto de vista desportivo, principalmente no futebol.

Mas quanto mais tempo é que o Sporting aguenta com estas crises cíclicas que passam do plano desportivo, e especificamente do futebol, para todas as áreas e que acabam por dar origem a críticas mais institucionais?
É óbvio que a instabilidade não ajuda o Sporting, não pode ajudar. E é preciso ser sério relativamente a isso. A instabilidade não vem sequer do mandato do ex-presidente Bruno de Carvalho, é uma coisa que já vem de há muito tempo no Sporting. E por alguma razão não somos campeões nacionais de futebol profissional já há muitos anos. O que tem que acontecer é que têm de se criar condições para dar estabilidade ao Sporting e a quem está à frente do Sporting. Não pode acontecer, num momento mais negativo do ponto de vista desportivo – no futebol, porque ainda ontem [domingo] vencemos a Taça Continental do hóquei e, por exemplo, trouxemos de volta o basquetebol profissional –, pôr em causa todo um plano e toda uma estratégia definidos por uma Direção. É óbvio que a estabilidade é fundamental para tornar o clube sustentável. Porque se cada vez que uma bola bate na barra ou há um momento mais negativo, uma onda mais negativa, se muda tudo e se põe em causa todo o plano de estratégia e até o plano desportivo, então claro que as coisas vão ser mais difíceis.

E quanto tempo é que o Sporting vai aguentar a situação atual?
Se Deus quiser, o Sporting é eterno. O Sporting vai aguentar, com certeza, se todos estiverem unidos e se todos trabalharem no mesmo sentido. E o Sporting tem todas as condições para ser sustentável. Porque podia não ter. E uma coisa que tem sido apanágio do Sporting nos últimos anos e nos últimos tempos é ter entrevistas negativas, destrutivas e pessimistas sobre a situação do Sporting – e esta Direção, e eu em particular, temos lutado contra isso. Não sou assim. Tenho uma posição construtiva e otimista. Acredito que o Sporting tem condições para ser sustentável a longo prazo. Tem condições para ser eterno. Há ferramentas para o fazer e temos um plano para isso.

E esta Direção, aguenta quanto tempo?
Esta Direção tem um mandato que quer cumprir. Aliás, acho que devia ser assim com todas as direções, salvo casos muito específicos, como aconteceu no verão passado, onde me parece óbvio que não existiam condições para continuar. De resto, acho que, em teoria, todos devem cumprir mandatos e aquilo que espero de nós é que cumpramos o nosso mandato e, mais do que isso, o que quero é entregar aos sócios aquilo que nós prometemos. E olhando um bocadinho para aquilo que foi o nosso programa eleitoral, e em particular no meu pelouro, nós temos cumprido exatamente aquilo que lá estava. E se algumas vozes dizem que nós não temos estratégia nem temos um rumo definido, acho que ter um programa eleitoral que cumprimos em parte em menos de um ano de mandato depois de cá estarmos e percebermos que a realidade era, em parte, aquilo que esperávamos que fosse, prova que nós sabemos exatamente para onde queremos ir.

Amanhã [terça-feira] é dia de Assembleia Geral (AG) da SAD do Sporting. Já se percebeu que vai ser diferente, já que algumas pessoas até estão a comprar ações para poderem participar. Por um lado, o que é que espera desta AG, que pode ter um contexto diferente? Por outro, o que é que acha sobre as críticas ao aumento proposto pela Comissão de Vencimentos à atual administração?
Primeiro, eu sou completamente a favor de que exista participação nas Assembleias Gerais. Independentemente de existirem pessoas que compram ações só para ir participar e para se fazerem ouvir. Tenho consciência de que vai ser uma AG mais participada do que habitualmente e fico contente por isso. Espero que não seja só quando nós estamos a passar um período negativo do ponto de vista desportivo que as pessoas decidam ir lá participar. Acho que devem participar sempre e quando são momentos mais positivos também devem ir. Não sou contra, sou completamente a favor e acho que deve ser construtivo. Mas insisto que deve ser construtivo, é esse o objetivo e é por aí que queremos ir. Não queremos críticas só para se aproveitarem do momento. Deve haver união e devemos estar todos na mesma página. Se não estão satisfeitos com a nossa forma de atuar nalgumas coisas, devemos ouvir e tentar melhorar. Mas que a crítica seja construtiva e que seja interna e eu acho que as Assembleias Gerais são os sítios certos para essas críticas.

Acredito que o Sporting tem condições para ser sustentável a longo prazo. Tem condições para ser eterno. Há ferramentas para o fazer e nós temos um plano para isso.

E em relação à remuneração?
Depois, quanto à remuneração. É importante esclarecer este ponto porque, no fundo, houve uma convocatória em que existe uma proposta de aumento de salários para a administração e é só isso que fica e esquece-se tudo o resto que está à volta. Em primeiro lugar: há uma Comissão de Acionistas, independente, que faz a proposta e que define com base numa análise daquilo que é, ou daquilo que deve ser, a política de remuneração do Conselho de Administração. Segundo: essa proposta é feita e está na convocatória com base num estudo feito pela Mercer que foi feito no Sporting e na Sporting SAD para ajustar os salários de todos os colaboradores e não só da administração. Exatamente porque queremos fazer, do lado dos colaboradores, aquilo que achamos que faz sentido e aquilo que é coerente com o que queríamos, que é profissionalizar a estrutura. E, portanto, não podemos ter jogadores de futebol muitíssimo bem pagos e depois ter toda a gente que está nos bastidores e que possibilita o bom desempenho dos jogadores no campo insatisfeita, desmotivada e mal paga. Não podemos fazer isso e temos de ajustar. E foi com base nisto que a Comissão de Acionistas agarrou neste estudo – e, com certeza, noutras coisas – e definiu uma política que considera mais adequada. E, para dar uma ideia, a proposta da Comissão de Acionistas para a remuneração do Conselho de Administração é muito inferior àquilo que é o benchmark do mercado. Ainda assim, nós achamos que 1), não estamos aqui por dinheiro; 2), salientar que no ano passado recebemos efetivamente menos do que o Conselho de Administração anterior. Aplicámos do prémio variável, porque para nós não fazia sentido nenhum receber o mesmo que os jogadores do futebol. O que acontecia com o Conselho de Administração anterior é que recebia o mesmo que o Bruno Fernandes. No ano passado poderíamos ter recebido o mesmo variável do que o Bruno Fernandes e não achámos que isso fizesse sentido, abdicámos. E é preciso relembrar que no ano passado recebemos menos do que aquilo a que tínhamos direito. E isso prova que não estamos aqui pelo dinheiro. O que está a ser feito pela Comissão de Acionistas é uma proposta para estabilizar e ajustar o salário do Conselho de Administração àquilo que é o mercado. E isso vai ao encontro da nossa política de atrair talento para o futuro.


Mas vou dizer uma coisa e vou dizer aqui em primeira mão. O clube vai aceitar essa proposta mas o Conselho de Administração da SAD vai abdicar desse aumento. Não vai receber nem mais um cêntimo do que aquilo que recebeu no ano passado. Exatamente porque não está aqui por dinheiro. Agora, há uma coisa que é certa: nós vamos ser coerentes com a nossa política. Têm que existir ajustamentos nos bastidores, nos administrativos, nos quadros, nos colaboradores e no Conselho de Administração. Estamos de acordo com a Comissão de Acionistas. Nós, clube, acionista, estamos de acordo com a Comissão de Acionistas. No entanto, deixamos claro que vamos abdicar porque não é o momento e não queremos passar a mensagem de que estamos aqui por dinheiro, porque não estamos.

Que cenário vai fazer amanhã [terça-feira] sobre a atual situação financeira do Sporting depois de mais um ano em que voltou a dar prejuízo? Existe necessidade para as contas de fazer uma operação com Bruno Fernandes já em janeiro?
A SAD do Sporting poucas vezes teve resultado líquido positivo… Se fossemos definir toda a estratégia tendo por base os resultados líquidos do ano iria ser difícil tornar uma estrutura profissional. Se a venda do Bruno Fernandes é fulcral? Não porque temos sempre outras formas de gerar receita e de nos financiarmos. Existem sempre alternativas, só as temos de procurar. Naturalmente que num clube como o Sporting é mais difícil do que numa empresa como a EDP, isso é óbvio, mas temos alternativas e a prova disso foi o mercado de transferências de verão: tivemos de tomar decisões, a venda de Bruno Fernandes era um dado adquirido, era possível perante uma proposta que fizesse sentido a nós e a todos, não foi o caso e optámos por vender outros jogadores…

Francisco Salgado Zenha, aqui ao lado de Frederico Varandas, prevê que reestruturação financeira fique fechada em breve

MÁRIO CRUZ/LUSA

Mas voltava a fazer tudo igual? Vendia Bas Dost e não aceitava os 60 milhões de euros por Bruno Fernandes, não se arrepende disso?
Voltava a fazer tudo o que fizemos no mercado de transferências, não há dúvida nenhuma. O que tivemos pelo Bruno Fernandes não faria sentido aceitar e mantenho aquilo que fizemos. A venda do Bas Dost, como já transmitimos, foi feita porque o custo do Bas Dost não era comportável para a realidade que tem o Sporting. Vou-lhe dar um exemplo: se me perguntasse se preferia que ficasse o Bruno Fernandes ou o Bas Dost, eu preferia que ficasse o Bruno Fernandes. O que temos de perceber é que o Sporting não tem a capacidade para segurar todos os jogadores e perante isso temos de tomar decisões.

Uma das primeiras grandes pastas que teve foi o empréstimo obrigacionista. Acha que foi um sucesso dentro do contexto em que estava inserido? E alguma vez sentiu que havia pessoas do Sporting por fora a tentarem fazer com que falhasse, nomeadamente junto dos bancos?
Foi um processo muito difícil, dos mais difíceis em que já trabalhei. Fazer um empréstimo obrigacionista que já tinha sido prorrogado e em seguida começar a comercializar um dia depois do ex-presidente ser constituído arguido ou pelo menos ser chamado pelo Ministério Público são condições inacreditáveis. O que foi feito aconteceu por duas razões: porque houve um trabalho muito forte, e não foi só meu, foi de toda uma equipa, em conseguir tornar realidade esse processo; e porque o Sporting, e os sportinguistas, têm muita força e isso deve-se muito aos sportinguistas. Até tivemos senhores de idade que não sabiam como investir a tentar fazer doações… E sim, senti que houve pessoas inclusivamente do Sporting que fizeram um forcing grande para não se tornar realidade…

Com nomes, sem nomes?
Não vou dizer nomes porque não interessa. Não estou aqui para dividir… Acho triste, acho infeliz, acredito que não é o sportinguista típico, acho que as pessoas têm o direito a arrependerem-se… Acho que um dia, e esta administração também tem de fazer por isso, temos de ser mais unidos. O Sporting tem de estar unido para vencer os seus rivais. Por isso, faço o apelo para nos unirmos e combatermos essas coisas. Há agendas próprias, há ambições, sim. O Sporting é um clube que, com a mudança frequente de direções, gera mais ambições e mais incentivo à criação de agendas próprias porque sente que o lugar de presidente ou de membro do Conselho Diretivo é mais alcançável do que no FC Porto e no Benfica, e isso cria muitas vezes mais atritos. Mas pessoas devem perceber que há momentos certos para fazer isso, nas eleições deve haver oposição, muito bem. Agora, não nos unirmos à volta do Sporting quando uma Direção tem um mandato legítimo dos sócios, acho errado.

Tem agora a pasta da reestruturação financeiras em mãos. Quando vai ser anunciada? E que herança foi recebida, era assim tão pesada ou não, como disse Frederico Varandas na SIC?
A reestruturação financeira, como escrevemos no Relatório e Contas, vai ser concluída em breve. Lá está até ao final do ano mas vai ser antes, em breve. Está a ser concluída mas teremos sempre de comunicar ao mercado antes quando estiver feita…

Senti que houve pessoas inclusivamente do Sporting que fizeram um forcing grande para [o empre´stimo obrigacionista] não se tornar realidade... Nomes? Não interessa, não estou aqui para dividir... Acho triste, acho infeliz, acredito que não é o sportinguista típico, acho que as pessoas têm o direito a arrependerem-se...

Com os VMOC lá também?
Não posso entrar em detalhes. Por duas razões: porque não posso e porque foi errada a política anterior de andar a fazer um livro aberto das condições negociadas com os bancos, não se faz. Posso garantir que qualquer que seja o acordo que saia vai ser melhor para nós porque caso contrário não fazíamos nada. Posso deixar os sportinguistas muito confortáveis sobre essa situação porque é isso que vai acontecer.

E a tal herança, existe?
Vou repetir um bocado aquilo que disse… Podia ser pessimista, destrutivo e matar a situação do Sporting mas não o faço. A herança é muito difícil, foi muito difícil mas posso garantir uma coisa: quando entrámos neste ano, aliás e o auditor comprovou isso, a situação era muito melhor do que aquela que encontrámos quando chegámos e existia no exercício passado. Mas estão longe de estar bem, estão só no caminho certo…

Entramos agora em desconto de tempo, com perguntas rápidas para remates para golo: preferia ganhar outra vez duas taças esta época ou ir à Liga dos Campeões?
Posso responder que quero os dois? Faço batota, quero os dois…

Prefere ver o jogo na tribuna, no topo sul ou na bancada central?
Já vi o jogo na bancada sul e na bancada central, acho que gosto mais de ver na bancada central mas porque vejo melhor mas o ambiente é bom nos dois lados…

Agora também é bom nos dois lados?
Nós não temos nada contra as claques, estamos a fazer aquilo que devemos fazer que é garantir as melhores condições e as mesmas condições para todos, sendo sérios com todos.

Se tivesse de definir um filme para definir o que é hoje o Sporting, até perante a analogia do “clube de malucos”, preferia Voando sobre um Ninho de Cucos ou Shining?
Que eu saiba não foi o presidente que disse que o Sporting era um clube de malucos…

Não mas um treinador respondeu-lhe isso, dito pelo próprio…
Ah, pronto… Então tem de perguntar ao treinador.

Uma cidade, Lisboa ou Madrid [onde viveu oito anos]?
Lisboa.

Estádio José Alvalade antigo ou este novo?
Gostava de uma mistura dos dois mas tenho orgulho neste porque acho que ainda vamos ser muito felizes lá.

Regresso de Cristiano Ronaldo para acabar a carreira no Sporting ou Bruno Fernandes a acabar a carreira no Sporting?
Era bonito os dois… Vou de fazer batota outra vez…

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