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Jeffrey Epstein e Donald Trump em Mar-a-Lago
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▲Jeffrey Epstein (à esquerda) e Donald Trump (à direita) em 1997

Getty Images

▲Jeffrey Epstein (à esquerda) e Donald Trump (à direita) em 1997

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As contradições e as polémicas. Como o caso Epstein se transformou numa arma política contra Trump

Assunto foi alimentado por aliados de Trump, que prometiam que ficheiros do caso Epstein seriam revelados quando Presidente regressasse à Casa Branca. Mas isso não aconteceu — e tornou-se um problema.

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“Temos certamente coisas em comum, Jeffrey. Sim, nós temos, pensa nisso. Os enigmas nunca envelhecem, já notaste isso? Como, aliás, ficou claro na última vez que te vi. Um amigo é uma coisa ótima. Feliz aniversário — e que cada dia seja um segredo maravilhoso.” Esta mensagem está escrita numa silhueta do corpo de uma mulher e conta com uma assinatura: Donald J. Trump. O cartão poderá ter sido enviado pelo atual Presidente norte-americano a Jeffrey Epstein, o homem que foi condenado por crimes de abuso sexual de menores, tendo montado uma rede de recrutamento de menores, com a qual terão interagido diversas figuras públicas.

O caso Epstein, como ficou conhecido, já se infiltrou na política norte-americana e assume cada vez mais um maior protagonismo. O nome do Presidente norte-americano tem estado associado a esta polémica desde que regressou à Casa Branca — e esta é mais uma aparente ligação, alegam os opositores. Este cartão de aniversário foi, aliás, revelado pela Comissão de Supervisão do Partido Democrata no Congresso norte-americano, após os democratas terem exigido a sua divulgação pelo Departamento de Justiça.

Em resposta, Donald Trump fez o que tem feito desde que regressou à Casa Branca: negar qualquer envolvimento com o caso Epstein. Sobre o cartão de aniversário, a porta-voz da presidência, Karoline Leavitt, veio a público assegurar que “o Presidente Trump não desenhou” e “não o assinou”. No mesmo sentido, o vice-presidente, JD Vance, acusou o Partido Democrata de “fabricar um escândalo falso” para “difamar o Presidente Trump”, usando para o efeito “mentiras”. O núcleo duro da presidência alega também que a assinatura que está no cartão é falsa e não se assemelha à de Donald Trump.

▲ O cartão de aniversário escrito por Donald Trump

@OversightDems no X

Os membros do Partido Democrata têm explorado esse assunto, conscientes de que poderão vulnerabilizar politicamente Donald Trump. Por sua vez, o chefe de Estado tem negado categoricamente todas as acusações e tem tentado desviar atenções com outro escândalo, nomeadamente no alegado envolvimento de Barack Obama no chamado Russiagate (a alegada interferência russa a favor de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2016, que ainda está a ser julgada).

Mas não são apenas os democratas os únicos interessados em tirar esta história a limpo. Entre as fileiras do Partido Republicano, há quem peça a divulgação integral dos ficheiros do caso Epstein, algo que a administração Trump se tem negado a fazer. E, mesmo dentro do movimento Make America Great Again (MAGA) liderado por Donald Trump, há republicanos que pedem uma ação mais assertiva da presidência, exigindo que os documentos sejam divulgados.

A estratégia da administração Trump tem sido negar, ameaçar com processos judiciais (como fez ao Wall Street Journal após o jornal ter dado a notícia do cartão de aniversário em primeira mão) e desviar atenções. Porém, há vários políticos que não vão deixar cair este assunto no esquecimento dos norte-americanos. Enquanto isso, Donald Trump vai tentar conter os danos de uma polémica que foi criada por si e pelos seus aliados próximos durante a campanha eleitoral para as presidenciais de 2024.

epa12360043 U.S. President Donald Trump walks out of the South Portico of the White House towards the gathered press before departing in Marine One from the South Lawn in Washington, D.C., USA, 07 September 2025. President Trump is heading to Queens, New York, to attend the U.S. Open Tennis Championships.  EPA/SAMUEL CORUM / POOL

▲ Donald Trump tem negado envolvimento com caso Epstein

SAMUEL CORUM / POOL/EPA

A linha do tempo do caso Epstein

O assunto foi abordado várias vezes antes das eleições presidenciais de 2024. Membros influentes do movimento MAGA divulgavam teorias de que havia uma “lista de clientes” que teriam estado envolvidos na rede de abusos sexuais de Jeffrey Epstein. Quando Donald Trump chegasse ao poder, esses nomes seriam revelados, numa lógica de um líder antissistema que não tem medo de enfrentar as elites poderosas. “A sério, devemos publicar a lista de Epstein. É algo importante”, defendeu, numa entrevista antes das eleições, JD Vance.

Numa entrevista à Fox News antes das eleições, Donald Trump também defendeu que “provavelmente” revelaria os ficheiros do caso Epstein. Porém, o Presidente sempre foi bastante mais cauteloso do que JD Vance e a sua base eleitoral, lembrando que havia “coisas falsas” nos documentos. Ainda assim, o assunto foi ganhando relevância e importância — e as expectativas também se iam elevando. De acordo com os membros mais acérrimos do movimento MAGA, a lista de clientes demonstraria como as elites tinham vindo a proteger redes de pedofilia.

Quando Donald Trump voltou à Casa Branca, os apoiantes exigiam a divulgação imediata da lista, que sempre foi alvo de muitas especulações. Vozes da administração iam alimentando o assunto. Por exemplo, a procuradora-geral norte-americana, Pam Bondi, salientou, em meados de fevereiro, que os documentos “estavam na sua secretária” e estavam a ser “avaliados” antes de serem divulgados ao público. A responsável jurídica até organizou um evento para influencers conservadores onde distribuiu alguns ficheiros. No entanto, os documentos distribuídos nesse encontro já eram conhecidos de antemão — o que frustrou o movimento MAGA.

A presidência norte-americana depois parou de falar sobre o assunto. Contudo, a polémica já era discutida por ativistas e influencers do movimento MAGA nas redes sociais, que exigiam respostas que tinham sido inicialmente prometidas. A base eleitoral estava a perder paciência; e houve alguém que contribuiu para exponenciar a revolta do movimento MAGA contra Donald Trump. Num bate-boca com o Presidente norte-americano no início de junho, Elon Musk, o magnata dono da Tesla, “revelou uma grande bomba” numa publicação no X (que foi apagada): “Donald Trump está nos ficheiros de Epstein. Essa é a razão pela qual ainda não foram divulgados”.

Como sempre, Donald Trump negou, mas não evitou a onda de revolta que se formava no seio da sua base eleitoral. Vários nomes do movimento MAGA ficaram ainda mais revoltados, quando, em julho, o Departamento de Justiça confirmou que, afinal, não havia qualquer lista dos clientes de Epstein, algo que a procuradora-geral e o vice-presidente asseguraram que existia durante a campanha e nos meses que seguiram.

Todas as teorias de conspiração espalhadas sobre o assunto durante a campanha eleitoral e os meses que se seguiam caíam aparentemente por terra perante esta revelação. Ao mesmo tempo, crescia a pressão (de democratas e alguns republicanos) para que todos os documentos fossem divulgados, para esclarecer os recuos e os mal-entendidos da presidência. Em contracorrente, nomes da administração Trump tentavam defender a atuação de Donald Trump.

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▲ Cartaz num protesto com a frase de Pam Bondi que os documentos sobre o caso Epstein "estavam na sua secretária"

AFP via Getty Images

A administração Trump ativou a fase de contenção de danos do que o Presidente norte-americano classificou como uma “fraude” criada pelos “democratas de extrema-esquerda”. Mas o assunto ganhou nova preponderância quando o Wall Street Journal revelou a notícia de que Donald Trump teria escrito um cartão de aniversário para o 50.º aniversário de Jeffrey Epstein — o mesmo documento que foi revelado esta segunda-feira pelos congressistas democratas.

Esta era uma prova de que Donald Trump e Jeffrey Epstein mantinham uma boa relação e dava azo a novas teorias de que a presidência estaria empenhada numa missão de esconder o envolvimento do chefe de Estado na rede de pedofilia. A administração Trump decidiu processar o Wall Street Journal, justificando a decisão com o facto de o artigo ter como objetivo “manchar a reputação do Presidente Trump”.

Indiferente aos processos judiciais, o mesmo jornal noticiou dias mais tarde que Pam Bondi tinha comunicado ao Presidente norte-americano, em maio deste ano, que o seu nome era mencionado efetivamente nos ficheiros Epstein, ainda que tal não indicie a prática de qualquer crime. Houve várias tentativas para que o assunto saísse do espaço mediático norte-americano, mas sem sucesso; o tópico continuava a ser discutido e a irritar parte da base eleitoral.

▲ Jeffrey Epstein, o homem que criou esta rede de tráfico sexual

Getty Images

Uma estratégia da administração Trump para desviar as atenções consistiu em acusar Barack Obama de ter fabricado provas no Russiagate. Outra passou por tentar envolver Ghislane Maxwell, a ex-namorada de Epstein e a mulher responsável por aliciar jovens raparigas para a rede de exploração sexual. Em meados de julho, a mulher foi novamente interrogada pelo vice-procurador-geral, Todd Blanche, de forma a acalmar os ânimos do movimento MAGA. O argumento vendido à base eleitoral é que, pela sua proximidade a Jeffrey Epstein, a socialite caída em desgraça poderia contar o que verdadeiramente se passou.

“Ela é uma peça viva que pode contar o que se passou. Não há ninguém melhor para contar a verdade”, afirmou o podcaster conservador Benny Johnson. Um dos mais célebres apoiantes da fação MAGA, o ativista Charlie Kirk, elogiou a iniciativa de ouvir a socialite: “É tão poderoso. [Trump] está a ouvir as vozes da base. Se alguém atualmente tem a informação do que se passou será Ghislaine Maxwell.”

A atuação foi elogiada e até surgiu a hipótese de Donald Trump indultar Ghislane Maxwell, condenada a 20 anos de prisão pelo papel que desempenhou na rede de tráfico sexual, de forma a comprar o seu apoio. No testemunho aos procuradores (revelado em meados de agosto), a socialite sublinhou que nunca assistiu a nenhum comportamento “inoportuno” do Presidente norte-americano durante as suas interações com Jeffrey Epstein. Sobre a relação que o chefe de Estado mantinha com aquele homem, a mulher assegurou que “não eram amigos próximos”, admitindo que não tinha noção de quão próximos eram: “Acho que eram amigáveis como as pessoas [normalmente] são num contexto social”.

Trump tem o poder, mas vai mesmo indultar a mulher caída em desgraça que era o cérebro por trás de Epstein?

Além de ter sido interrogada por Todd Blanche, a Comissão de Fiscalização da Câmara dos Representantes já disse pretender que Ghislaine Maxwell testemunhe perante o Congresso. Porém, os advogados que representam a socialite já recusaram essa hipótese, a não ser que lhe seja concedida imunidade. A data inicialmente avançada para ouvir a socialite foi a 11 de agosto, mas acabou por não acontecer.

Apesar de Ghislaine Maxwell se revelar útil, os democratas e alguns republicanos têm exigido que todos os documentos fossem revelados. Num esforço raro de bipartidarismo, vários congressistas apresentaram resoluções na Câmara dos Representantes para obrigar à divulgação de todos os ficheiros sobre o caso Epstein. Para que essas votações não ocorressem, no final de julho, o presidente da câmara baixa do Congresso, Mike Johnson, antecipou as férias dos congressistas.

O Congresso regressou de férias no início de setembro. Depois de um mês em que estiveram de mãos atadas, os congressistas que desejam ter acesso a todos os ficheiros Epstein podem agir e motivar a divulgação de novos documentos. A 3 de setembro, sob uma iniciativa republicana, foram revelados ao público 33 mil ficheiros sobre o caso Epstein — mas não tinham grande importância e 97% já tinham sido divulgados no passado.

O prazo para contestar a apresentação dos nomes, acontece nove anos depois de Ghislaine Maxwell ter recebido uma queixa

▲ Ghislane Maxwell, a ex-namorada de Jeffrey Epstein, pode ser uma peça chave neste caso

Patrick McMullan via Getty Image

O cartão de aniversário avançado inicialmente por Wall Street Journal foi o mais recente documento a ser divulgado ao público. Não deverá ser o último, ainda assim. Cresce a pressão política para que o Departamento de Justiça disponibilize todos os ficheiros relacionados com o caso Epstein, um tema que entrou inevitavelmente no ringue político.

A arma política dos democratas e de alguns republicanos

No Congresso, o Partido Democrata vai tentar explorar todas as vias legais para permitir a divulgação de mais ficheiros. “O povo norte-americano merece saber a verdade, toda a verdade e não mais do que a verdade no que diz respeito a este sórdido caso”, afirmou o líder da minoria da Câmara dos Representantes, o democrata Hakeem Jeffries, que destacou que não foi o seu partido “que tornou o caso Epstein público”: “Foi uma conspiração que Donald Trump, Pam Bondi e os radicais MAGA têm vindo a criar há vários anos”.

O Partido Democrata entende que o caso Epstein pode gerar dividendos políticos: foi um assunto que foi trazido pelo movimento MAGA, que tem tração entre os membros mais radicais e que pode dividir a base. Além disso, as contradições da administração Trump sobre este assunto são fáceis de explorar e sugerem que a presidência tem algo a esconder.

"Foi uma conspiração que Donald Trump, Pam Bondi e os radicais MAGA têm vindo a criar há vários anos."
Líder da minoria da Câmara dos Representantes, o democrata Hakeem Jeffries

Num momento em que se estão a tentar redefinir, os democratas podem aproveitar este tópico para ganhar balanço para as eleições intercalares de 2026, esperando obter capital político num assunto que claramente tem criado várias dores de cabeça a Donald Trump. Mais: o facto de se tratar de uma rede de pedofilia que envolve vários rostos poderosos pode ajudar a contrariar o apelo populista e antissistema do trumpismo.

“É uma forma interessante de mostrar aos eleitores que Trump não é confiável”, assinalou, em declarações ao Politico, Pat Dennis, presidente de uma organização de angariação de fundos. Ainda assim, não é claro se este assunto se vai estender no tempo e se vai continuar a ter destaque no espaço mediático nos próximos meses.

Em contrapartida, os democratas também podem sofrer danos colaterais, caso os documentos sejam integralmente revelados. O nome do ex-Presidente Bill Clinton está nos documentos do caso Epstein, o que pode ser visto como uma debilidade nesta estratégia. Um estratega republicano considera que existe efetivamente um problema de “credibilidade” dos democratas, ainda que conceda ao Politico que “a curto prazo, os democratas podem obter ganhos políticos”.

Como o movimento MAGA tomou conta do Partido Republicano e o transformou no “Partido Trump”

O estratega acredita que o assunto não será “divisivo” e não deverá ditar grandes alterações no panorama político. “Não é tão importante como a economia, os impostos ou a imigração”, realça, detalhando que a presidência pode também acalmar os ânimos ao “divulgar mais informação, explicar melhor e providenciar mais respostas — existem soluções”.

Isso não significa que os republicanos não estejam a enfrentar algumas divisões internas. Os republicanos Thomas Massie (que entrou em rota de colisão com a administração Trump) e Marjorie Taylor Greene encabeçam todos aqueles que exigem mais respostas a Donald Trump. Com bastante influência na base eleitoral, a congressista da Georgia já admitiu que “recebeu várias chamadas” da Casa Branca para mudar de atitude, garantindo que manterá a postura mais combativa.

Estes congressistas republicanos, que serão menos de uma dezena, são essenciais para a Câmara dos Representantes exigir ao Departamento de Justiça divulgue os ficheiros do caso Epstein. O Partido Republicano tem maioria relativa no Congresso, mas esses políticos estão dispostos a trabalhar com os democratas. O assunto está a ser gerido com pinças por Mike Johnson.

Congress Works On Capitol Hill

▲ Congressista Marjorie Taylor Greene quer divulgação dos ficheiros do caso Epstein

Getty Images

Estes republicanos tão vocais na defesa da divulgação de ficheiros são exceções, ainda assim. Alguns mantêm dúvidas, mas preferem não se manifestar e não desafiar diretamente a presidência. A base eleitoral está dividida, mas continua a dar o benefício da dúvida. E há alguns nomes que defendem publicamente Donald Trump. MikeJohnson tem-se desdobrado em iniciativas para impedir a divulgação de mais informações sobre o caso Epstein, além de defender publicamente o Presidente.

Nos últimos dias, Mike Johnson chegou mesmo a dizer que Donald Trump era um “informador” do FBI sobre este assunto: “Tentou desmascarar tudo isto. O Presidente tem uma grande compaixão pelas mulheres que sofreram”. Depois teve de se retratar, explicando que se expressou mal. “Não sei se usei a terminologia correta”, reconheceu o presidente da Câmara dos Representantes, esclarecendo que queria transmitir a ideia de que o chefe de Estado apoiou as autoridades na decisão de deter Jeffrey Epstein.

O caso que começou por ser empolado pelo movimento MAGA durante a campanha para as presidenciais de 2024 ganhou dimensões que os republicanos nunca esperavam. O caso Epstein toca num ponto sensível de Donald Trump e coloca em causa a sua mensagem antissistema e contra as elites. Os democratas veem uma oportunidade para colher dividendo políticos e para dividir o movimento MAGA. A maioria dos republicanos ainda dão o benefício da dúvida ao chefe de Estado — mas esperam que o caso não cause uma tempestade política.

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