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Los Angeles Times via Getty Imag

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O talentoso (e imprevisível) senhor Adrien Brody, outra vez o Melhor Ator

Ao interpretar as dores e a criatividade do arquiteto húngaro Laszlo Toth, o protagonista de "O Brutalista" tornou-se sinónimo do filme e convenceu a Academia. Foi a segunda vitória nesta categoria.

Adrien Brody nunca gostou de ser famoso. É uma tema recorrente nas entrevistas que tem dado é assunto e que já gerou umas quantas confusões no passado, sobretudo quando a popularidade lhe acenou da forma mais óbvia. Famoso no sentido mais clássico do termo, não é aquele ator que passe uma imagem de gabarolas ou que tenha cavalgado numa certa direção após se ter tornado em 2003 o mais jovem a ganhar o Óscar para Melhor Ator (pela prestação em O Pianista, de Roman Polanski). E é de assinalar que a marca se mantém até hoje. Agora, com este segundo Óscar na mesma categoria, junta-se ao restrito clube onde estão Fredric March, Spencer Tracy, Marlon Brando, Gary Cooper, Jack Nicholson, Tom Hanks, Anthony Hopkins, Dustin Hoffman e Sean Penn. Só há um ator com três: Daniel Day-Lewis. Para onde irá agora a tal fama?

No discurso que deu no Dolby Theatre, Brody afirmou que “representar é uma profissão muito frágil, ainda que pareça glamourosa”. “Não importa o que já alcançámos, pode tudo desaparecer. O que torna esta noite especial é a consciência disso mesmo e a gratidão que tenho por ainda fazer o que faço”, completou. Lembro que “ganhar um prémio destes significa alcançar um destino, mas além do ponto alto de uma carreira, é uma hipótese de recomeçar, uma oportunidade de, nos próximos 20 anos, provar que mereço outros papéis importantes”.

[o trailer de “O Brutalista”:]

“Agradeço aos meus pais, pelos alicerces de bondade e de força. Estou aqui mais uma vez a representar os traumas e as consequências da guerra, da opressão sistemática e do anti-semitismo. Rezo por um mundo mais saudável e inclusivo. Se o passado nos ensina alguma coisa é a não deixar passar o ódio. Vamos lutar pelo que é certo”, acrescentou.

A questão do sucesso popular interessa, porque desde que se tornou conhecido do grande público — precisamente graças a O Pianista — Brody não seguiu um rumo padrão, mesmo que existam na carreira que tem vindo a construir os ocasionais blockbusters falhados, os dramas demasiado ambiciosos que se relevaram “assim-assim” ou que tenha até comprado um castelo no estado de Nova Iorque no qual passou sete anos a fazer renovações. A carreira do americano é de tal forma pouco previsível que este filme que lhe valeu um segundo Óscar nem é o que se poderia chamar uma grande produção, antes pelo contrário: custou pouco menos de dez milhões de dólares, 250 mil dos quais para pagar a Brody. Uma pechincha, convenhamos. O próprio já confessou, antes de ser distinguido pela segunda vez na grande noite de Hollywood, que para o próximo filme precisa de ganhar mais. Todos temos contas para pagar.

▲ Adrien Brody como Laszlo Toth, o arquiteto húngaro que é o protagonista da história de "O Brutalista"

Antes de O Brutalista, e sem contar com as participações nos filmes de Wes Anderson (Darjeeling Limited, Grand Budapest Hotel, Crónicas de França, Asteroid City, O Fantástico Sr. Raposo), Adrien Brody tornou-se numa cara habitual na televisão, seja em papéis relevantes, como em Chapelwaite ou Winning Time, como em prestações secundários ou até pontuais, casos de Succession, Peaky Blinders ou Poker Face. Por outras palavras, nunca nos esquecemos de Adrien Brody, mas o próprio ou parecia não querer procurar um estatuto de ator que lhe pertence — entre os grandes — ou Hollywood não sabia — como muitas vezes não sabe — o que fazer com ele. O Brutalista e o seu Laszlo Toth não são um acidente de percurso, mas uma consequência de muitas decisões. E, mais uma vez, é o fantasma da Segunda Guerra Mundial e o respetivo passado europeu que lhe dão um Óscar, tal como já tinha acontecido com O Pianista.

Um método Brody?

Brody nasceu em Queens, Nova Iorque, em 1973. É filho de Sylvia Plachy, fotógrafa que nasceu na Hungria e que saiu do país em 1958, dois anos depois da revolução, e de um professor de História, Elliot Brody. Cresceu nesse bairro, a maior parte dos seus amigos eram da classe operária. Frequentou escolas públicas e acredita que parte do sucesso que alcançou se deve à autoconfiança que o pai lhe transmitiu quando era novo. Quando entrou no segundo ciclo, os pais inscreveram-no em aulas de interpretação e a partir daí foi frequentando vários cursos, alguns durante o verão. Aos treze já pisava os palcos e aparecia na televisão, mas só alguns anos mais tarde é que o começamos a ver a fazer algo mais notável, em Histórias de Nova Iorque.

Com 29 anos, venceu o Óscar de Melhor Ator com a interpretação do pianista e compositor polaco e judeu Władysław Szpilman durante a Segunda Guerra. Uma prestação onde foi ao limite: emagreceu de tal forma que desenvolveu perturbações alimentares durante algum tempo e passou momentos sinistros — ataques de pânico, insónia — depois de ter terminado o filme. Há quem ache que levou o método longe de mais. Parte disso justifica-se porque Polanski decidiu rodar o filme de trás para a frente, ou seja, a personagem de Brody teria de estar mais debilitada no início das filmagens do que no fim. Levou a sério o “entrar dentro da personagem” e o seu método tornou-se como uma espécie de novo padrão.

Há poucas semanas, Brody dizia à Variety que provou que "o protagonista pode ser um tipo incomum, não tem de ser o estereótipo do gajo bonito”. Esse seu lado incomum justifica muito o quando se diz “Hollywood não sabe muito bem o que fazer com ele”, porque não é de todo o tipo com cara para um filme de ação ou que fique na memória como uma espécie de par romântico.

Antes de O Pianista, Brody colecionou alguns papéis notáveis, mesmo que secundários. Começou a carreira novo, aos dezasseis anos podemos vê-lo em Histórias de Nova Iorque, filme conjunto de Woody Allen, Francis Ford Coppola e Martin Scorsese. Em 1996 contracena com Mickey Rourke e Tupac Shakur em Bullet, Droga e Morte, de Julien Temple. O primeiro papel principal vem dois anos depois, em Restaurant, de Eric Bross, sobre um grupo de empregados de mesa num restaurante em Nova Jérsia que sonham ser atores. Seguem-se colaborações com grandes realizadores (e em ótimos filmes): A Barreira Invisível (1998), de Terrence Malick, Verão Escaldante (1999), de Spike Lee, e Os Melhores Anos (1999), de Barry Levinson. Sim, Brody também sabe como se faz comédia.

“O Brutalista”: um filme inchado de auto-importância sobre um arquiteto intransigente até ao insuportável

Antes de O Pianista, ainda é recomendável o filme Relações Estranhas (2001), de Peter Sehr. Depois de 2003, poderíamos entrar na narrativa de que não soube lidar com o sucesso. Mas Brody é realmente um caso em que Hollywood parece não ter manejado de forma correta as ferramentas que o ator colocou à disposição. Por exemplo, Colete de Forças, de 2005, de John Maybury, parece querer voltar a testá-lo para ver até onde ele pode emagrecer, isto é, levar o seu método para um filme de género que não sabe muito bem o que quer ser (ficção científica? thriller?). No mesmo ano, o King Kong de Peter Jackson faz-lhe um bom serviço, sobretudo se o contextualizarmos. Jackson tinha acabado de sair da excentricidade que foi a saga de O Senhor dos Anéis e Hollywood parecia estar à procura da próxima grande cena, num mundo em que os super-heróis ainda não estavam sedimentados. Testava-se de tudo um pouco: os monstros poderiam estar de volta. E estiveram, mais ou menos. King Kong foi bem-sucedido mas ficou aquém de criar escola. A febre pelo Godzilla e amigos (Kong incluído) só começou a bater anos mais tarde.

▲ Em "King Kong", "The Darjeeling Limited" e nas séries "Peaky Blinders" e "Winning Time"

Cinco anos depois, Adrien Brody voltou a tentar a ação, com um filme daqueles que temos tendência para esquecer, mas que é bem melhor do que nos lembramos: Predadores, de Nimród Antal. Não fará parte de nenhum panteão, mas também não é o desastre que poderia ter sido. Há poucas semanas, Brody dizia à Variety que provou que “o protagonista pode ser um tipo incomum, não tem de ser o estereótipo do gajo bonito”. Esse seu lado incomum justifica muito o quando se diz “Hollywood não sabe muito bem o que fazer com ele”, porque não é de todo o tipo com cara para um filme de ação ou que fique na memória como uma espécie de par romântico em algo como King Kong. Não é que esteja mal no filme de Peter Jackson, pelo contrário, mas não é o tipo de coisa pelo qual o lembraremos.

Afinal, o que fazer com este ator?

O que é então? O Pianista, sim, O Brutalista, também (e já lá vamos). Mas é também o que até ao momento já aceitou cinco desafios para integrar os muitos mundos paralelos de Wes Anderson o explorou em diversos filmes, uma relação que começou em 2007 e continua até hoje. Brody está disposto a tudo e a colocar-nos longe de qualquer preconceito sobre aquilo que gosta e de que e capaz.

Em The Darjeeling Limited, por exemplo, era o terceiro elemento, aquele que permitia ver para lá do universo que Anderson já tinha como certo e seguro. Contracenou com Jason Schwartzman e Owen Wilson, com uma presença que era a balança que faltava para não nos saturarmos das mesmas caras, dos mesmos tiques, das mesmas manias. E a verdade é que o cinema de Wes Anderson só cresceu após essa viagem de comboio pela Índia em 2007. Em parte deve-se à inclusão de Brody e em como o percecionamos como ator naqueles filmes: está lá, mas não está bem lá.

Agora, com mais de 50 anos, dois Óscares de Melhor Ator e mantendo a marca de ator mais jovem a ganhar a dita estatueta, será que Hollywood finalmente saberá o que fazer com ele? Ou será que continuaremos a ter o mesmo Brody, um dos melhores atores da sua geração, que mesmo quando não está lá, está lá, e que não se importa de experimentar para ver no que a coisa vai dar?

É um pouco deste Brody à maneira de Wes Anderson que vemos em Winning Time, o papel mais notável do ator americano na televisão (neste caso, numa série da HBO, disponível na Max). Em parte, porque há algumas semelhanças entre aquele Pat Riley e o Brody que chegou agora ao segundo Óscar de Melhor Ator. Mas também o treinador Riley garante aquela vibração mais séria que pareceu faltar a Brody nos últimos tempos até interpretar Laszlo Toth. Em O Brutalista, o ator volta à Segunda Guerra, neste caso, a de um arquiteto que tem de fugir do país, a Hungria, para encontrar uma vida melhor nos Estados Unidos.

Mesmo quando não está lá, está lá

Tal como O Pianista, o filme de Brady Corbet é uma história de sobrevivência. Será que é este o padrão de Brody para ganhar um Óscar? Não iremos por essa maldade-chavão, mas Brody é convincente nas diversas facetas que vai revelando como Toth ao longo das três horas e meia de filme. Seja o sobrevivente que chega a Nova Iorque e, logo depois, se muda para Filadélfia e se sente eternamente grato por quem o ajuda; seja aquele que reencontra aos poucos o trejeito da arte que persegue, mesmo que seja a desenhar mobília para quem não lhe dará o devido valor; seja o que percebe que a vida, afinal, não será tão fácil como podia e parecia e vai ser preciso de encontrar trabalhos para sobreviver que estão muito abaixo do seu génio.

▲ No filme "O Pianista", de Roman Polanski, o filme que em 2003 lhe deu o Óscar de Melhor Ator, o mais jovem de sempre a vencer na categoria

São várias roupas que Adrien Brody veste ao longo do filme. As que acabámos de descrever acontecem ainda nem vamos a meio deste épico de quase quatro horas. A melhor ainda estará para vir: a de génio com todas as feridas que o passado marcou e que o presente continua a não perdoar.

Agora, com mais de 50 anos, dois Óscares de Melhor Ator e mantendo a marca de ator mais jovem a ganhar a dita estatueta, será que Hollywood finalmente saberá o que fazer com ele? Ou será que continuaremos a ter o mesmo Brody, um dos melhores atores da sua geração, que mesmo quando não está lá, está lá, e que não se importa de experimentar para ver no que a coisa vai dar? Seja como for, aprecie-se o momento, veja O Brutalista se ainda não o fez, percorra a simpatia de um ator que não se importa de estar no fundo (até mesmo quando não está) como acontece nos filmes de Wes Anderson. Não é por não haver muitos deste calibre, é mesmo porque raramente, agora e sempre, poucos se dispuseram a isso. Mesmo que Hollywood continue sem saber o que fazer com ele, nós sabemos o que podemos esperar.

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