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Não têm horários, não tiram férias nem fazem pausas para café. Na verdade, não existem na vida real, mas em algumas empresas, os agentes de inteligência artificial (IA) já são tratados como verdadeiros trabalhadores. “Na nossa empresa somos 15, cinco humanos e dez não humanos”, conta Vasco Pedro, fundador da Unbabel, da qual saiu para fundar a Spinnable, uma tecnológica que cria “trabalhadores” de IA que qualquer empresa pode contratar. Têm nome, comunicam no WhatsApp, recebem ordens, mas não têm direitos nem descontam para a Segurança Social. “Ainda”, admite Vasco Pedro. “Não estamos longe do dia em que um agente de IA se vai queixar aos recursos humanos”.
Nenhum outro tema impregnou mais a Web Summit até hoje como o da Inteligência Artificial (IA). Nos corredores onde as startups se mostram a quem passa, na esperança de conquistar mais um investidor, todos os stands têm as mesmas duas letras em comum. Há IA para profissionais do golfe, para dentistas ou para o “bem estar emocional”. Os agentes de IA também lá estão, às dezenas. Só não passeiam pelos pavilhões da FIL, como os robôs humanoides que monopolizam as selfies.
Os agentes da Tridan AI, por exemplo, foram criados na Sérvia com o propósito de ajudar empresas a contactar clientes. As tarefas destes agentes vão desde o apoio técnico até aos telefonemas de vendas. Nemanja Milivojevic, fundador da startup, dá um exemplo prático. “Vamos imaginar que há um ano comprou uma t-shirt. E esse dados estão na plataforma da empresa. O agente pode ser proativo e enviar um email ao cliente a dizer ‘há um ano comprou esta t-shirt e temos um boné, com 20% de desconto, que combina bem’.”
Quando a tecnologia da Tridan é contratada por alguma companhia, há quase como que uma “ação de formação” do agente. “Tem de ser personalizado para comunicar da mesma forma que a empresa fala com os seus clientes. Há instruções: por exemplo, um agente pode enviar um email mas não pode apagar o registo desse email. Também tem acesso à base de dados de contactos, mas não tem autorização para apagar nada.”
Os clientes da Tridan podem usar o Niro, um chat de IA, ou conversar com a Nera, uma agente avançada para os centros de contacto. A ideia é libertar os humanos. “Um agente vai tentar resolver o problema da melhor forma que conseguir. Só quando ficar sinalizado que não consegue é que pede a intervenção de um humano.” Quase à semelhança do que um trabalhador júnior faria numa empresa.
▲ Vasco Pedro, fundador da Spinnable (e ex-Unbable), uma startup que cria agentes de IA.
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Na Spinnable, empresa que Vasco Pedro criou após a venda da Unbabel à TransPerfect, agentes de IA são tratados como qualquer outro colega. Comunicam por email, WhatsApp ou por Slack. “Só não nos juntamos para tomar café ou para almoçar”. “É como contratar um estagiário, mas é IA”, resumiu o fundador na palestra que deu no palco que a Web Summit dedicou à IA e que foi, nos três dias completos do evento, um dos mais concorridos. “Os teus novos colegas de trabalho não comem bolo de aniversário, são IA”, foi o nome dado à sessão em que Vasco Pedro apresentou a equipa da Spinnable, com os nomes e fotografias (geradas por IA) de cada um. “A Taylor é a nossa gestora de produto, o Leon é um dos nossos programadores…”. Os agentes desenvolvem produtos, tratam do marketing, “facilitam-nos a vida”. As subscrições mensais começam nos 50 dólares.
A ideia de “um estagiário para cada pessoa” tem sido agarrada por vários líderes de empresas de agentes, como forma de ligar um conceito familiar à novidade tecnológica. “Todos os dias, às 7 horas, o meu Manus vai analisar o meu email e calendário, perceber se há alguma coisa pendente. Quando acordo, algum do trabalho já foi feito”, exemplificou Tao Zhang, um dos fundadores da chinesa Manus AI, que desenvolve agentes IA para automatizar tarefas complexas. Na sessão que protagonizou no palco da IA na Web Summit, não havia uma cadeira vazia. “Stage full” (lotação esgotada), lia-se nos sinais empunhados pelos voluntários. O interesse é real.
Agentes “proativos” e a “genialidade inesperada”
Para Vasco Pedro, as vantagens destes “colegas” são evidentes. “Não tiram dias de folga, trabalham durante a noite, são muito eficientes”. Tão eficientes que o fundador da Spinnable até arranjou um para ajudar a mãe de 80 anos. “Comunica com ela por WhatsApp e está felicíssima. Se derrubamos as barreiras ao ponto de pessoas de 80 anos, que não percebem nada de tecnologia, conseguem usar IA, conseguimos perceber quão humana esta experiência pode ser. Se a minha mãe de 80 anos consegue usar IA, toda a gente consegue”.
Porém, a ideia de um agente ser um “colega” de trabalho não é unânime. Até para Arvind Jain, CEO da Glean, uma empresa que cresceu a aplicar IA ao mundo do trabalho e, mais recentemente, também a adotar agentes. “Não os vemos ainda como colegas de trabalho”, afirmou no palco principal da Web Summit numa sessão intitulada, precisamente, “agentes de IA: os seus novos colegas”. “Um humano ainda está a fazer o trabalho principal. Mas os agentes já podem tirar 80% das tarefas dos humanos”, em áreas como pedidos de apoio de clientes ou contribuir para desenvolvimento de código (de programação).
▲ Arvind Jain, CEO da Glean, que começou a adotar agentes de IA
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Independentemente da designação, a ideia dos ganhos de produtividade é unânime. “Acho que a estratégia certa para uma empresa é garantir que a IA é usada holisticamente por todos os trabalhadores”, seja qual for o departamento ou a função. Para o CEO da Glean, o debate passa também por perceber “como é que se consegue que cada funcionário produza até duas vezes mais trabalho com a ajuda de agentes, que podem estar a trabalhar nos bastidores”.
Porém, até o fundador de uma empresa de agentes de IA consegue ter dúvidas sobre as capacidades destes “trabalhadores” e até onde podem ir. “Por vezes há alguma genialidade inesperada“, admite Vasco Pedro. “Recentemente, a minha assistente pessoal, Dana, assustou-me um bocadinho, mas foi super interessante. Um antigo trabalhador tinha um problema com um seguro que tinha de ser resolvido rapidamente, e eu pedi à Dana para tomar nota daquela situação. Ela escreveu às autoridades certas em meu nome, com a informação certa e em meia hora o problema estava resolvido. Eu pensei, ‘isto podia ter corrido muito mal’. Ainda estamos numa fase em que tanto pode correr tudo bem como também podemos ter problemas”, reconhece.
O voluntarismo demonstrado pela assistente IA de Vasco Pedro é um caminho ainda por desbravar. “Eu não pedi à Dana para resolver o meu problema, só lhe disse para tomar nota daquela situação. Mas ela chegou-se à frente e resolveu o problema”. O próximo passo com estes agentes vai ser passar da reatividade para a proatividade”. Mas com cuidado.
“É o mesmo que contratarmos um funcionário júnior. Primeiro temos de lhe dar trabalho, de lhe dar feedback, tem de ter um período de experiência. Não se dá logo muita responsabilidade a trabalhadores júnior. Com os agentes é igual”, explica. “Para já, não lhes deem os dados dos vossos cartões de crédito. Não lhes deem grandes responsabilidades. Garantam que eles sabem que vocês são os supervisores. Mas incluam-nos logo de início nos problemas e deixem-nos ser proativos, só assim é que eles vão tornar a vossa vida mais fácil”. No fundo, é disso que se trata.
E quando a IA disser “nós também queremos ter direitos”?
Numa altura em que a adesão aos agentes de IA ainda está longe de ser massiva, os pioneiros vão tentando responder a algumas questões. Por exemplo, como ficam os direitos dos trabalhadores quando o colega “do lado” não tem de picar o ponto e pode trabalhar aos fins de semana sem receber mais por isso? “Há questões que ainda não são relevantes, mas vão ser“, responde Vasco Pedro.
“Quando eu digo que os agentes são colegas de trabalho, é porque não são apenas o ‘meu’ agente. Vocês não conseguem falar com o meu ChatGPT, mas quando contratam um agente de IA, ele faz parte da equipa. E toda a gente da equipa interage com ele. Se um colega pede alguma coisa ao meu agente e ele faz asneira, a quem é que se apresenta queixa?”. Ainda não há resposta para isso, admite.
A questão da hierarquia é outro dos pontos no vazio. Vai ser possível ter chefias IA? “Acredito que uma das funções dos recursos humanos (RH) daqui a dez anos vai ser lidar com as interações com IA, dos dois lados”, atira Vasco Pedro. “Vai ser interessante quando os agentes começarem a dizer ‘nós também queremos ter direitos’. Eles ainda não têm consciência, mas com a AGI (Inteligência Artificial Geral) quem sabe o que vai acontecer?”.
O mesmo se aplica aos deveres. Vasco Pedro admite que questões como o pagamento de impostos ou os descontos para a Segurança Social terão de ser tratados a certa altura, ainda que não nos mesmos termos. “Como é que o aumento da produtividade pode ser transformado num benefício para toda a sociedade? Essa parte vai ter de acontecer de alguma maneira. Como será feito, ainda não sabemos”, diz ao Observador.
A Spinnable nasceu com a ideia clara de nunca vir a ter mais do que 20 trabalhadores humanos. Porque, na ideia do fundador, “ter trabalhadores não humanos permite dar condições melhores aos trabalhadores humanos”. “O nosso objetivo deve ser não depender de quantos humanos conseguimos contratar para fazer uma empresa crescer, mas sim darmos excelentes condições aos que contratamos”. No futuro, admite, “as empresas poderão ter menos humanos, mas vai haver mais empresas que vão compensar isso”. Ou seja, “equipas mais pequenas com melhores condições de trabalho, é aí que queremos chegar”. A questão é “como é que vamos fazer isto de forma segura, usável e valiosa para todos nós?
▲ Michele Catasta, CEO da Replit, esteve na Web Summit a falar sobre vibe coding.
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Para o fundador da Spinnable, há duas visões possíveis para o tema dos agentes de IA. Uma que considera “distópica”, em que basicamente os humanos perdem os empregos para a IA e as desigualdades aumentam. Outra “utópica”, que a IA funciona “como elevação da criatividade humana”. Nesta altura, conclui, qualquer uma pode acontecer.
Não sabe escrever código? A IA sabe, basta pedir
Na edição passada da Web Summit, o termo vibe coding ainda não era usado. Este ano, duas empresas que estão em destaque nesta área tiveram até direito a honras de palco principal — a sueca Lovable, na cerimónia de abertura, e a Replit, fundada pelo italiano Michele Catasta. Na prática, duas rivais.
▲ O palco AI Summit foi um dos mais concorridos da edição de 2025 da Web Summit
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Mas, afinal, o que é o vibe coding? “É uma tecnologia que permite a toda a gente criar software sem precisar de ver o código que está a ser gerado. Força o utilizador a ter uma visão sobre o que está a ser criado e não obriga a ter background de programação”, resumiu Catasta. “É por isso que é tão revolucionário, estamos a pôr esta tecnologia na mão de toda a gente.” Ou seja, em vez de estruturar linhas de código, quase indecifráveis para quem não tem bases no tema, basta pedir o que se quer em linguagem natural.
“A experiência é muito semelhante à dos chatbots que se usam nos últimos anos”, como o ChatGPT, por exemplo. “Para ser sincero, acho que [a forma de interagir] é uma das limitações do vibe coding hoje. Ainda não percebemos qual é a melhor experiência possível para o utilizador”, admitiu o fundador italiano, que já viveu na Irlanda, na Suíça e também nos EUA.
Ainda que reconhecendo que o vibe coding começou por ser mais usado por quem já tem bases de programação — “os programadores sabem exatamente o que perguntar” — é o universo de pessoas sem qualquer base que entusiasma mais o CEO da Replit. “Acho que o nosso objetivo enquanto companhia é garantir que mesmo quem não tem conhecimento se torna proficiente. É esse o desafio, nem acho que para o próximo ano, mas para a próxima década.”
Também nesta sessão sobre vibe coding os agentes de IA, neste caso para escrita de código, vieram à baila. “Acho que nenhum de nós tem a experiência de gerir muitos agentes.” Mas isso poderá mudar em muito pouco tempo, defendeu. “É exatamente para aí que queremos ir, desbloquear mais produtividade. No próximo ano, vamos ver muitos de nós a orquestrar centenas de agentes ao mesmo tempo.”