Os jesuítas e São Fiel: a história de um colégio traído (e agora ardido)

19 Agosto 20171.128

A instituição fundada no século XIX, aos pés da Serra da Gardunha, ardeu esta semana num incêndio que não apaga o valor de um edifício histórico para os jesuítas e para o ensino em Portugal.

O prenúncio está logo nas cartas de S. Francisco de Xavier. Ainda a Companhia de Jesus tem dentes de leite e já o missionário explica a Sto. Inácio que costuma ensinar o catecismo através de músicas e jogos de palavras fáceis de decorar. É a primeira relação pedagógica da Companhia, umas pequenas frases envergonhadas, se as compararmos com toda a produção pedagógica que se seguiu.

A inesperada vocação professoral dos Inácios marcou toda a História do Ocidente. Basta o nosso exemplo: só nos anos 30 do século passado é que voltou a haver igual número de alunos nas escolas ao que havia antes da expulsão Pombalina, foi no Colégio jesuítico de Santo Antão que funcionou por mais de um século a Aula da Esfera — viveiro matemático dos cálculos que tanto serviram e resultaram dos nossos descobrimentos — e foi nos seus colégios modernos, de Campolide ao S. João de Brito, que se educou uma boa parte dos protagonistas dos últimos séculos – dos Integralistas Pequito Rebelo ou Pinto Mesquita ao inesperado Pinto da Costa.

Todo o ensino da Europa se fez ao arrepio ou em concórdia com os métodos Jesuíticos. Numa actualização do método escolástico das questões de Quodlibet, que punham o centro do ensino na contestação das teses apresentadas, os Jesuítas trouxeram para a Era Moderna um método que divisava as classes em dois campos, Roma e Cartago, que se digladiavam em permanência, com cada grupo a farejar constantemente os erros opostos e a contestar as teses apresentadas. A exegese com o objectivo de encontrar a falha, espicaçada pela concorrência, procurava versar os alunos no pensamento crítico e no rigor (pois cada aluno sabia que teria sempre um adversário no encalço) que os adversários sempre negaram aos Jesuítas. O teor do ensino, que tem uma boa descrição na biografia que Edgar Prestage fez de D. Francisco Manuel de Melo ou na famosa História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, de Francisco Rodrigues, moldou o cânone do pensamento moderno: de Pascal a Descartes, com o Colégio de la Flèche, até à geração de Teodoro de Almeida e Verney, a educação e a Cultura Jesuítica estiveram sempre no centro dos debates culturais.

Ora, é dessa altura que saem as mais fortes contestações ao ensino dos mestres da sotaina, e também dessa altura que nasce, indiretamente, grande parte do prestígio do Colégio de São Fiel.

Com o relaxar da perseguição religiosa que caracterizou o princípio do liberalismo, voltam a aparecer os colégios, reformatórios e orfanatos a cargo de padres e outros religiosos. Entre esses surge, graças à boa vontade de um Frei Agostinho da Anunciação, um orfanato singelo, insulado na encosta meridional da Serra da Gardunha, que o próprio fundador veio a entregar, contra a vontade dela, à Companhia de Jesus.

Do que lhe deve na curiosidade intelectual e mesmo na direcção dos seus interesses, deu testemunho Egas Moniz; porém, mesmo o Professor Cabral de Moncada, mais prudente em relação às alegrias do seu tempo de Colégio e mais permeável à imagem pública dos Jesuítas, conta nas memórias as condições privilegiadas que tinham para o ensino experimental.

A interpretação mais relaxada das leis liberais, que permitiam tomar como habilitado para ensinar, não quem tivesse a habilitação examinada pelo Estado, mas quem quer que o reitor julgasse habilitado na matéria, aliado à formalidade de passar a posse do Colégio para Jesuítas estrangeiro, já que às Ordens portuguesas não era permitido que possuíssem colégios, deu à Companhia um Colégio irmão ao de Campolide, em Lisboa.

Uma devoção científica

A letra da lei podia ser contornada facilmente e sem escândalo, já que até a generalidade dos políticos educava a prole nos Colégios religiosos; o espírito que a motivara, porém, era mais difícil de contrariar.

À acusação vinda dos tempos de Pombal, de que os Jesuítas coleavam entre os corredores do poder, moldando as consciências à seu bel-prazer, São Fiel seria fraca resposta: de facto, o colégio conseguiu, graças à reputação pedagógica de que os Jesuítas gozavam, concentrar grande parte da burguesia do país nas suas salas. Às acusações de obscurantismo e falso saber, porém, os Jesuítas fizeram questão de lhe negar todo o fundamento. Para não haver margem para acusações de inimizade às ciências e aos avanços científicos do tempo, a Companhia apostou com êxito no ensino experimental e científico.

Do que lhe deve na curiosidade intelectual e mesmo na direcção dos seus interesses, deu testemunho Egas Moniz; porém, mesmo o Professor Cabral de Moncada, mais prudente em relação às alegrias do seu tempo de Colégio e mais permeável à imagem pública dos Jesuítas, conta nas memórias as condições privilegiadas que tinham para o ensino experimental: a imensa serra que circundava o Colégio, as constantes actividades ao ar-livre e o espírito varonil bem canalizado levavam naturalmente ao interesse pela botânica, ou pela zoologia, que Cabral de Moncada não dissociava de uma certa liberdade rural e exigência física que o Colégio impunha.

Os testemunhos de um e outro, porém, não dão conta da dimensão científica que teve São Fiel. Seria raro, mesmo numa Universidade, que coabitassem no mesmo espaço, ensinando jovens no seu percurso escolar, tantas personalidades com tanto mérito científico. A plêiade científica dos professores, em primeiro lugar, fundou em 1902 aquela que se viria a tornar a centenária Revista Brotéria, desdobrada em várias vidas, da Brotéria de Divulgação Científica à Brotéria de Cultura, com outras muito mais especializadas – como a Brotéria de genética – pelo caminho. Aquilo que poderia ser apenas uma modesta revista de colégio, em virtude da cultura e produtividade dos seus articulistas, tornou-se logo uma revista importante no meio científico. Foi a primeira Revista jesuíta inteiramente dedicada a matérias científicas e, note-se, de produção original, não de artigos de divulgação. Estes vieram depois, numa série paralela, alimentada pelos mesmos autores para financiar a revista científica. Dedicada a Félix Avelar Brotero, o eminente naturalista, a revista – cuja importância pode ser avaliada a partir do livro Ciência, Prestígio e Devoção, de Francisco Malta Romeiras – caracterizou novas espécies botânicas, tratou com rigor temas em voga, como o Darwinismo, e, com notável variedade, debruçou-se sobre bioquímica ou genética molecular. Francisco Malta Romeiras ensina que, no tempo de vida da Brotéria Científica (a cultural ainda vive) se classificaram 1327 novas espécies zoológicas e 887 novas espécies botânicas.

O corpo de redactores – professores de São Fiel — era notável: de Joaquim da Silva Tavares, que foi reitor de São Fiel e sócio da Academia das Ciências, até António da Costa e Oliveira Pinto, pioneiro em Portugal nos estudos de radiologia, único português no 1º Congresso Internacional de Radiologia e que trabalhou no laboratório de Pierre e Marie Curie.

O interesse e o saber de tais professores passaria, naturalmente, para o Colégio. Não só a Gardunha foi palco de muitas das experiências e observações destes padres cientistas, como o próprio Colégio, dotado de um Herbário, de um Museu de História Natural e de um Observatório Astronómico, tinha condições científicas de excepção. A colecção de lepidópteros que Cândido Azevedo Mendes recolheu paulatinamente no Colégio, depois da nova expulsão dos Jesuítas, passou directamente para a Universidade de Coimbra; as observações astronómicas de São Fiel eram comentadas por Frederico Oom, director do Observatório Astronómico de Lisboa e vinham no relatório oficial do Observatório do Infante D. Luís.

Ora, enquanto os Jesuítas introduziam os seus alunos nas experiências botânicas e astronómicas a que muitas vezes nem a Universidade os levaria, em Lisboa a loquela parlamentar continuava a discutir o obscurantismo Jesuítico, a inimizade da sotaina para com a ciência e a expulsão dos Jesuítas.

O contributo do Colégio de São Fiel para a História da Ciência em Portugal é inestimável e não apenas pela qualidade dos professores. O zelo na educação científica era tal que Carlos Zimmermann introduzia, no princípio do século XX, o uso do microscópio nas suas aulas e, caso ainda mais singular, aquando do eclipse solar de 1905, os Jesuítas levaram alunos seus (de 13 e 16 anos!) a Burgos para, no meio de comissões de Astrónomos Internacionais, observarem os eclipses.

Ora, enquanto os Jesuítas introduziam os seus alunos nas experiências botânicas e astronómicas a que muitas vezes nem a Universidade os levaria, em Lisboa a loquela parlamentar continuava a discutir o obscurantismo Jesuítico, a inimizade da sotaina para com a ciência e a expulsão dos Jesuítas. As insistências de deputados republicanos pela extinção de São Fiel, o livro de Borges Grainha sobre o Colégio de Campolide ou o relatório de Sousa Refóios sobre São Fiel, que embora se rendesse à singularidade de existir no Colégio um laboratório de Química, considerava o ensino “reaccionário”, contribuíam para as acusações de fanatismo. Embora a estas acusações se contrapusesse com verdade que muitos dos delactores dos Jesuítas lhes confiavam a educação dos filhos, a verdade é que a opinião preconcebida de obscurantismo acabou, com a República, por vencer.

Os professores fugidos

As peripécias da nova expulsão conta-as Luís Gonzaga de Azevedo no seu livro Proscritos. Conta que após a implantação da República e a explosão de uma bomba no colégio de Campolide, a apreensão previsível tomou conta dos padres professores. As ameaças aos padres e ao Colégio começaram logo no dia 6 de Outubro, pelo que os Jesuítas tiveram de se refugiar em casas da região, protegidos pela boa-vontade local. As suspeitas de que os padres guardavam bombas e armamento, que já tinham motivado uma infrutífera busca a Campolide, justificaram as devassas dos pertences dos Inácios; os padres que não fugiram foram cercados no Colégio pela cavalaria a 13 de Outubro, enquanto aguardavam a prisão e as medições frenológicas a que depois foram sujeitos. Do colégio foram roubados livros, destruídas colecções zoológicas e científicas e vandalizado material enquanto se procurava o famoso e imaginário armamento.

Os padres, desbaratados pelo mundo, chamados para o Instituto Nun’Alvares, fundado com grande dificuldade, não puderam continuar o colégio; o edifício teve uma vida intermitente e não desejada como reformatório, até cair no abandono.

Os jesuítas fugidos, cientes da vontade de tantos pais em submeter os filhos à sua educação, ainda organizaram, a partir dos restos do Colégio de Campolide, um novo colégio em Bruxelas. Este passou depois para a Galiza e, com uma vida um tanto atribulada, regresso anos depois a Portugal, com o nome oficial de Instituto Nun’Alvres e popular de Colégio das Caldinhas, em Santo Tirso. Das instalações, fez-se o campus da Universidade Nova de Lisboa. São Fiel, porém, não teve igual sorte. Os padres, desbaratados pelo mundo, chamados para o Instituto Nun’Alvres, fundado com grande dificuldade, não puderam continuar o colégio; o edifício teve uma vida intermitente e não desejada como reformatório, até cair no abandono.

Já seria uma perda para a região o esfumar daquela fachada sóbria e imponente, tão conhecida e simbólica para Louriçal do Campo e toda a Serra da Gardunha; também seria uma perda emocional a ruína de um colégio que guardava as memórias dos tempos de rapaz de tantos homens que marcaram, com mais ou menos distinção, o século passado. As memórias que Cabral de Moncada tem da “pedra grande” e que tantos terão da imensa paz que circunda a Serra. A perda de São Fiel, porém, não é apenas a perda de um Colégio. É a perda de um museu, com todos os restos de museus que ainda se encontravam lá dentro, cuja importância para a História da Ciência deve ser bem vincada.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.

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