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▲Tadej Pogacar venceu a Volta a França pela quarta vez

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▲Tadej Pogacar venceu a Volta a França pela quarta vez

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Os treinos em busca da perfeição, o trabalho de ginásio para as clássicas e o talento geracional: existe algum limite para Pogacar?

Depois de um ano de sonho, uma mudança no calendário e nos treinos atiraram Pogacar para os primeiros lugares de todos os Monumentos. Pouco falta conquistar, mas será suficiente para superar Merckx?

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Tadej. Cinco letras chegam para escrever o nome do maior ciclista e de um dos maiores desportistas da atualidade. Há quem lhe chame Tamau, há quem prefira Tamito, ou quem opte por Tufinhos mas, por entre as alcunhas do franzino esloveno de cabelo grisalho, milita a força de quem nasceu para vencer e aspira a ser o melhor de sempre naquilo que melhor faz. E quase como ninguém. Nascido na pequena localidade de Klanec há 26 anos – serão 27 no final de setembro –, Pogacar faz parte de uma vibrante geração do ciclismo esloveno, a par com nomes como Primoz Roglic ou Matej Mohoric. Começou no ciclismo local, evoluiu para as equipas internacionais da Eslovénia e, com apenas 20 anos, chegou à estrutura da UAE Team Emirates. Um ano chegou para deixar a sua marcar. E seis anos bastaram para figurar no lote de memoráveis do ciclismo.

Um ano para recordar com uma histórica estreia e um início de sonho

Em 2025, Pogacar decidiu mudar o seu calendário. Se, na temporada anterior, o esloveno tinha optado pela presença na Volta a Itália, no inicio desta época quis rumar às clássicas da Primavera e tinha um grande desafio em mente: a Paris-Roubaix. Desde Eddy Merckx que nenhum vencedor da Volta a França participava no “Inferno do Norte”, que é bem mais convidativa aos corredores mais pesados do pelotão, do que propriamente a um voltista – ou a um voltista-classicómano-faz-tudo. Ainda assim, Tadej Pogacar queria fazer história e triunfar na sua primeira participação, alterando toda a sua preparação e, para alguns especialistas, até colocando em causa a sua participação no Tour. A época começou no UAE Tour, mais pela vontade de um dos principais patrocinadores da equipa do que propriamente do campeão do mundo, onde venceu a geral e as duas etapas de montanha.

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▲ Pogacar estreou-se na Paris-Roubaix com um segundo lugar

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Seguiu-se, então, a melhor temporada de clássicas de sempre. Apesar de ter caído, Pogacar voltou a dominar a Strade Bianche com um ataque para a vitória a 83 quilómetros da chegada e intrometeu-se na luta pela vitória na Milão-Sanremo, Monumento tradicionalmente dominado pelos sprinters. Seguiu-se novo triunfo na Volta à Flandres e, na Paris-Roubaix, foi o único a resistir ao tricampeão Mathieu van der Poel, acabando por quebrar devido a um erro seu, que lhe valeu uma curva demasiado longa e se traduziu numa queda. Ainda assim, terminou em segundo e tornou-se no primeiro campeão reinante do Tour a subir ao pódio da Paris-Roubaix desde Merckx, em 1975. Na semana seguinte voltou a perder ao sprint, na Amstel Gold Race, e terminou a primeira fase da época com as conquistas da La Flèche Wallone e da Liège-Bastogne-Liège, ambas em solitário.

Os números que explicam (um pouco) o fenómeno Tadej Pogacar

A preparação para a Volta a França levou-o, naturalmente, a França e ao Critérium du Dauphiné, que venceu com quase um minuto de vantagem para Jonas Vingegaard. Ao longo das oito etapas, Pogacar dominou a prova e conquistou três vitórias, perdendo tempo para o rival apenas no contrarrelógio. Seguiu-se a Grand Boucle e para a história fica uma corrida de domínio do campeão do mundo, que venceu quatro etapas e ganhou tempo a Vingegaard e a toda a concorrência direta em praticamente todas as etapas de montanha (só perdeu para o dinamarquês, nas bonificações, em La Plagne), com a particularidade de ter terminado à frente do dinamarquês em 19 das 21 etapas. De recordar que os dois astros entraram para o Tour em pé de igualdade, em termos físicos, pela primeira vez ao longo destas cinco edições.

Em França, Tadej Pogacar fez história logo no início, conquistando a vitória 100 da sua carreira à quarta etapa, numa caminhada que começou na Volta ao Algarve de 2019. No dia seguinte, vestiu a camisola de líder de uma corrida World Tour pela centésima vez. O esloveno tornou-se no primeiro campeão do mundo desde Peter Sagan (2018) a somar pelo menos três vitórias na competição e, ao chegar à camisola amarela em três ocasiões, fez algo que não acontecia desde 2006. Para além disso, desde Julian Alaphilippe, em 2021, que um ciclista não liderava as três principais classificações na mesma edição do Tour. Mais, Pogacar e Eddy Merckx são os únicos ciclistas da história a conseguirem pelo menos duas vitórias nas suas primeiras oito Grandes Voltas. A rivalidade com Vingegaard tornou-se na mais emblemática da história do Tour, já que os dois terminaram nos dois primeiros lugares de uma etapa 15 vezes, número que promete crescer. Curiosamente, a etapa do Hautacam, ganha pelo esloveno à frente do dinamarquês, foi a primeira vez desde 2011 em que os dois da geral primeiros classificados terminaram nos dois primeiros lugares da tirada separados por mais de dois minutos (2.10).

Em termos históricos, Pogacar despediu-se da Volta a França deste ano com 21 vitórias em etapas, ocupando o sexto lugar do álbum de ouro. À sua frente estão apenas André Darrigade (22), André Leducq (25), Bernard Hinault (28), Eddy Merckx (34) e Mark Cavendish (35). No total, este é o quarto Tour ganho pelo esloveno, que igualou Chris Froome no quinto lugar e está a um dos líderes Hinault, Merckx, Jacques Anquetil e Miguel Indurain. Pogacar chegou às 53 etapas de amarelo no Tour e ultrapassou Anquetil (52), embora ainda esteja longe de Merckx (111), que é o único que o bate em termos de corredor mais novo a chegar às 50 etapas com o maillot jaune.

Desde que é ciclista, Tadej Pogacar só perdeu uma prova prova por etapas depois de ter chegado à liderança da mesma (o Tour de 2022), tendo conquistado 22 em 23. Esse é um dos dados que mais salta à vista no histórico do esloveno e que demonstra a sua regularidade. Mais: desde 2005, com Alessandro Petacchi, que um ciclista não conseguia chegar às 15 vitórias no World Tour. Pogacar fê-lo pela segunda temporada consecutiva e, caso repita o feito em 2026, vai igualar o italiano, que alcançou tal resultado em três anos seguidos (2003, 2004 e 2005).

epa12058350 Slovenian cyclist Tadej Pogacar of UAE Team Emirates XRG celebrates winning the Liege Bastogne Liege cycling classic race over 252km, in Liege, Belgium, 27 April 2025.  EPA/OLIVIER MATTHYS

▲ Pogacar conquistou dois Monumentos em 2025, faltando a Lombardia

OLIVIER MATTHYS/EPA

Se a história das Grandes Voltas nos diz que estamos na presença de um dos gigantes do presente e do futuro, os Monumentos não ficam atrás. Desde que participou pela primeira vez, na Liège-Bastogne-Liège de 2019, Tadej Pogacar conquistou nove Monumentos: duas Flandres, três Lièges e quatro Lombardias. Até ao momento, o esloveno ocupa a terceira posição no quadro de ouro, empatado com Costante Girardengo, Fausto Coppi e Sean Kelly. À sua frente estão Roger de Vlaeminck (11) e Eddy Merckx (19) os únicos que venceram os cinco Monumentos. Nesse capítulo, Pogacar tem ainda que triunfar na Milão-Sanremo e na Paris-Roubaix, sendo que, caso volte a vencer a Lombardia no final do ano, vai isolar-se no terceiro lugar dessa lista.

O pequeno-grande esloveno que está ao nível de Merckx e de Hinault

Falar de Tadej Pogacar em 2025 é falar de uma comparação com o canibal Eddy Merckx, que é considerado por muitos, quase de forma unânime, o melhor ciclista de todos os tempos. Os dados estão à vista e mostraram que, aos 26 anos, o esloveno não está assim tão longe do nível do belga, bem como de Bernard Hinault. Olhando às vitórias em Grandes Voltas, Pogacar tem as mesma cinco de Merckx, que se dividiam entre três Tours e dois Giros. Contudo, Tamau leva a melhor em vitórias de etapas, com 30, contra as 28 do canibal. Ainda assim, a tendência cai para o lado de Merckx nos Monumentos, já que o belga somava dez conquistas (contra nove), com a particularidade de, aos 26 anos, ter vencido em quatro corridas diferentes e de, nesse mesmo ano, já com 27 anos, ter completado os cinco triunfos. Aos 26 anos, Hinault era o único que já tinha vencido as três Grandes Voltas, embora com uma vitória a menos no total (quatro). O francês tinha 19 vitórias de etapas e “apenas” três Monumentos. Curiosamente, o três já se tinham sagrado campeões do mundo de fundo.

Depois de, em 2024, Pogacar ter rubricado uma temporada de sonho, com 25 vitórias, um Giro, um Tour e o título de campeão do mundo. Replicar um ano quase perfeito era uma missão complicada por si só. Perante isso, o esloveno, juntamente o seu treinador, o espanhol Javier Sola, e o coordenador de desempenho, Jeroen Swart, implementaram algumas pequenas mudanças na sua preparação, com vista à sua progressão e a manter o efeito vitorioso. Para já, pode-se dizer que as mudanças continuam a trazer resultados. “Ainda posso melhorar. A minha experiência continua a crescer”, antecipou Pogacar logo em dezembro, durante um estágio de altitude em Espanha. A frase deixava antecipar que, apesar da procura por novos objetivos, a sua ambição continuava no topo.

Na verdade, a melhoria do esloveno começou em há quase dois anos, quando Iñigo San Millán abandonou a Emirates e deixou Tadej “órfão” de treinador. Foi aí que entrou em cena Javier Sola, responsável pela preparação de Pogacar – e de João Almeida –, que deixou para trás os treinos de volume de zona 2 – onde consegue empregar entre uns estratosféricos 320 e 340 watts por quilo — e optou por aumentar a intensidade dos trabalhos do atleta, principalmente na primeira fase da temporada, dado o foco nas clássicas. Com base nesse objetivo e na “obsessão” por conquista a Milão-Sanremo e a Paris-Roubaix, Sola aumentou o trabalho de força do esloveno no ginásio, com vista a afinar ainda mais a sua composição corporal, ganhando músculo e ajustando os seus níveis de gordura que, naturalmente, são baixos. Quem trabalha com Pogacar na Emirates diz que a sua carga de trabalho só é possível por se tratar de um atleta com uma grande capacidade de recuperação e de reter talento, bem como um elevado nível de profissionalismo, que precisam até de ser bem doseados para não haver excessos. São essas capacidades que tornam Pogacar competitivo do início ao fim da época, durante várias temporadas.

Para além de tudo isso, outra mudança na preparação efetuada por Sola foi a adaptação ao calor, com vista a melhorar a prestação do esloveno em dias quentes, como acontece em grande parte das etapas da Volta a França, e a aproveitar os efeitos do aumento de resistência e de hemoglobina no sangue, que acontecem com a exposição ao calor. Nesse sentido, Tadej Pogacar, que diz preferir os dias quentes aos chuvosos, começou a usar um sensor de temperatura no corpo, que permite monitorizar os seus valores. O esloveno apareceu ainda em 2025 com uma nova bicicleta, a Colnago Y1rs, que foi desenvolvida por si em conjunto com a marca que patrocina a sua equipa. Os equipamentos da Pissei também são desenvolvidos ativamente por Pogacar, para que nenhum detalhe possa afetar o seu desempenho rumo à perfeição.

“Não fizemos mudanças significativas. Obviamente, ele tem um bom histórico. Basicamente, introduzimos um pouco de treino de força no ginásio. Além disso, ele melhorou a sua composição corporal em comparação com os outros anos. Acho que ele ainda pode melhorar um pouco, mas não posso prever o quanto. Não tenho uma bola de cristal. Não é nada louco. Provavelmente fizemos um pouco mais de [treinos de] alta intensidade em alguns períodos. Também acho que o treino de força – em cima e fora da bicicleta – foi fundamental para ele. Tentámos implementar um pouco mais de intensidade para as clássicas. Vamos ver se ele consegue administrar a carga e continuar a progredir. É um processo. Melhoramos algo todos os anos”, explicou Sola, em entrevista.

“O Tadej é incrivelmente profissional. Ele segue o plano e faz o trabalho esperado. Algumas vezes, ele está entusiasmado e temos que segurá-lo um pouco, mas a realidade é que, frequentemente, faz tudo certo. Ele tem uma capacidade incrível de treinar, recuperar-se e adaptar-se. Comparado com outros ciclistas, ele é capaz de assimilar muito mais carga numa taxa tão rápida, que é capaz de atingir a forma máxima muito rapidamente, mas também atingir essas performances fenomenais. Isso é algo que acontece uma vez numa geração. O treino com calor é uma área que evoluiu significativamente em termos de pesquisa no último ano, com dezenas de estudos focados exclusivamente nesse tema. Nós implementamos essa prática com grande sucesso”, disse, por sua vez, Swart.

Até onde Pogacar pode chegar?

Tadej Pogacar é o principal ciclista da atualidade, por tudo aquilo que já conquistou e por aquilo que apresenta sempre que sobe para a bicicleta. O esloveno mudou a forma de correr e é a figura de uma geração que não tem medo de atacar em qualquer circunstância, faltem 70, 80 ou até 100 quilómetros para a chegada. Esse é, provavelmente, o melhor elogio que lhe podemos fazer, mais ainda se tivermos em conta que, na última década, Chris Froome e Nairo Quintana protagonizaram os maiores duelos da Volta a França, com um ciclismo altamente racional, baseado em números e com poucos ataques. O futuro do campeão do mundo promete ser promissor e tem potencial para alcançar grandes feitos na modalidade.

No que concerne aos Monumentos, a Milão-Sanremo e a Paris-Roubaix, são, sem dúvida, o calcanhar de Aquiles de Pogacar. É certo que estamos a falar de duas provas que pouco se adequam às suas características… mas, afinal, quais são as verdadeiras características? Tadej apareceu no ciclismo como um corredor franzino e que iria ser incapaz de lutar por provas por etapas. Cresceu e chegou ao nível World Tour como um corredor de Grandes Voltas. A partir daí, adaptou-se, começou a lutar por corridas de um dia – que diz ser a sua preferência – e, atualmente, ombreia com os melhores do mundo em qualquer terreno, conseguindo ganhar sprints aos homens mais rápidos na Milão-Sanremo e fazer frente a Mathieu van der Poel no seu terreno predileto. O futuro próximo vai passar, certamente, pela tentativa de conquistar essas duas provas e fechar o lote de Monumentos, onde também quererá, certamente, superar as 19 vitórias de Eddy Merkcx. Para já, está a duas Volta a Flandres, a três Liège-Bastogne-Liège e a duas Lombardias de liderar, isolado, o topo das listas.

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▲ Tadej Pogacar é o líder de uma nova geração que não tem medo de atacar de longe

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Olhando às provas por etapas, Pogacar precisou de apenas uma edição para arrumar a questão Giro e, nos próximos tempos, não deverá voltar à corrida italiana, a menos que aconteça algo de anormal que o tire das clássicas. Assim sendo, sobra a Vuelta, prova que nunca venceu e a que lhe falta para fechar o lote das três grandes. No Tour, apesar do domínio, o esloveno tem ainda vários recordes no horizonte, já que está a dois triunfos de se isolar no topo da lista de vencedores – quatro se considerarmos Lance Armstrong – e procura ainda alcançar as 35 vitórias em etapas de Mark Cavendish. Um registo que parece uma miragem é o de mais vitórias numa edição (oito), que pertence a Merckx (1970, 1974), Charles Pélissier (1930) e Freddy Maertens (1976), mas que Pogacar fez tornar possível nas duas últimas edições. Globalmente, conquistar as três Grandes Voltas num só ano foi anunciado como um feito ao seu alcance em 2024, mas parece ser algo impossível. Mais provável, mas igualmente complicado, é chegar às 11 Grandes Voltas do canibal.

Noutro prisma, as provas por etapas de uma semana parecem estar praticamente descartadas por Pogacar, que só as deverá correr na preparação para as Grandes Voltas ou por vontade dos patrocinadores. Segurar o título de campeão do mundo e almejar umas inéditas quatro vitórias na prova de fundo é outro dos objetivos, sendo que apenas Peter Sagan conseguiu ganhar três edições consecutivas (2015, 2016 e 2017). Enquanto houver Remco Evenepoel, a tarefa no contrarrelógio perfila-se bastante complicada, embora um percurso mais favorável possa reverter essa situação. Depois de ser terceiro em Tóquio-2021 e de ter falhado Paris-2024, Pogacar tem ainda contas a ajustar com os Jogos Olímpicos. Pelo seu posicionamento no calendário, os Campeonatos da Europa não deverão contar com o esloveno nos próximos anos. Ainda assim, Tadej Pogacar tem potencial para vencer praticamente todas as corridas que disputa e só o futuro dirá se será considerado o melhor ciclista de sempre, mesmo que já o seja sem o ser.

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