Era um dos “clientes-mistério” de Luís Montenegro (assim lhe chamou Pedro Nuno Santos) cuja identidade continuava por conhecer. A 21 de fevereiro, quando foi ao Parlamento responder à primeira moção de censura, do Chega, o primeiro-ministro referiu-se a quatro clientes pontuais sem nunca os identificar. Uma semana depois, quando a Spinumviva divulgou publicamente os seus “clientes âncora”, nunca fez referência aos contratos anteriores, ficando por esclarecer, pelo menos, a identidade de três deles: uma “fábrica de equipamento industriais”, uma “empresa de transportes de mercadorias” e uma “empresa familiar de comércio de combustíveis” — a Cofina (atual Media Livre), dona do Correio da Manhã, fora revelada pelo próprio Montenegro.

Segundo apurou o Observador, a tal “empresa familiar de comércio de combustíveis” referida pelo primeiro-ministro é, na verdade, a Joaquim Barros Rodrigues & Filhos. Esta empresa pertence ao pai de João Rodrigues, atual vereador e candidato do PSD à Câmara de Braga, e foi responsável, segundo as declarações de Luís Montenegro no Parlamento, “por metade do volume de negócios de 2022″ — o ano que ficou marcado pelo pico de faturação da empresa da família de Luís Montenegro. A cliente pagou 194 mil euros mais IVA por quase dois anos de trabalho.

João Rodrigues confirmou ao Observador esta ligação familiar, ainda que tenha feito questão de dizer que não tem qualquer ligação formal ou informal à gestão diária da gasolineira. João Rodrigues é casado com Inês Varajão Borges, que foi contratada precisamente pela Spinumviva para prestar serviços especializados em proteção dados quando Luís Montenegro deixou a empresa, em 2022.

João Rodrigues é também um dos sócios fundadores do escritório de advocacia de Hugo Soares, braço direito de Luís Montenegro, atual líder parlamentar e secretário-geral do PSD. Foi ainda mandatário distrital de Luís Montenegro nas últimas eleições legislativas. João Rodrigues já se desvinculou daquele escritório de advogados.

A mulher, Inês Varajão Borges, assumiu ao Observador trabalhar para a Spinumviva a título individual, ainda que partilhe a morada profissional com o escritório HMR (“O meu marido foi sócio da sociedade. Dei essa morada porque, para a Ordem dos Advogados, tinha de ter um domicílio profissional”, justificou então ao Observador).

Recorde-se que a escolha de João Rodrigues como candidato à Câmara Municipal de Braga pelo PSD motivou um conflito interno nas estruturas do partido. Ricardo Rio, presidente cessante, preferia que a escolha recaísse sobre Rui Morais ou Olga Pereira. Rui Morais acabou por rumar à Administração da Casa da Música do Porto, João Rodrigues foi o escolhido e Olga Pereira nunca se conformou com a escolha.

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O esclarecimento da Joaquim Barros Rodrigues & Filhos

Numa resposta enviada por escrito ao Observador, Jorge Rodrigues, atual sócio-gerente e pai de João Rodrigues, confirma a relação comercial da sua empresa com a Spinumviva e explica quando começou aquela prestação de serviço, para que efeito foi e quanto pagou à empresa então ainda gerida por Luís Montenegro: os tais 194 mil euros mais IVA.

“O sócio-gerente desta empresa [Jorge Rodrigues] conhece há muito tempo Luís Montenegro e considerou numa determinada altura (em que ele estava exclusivamente dedicado à vida privada) que seria uma pessoa qualificada para nos ajudar a desenhar uma estratégia para as empresas do nosso grupo familiar de uma situação de constrangimentos empresariais decorrentes de uma reestruturação societária, resultante da divisão e aquisição de empresas familiares”, começa por contextualizar Jorge Rodrigues.

“Nesse sentido, Luís Montenegro foi contratado para aportar o seu conhecimento e experiência na conceção estratégica de uma plano de ação que pudesse implementar-se e garantir a subsistência das empresas e a sua estrutura organizativa para a sua viabilização. A equipa que constituímos acabou por fazer várias tentativas infrutíferas para cerca de um ano e meio depois ter atingido o resultado pretendido, que era também condição para a sua remuneração”, nota.

A seguir, Jorge Rodrigues detalha os serviços prestados: “A elaboração de um plano de desenvolvimento da empresa que passou por cessionar postos de abastecimento e procurar fornecedores de combustível com marcas que promovessem competitividade e crescimento das sociedades”; “a definição de uma estratégia de divulgação da nossa rede de postos de abastecimento em várias companhias internacionais; “a apresentação da nossa rede a várias empresas e o desencadear de processos negociais paralelos para o desenvolvimento do plano de negócios”; e “a avaliação das várias alternativas, através da angariação e escolha do parceiro, com quem se desenhou o plano de negócios, as condições de operacionalidade, fornecimento e exploração da rede e as condições financeiras do acordo”.

“Todos os trabalhos decorreram sempre com especial espírito de dedicação, paciência e resiliência porquanto em várias ocasiões tudo voltou ‘à estaca zero’. Nos termos do acordado entre as partes, o pagamento efetuado à Spinumviva ocorreria apenas com a concretização da operação (face ao histórico das sociedades e especificidade que tal negócio requer) e foi efetuado com total justiça pelo extraordinário acompanhamento, disponibilidade e profissionalismo do trabalho que culminou com a celebração de contratos que garantiram um volume de negócios com encaixe de alguns milhões de euros para a nossa empresa, o que consubstanciou a sua estabilização e viabilidade”, termina Jorge Rodrigues.

O Observador procurou o comentário da Spinumviva sobre este contrato e também junto do gabinete de comunicação de Luís Montenegro, que, à altura dos factos, era efetivamente quem estava à frente da empresa. Não existiu qualquer resposta, ainda que a nota de Jorge Rodrigues tenha sido enviada com o conhecimento de todas as partes envolvidas. Ao contrário do que acontece com as empresas reveladas pela Spinumviva, a Joaquim Barros Rodrigues & Filhos já não mantém qualquer ligação com empresa dos filhos de Montenegro.

O que tinha dito Montenegro no Parlamento

Antes mesmo de deixar a Spinumviva, algo que aconteceu em junho de 2022, e segundo explicou Luís Montenegro no Parlamento, foi fechada e apresentada a “conta final” à empresa Joaquim Barros Rodrigues & Filhos pelos serviços prestados. “Este trabalho foi responsável por metade do volume de negócios de 2022″, assumiu o próprio primeiro-ministro.

A Spinumviva, então ainda dirigida por Luís Montenegro, foi responsável pela “reestruturação de uma empresa familiar de comércio de combustíveis que envolveu consultoria de gestão”. Apesar do impacto da Joaquim Barros Rodrigues & Filhos nas contas da empresa familiar de Spinumviva até hoje não era conhecida a identidade desta empresa.

Nas informações disponíveis sobre a empresa, Jorge Barros Rodrigues surge como único sócio-gerente. A estrutura acionista está distribuída pela Rodrigues Holding, SGPS — da qual é o presidente —, com 70,07%, e pelo próprio Jorge Barros Rodrigues, com os restantes 29,93%. Ou seja, controla a totalidade da estrutura do capital da sociedade sediada em Braga.

No ano 2023, o último sobre o qual existem resultados financeiros disponíveis, a Joaquim Barros Rodrigues & Filhos conseguiu vendas na ordem dos 7.917.648 euros, enquanto o resultado do exercício foi de 31.506 euros.

Recuando a 2022, que Luís Montenegro indicou como tendo sido o ano no qual fechou a conta com esta empresa pela “consultoria de gestão” aplicada no processo de reestruturação empresarial, a Joaquim Barros Rodrigues & Filhos obteve o seu melhor volume de negócios dos últimos anos, com 8.360.718 euros (para encontrar um ano melhor é preciso recuar até 2017, quando as vendas atingiram os 14,9 milhões de euros). O resultado do exercício de 2022 foi de 12.673 euros.

Advogada da Spinumviva também trabalhou para sociedade de advogados de Hugo Soares