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FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Ordem para travar noites de violência e droga em Lisboa. Sem guerra de gangues ou escalada do crime, como a PSP controlou locais de diversão

O Observador passou duas noites no Bairro Alto, Cais e Santos. Numa delas acompanhou a polícia a tentar expulsar as pessoas de locais de diversão para evitar crimes. PSP nega guerra de gangues.

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— Atenção, cidadão de casaco laranja suspeito de praticar roubos.

A informação chega via rádio ao comissário da PSP, que não tira os olhos dos dois homens feridos estendidos na calçada da Travessa da Queimada, no Bairro Alto, em Lisboa. Há um homem vestido de laranja nestas ruas que anda a fazer assaltos e é preciso que o forte dispositivo policial ali montado esteja atento. São 1h29 e, de repente, parece que tudo está a acontecer. Os dois homens deitados no chão terão sido agredidos a escassos metros da polícia, que avisava o proprietário de um bar que não podia receber mais clientes, ao som de protestos de clientes descontentes com a regra. “It’s bulshit, why?”, interroga um homem de cabelo louro, na esperança frustrada de que a PSP recue.

Dos dois homens feridos no chão, ambos estrangeiros, só um consegue ir balbuciando, em castelhano, o que aconteceu na noite desta sexta-feira para sábado. Estavam dentro de um bar e quando foram pagar só aceitavam dinheiro. Insistiram com o pagamento em cartão e acabaram agredidos, alegadamente pelo porteiro. O que fala é dentista e descreve o que sente como a dor de um maxilar partido. O outro, ao lado, tem escoriações na cara e nada diz. É levado a braços para o passeio para permitir a passagem de uma ambulância dos bombeiros que segue para outra ocorrência.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Enquanto os dois estrangeiros esperam assistência, a PSP manda identificar o porteiro e notifica o dono do bar para preservar as imagens de videovigilância. Contam também com as imagens que o sistema vídeo instalado o Bairro Alto recolhe das ruas. No entanto, dizia na noite anterior um polícia ao Observador, nem sempre servem, já que as câmaras recolhem imagens sucessivas a 360º, e nem sempre captam o momento que a polícia quer investigar. Também nem sempre as imagens são de qualidade, referiu ao Observador o mesmo polícia.

Bares fecham e pessoas juntam-se na rua a beber cervejas, compradas a um euro. Assaltantes procuram ajuntamentos e há roubo, tráfico de droga e agressão. Ainda assim a PSP diz que criminalidade não disparou.

O problema das agressões por falta de pagamento é outro que a polícia tem enfrentado. Nesta noite, já depois das 2h00, haveria uma situação semelhante num bar já mais próximo da Praça Camões. Neste caso um elemento da Unidade Especial de Polícia, também presente no local, acabaria a identificar os envolvidos e a lavrar um auto. “Neste caso eu não vi nada, terá que ser feita uma investigação”, relatava mais tarde a um superior, durante a operação policial que o Observador acompanhou.

Ambulâncias sempre a chegar

À Travessa da Queimada chega a ambulância que vai levar os dois estrangeiros ao hospital e logo de seguida uma outra, do INEM, que segue para outra urgência. As chamadas não param de cair. Nesta noite, a uma semana de as discotecas reabrirem portas — forçadas ao fecho por causa da pandemia em março do ano passado –, o cenário que se vive é idêntico aos das últimas semanas, que tem levado a PSP a bloquear ruas com grades e a “varrer”, na gíria policial, todas as pessoas a partir das 2h00.

“O problema agora é que não há transportes públicos nem sítios abertos para estas pessoas irem”, constata o comissário Artur Serafim, que está ali para dar a cara pela PSP, mas que ao longo da noite não evitou mandar encostar à parede suspeitos de crimes, alguns de desobediência, e até deitar fora as garrafas que as pessoas insistiam trazer nas mãos em plena via pública — mesmo depois de a PSP as alertar que não era permitido. Na PSP acredita-se que o cenário que se tem vivido nestes locais de diversão noturna da capital melhore com o alargamento dos horários bares das 2h00 para as 3h00 e com a abertura das discotecas. Porque agora a grande concentração de pessoas na via pública tem gerado conflitos entre grupos e atraído assaltantes.

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Uma fonte da Investigação Criminal explicou ao Observador que mais do que as pessoas terem opção para sair à noite, as discotecas são também importantes, porque acabam por controlar comportamentos. À entrada têm detetores de metais que impedem a circulação de armas, alguém mais alcoolizado pode ser expulso ou serve-se menos álcool. “Há uma maior controlo”, admite. No interior há também câmaras de videovigilância que facilitam a investigação em caso de crime.

Na rua não é assim. Depois de serem retirados do Bairro Alto, grupos inteiros de pessoas descem para a zona do Cais do Sodré e de Santos e aproveitam o som de colunas portáteis para continuar a festa. Os vendedores ambulantes — também há os que vendem apenas chamuças — vendem cerveja a 1 euro e o álcool no sangue dispara. “Mais pessoas na rua levam a mais incivilidades, mais consumo de álcool. Onde há noite há confusão, onde há estrangeiros há pessoas que querem ter proveito, roubos, carteiristas, venda de droga”, lembra ao Observador o comissário Dinarte Diniz , que comanda a I Divisão da PSP (com o Bairro Alto a seu cargo), mas na noite de quinta-feira estava no lugar de oficial de serviço, responsável por todo o Comando de Lisboa.

Na noite de sexta-feira e com reforço policial foram feitas seis detenções: três por roubo, uma por tráfico de droga e duas por posse de colunas de música por infrações relativas ao ruído na via pública.

Os vídeos que denunciam crimes nas redes sociais

Na última semana foram exibidos nas redes sociais e replicados na comunicação social pelo menos quatro vídeos que mostram episódios de violência: um foi gravado na Praça Camões, outro na Rua da Atalaia, e os restantes dois no Cais do Sodré. Os quatro estão já nas mãos da polícia a ser passados a pente fino. Os do Cais do Sodré mostram um homem a ser violentamente assaltado e agredido por um grupo. O filme foi visto pela polícia nas redes sociais e até hoje não há queixa por parte da vítima nem registo da sua entrada no hospital. Há um outro em que se vê mesmo um homem a disparar sobre outro e acaba morto, como noticiou há uma semana a PSP.

“Cada vez que vimos estes vídeos corremos os hospitais à procura de possíveis vítimas para começar a investigação”, diz a fonte da investigação criminal. Neste caso do roubo, arrisca, poderá ter sido um turista que depois acabou por deixar o país.

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Já na Rua da Atalaia há um vídeo violento que mostra um grupo que passa entre quem bebe copos na rua e rouba com violência uma carteira a um rapaz. Um assalto estratégico feito por um grupo que já estava na mira da polícia, que virá de fora de Lisboa para atuar ali, mas que com a divulgação do vídeo parece ter desaparecido. Esta vítima foi encontrada pela PSP no Hospital de São José e admitiu ser a pessoa das imagens.

“Apelamos a todos que façam chegar os vídeos à polícia”, atira o comissário Dinarte Diniz, explicando que muitas vezes quem filma publica nas redes sociais, mas nem sequer vai à polícia dar conta do crime.

Casos há em que não há vídeos. Na Travessa da Queimada, enquanto os dois espanhóis estavam deitados no chão, um rapaz filmava. Quando o Observador o questionou sobre se ia mostrar o vídeo à polícia, refugiou-se no problema da língua para responder que não estava a perceber. Dizia em inglês que só percebia alemão. Levantou-se do degrau onde estava sentado a custo e acabou levado amparado por um amigo, aparentemente alcoolizado. Nestes casos a polícia não pode sequer obrigá-lo a fornecer o vídeo.

Não existe existe qualquer guerra de gangues em Lisboa, garante PSP

Na última semana, alguns jornais deram conta de que nesta zona de diversão noturna de Lisboa vivia-se numa verdadeira guerra entre gangues, que lutam pelo domínio dos negócios de droga e de armas. A PSP nega que seja esse o caso. Na Investigação Criminal sabe-se, aliás, que o que há é grupos que roubam e que há mais armas a circular, precisamente porque na rua não há detetores de metais. A mesma fonte diz mesmo que numa noite normal no Bairro Alto poderá haver quatro ou cinco roubos — o mesmo que havia antes da pandemia. O que agora se regista a mais são sim apreensões de colunas de som. O Observador tentou obter dados estatísticos por parte da PSP para perceber se esta teoria tem expressão nos números, mas até à publicação deste artigo não tinha ainda resposta.

Certo é que na noite desta sexta-feira foram feitas pelo menos seis detenções: três por roubo com ameaça de faca, duas por posse de colunas e por violarem a lei do ruído e uma outra por tráfico de droga. Neste caso foi uma mulher que tinha já um mandado de detenção pendente para cumprir quatro meses por tráfico de droga e que disse à polícia que deixara a filha de apenas um ano “com uma amiga”.

No início da madrugada, quando os elementos da PSP fortemente armados e equipados com proteções continuavam a bater as ruas do Bairro, é avistado um homem de casaco laranja no meio de um grupo de rapazes em fila indiana, na esquina para a Rua do Norte. Podia ser aquele que minutos antes gerava o alerta nos comunicadores da polícia. Em poucos segundos foi encostado à parede. Os amigos seguem caminho, só um volta atrás para lhe entregar “a bolsa”. Nos minutos em que lhe explicam que procuram um suspeito com as suas características, ouve-se o som de uma coluna de música. Àquela hora já não pode haver ruído na rua, a ideia é desmobilizar. Os bares estão prestes a encerrar portas, pelas duas horas.

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O rapaz da coluna é também colocado junto à parede, ao lado do de laranja. Enquanto isso, quem por ali está continua a beber copos e a tirar selfies, indiferente ao que possa estar a acontecer. A PSP decide depois identificar o rapaz suspeito do roubo de telemóveis e mandá-lo seguir viagem para depois o investigar. O da coluna de música é autuado por ruído. Mais de uma hora depois seria autuado um outro rapaz pelo mesmo motivo, mas já na Praça Camões.

“Estes ajuntamentos nas ruas normalmente são motivados por uma coluna de som que alguém traz. Depois há vários grupos na rua, cada um a ouvir a sua música, e por vezes há confrontos entre grupos”, explicava na noite anterior um polícia ao Observador.

Há vídeos de violência no Bairro Alto e no Cais do Sodré a circularem nas redes sociais que estão a ser analisados pela polícia. Mas nenhum foi entregue pelo seu autor à Polícia.

Foi o que aconteceu há uma semana em Santos. Forçados pela polícia a sair do Bairro Alto e do Cais do Sodré, começaram a concentrar-se no Largo Vitorino Damásio, em Santos. Daniel Carlos, que se tornou o proprietário do Narcos Bar quatro meses antes de o país fechar por causa da pandemia de Covis-19, lembra-se bem dessa noite. O largo estava cheio de gente.

Num outro bar, já no largo, um funcionário que ali trabalha há três anos e que pediu para não ser identificado, nunca viu nada assim. Diz que a concentração de pessoas e o “mau comportamento” chegou a um ponto em que se sentiram inseguros e tiveram de fechar portas. Há semanas que não arriscam estacionar os carros no largo com medo do arremesso de pedras e de garrafas. “Vi miúdos a abanarem um táxi, a mandar garrafas para um autocarro. Nunca tinha visto nada assim na minha vida”, conta.

Em Santos, os comerciantes fecharam as portas. Mas há quem diga que é ilegal

Também as imagens dessa noite, que acabou com registo de um esfaqueado, foram parar às redes sociais. Luís Newton, presidente da junta de freguesia da Estrela e a fazer campanha pelo movimento “Novos Tempos Lisboa”, decidiu agir de imediato. “Tínhamos informações do Bairro Alto, já desde agosto. Estávamos atentos, parecia que não estava a acontecer nada aqui. E de repente fomos surpreendidos com aquelas imagens que todos assistimos. Não houve mais tempo para contemplações”, diz ao Observador na noite de quinta-feira.

Assim, um dia antes, tinha reunido com alguns comerciantes da zona com quem decidiu que durante os quatro dias seguintes deviam encerrar às 23h00 para evitar os ajuntamentos de pessoas. “Tenho que enaltecer que os empresários perceberem de facto que estávamos numa situação que não era de todo desejável e que queriam também eles ser proativos”, afirma. Segundo disse, nessa reunião estiveram 14 empresários que lavraram em ata essa decisão. Na quinta-feira juntaram-se mais seis.

Em Santos, a junta de freguesia e comerciantes decidiram fechar às 23h00 para evitar ajuntamentos. Mas há proprietários de bares a duvidarem da eficácia da medida e a consideram-na ilegal.

Daniel Carlos, do Narcos, diz que não assinou nada, mas que se sentiu pressionado a fechar. São 23h00 e à porta tem um elemento da PSP e um fiscal da câmara que garante que fecha portas. “Eu pago todos os impostos, não assinei nada, sou mesmo obrigado a fechar?”, interroga ao Observador.

“Eles não estão obrigados a nada. A freguesia não tem que impor o encerramento de coisa alguma. Foi por iniciativa deles”, tinha dito minutos antes Luís Newton, que justifica que a concentração de pessoas muito se deve à necessidade que todos têm de se libertar do confinamento. Aliás, corrobora mesmo uma ideia defendida há meses pelo sociólogo Nicholas Christakis, de que após a pandemia teríamos novamente “os loucos anos 20 do século XXI”, com muitas pessoas na rua a recuperarem os tempos perdidos.

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“Esta gente não vai para casa, eles estão fartos de estar em casa”, reforça o dono do Narcos, Carlos Daniel, que continua sem entender a medida da autarquia, a uma semana de reabrirem as discotecas. “Não queríamos isto como estava. Antes das 2h empurraram as pessoas para o Cais e do Cais para aqui. Mas precisamos trabalhar”, desabafa.

“Já tenho um advogado a analisar isto. Eles dizem que os proprietários é que requisitaram isto, eu nem sequer sabia. Disse que era contra à secretária [do presidente] e ela disse que há queixas dos moradores e que há muitos casos”.

Para o constitucionalista Paulo Otero, este acordo entre empresários só vincula quem o subscreveu, “a menos que quem assina o acordo represente os restantes”, diz, o que não terá sido o caso. “Não é possível impor-se às pessoas que não concordaram, o acordo não produz efeitos contra terceiros, salvo se houver a intervenção de uma associação que os represente, à partida não me parece que o presidente da junta tenha competência” conclui.

Ainda assim, tanto na noite de quinta como de sexta-feira os estabelecimento em Santos fecharam portas às 23h00, ao contrário do que aconteceu no Bairro Alto e no Cais do Sodré. Pelas 2h00 de sábado, quando a polícia dava ordens a todos para abandonarem as ruas do Bairro, Matilde, uma fotógrafa de 26 anos, perguntava à polícia as razões de todo aquela aparato policial. Já tinha estado no miradouro de São Pedro de Alcântara pelas 23h00 e disseram-lhe que aquele espaço estava encerrado, porque “andava a haver facadas naquela zona”. Matilde não queria acreditar. Há anos que não vinha ao Bairro Alto, o que se estava a passar? Ainda assim, do balanço da noite, diz que apesar de haver mais gente, não se sentiu sequer insegura. “Já tive situações mais chatas pré-Covid do que hoje. Até foi tranquilo apesar de estar muita gente. Nesse aspeto não me senti insegura”, afirmou ao Observador.

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A própria intervenção policial tem de ser cuidadosa e contar com todos os meios, como está a acontecer este fim de semana depois das notícias que saíram na comunicação social. É que reforço policial tem havido sempre, mas segundo a polícia, tem que se pensar bem antes de agir. “A atuação será prejudicial ou não? Se não, poderá levar a distúrbios e arremesso de pedras, e depois pessoas iam levar com pedras e garrafas e temos que ter dispositivo para as ocorrências”, adverte o comissário Dinarte Diniz.

São 4h00 e depois de “varridas” as pessoas do Bairro Alto, há vários grupos no Cais do Sodré. A PSP não desmobiliza, mas os transportes só existem daí a duas horas. Na próxima semana reabrem as discotecas e tenta-se um regresso à normalidade. A PSP espera tirar de vez as grades das ruas do Bairro Alto porque os aglomerados de pessoas deixam de ter limitações.

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