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Os vencedores

Santiago Abascal

Em abril, foram apenas 24 deputados. À altura, houve quem tivesse colocado o partido de extrema-direita Vox como um vencedor, pela entrada expressiva no Congresso dos Deputados, e quem tenha considerado que, apesar de tudo, o resultado ficava muito aquém do que tinham sugerido as sondagens. Para um partido tão polarizador como este, afinal o Vox não tinha conseguido “partir a loiça toda”, como prometia. Desta vez, porém, não resta margem para dúvidas: com 15% dos votos e elegendo 52 deputados, o Vox mais do que duplica a sua representação parlamentar e poderá agora passar a ter voz na Mesa do Congresso (a presidência do Parlamento). É uma vitória, ponto.

A frase: “Não só redesenhámos o mapa político de Espanha em 11 meses, como fizemos uma mudança política e cultural”

O independentismo

Não há dúvidas de que o radicalismo foi um dos grandes vencedores desta eleição. Para além da vitória do Vox, os partidos independentistas reforçaram — e muito — a sua posição num Congresso cada vez mais fragmentado por forças regionais. A Esquerda Republicana Catalã (ERC) — cujo líder, Oriol Junqueras, está a cumprir pena de prisão pelo crime de sedição relacionado com a realização de um referendo à independência — perdeu deputados, é verdade (descendo de 15 para 13 face a abril). Mas essa descida foi compensada pela eleição inédita de dois deputados da CUP, o partido catalão de extrema-esquerda que é o mais radical na Catalunha face à questão da independência e que entra agora no Parlamento. O Juntos pela Catalunha de Puigdemont também conquistou mais um deputado (passando de 7 para 8) e ainda houve reforço dos independentismos noutras regiões. No País Basco, o EH Bildu ganhou mais um deputado e o Bloco Nacionalista Galego voltou a entrar no Parlamento nacional, algo que não acontecia desde 2011.

A frase: “Vamos a Madrid fazer uma emenda ao regime” (Mireia Vehí, CUP)

Pablo Casado

Há sete meses, o Partido Popular (PP) com Casado à frente teve o pior resultado da sua História. Agora, para sobreviver, só tinha uma hipótese: melhorar o resultado. Foi isso que Casado fez, com solidez. Retomou ao discurso moderado durante a campanha em vez de tentar competir com o Vox e isso trouxe-lhe frutos, ao passar de 66 para 87 deputados. A vitória, porém, escapou-lhe, voltando a perder para Sánchez. Porquê considerá-lo vencedor, então? Porque, com o cenário de coligações que se prevê, a não ser que Sánchez faça o passe de mágica de se pôr de acordo com o Podemos, o Más País e todos os independentistas, não há solução de governo possível sem o dedo do PP. Casado sabe-o e, por isso, disse que “a bola está do lado” de Sánchez. O que significa que deixou a porta aberta a conversações.

[As reações dos líderes políticos aos resultados eleitorais ]

A frase: “Vamos ser muito exigentes. Mas Espanha não pode continuar bloqueada”

Os vencidos

Albert Rivera

Não há outra definição possível para o que aconteceu aos naranjas nesta eleição senão a palavra “desastre”. Em abril, o partido tinha subido para terceira força política e ameaçado destronar o PP como partido principal da direita. Desta vez, caiu por aí baixo, passando de 57 para apenas 10 deputados e foi ultrapassado pela direita (Vox) e pela esquerda (ERC). Até em Barcelona, feudo do partido, onde o Ciudadanos sempre capitalizou o voto anti-independência, o resultado foi uma derrota clara: em vez dos cinco deputados habituais, elegeu apenas dois. E, quando todos esperavam que Rivera se demitisse, depois de ter começado parte do seu discurso dizendo que não iria fazer como outros líderes que não reconheciam derrotas, chutou a decisão para mais tarde, propondo um congresso extraordinário.

A frase: “Tivemos um mau resultado, sem paliativos nem desculpas” 

Pablo Iglesias

O partido de Pablo Iglesias pode não ter tido uma derrota tão retumbante como o Ciudadanos, mas a sua estratégia de tentar sair reforçado face ao PSOE para tentar tornar-se uma força de poder caiu por terra. Não só não ganhou força, como até perdeu deputados face a abril (de 42 para 35). O seu repetido apelo para que Sánchez negoceie à esquerda e para que rejeite acordos com a direita continuou a sair furado. E, apesar de não ter tido uma subida tão repentina como algumas sondagens previam, o partido formado pelo seu ex-companheiro Iñigo Erréjon, o Más País, chegou aos três deputados.

A frase: “Voltamos a estender a mão ao Partido Socialista e a Pedro Sánchez”

Pedro Sánchez

Foi o líder político que teve mais votos nestas eleições, mas, ao ver o discurso de Pedro Sánchez na calle de Ferráz na noite deste domingo, isso não parecia assim tão evidente. A multidão bem que gritava e entoava o nome do líder do PSOE, mas este limitava-se a sorrir e a perguntar, repetidamente, se o deixavam falar, como quem quer resolver o assunto rápido. Em pouco mais de cinco minutos, arrumou tudo: reclamou vitória, garantiu que em vez de ir a novas eleições quer formar um novo governo e disse estar disposto a ouvir todos os partidos, exceto os que “se auto-excluem da convivência e se centram no discurso do ódio”. Não adiantou nada mais. E andou pé ante pé à volta dos resultados concretos, em que o PSOE perdeu três deputados face a abril, ignorando um ponto essencial: Sánchez convocou eleições para ter uma maioria reforçada e acabou pior do que estava. É por isso que o líder socialista acabou por cair na pilha dos vencidos e não na dos vencedores — porque, como ilustrava um meme que circulava nas redes sociais ao longo da noite, Sánchez atirou uma enxada ao ar, mas ela acabou por acertar-lhe em cheio na cabeça.

A frase: “Faço um chamamento aos restantes partidos para que, com generosidade e responsabilidade, ajudem a desbloquear este governo progressista. Os espanhóis querem que no governo participem várias formações políticas.”