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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Sonho de nova maioria matou o velho PSD. Montenegro já só pensa em ciclo de oito anos de poder

Máquina de triturar líderes, palco de todas as intrigas e de outras tantas correntes, o PSD parece apostado em virar a página e garantir ciclo de poder duradouro, à Cavaco, sem tanga e sem troika.

“Então, Luís, tudo bem? Como vai essa campanha?”. Passam 32 minutos da uma da tarde quando Pedro Passos Coelho chega à sede nacional do PSD, em Lisboa, e se aproxima de Luís Montenegro para o cumprimentar. Atrás dele segue Pedro Santana Lopes, com um sorriso travesso. O momento dá-se à frente de todos, sem grandes complexos ou constrangimentos de maior. O que não é o mesmo que dizer que tenha existido um entusiasmo particular. Pelo contrário. À saudação de Passos, Montenegro respondeu com outras palavras de circunstância, antes de permitir que o antigo primeiro-ministro deixasse uma “reflexão” aos jornalistas ali presentes. Passos não estragou a festa laranja, mas quase: a estabilidade que Montenegro anda a pedir é importante, sim senhor; mas de nada servirá se não existirem reformas dignas desse nome.

Noutras circunstâncias, o evidente recado de Passos deixaria o partido em polvorosa. Mas as coisas mudaram em dois meses. Em março, quando o caso Spinumviva explodiu, houve quem, no PSD, começasse a fazer contas à vida e à liderança do partido. Inevitavelmente, todas as conversas iam dar a Pedro Passos Coelho, o único capaz de segurar o PSD e evitar uma derrota certa nas legislativas, dizia-se amiúde. Na bolsa de apostas, surgiam igualmente os nomes de Carlos Moedas e até o de Leonor Beleza. Os rumores eram tantos e as conspirações tão coloridas que o aparelho social-democrata decidiu dar um sinal que mais parecia desespero: o candidato a primeiro-ministro seria mesmo Luís Montenegro e quem tentasse abrir uma guerra interna morria na hora.

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Pedro Passos Coelho nunca contribuiu ativamente para ser envolvido nesses cálculos, Carlos Moedas não podia abandonar a Câmara Municipal de Lisboa e Leonor Beleza nunca foi realmente uma hipótese. Os críticos internos — uma minoria que vai sobrevivendo discretamente no partido — não mexeram uma palha. Montenegro seria mesmo o candidato, ponto final, parágrafo. Mas a pergunta que não calava era outra: se o PSD perdesse as eleições legislativas, quem pegaria no partido, faria uma aliança com o Chega e manteria a direita no poder? Resposta de sempre: Pedro Passos Coelho. Mesmo que o antigo primeiro-ministro tenha dito sempre a quem o quis ouvir que estaria indisponível para chefiar um governo sem passar pelo teste das urnas, havia quem não desistisse dele.

Durante um par de semanas, nos dias que se seguiram ao chumbo da moção da confiança, algumas das principais figuras do partido iam dizendo coisas contraditórias sobre o que fazer em caso de derrota, alimentando sobretudo duas teses: sim, o PSD tinha obrigação de permitir que o PS governasse em nome do princípio da reciprocidade e dos superiores interesses do país; nada disso, o PSD tinha obrigação, sim, de não desperdiçar uma maioria de direita, mesmo que isso significasse carregar o Chega para o arco da governação, e vingar a ‘geringonça‘ de António Costa.

Com as contas públicas arrumadas, e apesar de todas as nuvens negras no horizonte, Montenegro luta nestas eleições não por uma vitória pela margem mínima, não por um nano-ciclo político, mas por um verdadeiro e duradouro período de poder — o tal que Aníbal Cavaco Silva, a sua grande inspiração política, procurou e alcançou no final dos anos 80. Para se ter uma noção do feito que tal representaria, importa recordar que, desde 1995, o PSD só governou oito anos e cumpriu apenas uma legislatura até ao fim (dois de Duarão/Santana, os quatro de Passos e um de Montenegro)

A importância de um almoço

Todas essas conversas cessaram — o que prova bem a confiança que se vai respirando no quartel-general do PSD — e já ninguém fala numa possível derrota. Luís Montenegro, que chegou a assumir abertamente que nunca governaria se ficasse em segundo, e que fez disso uma marca na anterior campanha eleitoral, agora nem sequer admite alimentar esse tipo de conversas, como se viu no debate a oito organizado pelas rádios. A discussão já não é sobre se ganha ou se perde; é sobre a dimensão da vitória e os rearranjos que terão de ser feitos a partir de segunda-feira, 19 de maio.

Pedro Passos Coelho, que, há dois meses, há um ano e antes das eleições europeias, era uma solução, um embaraço ou uma ameaça bem real, por esta ordem, passeia-se agora na São Caetano (mas não sem abanar os alicerces em que assenta a campanha em modo “português suave” de Montenegro). Aníbal Cavaco Silva, o santo padroeiro deste PSD, nunca deixou cair Luís Montenegro. Luís Marques Mendes, o padrinho político de Montenegro e o seu candidato presidencial, não falhou à convocatória. E até Rui Rio, que escreveu a meias com Montenegro algumas das páginas menos bonitas da vida interna do PSD, correu para Lisboa para almoçar com o incontestável Luís Montenegro. A “maioria maior” está ao virar da esquina — e isso cimenta tudo.

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O almoço entre os antigos líderes do PSD na sede, organizado pela campanha de Luís Montenegro, é um feito tão relevante como único. Fernando Nogueira (afastado da vida política desde os anos 90) nunca terá perdoado verdadeiramente o seu ex-mentor, Cavaco Silva, que nunca percebeu verdadeiramente a ortodoxia de Pedro Passos Coelho e se sentiu esquecido por Rui Rio, que enfrentou (por duas vezes) Montenegro, não se revia em Passos, não gostava de Santana (que saiu do partido por causa de Rio) e não suportava Marques Mendes, que foi derrubado por Luís Filipe Menezes, de quem Manuela Ferreira Leite não gostava — ainda que Pedro Passos Coelho fosse o verdadeiro ódio político de estimação da antiga ministra. Mesmo com toda esta bagagem, todos decidiram aparecer para almoçar com Montenegro.

Aliás, aquele que melhor sintetizou o espírito do almoço deste dia foi Luís Filipe Menezes, que travou com Luís Marques Mendes uma das campanhas internas mais duras da história do PSD. Em declarações aos jornalistas, à chegada à sede nacional do PSD, em Lisboa, Menezes decidiu assinalar a capacidade demonstrada por Luís Montenegro para unir tantos antigos presidentes de um partido que é, nas palavras do próprio Menezes, “especialmente belicoso quando se trata da democracia interna”. Vive-se, de facto, um novo ciclo no PSD.

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Sinal dessa reconciliação que parecia quase impossível há um par de anos foi o aplaudómetro do jantar-comício desta noite, pensado para assinalar o 51.º aniversário do PSD e que contou com mais de 1.800 comensais. À medida que os antigos líderes do partido iam aparecendo no vídeo de homenagem, os incentivos mais fortes dividiram-se por quatro figuras: Montenegro, claro, mas também Cavaco Silva (gritou-se “Cavaco, Cavaco, Cavaco”), Manuela Ferreira Leite (apoiante de Montenegro desde a primeira hora e muito acarinhada pelos presentes) e Pedro Passos Coelho, que competiu com os três anteriores (e os superou em alguns momentos) em termos de entusiasmo e vigor nos aplausos. Um partido que se galvaniza, com todas as contradições que isso encerra, perante Cavaco, Ferreira Leite, Passos e Montenegro só pode ser um partido que está mais preocupado em manter o poder no futuro do que em perder muito tempo em dissecar o passado — como o PSD tantas vezes teve no passado recente. (Por falar em futuro: foi evidente a apatia dos militantes de cada vez que Marques Mendes apareceu, mas isso fica para outros quinhentos.)

Em Lisboa, no jantar-comício que reuniu mais de 1.800 pessoas na antiga FIL, Luís Montenegro não escondeu o desejo de repetir Cavaco Silva. “Fizemos mais em oito meses do que aqueles que nos antecederam fizeram em oito anos. Não tenho a pretensão de ir tão longe. Mas quem fez o que fizemos em oito meses, imaginem o que será capaz de fazer nos próximos oito anos.”

O cisne negro, a gilhotina e a queda pré-programada

Nem sempre foi assim, claro. As fraturas existiam antes mesmo da Spinumviva. Luís Montenegro levava um ano de liderança e já muitos apostavam que não sobreviveria às eleições europeias agendadas para junho de 2024. Pedro Passos Coelho fazia saber que estava na reserva e que não diria que não se o partido precisasse dele. Montenegro, incapaz de crescer nas sondagens, tardava em convencer e o partido agitava-se. Aos olhos de muitos, não era mais do que um líder de transição a quem tinham emprestado as chaves da sede do partido à espera do regresso de D. Sebastião. Até que um cisne negro aterrou em Portugal: buscas em São Bento, 75 mil euros encontrados na residência oficial do primeiro-ministro, um parágrafo da PGR e o fim inesperado de oito anos de António Costa.

A partir desse momento, tudo mudou para Luís Montenegro. Mais ou menos convencido, o partido uniu-se em torno do líder que estava mais à mão e não necessariamente do líder que mais desejava. Era uma oportunidade irrepetível de devolver o PSD ao poder. Numa jogada de altíssimo risco, Montenegro garantiu que só seria primeiro-ministro se ficasse em primeiro lugar e que nunca o faria atrelado ao Chega, o que causou calafrios a muita gente no partido — Pedro Passos Coelho nunca compreendeu a estratégia de Luís Montenegro sobre alianças à direita (o que contribuiu e muito para o afastamento entre os dois).

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Nem de propósito, o antigo primeiro-ministro apareceu na campanha de 2024, em Faro, para falar sobre imigração e perceções de insegurança, virando do avesso uma campanha que estava a ser feita com todos os paninhos quentes para não assustar o centrão — já instalada no Governo, a AD quase não falaria de outra coisa. Passos, aliás, não foi o único a dar um ar da sua graça. Tudo o que é barão e senador da direita apareceu nessa campanha para dar uma força extra à AD: Cavaco, Durão Barroso, Ferreira Leite, Moedas, Santana, Mendes, Rio, Menezes, Beleza, Portas, Assunção Cristas… E Luís Montenegro cumpriu a sua parte: uma vitória magra, mas uma vitória.

Depois começaram novamente as apostas. Com uma vantagem tão frágil e com um calendário político tão propício a novas crises, dificilmente Montenegro aguentaria mais do que um nano-ciclo. O Orçamento do Estado, que Pedro Nuno Santos dissera ser “praticamente impossível” de viabilizar, era uma absoluta miragem. Enquanto esperava que a guilhotina descesse, Montenegro aumentou pensionistas e funcionários públicos, reduziu impostos para os mais novos, deu um sinal (tímido) aos empresários e apagou uma série de focos de contestação herdados do anterior Executivo.

A Saúde e a Habitação continuam deficitárias ou, em alguns casos, inacessíveis, mas Montenegro aproveitou para ir enchendo os bolsos dos eleitores. Ao mesmo tempo, agarrou o tema da imigração e carregou no discurso sobre insegurança muito para lá do que qualquer outro governo tinha feito no passado — o que permitiu ir satisfazendo a agenda do eleitorado mais à direita.

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O tal “Governo de combate”, pensado para responder rápido e aguentar o embate até ir de novo a votos, sobreviveu surpreendentemente ao Orçamento do Estado. Pedro Nuno Santos claudicou por entender que o país não podia ir a votos tão cedo e o novo encontro ficou marcado para o segundo segundo trimestre de 2026 — depois das eleições autárquicas de setembro e das presidenciais de janeiro de 2026, quando o novo Chefe de Estado estivesse em condições de dissolver a Assembleia da República. Montenegro, que sempre se imaginou a mimetizar Cavaco Silva (minoritário em ’85, maioritário em ’87 e depois em ’91), tinha de esperar.

Mas eis que rebentou a Spinumviva, nasceu a ameaça de uma comissão parlamentar de inquérito e, entre a espada e a parede, contra o conselho e a intuição de muita gente no partido, Luís Montenegro escolheu a espada. O conjunto de todas as sondagens publicadas até agora está a dar-lhe razão: a AD parece cada vez mais perto de conseguir formar uma maioria com a Iniciativa Liberal. Se o conseguir fazer, Montenegro terá oportunidade de enterrar de vez a imagem de um PSD que começou no pós-Cavaco, se agudizou com Pedro Passos Coelho e se tornou uma caricatura nos tempos de Rui Rio: um partido que só governa em situações de emergência e que, quando não está no poder, é incapaz de se entender.

As próximas eleições representam uma outra oportunidade para Montenegro: uma coisa é discutir o que fazer perante um partido em crescendo e que tem apenas menos 30 deputados do que o PSD; outra coisa é discutir o que fazer com um partido que está em queda e tem menos 40, 50 ou 6o deputados. É essa correlação de forças que vai a jogo nestas eleições legislativas — e é por isso que Luís Montenegro tem procurado falar para os eleitores que, no passado, depositaram a sua confiança num partido com as características do Chega

O reencontro com a maioria à Cavaco

É esta a verdadeira dimensão da tarefa que Montenegro tem pela frente e é também isso que ajuda a explicar o facto de haver uma união quase sem precedentes em torno do líder em funções. Depois da vitória magra de 2024, o PSD tem, nas próximas eleições legislativas, a derradeira hipótese de se reencontrar com a sua história. Seria a primeira vez, desde Aníbal Cavaco Silva, que os sociais-democratas conseguiriam chegar ao poder sem herança de um país no pântano ou em bancarrota e com um mínimo de estabilidade parlamentar que permita ao partido impor o seu programa político sem os constrangimentos de sempre — algo que não aconteceu ao longo dos últimos 11 meses.

Com as contas públicas arrumadas, e apesar de todos os obstáculos que tem  pela frente, Montenegro luta nestas eleições não por uma vitória pela margem mínima, não por um nano-ciclo político, mas por um verdadeiro e duradouro período de poder — o tal que Aníbal Cavaco Silva, a sua grande inspiração política, procurou e alcançou no final dos anos 80. Para se ter uma noção do feito que tal representaria, importa recordar que, desde 1995, o PSD só governou oito anos e cumpriu apenas uma legislatura até ao fim (dois de Durão/Santana, os quatro de Passos e um de Montenegro).

Tudo isto dependerá da capacidade de Luís Montenegro, naturalmente. Admitindo que, num cenário de estabilidade política, o social-democrata consegue convencer os eleitores dos méritos da governação da AD (com ou sem IL), também isso pode significar a inversão de um fenómeno que ameaçava a própria identidade do PSD: o Chega. Estas eleições legislativas podem resultar num recuo do partido de André Ventura nas urnas — algo que nunca aconteceu desde a fundação do partido, em 2019.

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A acontecer, isso permitiria ao PSD esvaziar o dilema sobre o que fazer com André Ventura. Rui Rio manteve-se ambíguo quase até ao fim — e pode ter sido castigado nas urnas por isso. Luís Montenegro demorou a dar uma resposta definitiva sobre o tema, até instituir o definitivo “não é não“. Apesar da clarificação, no primeiro embate com o novo Parlamento ou em qualquer momento de crise, como no pré-Orçamento ou no pós-Spinumviva, o tema voltou sempre, como se o PSD estivesse condenado a discutir a política de alianças à direita a cada solavanco.

As próximas eleições representam uma oportunidade para Montenegro: uma coisa é discutir o que fazer perante um partido em crescendo e que tem apenas menos 30 deputados do que o PSD; outra coisa é discutir o que fazer com um partido que está em queda e tem menos 40, 50 ou 6o deputados. É essa correlação de forças que vai a jogo nestas eleições legislativas — e é por isso que Luís Montenegro tem procurado falar para os eleitores que, no passado, depositaram a sua confiança num partido com as características do Chega.

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No tal jantar-comício que reuniu mais de 1.800 pessoas na antiga FIL, em Lisboa, Luís Montenegro não escondeu o desejo de repetir Cavaco Silva. “Fizemos mais em oito meses do que aqueles que nos antecederam fizeram em oito anos. Não tenho a pretensão de ir tão longe. Mas quem fez o que fizemos em oito meses, imaginem o que será capaz de fazer nos próximos oito anos.”

Neutralizar a ameaça que André Ventura está cada vez mais ao alcance de Luís Montenegro, acredita-se na caravana da Aliança Democrática. Na reta final da campanha, e tal como aconteceu há um ano, o esforço para recuperar os eleitores que migraram para o Chega será ainda mais evidente. Se conseguir a tal “maioria maior” que assumidamente procura nestas eleições, o líder social-democrata conseguirá as duas coisas em simultâneo: um ciclo de poder estável, que permitirá consolidar o poder, e um golpe duro nas aspirações do Chega, o que diminuiria o avanço de André Ventura.

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