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Os reels, a família no quadro de campanha e o risco controlado. Os bastidores das campanhas de AD e PS

A família ainda mais presente, os reels como parte do quotidiano, a preferência os humoristas aos jornalistas e a fuga ao risco. Os bastidores das campanhas que querem acabar em São Bento.

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Um ano depois, Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos voltaram à estrada, mas a realidade mudou. As campanhas são (ainda mais) centradas nos seus líderes. E a crispação com o adversário agudizou-se. As máquinas partidárias de ambos continuam bem oleadas (no modelo old school, com recurso a autocarros, jantaradas e jotas), mas a importância dada às redes sociais foi crescente. Entre um marqueteiro brasileiro, de um lado, ou um mago da comunicação que se destacou no futebol, do outro, Montenegro e Pedro Nuno puseram a carne toda no assador. Ou melhor, os reels todos no scroll.

As famílias de ambos também entraram cada vez mais na encenação. Montenegro voltou a contar com a mulher Carla e, até, com o filho Hugo — numa aparente surpresa. Pedro Nuno fez-se acompanhar muitas vezes da mulher Catarina e o filho Sebastião figurava num vídeo que corria diariamente nos ecrãs de comício.

De um lado e de outro a regra foi arriscar o mínimo possível. Os dois preferiram expor-se mais perante humoristas do que jornalistas (Montenegro chegou a irritar-se com perguntas; Pedro Nuno está longe de ser o mister simpatia com a comunicação social). Apostaram mais em mostrar um lado humano, brincalhão, de português comum. Ao mesmo tempo quiseram provar ser os mais bem preparados para a função de primeiro-ministro.

Um casal de mão dada, uma operação de charme de pouca dura com jornalistas, t-shirts estilizadas com a cara do pai, a indiferença para um dérbi ou um passeio a contragosto numa mota quitada são alguns dos episódios do outro lado da campanha. O Observador acompanhou nas últimas duas semanas as campanhas da AD e do PS, num jogo de bastidores onde a porta está cada vez mais fechada a jornalistas.

Luís Montenegro. A vitória contra a bolha numa campanha de risco zero

Luís Montenegro fica petrificado quando encontra o filho. Não contava vê-lo ali, numa tenda montada para receber o último comício do dia de campanha da AD e numa estranhamente chuvosa cidade de Vila Real — afinal, é 13 de maio e mais parece um dia de inverno. O líder social-democrata refaz-se, abraça o filho e decide levá-lo ao palco para saudar a pequena multidão que o aguardava. Hugo, a memória viva da empresa que levou um país a votos um ano depois das últimas legislativas, assiste às intervenções sentado mesmo atrás do primeiro-ministro. No final, fala aos jornalistas para dizer que tem muito orgulho no pai, para se queixar da oposição, para pedir maioria absoluta e para dizer que não tem qualquer receio de ir a uma comissão parlamentar de inquérito.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Dali a um par de horas, ainda em Vila Real, os jornalistas e a larga comitiva que acompanha Luís Montenegro voltam a encontrar-se para jantar informalmente no restaurante “A Viúva”, no Largo da Baralha. O líder social-democrata não está presente — como nunca está nestes momentos. Estranhamente, no entanto, Hugo Montenegro, que fora a Vila Real dar um abraço ao pai, está sentado na mesa de honra, mesmo à frente de todos, jotas e jornalistas, ao lado de Pedro Esteves, diretor de campanha, Ricardo Carvalho, secretário-geral adjunto do PSD, e de Sebastião Bugalho, cabeça de lista da AD nas últimas europeias e presença frequente na última semana de campanha das legislativas.

Está vestido tal e qual se apresentara no centro de Vila Real, polo cinzento e camisa branca. Ausenta-se por alguns instantes e, quando volta, traz vestida uma camisola laranja, igual às que os elementos da jota têm vestido ao longo da campanha, com a cara do pai estilizada. Ainda que se jure até ao dia de hoje que Hugo Montenegro fez de facto uma surpresa ao pai e que se deslocou por meios próprios até Vila Real, é difícil não concluir que houve um cuidado particular em mostrar o filho de Montenegro — numa campanha de risco zero e alérgica ao improviso seria ingénuo pensar o contrário. Propositada ou não, a presença de Hugo Montenegro produziu um efeito político e marcou o dia de campanha do líder social-democrata.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

E o filho não foi a única personagem do universo pessoal e familiar a entrar pela campanha de Montenegro adentro. O beijinho à mulher, Carla, a caminho de Fátima, foi um dos momentos controversos da corrida eleitoral da AD. O vólei de praia com os amigos de Espinho, a 160 metros do Casino Solverde, o cliente-mistério da Spinumviva, pontuou o último domingo de campanha. Na quarta-feira, dia 14, Joaquim Barros Rodrigues, dono da gasolineira e financiador do PSD que pagou 194 mil euros a Montenegro, passeou-se ao lado da caravana laranja e azul e ainda disse à CNN que deveria ter pagado mais ao social-democrata. João Rodrigues, o filho do empresário e candidato à Câmara de Braga, também por lá andava, sem que ninguém se sentisse minimamente constrangido.

A Spinumviva, as ligações a Espinho, as cumplicidades em Braga, a família, em particular o filho, tudo isto contribuiu para a queda de Luís Montenegro. Durante meses, não se falou de outra coisa e durante meses adversários políticos e comentadores não hesitaram em dizer que era o princípio do fim do primeiro-ministro, que não mais se levantaria, que a AD ia perder as eleições por causa de uma situação pessoal e familiar que Montenegro não soube nem quis resolver em devido tempo. Chegados aqui, e a poucos dias das eleições, Montenegro não só está na iminência de revalidar a vitória de março de 2024 como ainda luta pela tal “maioria maior” que serviu de banda sonora a toda a corrida eleitoral.

E esta é grande história que a AD quis contar nesta campanha: foi uma campanha em nome do “Luís” e onde tudo girou à volta do “Luís”, o anti-político que só queria trabalhar pelo país e o pai de família que foi prejudicado por só querer cuidar dos interesses dos filhos, contra uma bolha onde cabem todo os que o atacaram de alguma forma — os jornalistas que fazem perguntas, os jornais que fazem manchetes, os comentadores que ditam sentenças e os adversários políticos que usam a família de um primeiro-ministro para o atacar. Sempre partindo de uma certeza: quanto mais esta campanha fosse sobre a Spinumviva, mais votos teria a AD em caixa. Montenegro estava e está apostado em dar uma lição à bolha.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Aliás, um dos únicos momentos verdadeiramente genuínos da campanha — foram efetivamente poucos — aconteceu quando Luís Montenegro se irritou com a pergunta de um jornalista da SIC sobre a Spinumviva. Foi tão genuíno como inusitado, uma vez que o líder social-democrata confundiu esse mesmo jornalista da SIC com outro da RTP e começou a teorizar, até ser corrigido, sobre a insistência da estação pública naquele tipo de perguntas. Mais um indício de que há um enorme desconforto no Governo com a RTP, como o Observador escreveu ainda em fevereiro.

Mas aquele era e é o quadro mental de Montenegro e de quem o acompanha: esta crise existe porque houve uma ataque concertado contra a AD através da figura de Montenegro. Na quarta-feira, 14 de maio, num almoço-comício em Vila Verde, a notícia do Correio da Manhã sobre o facto de a Spinumviva continuar a ter como morada a casa de Luís Montenegro — ao contrário do que chegou a prometer, a 5 de março, Hugo, que ficou responsável pela empresa — foi tema de conversa entre o staff de Luís Montenegro e os jornalistas, que queriam naturalmente uma reação do candidato. Não aconteceu.

O que há uns meses seria um natural e grave embaraço, era agora encarado como mais uma munição para alimentar a narrativa de Montenegro — há uma vendetta em curso e “os portugueses”, essa entidade vaga que é usada para validar argumentos e teses, não querem saber de nada que tenha que ver com a Spinumviva. Curiosamente, na mesma edição, o Correio da Manhã tinha uma sondagem onde se podia ler que os “casos e casinhos que envolvem Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos” não vão ter “efeito nas urnas”. Aos olhos da equipa de Montenegro, a pertinência da pergunta sobre a alteração ou não da morada estava respondida.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Foi, portanto, uma campanha a carregar o “Luís” numa espécie de andor. Metaforicamente (o irritante hino “Deixem o Luís trabalhar” não largou a caravana por um segundo) e literalmente. A partir de certa altura, tornou-se um hábito ver Luís Montenegro a ser carregado em ombros pelos elementos mais calmeirões da jota, pretendo-se com isso transmitir a imagem de um candidato a atravessar um mar de gente ansiosa por lhe tocar. O exercício, eficaz do ponto de vista da cenografia política e uma constante ao longo de toda a campanha, foi levado ao absurdo de ver Luís Montenegro ser retirado de um palco em Viseu em ombros sem que estivesse alguém de facto atrás dele, a querer tocar ou cumprimentar o líder. Mas a mensagem foi sempre essa: o “Luís” acima de tudo e de todos.

E foi também, como é sempre, uma campanha essencialmente pensada para as televisões. Sim, nas ruas houve genuínas manifestações de afeto por Luís Montenegro, agora mais confortável no duplo papel de candidato e de primeiro-ministro. Sim, os militantes e simpatizantes compareceram aos magotes para ver o líder. Mas a bolha de câmaras, repórteres, seguranças e militantes que acompanhava o candidato em cada arruada servia apenas para transmitir a ideia de euforia. Os comícios a abarrotar (em Lisboa, em Viseu, em Coimbra, nas Caldas, em Braga), sobretudo quando davam direito a um almoço ou jantar bem regado, não foram muito mais do que a prova cabal da competência do aparelho em mobilizar militantes.

Como em qualquer campanha, muito do que se viu a partir das imagens de televisão teve sempre um lado de artificialidade. Na rua, o diligente Paulo Cavaleiro, secretário-geral adjunto do PSD, seguia na frente e escolhia a dedo as pessoas mais disponíveis para beijar e cumprimentar Montenegro, indicando o caminho à caravana; à porta fechada, em comícios, almoçaradas e jantaradas, as máquinas dos partidos que compõem a coligação enchiam autocarros e carrinhas para o efeito. Em todos estes momentos, e nos intervalos entre eventos da agenda oficial, os elementos da equipa do marqueteiro brasileiro Sérgio Guerra, omnipresentes mas discretos, tratavam dos conteúdos para as redes sociais, como haviam feito há um ano. Tudo bem oleado, tudo sem incidentes de maior.

Ao longo de toda a campanha, Montenegro raramente deixou uma redoma de segurança montada pela sua equipa. À exceção de um almoço informal com jornalistas, a exposição do candidato foi quase nula. Não houve entrevistas ou acesso aos bastidores da campanha, e os contactos entre a comitiva que acompanha o líder e os jornalistas eram seguidos à distância para garantir que nenhuma conversa fugisse ao guião. A ideia, assumida abertamente, é que “não se podiam correr riscos“. Não era suposto haver espaço para improvisos e, quando houve, a coisa correu francamente mal.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A 8 de maio, em Coimbra, a equipa de Luís Montenegro organizou um almoço informal entre candidato e jornalistas. Uma operação de charme que não acontecera na anterior corrida eleitoral e que é algo comum neste tipo de momentos — serve essencialmente para que os repórteres possam fazer algumas perguntas em off the record ao candidato e para que este possa responder com outro à-vontade. E Montenegro mostrou-se acessível, respondendo, com paciência e boa disposição, às muitas perguntas que lhe iam sendo colocadas informalmente. No dia seguinte, um elemento do staff de Montenegro, por decisão individual, decidiu convocar apenas as quatro televisões para captar um momento pessoal entre o candidato e a mulher, Carla, em peregrinação a Fátima. Deu asneira.

A exclusão dos demais jornalistas tornou-se “a” notícia do dia e transformou uma ação que deveria ter servido para criar, através da comunicação social, uma ligação de empatia com os eleitores num incidente de campanha. Ato contínuo, as perguntas dos jornalistas ao candidato refletiram isso mesmo, Luís Montenegro ficou profundamente irritado com o sentido das questões e a comitiva da AD ficou de cabeça perdida com aquele erro individual. Os efeitos da operação de charme iniciada em Coimbra duraram pouco mais do que um dia. A redoma de segurança em torno do líder voltou, competentemente, a fechar-se.

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Mas há coisas que nem uma competente máquina partidária consegue produzir a partir do zero. Neste caso, a emoção e o drama essenciais a qualquer campanha eleitoral mobilizadora. A partir do comício em Lisboa, à boleia do 51.º aniversário do PSD, o tal em que Luís Montenegro falou abertamente num ciclo de oito anos de poder, a onda à volta da campanha foi esvaziando, esvaziando e esvaziando. O Papa e o futebol, convenientes para a estratégia de campanha segura que a equipa de Montenegro privilegiou, congelaram a corrida. Daí para diante, nada de substantivo se alterou. A sensação, partilhada por muitos dirigentes sociais-democratas que foram acompanhando a volta do líder à distância, foi a de morrer na praia. “Fizemos uma campanha diletante“, lamenta a esta distância um influente elemento do PSD.

Faltou aquilo que havia de sobra na anterior campanha: a faca nos dentes e o desejo de voltar ao poder. A “campanha alegre”, o mote da “estabilidade”, a excessiva personalização em torno de Luís Montenegro, o apelo direto e permanente aos pensionistas, com todos os seus méritos, não contribuiu para o toque a rebate, para o “nós contra eles”. Numa campanha que foi sempre pela “razão” (ninguém sensato compreende esta crise política) contra a “emoção” (Pedro Nuno Santos e André Ventura moveram-se por princípios mesquinhos), faltou emoção na hora de defender a razão. Instalou-se uma ideia que Montenegro nunca conseguiu verdadeiramente desconstruir: a de que a eleição estava ganha à partida. Em cima disto, a possível aliança com a Iniciativa Liberal tornou-se o assunto da campanha da AD e o desconforto do CDS com o flirt entre Luís Montenegro e Rui Rocha o fait diver. E isso teve custos evidentes.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O mega jantar-comício do Expoeste das Caldas da Rainha foi o exemplo mais flagrante disso mesmo. Há um ano, ali mesmo, Paulo Portas fez um dos discursos mais memoráveis da campanha da AD e Luís Montenegro não lhe ficou muito atrás. Ambos falaram abertamente para os eleitores do Chega e pediram-lhes um voto de confiança. Desta vez, não houve Portas. A ministra Margarida Balseiro Lopes, a jogar em casa, foi praticamente ignorada pelos comensais. Nuno Melo queixou-se de como a sala estava a “fria“. A notícia de que André Ventura se tinha sentido mal e estava a caminho do hospital piscava nos telemóveis de todos. As televisões passavam em loop as imagens do momento. No palco, Luís Montenegro limitava-se a repetir o que dissera antes, numa qualquer outra ação de campanha. Em conversas informais, alguns elementos da caravana da AD faziam contas à vida e antecipavam um resultadão do Chega nestas eleições.

Na AD, ninguém duvida da vitória de Luís Montenegro a 18 de maio e do enorme trambolhão que vai dar Pedro Nuno Santos. São dois dados adquiridos, ponto final, parágrafo. Mas uma campanha que começou por ser sobre o sonho de igualar Aníbal Cavaco Silva acabou por tornar-se sobre como o Chega vai conseguir fazer aquilo que o PRD não conseguiu em 87. E, em rigor, não houve muito que Luís Montenegro tenha feito para contrariar essa possibilidade. O que sobrou em competência e segurança, faltou em rasgo e originalidade.

Não é de estranhar, por isso, que Luís Montenegro tenha passado os dois últimos dias de campanha a baixar as expectativas. “Não vou estar a dizer que o país vai acabar se não houver uma maioria que garanta estabilidade. O país não vai acabar“, reconheceu o social-democrata numa visita à Câmara do Porto. Horas mais tarde, num comício muito composto no centro da cidade, disse o mesmo por outras palavras: “Estaremos aptos a governar qualquer que seja a dimensão da vitória que nos deram. Não queremos estar aqui na base da chantagem”. É Montenegro a preparar-se para o day after.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Dias antes, nas Caldas da Rainha, quando todos tentavam perceber de facto o que acontecera a André Ventura, a desesperança e a resignação eram os sentimentos dominantes. O Chega, que derrubou um governo de centro-direita e se atolou em todo o tipo de escândalos, deve crescer nas próximas legislativas. Por todo o país, chegavam relatos à caravana da AD de como as pessoas nas ruas, e ao contrário do que acontecia há um ano, se dizem assumidamente do Chega. Em grande medida, suspeita-se, porque o Chega se transformou no partido dos antigos abstencionistas — e os antigos abstencionistas querem castigar o regime independentemente do que o regime fez e está a fazer por eles. Resta, por isso, esperar que o plano original dê frutos: que a grande massa de indecisos que parece ainda existir saia de casa e dê uma vitória folgada a AD. Depois, logo se vê.

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Pedro Nuno Santos. Na rota das redes sociais, onde tudo rola mais rápido e o líder vai mais suave

“Vocês vão ver é quem me pergunta se eu sou um bom partido”. Pedro Nuno Santos ia no terceiro dia de campanha oficial e já só pensava na última semana. Pela proximidade do dia das eleições? Nem por isso, o tema era a sua entrevista ao humorista Guilherme Geirinhas e a participação especial de Lili Caneças. Estava de visita às oficinas da CP no Entroncamento, mas nem os comboios já o entusiasmam tanto como a dimensão sociável que se empenhou em mostrar nestes dias de estrada. O que está nas redes já é bem mais central para o candidato do que passa nos meios de comunicação tradicionais.

Em ações de rua ou finais de comício foi frequente vê-lo, sempre de microfone na lapela, a desacelerar o passo para acertar com a criadora de conteúdos digitais da caravana socialista, para mais um vídeo à medida das redes. Ou para falar diretamente para os telemóveis de elementos da JS para responder a perguntas rápidas, bem ao lado dos temas que vão a votos: “Café com ou sem açúcar?”; “Qual as séries preferidas?”. Pedro Nuno Santos vai em tudo, desde que não seja com a comunicação social tradicional. A essa só de disponibilizou, em tempo de campanha, para duas entrevistas a rádios (Antena 1 e Renascença — que providencialmente até calhou no minuto em que se conheceu o novo Papa) e nada mais.

▲ Em todas as ações de campanha, excepto comícios, Pedro Nuno Santos tinha dois microfones nas lapelas do blazer.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O risco de, nesta reta final, disparar entrevistas em todos os meios é um daqueles que os socialistas, na era Pedro Nuno, continuam a evitar num período de alta sensibilidade. Afinal, os títulos na imprensa “são por norma desfavoráveis“, nota um elemento da sua equipa. Mas isto também acontece porque o mundo mudou e Pedro Nuno Santos procura agora correr atrás dele — muito mais nesta campanha do que na de há um ano — e ir até onde as pessoas estão e com uma imagem mais descontraída (e não sempre “a ralhar com toda a gentes”, como diria Lili Caneças). É visível a urgência do líder socialista chegar a quem pode e rapidamente, numa campanha eleitoral que insiste que não queria. “Mas chegados aqui”, repete a cada esquina, o socialista quer agarrar a oportunidade — que até pode ser a última.

Se há um ano seguia sempre mais contido no contacto com as pessoas, nesta campanha, Pedro Nuno Santos foi na lógica do tudo ou nada e até a mulher entrou em cena. E o líder ainda acabou por aceitar, a contragosto, a insistência do diretor de campanha, Nuno Araújo, para pegar numa mota e ir numa coluna, fazer o percurso pela estrada nacional que liga Santo Tirso a Vila Nova de Famalicão.  Quando acedeu avisou que só o faria na sua própria mota — alterada por ele mesmo e onde gosta de passear sobretudo aos fins de semana — e lá veio a Ducati 800 Scrambler, montada num reboque até Santo Tirso. E com ela a ideia de um candidato bem equipado para “acelerar” até São Bento.

A encenação permitiu sobretudo furar o espaço mediático de um dia (o sábado passado) totalmente tomado pelo dérbi de Lisboa. E — mais uma vez — renderam nas redes sociais, com a equipa do líder a vangloriar-se de números significativos de visualizações e na entrada nos grupos de motards — com maior prevalência de homens jovens onde se sabe que o Chega tem especial peso e onde o PS tentou furar nesta campanha.

▲ Pedro Nuno Santos andou de mota na manhã do jogo entre Benfica e Sporting.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Nas redes é tudo mais fácil do que nas ruas. As eleições caem a tão pouco tempo das últimas (e tão em cima das autárquicas) que na caravana foi indisfarçável o cansaço. A mobilização no terreno é feita a ferros e só teve mais relevo quando a campanha socialista seguiu para norte — muito a toque de caixa do diretor de campanha que lidera a distrital do Porto e foi sempre acautelando que as salas não resultavam demasiado ambiciosas para o que conseguiam atrair. Araújo é o único novo elemento do núcleo que anda com o líder diariamente, em relação à última campanha, mas é um velho amigo de Pedro Nuno que o foi buscar para pôr a máquina a mexer. É líder de uma das maiores federações, a do Porto, e a norte isso é um trunfo na capacidade de mobilização. Esta quinta-feira à tarde, pela rua de Santa Catarina, depois da arruada do PS, passava com ar de dever cumprido, a medir à distância a da AD, que passava ao longe. “Olha para aquilo!”, apontava em desafio ao lado do deputado Tiago Barbosa Ribeiro.

Ainda assim, nesta campanha não faltaram autocarros a transportar apoiantes dos vários concelhos de cada distrito para os locais dos comícios — foi assim em Castelo Branco ou Paços de Ferreira, por exemplo. E até na Amadora, depois de almoço, para trazer (sobretudo reformados) para um pavilhão onde, ao fundo e depois dos discursos, se abriram umas cortinas de par em par para destapar mesas com pãezinhos e sumos para o lanche. E música de bailarico. A lógica televisiva e a inevitável medição de forças com os adversários coloca uma pressão gigantesca sobre as caravanas que sabem que qualquer cadeira vazia numa sala terá direito a foco. De tal maneira que na Aula Magna, as pouquíssimas cadeiras sem ocupante foram logo cobertas por bandeiras do partido. E nos contactos do líder com a população, o nervosismo com a imagem ainda é maior — até porque há um grau elevado de imprevisibilidade.

▲ Durante um almoço comício no Quartel dos Bombeiros de Queluz.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

À frente das arruadas segue sempre Rui Pereira, que já foi vice na Câmara de Sintra entre outros cargos autárquicos e partidários no concelho, mas que é uma das figuras mais experientes do partido na estrada, no controlo das arruadas. E em afastar do caminho eventuais problemas. No entanto, a caravana não conseguiu evitar o confronto do líder com Joana Amaral Dias, no mercado do Livramento, em Setúbal — que irritou especialmente Pedro Nuno, já que trabalharam os dois juntos na campanha de Soares 2006. Mas foi eficaz ao limpar do caminho um casal que gritava “subsídiodependentes” e queria chegar à fala com o líder, do meio da Feira de Gondomar.

Na rua, a receção a Pedro Nuno Santos é boa, sobretudo entre mulheres mais velhas que o acham, invariavelmente, “mais bonito do que na televisão”. “Muito obrigado, minha senhora”, responde meio encolhido o líder — quase sempre com a cara espalmada entre as mãos da interlocutora — quando o tema é a aparência. É um eleitorado em que apostou muito nesta campanha, sobretudo depois do flirt da AD ao mesmo grupo. Logo na primeira semana, ainda a Sul, numa passagem por Faro, Pedro Nuno Santos entrou por uma IPSS de onde saíam notas claras de acordeão e a promessa de bailarico — que aconteceu mesmo.

▲ Pedro Nuno a dançar numa IPSS em Faro.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Na equipa que acompanhou o líder diariamente manteve-se: a assessora de imprensa e o chefe de gabinete no PS, Hernâni Loureiro (que agora está na lista de candidatos a deputado), são os dois que o acompanham sempre nas viagens de carro pelo país. Houve alguns dias onde esteve também Hugo Mendes, o famoso secretário de Estado do caso Alexandra Reis que é seu adjunto no Largo do Rato e também candidato a deputado.

E noutros juntou-se ainda João Gabriel, o diretor de comunicação que Pedro Nuno contratou para preparar um futuro que, nesse mesmo mês, se precipitou para “já. já. já.” — como se canta no hino da campanha socialista. A ideia era reforçar a equipa de comunicação socialista de um líder na oposição, para o preparar para um combate eleitoral a médio prazo, e nessa mesma altura o país cai em novas eleições legislativas e o médio tonou-se curto.

Entre ele e a assessora combinam com o líder pormenoress como onde fala aos jornalistas — aconteceu sempre, pelo menos, uma vez por dia, durante estas duas semanas — e a decisão não é de somenos no meio dos apertos das arruadas. Em Espinho, a escolha do local para as declarações ia tendo resultado desastroso, com um dos feirantes irritado com a confusão pouco favorável para o negócio. Alguém lhe chamou “fascista” na caravana e o homem exaltou-se de tal maneira que teve de haver uma rápida intervenção policial. Já na Amadora não foi o sítio que correu mal, foi mesmo o líder que se enredou numa resposta sobre se o recuo da economia no primeiro trimestre implicaria com as medidas que tem no programa, como o IVA zero no cabaz alimentar. Pedro Nuno hesitou e não se comprometeu com uma data logo na sua medida cabeça de cartaz e teve de corrigir o tiro no comício seguinte, na Aula Magna.

Não estava à espera da pergunta, mas normalmente a equipa prepara-o para esses embates, sobretudo a que trabalha com Hugo Mendes e analisa dados e notícias para ir dando inputs para a caravana ao longo do dia. Os acertos de mensagem e atualização do líder são feitos à vista e quase sempre por mensagem, num grupo que o núcleo duro tem no Whatsapp. É uma prática de má memória para Pedro Nuno, mas que lhe permite ter, ao minuto, dados confirmados sobre declarações dos adversários ou de alguma notícia divulgada pela comunicação social que entre pelo período eleitoral adentro — como foi a do relatório sobre a mortalidade infantil, por exemplo, que pôs o líder socialista a disparar sobre a “incompetência” do Governo na Saúde.

▲ Pedro Nuno Santos e o seu núcleo duro composto por João Gabriel, Nuno Araújo e Hernâni Loureiro.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Há um ano, Pedro Nuno Santos partiu para a estrada de repente e numa corrente de forças opostas: era preciso um líder que rompesse com o passado mas que ao mesmo tempo não cortasse com o legado; o rosto do partido era novo, mas o que estava de saída (António Costa) valia votos. No seu grupo mais próximo respirou-se de alívio por esse peso já não estar hoje sobre os ombros do líder. Esse e do histórico de “cicatrizes” políticas (a TAP e o novo aeroporto) que inevitavelmente surgiram no caminho já que o seu regresso (depois da demissão do Governo) tinha acabado de acontecer quando rebentou a dissolução de 2023.

Desanuviou o peso sobre os seus ombros e na equipa notam o líder “mais solto”, nesse comparativo. Mas também não foi isso tudo de expansão. Pedro Nuno Santos é metido com ele. Quando entra no carro enfia muitas vezes os auriculares para ouvir as suas playlists no Spotify — das coisas de que mais gostou nesta campanha foi de escolher músicas diárias para as redes, respondendo ao desafio do eurodeputado Bruno Gonçalves.  Algumas vezes vai a acertar discursos, outras a conversar. E desta vez, teve muitas vezes a companhia da sua mulher, também na maior discrição possível.

Catarina Gamboa não é fã destas andanças e nota-se. No último ano não esteve quase nunca na estrada, mas desta vez juntou-se em Santarém e depois novamente mais a Norte, em Matosinhos, Gaia, Coimbra, Figueira da Foz, Braga. Nas arruadas tentou sempre ficar à distância e só se vê mais na linha da frente durante almoços e comícios, onde fica ao lado de Pedro Nuno. Sai sempre do carro para o mais longe que pode da confusão, mas na Aula Magna foi possível vê-la a comentar as notas do discurso de Pedro Nuno que lhe pediu uma caneta para anotar qualquer coisa. Gostam pouco do foco sobre os dois, ainda assim saíram de mão dada (e sob alguns comentários jocosos dos jotas e equipa mais próxima) da quinta (que mais parecia de casamentos) onde foi o almoço da Figueira da Foz.

▲ Vários momentos durante a campanha eleitoral entre Pedro Nuno Santos e a mulher.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Não foi o único familiar do líder presente por estes dias, embora sempre sem grande alarde. O filho, Sebastião, passa num frame do vídeo de apresentação do PS, exibido a cada comício. E em Espinho, a mãe de Pedro Nuno Santos estava à saída da Feira a dar o seu apoio. Ainda que o filho tenha passado ao longe, entre a confusão, foi possível ouvir a assessora de imprensa localizá-la e, num instante, havia câmaras apontadas a Maria Augusta que, de bandeira em riste, disse à rádio Observador ser comovente ver o filho ali e, sem surpresas, acrescentou que a vitória eleitoral no domingo seria justa.

Pedro Nuno costuma ser reservado nesta frente, mas numa campanha onde joga muito ouviu mais os conselheiros e foi disciplinado na necessidade de suavizar a imagem. E não só. A dada altura chegou mesmo a deixar entrar num comício, o de Viseu, um teleponto. Mas foi sol de pouca dura. A sala não tinha profundidade suficiente e Pedro Nuno Santos esteve desconfortável, incapaz de conseguir passar a ideia de estar a olhar para as pessoas na sala e não para os ecrãs em espelho onde corriam as palavras que tinha de ler. A intenção era controlar o tempo das intervenções, em que o líder se esticou sempre.

Nem em Bragança conseguiu não atropelar os minutos iniciais do Benfica-Sporting que concentrava todas as atenções — incluindo as dos socialistas na sala que queriam passar para a sala o lado para ver o jogo no ecrã gigante que o partido instalou para esse mesmo efeito. Os oradores tinham indicações para serem rápido,  mas o líder da distrital Benjamin Rodrigues não cumpriu e estava a atirar a intervenção do líder perigosamente para cima da hora do jogo. No fundo da sala, junto à mesa de som, Nuno Araújo estava exasperado, esbracejava, fazia chamadas telefónicas para quem estava lá à frente, ia subindo o som da música de campanha, à moda dos Oscares, para calar o orador. Mas o tempo descambou mesmo e as pessoas já saíram da sala com o Sporting à frente no marcador.

Pedro Nuno não liga a futebol (e é do FC Porto), mas lá fez o número de se juntar uns poucos minutos ao grupo que ia ali ficar a ver o jogo. Saiu mal conseguiu, enfiou-se no Mercedes verde seco (alugado pelo partido) que o transportou pela estrada nestes dias e seguiu para o Porto. Não sem antes ter de tirar uma quantas selfies, distribuir cumprimento e beijinhos. Dois. Não apenas um, como quereria Lili.

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