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Jeffrey Epstein e Donald Trump em Mar-a-Lago
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"O indecente Donald", os conselhos aos russos e as fotos das "meninas". Os e-mails do caso Epstein, de que Trump não se consegue livrar

Nova tranche de e-mails mostra que Jeffrey Epstein disse que "podia derrubar" Trump. Cabecilha da rede de tráfico sexual teve contactos com russos — e poderá ter dado informações sobre Presidente.

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“Eu sei o quão indecente o Donald é.” Esta frase foi escrita por Jeffrey Epstein, o magnata caído em desgraça e que foi o cabecilha de uma rede de pedofilia nos Estados Unidos da América (EUA). É uma das muitas palavras que o empresário, que se suicidou na prisão em 2019, dedicou ao Presidente norte-americano, do qual foi amigo durante décadas até cortarem relações no início dos anos 2000. Esta quarta-feira, os democratas na Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes divulgaram vários e-mails do homem acusado de tráfico sexual de menores — e o nome de Donald Trump é várias vezes mencionado.

O caso Epstein tornou-se um escândalo de que Donald Trump não se tem conseguido livrar e que tem prejudicado a sua reputação e imagem pública. As novas informações que vão surgindo mostram que o Presidente norte-americano foi, sem dúvida, bastante próximo do magnata, mesmo que depois os dois se tenham zangado. Aliás, num dos e-mails divulgados esta quarta-feira, o empresário declarou: “Eu sou aquele que o posso derrubar”. De que forma é que o podia fazer? Jeffrey Epstein nunca clarificou.

Estes e-mails vieram adensar a desconfiança de que, na pior das hipóteses, Donald Trump sabia e esteve envolvido na rede de pedofilia montada pelo magnata e a ex-namorada, Ghislaine Maxwell. Segundo Jeffrey Epstein, o chefe de Estado passou “várias horas” na sua casa com uma das vítimas de tráfico sexual — que depois veio a saber-se que era Virginia Giuffre. “Gostava de ter acesso a uma foto do Donald e das meninas em biquíni na minha cozinha?”, também questionou o empresário.

O assunto é bastante polémico nos Estados Unidos da América, em particular entre a base eleitoral do movimento Make America Great Again (MAGA), próxima de Donald Trump. Durante a campanha eleitoral para as presidenciais de 2024, o chefe de Estado e os seus aliados (em particular o vice-presidente JD Vance) prometeram que iam divulgar integralmente os ficheiros do caso Epstein. Dez meses depois de ter tomado posse, isso ainda não aconteceu e o Departamento de Justiça encerrou as investigações sobre o assunto em julho.

Tal como fez no passado, o chefe de Estado designou o caso Epstein como uma “fraude” politicamente motivada pelo Partido Democrata. “Os democratas estão a usar a fraude de Jeffrey Epstein para tentar desviar dos seus falhanços massivos, em particular, o mais recente — o shutdown“, reagiu Donald Trump nas redes sociais aos novos e-mails, numa alusão à paralisação do governo norte-americano. A Casa Branca fala mesmo numa “narrativa falsa” alimentada pelos democratas, que divulgaram “seletivamente e-mails para os meios de comunicação sociais liberais”.

Num megaprocesso com milhares de ficheiros, os republicanos também destacaram que foram revelados mais de 20 mil documentos esta quarta-feira, ainda que estes não tenham informações que possam comprometer claramente Donald Trump. O caso Epstein converteu-se numa arma de arremesso político — mas que continua a ter o potencial de queimar a imagem do Presidente norte-americano.

"Os democratas estão a usar a fraude de Jeffrey Epstein para tentar desviar dos seus falhanços massivos, em particular, o mais recente — o shutdown."
Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América

Os encontros com russos e a “demência precoce” de Trump: o que diz a tranche de e-mails revelada esta quarta?

O chefe de Estado norte-americano nunca negou que foi próximo de Jeffrey Epstein. Naturais de Nova Iorque, os dois homens poderosos e ricos frequentavam os mesmos espaços daquela cidade, partilhando a mesma bolha mediática. Em 2002, Donald Trump contou numa entrevista que conhecia o magnata há cerca de “quinze anos”. “É um tipo incrível. É muito divertido. Até dizem que ele gosta tanto de mulheres bonitas como eu e muitas delas são bastante mais novas.”

No entanto, a relação de amizade azedou. Segundo contou Donald Trump em 2025, o amigo de décadas “fez algo inapropriado”. Para a sua ilha privada e os seus restantes negócios, Jeffrey Epstein contratou os jovens que trabalharam para o Presidente norte-americano em Mar-a-Lago. “Ele roubou pessoas que trabalhavam para mim. Disse-lhe para nunca mais fazer isso. Fez de novo e foi o seu fim”, recordou o chefe de Estado, que já chegou a descreveu o magnata como um “tarado”.

Esta quebra de confiança afastou os dois homens. No entanto, segundo os e-mails, o antigo professor de matemática pareceu seguir a par e passo a carreira de Donald Trump — desde os tempos em que este era o apresentador do reality show The Apprentice até quando era Presidente. Em 2011, quando Virginia Giuffre denunciava a rede de pedofilia a um jornal britânico, Jeffrey Epstein enviou um e-mail à sua companheira Ghislaine Maxwell: “Quero que entendas que o cão que ainda não ladrou foi Trump. A vítima [Virginia Giuffre] passou horas na minha casa com ele. Ele nunca foi mencionado”. 

O prazo para contestar a apresentação dos nomes, acontece nove anos depois de Ghislaine Maxwell ter recebido uma queixa

▲ Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell

Patrick McMullan via Getty Image

Quando, em 2015, Donald Trump estava a preparar-se para se candidatar às primárias republicanas que depois o levariam à Casa Branca, o nome de Jeffrey Epstein já estava manchado pela suspeitas que incidiam sobre si relativamente à rede de pedofilia que montou. Num e-mail trocado com o jornalista Michael Wolff — que escreveu o livro Fogo e Fúria: Por Dentro da Casa Branca de Trump —, os dois homens discutiram de que forma é que reagiriam caso Donald Trump fosse questionado numa entrevista que ia dar à CNN Internacional sobre a sua relação com Jeffrey Epstein.

A estratégia consistia em deixar que Donald Trump “se enforcasse” durante a entrevista: “Se ele disser que nunca esteve no avião ou na casa, isso dá-te um trunfo valioso. Tu podes enforcá-lo de uma forma em que isso gera um benefício positivo para ti ou, se parecer que ele pode ganhar, tu podes salvá-lo, gerando uma dívida. Claro que é possível que, quando for questionado, ele vá dizer que o Jeffrey é um homem incrível e é uma vítima do politicamente correto”, lê-se nesse e-mail de 2015.

Servindo como uma espécie de conselheiro, o jornalista Michael Wolff voltou a enviar um e-mail uma semana antes das eleições presidenciais de 2016: “Há uma oportunidade de apareceres esta semana e falares sobre Trump de uma forma em que podes ganhar grande apoio e ajudar a acabar com ele. Interessado?” Jeffrey Epstein não terá respondido, mas nota-se um padrão de que o magnata caído em desgraça tinha informações que podiam comprometer Donald Trump.

▲ Jornalista Michael Wolff

Getty Images

Quando Donald Trump chegou à presidência norte-americana, Jeffrey Epstein continuou a trocar e-mails com várias pessoas a discutir as ações do ex-amigo. Comentando várias atos do primeiro mandato do Presidente, o magnata caído em desgraça chegou a dizer que Donald Trump estava “louco” e a demonstrar sinais de “demência precoce” pela aprovação de certas medidas, como a Muslim ban.

Ao longo do primeiro mandato da administração Trump, Jeffrey Epstein terá também ajudado certas pessoas a saber como lidar com o Presidente norte-americano. Num e-mail enviado ao ex-presidente do Conselho da Europa em 2018, o norueguês Thorbjorn Jagland, o empresário referiu que o líder da organização internacional poderia “sugerir a Putin que Lavrov poderia obter informações se falasse comigo”.

Este foi o e-mail foi enviado um mês antes da cimeira de Helsínquia, em que o Presidente norte-americano se reuniu com o homólogo russo, Vladimir Putin. Durante o encontro, contrariamente ao seu estilo assertivo e duro, Donald Trump deixou o chefe de Estado da Rússia assumir o protagonismo e pautar a dinâmica da conferência de imprensa que serviu também para discutir as relações entre Moscovo e Washington.

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▲ Vladimir Putin e Donald Trump após a cimeira de Helsínquia

AFP via Getty Images

Após este encontro, Larry Summers, antigo secretário do Tesouro de Bill Clinton, enviou um e-mail a Jeffrey Epstein a perguntar se “os russos sabiam alguma coisa sobre Trump”: “Foi aterrador mesmo para os seus parâmetros”. Em resposta, o empresário frisou que muita gente lhe estava a perguntar a mesma coisa, prosseguindo: “Tenho a certeza de que a seu ver ele pensa que [o encontro] correu muito bem. Ele pensa que encantou o adversário. Ele não tem ideia do simbolismo. Ele não tem ideia da maioria das coisas”.

A alegada troca de informações com os russos não se terá ficado apenas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros russo. Jeffrey Epstein terá tido contactos com Vitaly Churkin, o antigo representante da Federação Russa nas Nações Unidas. “Churkin era incrível”, escreveu o magnata num e-mail, acrescentando: “Ele entendeu Trump após as nossas conversas. Não é complexo. Ele precisa de ser visto para ter alguma coisa — é [mesmo] assim tão simples”.

As ligações internacionais e os conselhos que deu não se ficaram pela Rússia. Jeffrey Epstein chegou a entrar em contacto com Steve Bannon, um dos ideólogos do trumpismo. Após o conselheiro de Donald Trump ter sido demitido da Casa Branca em 2017, o magnata deu-lhe conselhos sobre como poderia aumentar a sua influência na Europa. “Tens de passar tempo lá, a Europa à distância não funciona”, referiu, dizendo que poderia mesmo ajudar a organizar reuniões entre líderes estrangeiros e Steve Bannon.

epa10086943 Former White House Chief Strategist in the Trump administration Steven Bannon delivers remarks to members of the news media after being found guilty in his contempt of Congress trial at the E. Barrett Prettyman Federal Courthouse in Washington, DC, USA, 22 July 2022. Bannon was found guilty on two criminal charges related to his failure to comply with a subpoena from the House Select Committee to Investigate the January 6 Attack on the Capitol.  EPA/MICHAEL REYNOLDS

▲ Steve Bannon, um dos ideólogos do trumpismo, também trocou e-mails com Jeffrey Epstein

MICHAEL REYNOLDS/EPA

Até o norueguês Thorbjorn Jagland chegou a pedir a Jeffrey Epstein que fosse a Estrasburgo, em França, para o “ajudar a entender mais sobre Trump e sobre o que se passa na sociedade norte-americana”. Em contactos com líderes estrangeiros, o magnata nova-iorquino chegou a alegar que recebeu presentes do príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman.

Podem os documentos ser revelados na íntegra?

Estes e-mails são um vislumbre da influência de Jeffrey Epstein, que, mesmo com todas as polémicas da rede sexual, mantinha contactos com políticos e líderes bastante influentes. Conhecendo-o há décadas, o empresário dispunha de várias informações sobre o atual Presidente norte-americano. A extensão do que sabia ainda não é totalmente conhecida, uma vez que nem todos os ficheiros foram divulgados ao público.

Sabendo que é um assunto que pode prejudicar a imagem de Donald Trump, os democratas estão empenhados em revelar todos os documentos. E o Partido Democrata está totalmente unido em redor deste assunto, desde as alas mais progressistas às mais moderadas, exigindo em uníssono transparência e a eventual responsabilização do chefe de Estado, caso se vier a provar que esteve efetivamente envolvido na rede de pedofilia.

▲ Donald e Melania Trump ao lado de Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell

Getty Images

Por sua vez, nos republicanos não existe essa união. O assunto foi muito comentado antes das presidenciais, com a promessa de que todos os ficheiros seriam revelados. A divulgação dos documentos do caso Epstein seria uma vitória face ao establishment e contra as elites. Mas nunca se concretizou, com muitos a demonstrarem a sua insatisfação com Donald Trump. Ainda assim, o chefe de Estado ainda continua a ter muitos aliados que continuam a protegê-lo — seja por acreditarem que está inocente, seja por não quererem entrar num confronto direto com ele.

Nas mensagens que publicou sobre o assunto na Truth Social, Donald Trump escreveu que apenas um “republicano muito mau ou estúpido” cairia na “armadilha” montada “pelos democratas”. “Não deve haver desvios de atenção para Epstein ou qualquer outra coisa”, pediu. O apelo foi ouvido por muitos dentro do partido — mas outros continuam na mesma a apoiar a iniciativa de que os ficheiros devem ser divulgados.

Na Câmara dos Representantes, o Partido Democrata quer há meses avançar com uma medida que obrigue o Departamento de Justiça a divulgar todos os documentos. Porém, tem visto a oposição do líder da câmara baixa do Congresso norte-americano, o republicano Mike Johnson, que tem explorado todas as alternativas legais para não levar avante o desejo dos democratas.

As contradições e as polémicas. Como o caso Epstein se transformou numa arma política contra Trump

Tudo pode mudar em breve, ainda assim. Pela primeira vez, o presidente da Câmara dos Representantes abriu a possibilidade de se avançar com uma votação naquele órgão. Os democratas também já obtiveram os apoios necessários para avançar com uma moção que obriga à votação para a divulgação dos ficheiros, mesmo que Mike Johnson se oponha.

A Câmara dos Representantes é atualmente controlada pelos republicanos (têm 219 congressistas contra 214 democratas). Isso significa que, para avançar com esta moção, foi necessário que alguns membros do Partido Republicano votassem ao lado dos democratas, como Thomas Massie. Mas, ao longo dos últimos tempos, faltava uma pessoa para que o Partido Democrata conseguisse avançar com esta medida — e ela tomou posse esta quarta-feira.

A congressista democrata eleita pelo Arizona, Adelita Grijalva, assinou já a moção — e Mike Johnson terá mesmo de avançar com ela, tendo já adiantado que a Câmara dos Representantes poderá votá-la na próxima semana. De acordo com o New York Times, há mais republicanos dispostos a votar a favor, mesmo não estando empenhados na recolha de assinaturas da moção que permite que a votação aconteça.

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▲ A tomada de posse de Adelita Grijalva

The Washington Post via Getty Im

Isto significa que os documentos serão mesmo revelados? Não é assim tão linear. Depois da Câmara dos Representantes, a moção terá de ser avaliada pelo Senado. Na câmara alta do Congresso, contudo, serão necessários 60 votos a favor para que o Departamento de Justiça divulgue os ficheiros. Neste contexto, com 53 republicanos e 45 democratas (mais dois independentes que se alinham com o Partido Democrata), será muito difícil convencer sete senadores do Partido Republicano a concordar com a libertação de todos os documentos.

O destino final desta moção será provavelmente o falhanço. Mas os democratas vão continuar a pressionar e a divulgar todas as informações que tiverem ao seu dispor, de forma a minar a imagem de Donald Trump. O Presidente vai prosseguir a sua estratégia: negar, garantir que nunca cometeu nenhum crime e dissociar-se da rede de pedofilia do seu antigo amigo. Mas será suficiente para convencer os norte-americanos, especialmente aqueles que o apoiam?

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