Padre de Vila Real teve um filho de uma catequista. Ela era menor quando a relação começou /premium

28 Fevereiro 20194.045

Uma catequista contou à PJ que ainda era criança quando começou a relação com o padre de quem engravidou. Ele foi investigado por abusos sexuais, mas a Igreja não agiu. Está agora colocado no Canadá.

A primeira vez que recebeu uma mensagem do padre tinha apenas 12 anos. Mariana tinha ficado com o telemóvel de um familiar que morrera e ainda estava a fazer o luto quando o SMS, de um número que desconhecia, chegou. Dizia-lhe que, naquele dia, parecia triste. Tinha acabado de estar na missa, na Igreja de Nogueira, em Vila Real, onde as únicas pessoas que a olharam de frente tinham sido o padre Heitor Antunes, amigo de família, e um colega de escola, rapaz de quem tinha o número gravado no telefone. Por isso, só lhe restava uma hipótese. E, quando lhe perguntou se era ele, o padre Heitor respondeu que sim. Estávamos em 2002.

Este seria o primeiro contacto com o sacerdote com quem acabaria por ter uma filha, doze anos mais tarde. E que, um ano depois do nascimento da criança, seria colocado numa paróquia portuguesa no Canadá — uma transferência cujos contornos não são totalmente claros, até mesmo para a própria Igreja.

Aquele SMS foi a primeira de dezenas de mensagens que Mariana e o padre Heitor Antunes foram trocando nas horas, dias, meses e anos seguintes. Além do telemóvel, ambos passaram a comunicar também por email e pelas redes sociais. Primeiro o Hi5, depois o Viber, o WhatsApp e o Facebook. Se hoje fossem contadas, seriam milhares de mensagens trocadas entre os dois.

As conversas começaram por ser banais. Mariana, hoje com 29 anos, tinha apenas 12 e as perguntas não passavam muito das cores preferidas, músicas ou hobbies. Meses depois de mensagens trocadas com cada vez maior frequência, começaram os encontros e os passeios em locais isolados da zona de Vila Real. Depois, vieram as carícias.

Mariana chegou a ser catequista numa das paróquias dirigidas pelo padre Heitor Antunes. Esta imagem mostra os dois, no momento da comunhão na missa

A jovem chegou a dizer ao padre que, apesar de terem 20 anos de diferença, sentia que se estava a apaixonar, mas as mensagens não pararam. Tinha já 14 anos, ele 34, quando aconteceu o primeiro beijo, soube o Observador por fontes próximas da vítima. A relação física continuou.

Nessa altura, Mariana era catequista numa das paróquias da diocese de Vila Real atribuídas ao padre Heitor. A relação foi-se tornando cada vez mais intensa e o segredo que guardava, e que partilhou apenas com amigas muito próximas, passou a refletir-se na escola: as notas começaram a baixar. Os pais de Mariana ainda a levaram a uma psiquiatra porque não percebiam o que se passava. A menor também não entendia que estava a ser vítima de abuso sexual. Sentia-se apaixonada, mas, ainda assim, sabia que essa paixão podia prejudicá-la. E, desesperada, acabou por pedir aos pais que a pusessem num colégio interno. Pensava que, assim, se libertaria do homem que chegou a pensar ser o amor da sua vida. De nada serviu: os contactos entre ambos acabaram por ser retomados.

Imagem partilhada pelo padre Heitor Antunes no Facebook, em outubro de 2017

O Código Penal é claro na definição do crime de abuso sexual de menores: quem praticar ato sexual de relevo com ou em menor de 14 anos é punido com pena de prisão de um a oito anos. E também é claro na definição do crime de ato sexual com adolescente: quem, sendo maior, praticar ato sexual de relevo com menor que tenha entre 14 e 16 anos, ou levar a que ele seja praticado por este com outrem, abusando da sua inexperiência, é punido com pena de prisão até 2 anos. Ambos se aplicarão a este caso — pelas carícias e pela relação do sacerdote com a jovem antes dos 14 anos, e por esta ter continuado depois já como adolescente.

Um apartamento para viverem juntos e as discussões provocadas pela gravidez

A relação entre Mariana e o padre Heitor Antunes teve uma nova interrupção, mais longa, já ela tinha mais de 18 anos e andava na universidade. Corria o ano de 2011. Para esquecer o sacerdote, acabou por envolver-se com um rapaz da sua idade, mas a relação acabou mal. O padre Heitor nunca deixou de a contactar e ela acabaria por voltar para ele, já em finais de 2013.

Acabaria, também, a aceitar o convite que o Padre Heitor lhe fez: ele arrendava uma casa para viverem os dois numa cidade próxima de Vila Real, ela estudava e trabalhava para pagar as suas contas. Deixar as funções de padre não estava em causa: ele mantinha o trabalho na Igreja e, sempre que pudesse, estaria com ela. Chegou a ajudá-la nas propinas e era ele quem pagava a casa. Pouco depois, quando já tinha 23 anos, Mariana engravidou — e aí começaram os problemas, com muitas discussões por causa da paternidade oficial da criança, uma menina.

Segundo uma fonte próxima, o padre Heitor não queria que o nome dele aparecesse no registo civil como pai da bebé. Isso mesmo acabaria por contar também a própria jovem à Polícia Judiciária, num inquérito em que o padre foi investigado por alegado abuso sexual de menores e que acabou arquivado. Chamada como testemunha (porque as suspeitas, como veremos, diziam respeito a outra alegada vítima), confirmou que era mãe de uma criança com o padre e contou que o sacerdote ainda lhe sugeriu ter a filha no estrangeiro ou não a registar em nome dele, mas antes no nome de uma outra pessoa da sua confiança. No entanto, lê-se no processo consultado pelo Observador, ela não concordou e a criança acabou registada como filha dos dois. O Observador tentou falar com Mariana, que recusou prestar quaisquer declarações sobre o caso.

Os problemas entre ambos tornaram-se ainda mais graves quando, ainda a bebé não tinha um ano, a jovem descobriu que o padre mantinha um caso com outra mulher e decidiu pôr um ponto final na relação. Na altura, na paróquia de Nogueira, todos ficaram a saber que Mariana tinha uma filha do padre, mas quase todos lhe apontaram o dedo e as culpas.

A história é confirmada por uma fonte da diocese, que contactou o Observador através do número disponibilizado aos leitores para partilharem testemunhos e casos de abuso sexual na Igreja portuguesa (e que pode consultar no fim deste artigo), depois de saber que o jornal andava a fazer perguntas sobre o caso. Com medo de represálias dentro da própria diocese, essa fonte pediu para manter o anonimato, mas explicou porque é que ninguém quis acreditar na jovem: ali, o padre Heitor era visto — e ainda é por muitas pessoas — “quase como um rei”. Chegou a Nogueira em 1999 para auxiliar um padre já idoso, que lá estava havia décadas, “e fez muito pela paróquia”. Criou um centro social com um outro padre de uma paróquia vizinha — que foi investigado por ter várias empresas em seu nome na zona de Vila Real. E ainda hoje merece muitos elogios da população local.

“Todos sabem que foi pai, mas preferem acreditar que a culpa foi da rapariga”, revelou a mesma fonte da diocese. “No entanto, cabe a um padre travar este tipo de situações, seja com quem for. Quanto mais com uma menor que se apaixonou por ele”, considerou a mesma fonte da Igreja.

Essa fonte, que tem acompanhado o caso de perto, revela que agora, com a maior atenção dedicada ao tema dos abusos sexuais na Igreja, já há quem admita que Mariana e o padre tinham uma relação “diferente” quando ela ainda era menor. Era comum vê-la frequentemente a entrar e sair da sacristia e percebia-se que havia ali algo pouco comum. “Mas as pessoas continuam a acreditar no padre Heitor, que, já depois de ir para o Canadá, voltou a visitar a paróquia. Continua a ser uma figura muito presente e parece que ninguém quer ir contra ele. Até porque ajudou muitas pessoas”, confessa a mesma fonte da Igreja.

Queixa apontava para outra menor que padre teria engravidado

O processo consultado pelo Observador no Tribunal de Vila Real, no qual Mariana foi ouvida como testemunha, começou com uma queixa anónima feita à PJ a 18 de setembro de 2015 e levantava suspeitas contra dois padres: o padre Heitor Antunes, suspeito de abuso sexual, e um outro padre de Vila Real, que chegou a ter participação no Centro Social e Paroquial de Nogueira — e que foi depois investigado, num inquérito à parte extraído deste processo, por suspeitas de enriquecimento ilícito. A queixa chegou duas semanas depois de os jornais regionais terem noticiado uma visita do presidente da câmara de Vila Real ao Centro Social e Paroquial de Andrães  — um projeto comparticipado em 250 mil euros pela autarquia e que foi desenvolvido pelo padre Heitor.

O presidente da Câmara de Vila Real fotografado com o padre Heitor Antunes, numa visita às obras de construção do Centro Paroquial de Andrães (Imagem retirada do site da CMVL na Internet)

O denunciante dizia que os dois padres tinham negócios na região e eram sócios em algumas empresas. A queixa anónima indicava, ainda, que várias pessoas sabiam desses negócios, mas que, como precisavam dos seus serviços e dos próprios padres, não tinham coragem de os denunciar. Quanto ao padre Heitor Antunes, referia que se comentava que tinha filhos de mulheres com quem manteve relacionamentos amorosos e que, à data, uma rapariga menor de idade estava grávida dele. Nesta altura, Mariana era já maior de idade e a criança que tinha com o padre Heitor já tinha um ano, pelo que a denúncia não podia referir-se a ela.

Passou apenas uma semana até o padre Heitor Antunes se sentar perante a mesma inspetora que tinha recebido a queixa anónima, Sónia Machado, para falar sobre as suspeitas que recaíam sobre ele. À PJ, o sacerdote disse que estava em funções em paróquias de dois concelhos (Vila Real e Peso da Régua) desde 2001 e que, naquele momento, estava previsto sair por decisão do bispo. Uma decisão que garantiu ser de comum acordo.

Quando a inspetora lhe perguntou se mantinha algum relacionamento com uma menor, que estaria grávida, Heitor Antunes apressou-se a negar. Afirmou que nunca se tinha envolvido com nenhuma rapariga menor e que iria ser colocado numa paróquia no estrangeiro, talvez em Inglaterra, “por causa de uma situação pessoal”. Nunca falou de Mariana ou da filha. O padre sublinhou também que nunca teve comportamentos impróprios, de cariz sexual, com qualquer menor e que, na Igreja, as atividades ocorriam sempre em grupo e eram supervisionadas por jovens adultos. Ninguém lhe perguntou se assumira a paternidade de alguma criança — e ele também não o revelou, segundo se lê nos autos. O sacerdote considerou, por fim, que a queixa contra ele poderia justificar-se por uma vingança, de alguém que eventualmente discordasse da sua conduta. No documento que transcreve as suas declarações, não se leem mais explicações.

Processo avança e acaba por encontrar Mariana

A procuradora do Ministério Público que conduzia o caso, Marta Seixas, pediu à PJ para tentar chegar a quem fez a queixa anónima, para ter provas concretas do que lá estava, e decidiu separar os processos dos dois padres denunciados. Num despacho de 9 de outubro, escreveu que podiam estar em causa crimes diferentes: no caso do padre Heitor Antunes, um crime de cariz sexual e de envolvimento com menores; no caso do outro sacerdote, denunciado por alegados negócios empresariais no concelho, tratar-se-iam de crimes de abuso de poder e/ou de corrupção. Assim, a magistrada mandou extrair uma certidão apenas com estes últimos factos, mantendo o processo inicial centrado no padre Heitor.

Apesar de o sacerdote não o ter revelado quando foi ouvido, por esta altura a PJ já tinha descoberto, junto do Instituto de Registos e Notariado, que havia, de facto, uma criança registada em nome dele e já com um ano de idade. Os inspetores já tinham também palmilhado as paróquias onde o padre Heitor Antunes estava colocado, à procura de mais informações. Ouviram pessoas das aldeias e conseguiram que lhes dissessem que, apesar de nunca terem sido reportados comportamentos impróprios com menores, se dizia que o sacerdote tinha tido uma criança de uma mulher maior de idade.

Um mês e meio depois, Mariana, a mãe da criança que o padre Heitor tinha registado, recebeu em casa uma notificação da GNR para comparecer na PJ. Se não comparecesse, incorria num crime de desobediência. A 2 de dezembro de 2015, apresentou-se para prestar declarações.

Não era a primeira vez que lá ia. Aos inspetores, contou que, três meses antes, também tinha estado naquelas instalações da PJ de Vila Real, depois de ter ido ao tribunal para pedir esclarecimentos sobre a regulação do poder paternal da filha e de ter contado a sua história — e a forma como a relação com o padre, vinda desde a infância, lhe destruiu a vida. No tribunal, recomendaram-lhe que fosse à Judiciária apresentar queixa e ela foi. Aquela era, porém, uma fase emocionalmente muito conturbada para a jovem, que, sem elementos concretos para provar o que dizia, optou por não formalizar a denúncia.

Agora que ali estava, repetiu o relato. Quando lhe perguntaram se sabia se o pai da filha tinha algum relacionamento com alguma menor, disse que não sabia, mas não ficaria admirada. Porquê? Porque ela própria era menor quando a relação com o padre Heitor Antunes começou, respondeu aos inspetores.

A revelação acabaria, porém, por não fazer qualquer diferença. Naquela altura, os crimes de abuso sexual de menores e ato sexual com adolescente já tinham prescrito. Além disso, Mariana tinha agora 24 anos e, pela lei, a queixa teria de ter sido apresentada até seis meses depois de a vítima fazer 18 anos.

Do testemunho à PJ, sobram ainda as declarações sobre o outro padre que estava a ser investigado, por causa de alegados negócios. Das suspeitas, a jovem disse que nada sabia, mas informou os inspetores que esse mesmo sacerdote era o padrinho da filha — batizada de forma muito discreta, alguns meses antes, apenas na presença do pai, da mãe e dos padrinhos, numa paróquia perto de Vila Nova de Gaia.

Bispo D. Amândio Tomás diz que, se soubesse que o padre Heitor se tinha envolvido com uma menor, comunicava às autoridades

Bispo diz que teria denunciado, se soubesse do envolvimento com uma menor

O depoimento do bispo D. Amândio Tomás, que chegou à liderança da diocese de Vila Real em 2011, contribuiu para a ideia de que, além de Mariana, poderia haver uma outra jovem — eventualmente a tal menor grávida referida na denúncia anónima. Em janeiro de 2016, ouvido como testemunha, D. Amândio Tomás admitiu à polícia que, ainda em março de 2015, tinha sido confrontado com o facto de o padre Heitor ter engravidado uma mulher, de quem iria ter uma filha.

O tempo verbal futuro faz toda a diferença. É que, em março de 2015, Mariana e o padre Heitor já tinham, no presente, uma criança de cinco meses. Foi isso, aliás, que Heitor Antunes explicou ao bispo quando ele o chamou e lhe perguntou se aquela informação, de que iria ser pai, era verdadeira. O sacerdote terá respondido que já tinha tido uma menina, meses antes.

A posição do bispo, segundo o próprio, terá sido clara: se havia uma criança, o padre deveria assumir as suas responsabilidades e ser pai dela. Uma fonte próxima de D. Amândio disse ao Observador que, na altura, foram admitidas várias possibilidades: Heitor podia deixar o exercício pastoral e dedicar-se à família ou, então, ser colocado noutra paróquia. Já mais tarde, o bispo acabou por decidir retirá-lo das paróquias de que era responsável. Isso mesmo é comprovado pelo boletim diocesano de dezembro de 2015, onde se lê que o padre Heitor Antunes “foi desvinculado das paróquias de Andrães, Nogueira, Alvações do Corgo e Vilarinho dos Freires” — sem qualquer indicação do que se seguiria ou da razão da desvinculação.

A própria Mariana, admitiu o bispo à PJ, ainda o contactou e falou com ele, confirmando-lhe que tinha uma criança do padre. A PJ quis saber se, nesse contacto, houve alguma referência a uma rapariga menor de idade, mas o bispo garantiu que não. Disse mesmo que, caso tivesse essa informação nas mãos, ele próprio teria comunicado o caso à Santa Sé e ao Ministério Público.

Duas fontes próximas do bispo de Vila Real afirmam que D. Amândio Tomás nunca foi informado de que a relação de Mariana com o padre Heitor Antunes começou quando a rapariga era menor de idade. Fonte próxima de Mariana, no entanto, garantiu ao Observador que, antes de ela ir falar com o bispo, uma familiar sua já lá tinha ido contar a história, e que tanto Mariana como essa familiar disseram que a relação começara anos antes, quando ela era ainda menor.

Nesses encontros, disse a mesma fonte ao Observador, o bispo ter-se-á mostrado baralhado com os casos, dando a entender que, afinal, não tinha ficado a saber apenas de uma relação do padre, mas de duas. A segunda seria a relatada pela denúncia que chegou à PJ. A com Mariana teria sido a primeira.

As diferentes versões que os dois lados apresentam sobre os encontros entre o bispo, a jovem e a sua familiar serão difíceis de desempatar — os encontros foram sempre privados.

O Observador tentou contactar o bispo para esclarecer esta dúvida. Afinal, quantas suspeitas lhe chegaram relativamente ao padre Heitor? E quando? Teve a informação de que se tratava de menores? Falou com as vítimas? Na lista de perguntas seguiu também a questão sobre se tinha sido aberta alguma investigação prévia interna ao caso, quando soube que a PJ estava a investigar o padre Heitor por abusos sexuais, uma vez que o Código do Direito Canónico, no cânone 1717.º, obriga o bispo a abrir uma investigação sempre que “tiver notícia, ao menos verosímil, de um delito”.

A resposta chegou duas semanas depois, assinada pelo próprio bispo, numa altura em que decorria no Vaticano a cimeira de líderes católicos dedicada aos abusos sexuais na Igreja, na qual um dos temas centrais foi a transparência nas informações sobre as investigações:

“Peço desculpa, mas ainda não me é possível responder às suas perguntas, as quais não me deixam indiferente. Quero, porém, dizer que tivemos a preocupação de procurar a verdade e defender e estar próximo dos mais fracos e em concreto da mãe da criança“, respondeu.

Recorde-se que o Observador já tinha enviado um questionário à diocese sobre os casos de abuso sexual que ali tinham sido investigados pela Igreja — fosse pela via de uma investigação prévia, fosse pela formalização de um processo canónico. A diocese não respondeu. Perante esse silêncio, o Observador pôde dar conta apenas do único caso que foi público naquela região: o que envolveu o padre Pedro Ribeiro, que acabou condenado a uma pena de prisão suspensa pelas conversas que manteve com duas menores pela internet.

O Observador contactou também o padre Heitor. Só na segunda mensagem sobre o tema o sacerdote respondeu:

“Refuto as acusações sobre abuso sexual conforme ficou comprovado pelo relatório do tribunal. Aliás, abomino qualquer tipo de abuso sobre outrem. Em relação a filhos, eu tive uma filha com uma mulher de 24 anos que assumi”.

O Observador insistiu com o padre Heitor e perguntou-lhe se essa relação tinha começado quando Mariana era ainda menor, mas não obteve mais respostas.

Troca de mensagens entre o Observador e o padre Heitor Antunes. Na mensagem de voz que aparece, explicamos que consultámos o processo em que o sacerdote foi investigado por abuso sexual de menores

Ida para o Canadá não passou pela Conferência Episcopal

O padre Heitor Antunes está, desde 2016, na paróquia de Santa Maria, uma comunidade de emigrantes portugueses que faz parte da diocese de Hamilton, em Ontário, no Canadá. Na página da diocese de Hamilton, na secção dedicada ao clero vinculado àquele território, o sacerdote aparece listado como pastor da paróquia de Santa Maria e celebra missas em língua portuguesa todos os fins de semana.

Fonte próxima do processo explicou ao Observador que a ida para o Canadá não foi a primeira opção discutida entre o bispo e o sacerdote. A primeira opção era o afastamento das funções sacerdotais para que pudesse dedicar-se à família. Depois, foram discutidas outras possibilidades, nomeadamente a transferência para outra paróquia ou até para outro país — sendo que, antes da opção do Canadá, ainda foi discutida a opção de Inglaterra.

É certo que Heitor Antunes acabou mesmo por ir para o Canadá — em dezembro de 2015, o boletim diocesano de Vila Real indicava que o sacerdote fora desvinculado das paróquias onde exercia o seu serviço pastoral — para servir numa paróquia de emigrantes portugueses.

Ainda assim, ao contrário dos outros sacerdotes portugueses que exercem funções no estrangeiro, seja por estarem destacados para funções no Vaticano ou para acompanharem comunidades de emigrantes portugueses noutros países, Heitor Antunes não aparece registado dessa forma no Anuário Católico Português, lista de todos os portugueses vinculados às dioceses portuguesas. Uma pesquisa pelo nome do sacerdote no anuário devolve a indicação de que continua a fazer parte do clero de Vila Real, mas não tem nenhum serviço pastoral atribuído nem qualquer indicação de onde se encontra a residir. No anuário de 2016 (a Igreja atualiza estes anuários a cada dois anos), a situação era já a mesma.

O padre Heitor Antunes aparece listado entre o clero da diocese canadiana de Hamilton (esq.). No anuário católico português (dir.), continua vinculado à diocese de Vila Real, mas sem serviço atribuído

Além disso, o processo de transferência para o Canadá também não passou pela Obra Católica Portuguesa das Migrações (OCPM), o departamento da Conferência Episcopal Portuguesa responsável pelos sacerdotes portugueses que acompanham os emigrantes portugueses no estrangeiro.

A diretora deste organismo, Eugénia Costa Quaresma, confirmou isso mesmo ao Observador: “Os detalhes sobre a ida do padre Heitor Eduardo da Silva Antunes para o Canadá não passaram pela OCPM”. Inicialmente contactada por telefone, a responsável tinha dito que o nome do sacerdote não lhe era familiar. Após confirmar nos registos de nomeações do organismo, Eugénia Costa Quaresma repetiu que “este nome até ontem [dia do primeiro contacto com o Observador] era desconhecido”.

Eugénia Quaresma sublinhou que, apesar de uma das missões da Obra ser a de “fazer a mediação e tratar da documentação da nomeação de sacerdotes e agentes pastorais entre os bispos/dioceses do país de origem e de destino”, a história e a prática mostram que “nem todas as nomeações passam ou passaram pela OCPM”. “O que pode ter ocorrido é esta transferência ter sido tratada entre os bispos das respectivas dioceses”, explica a diretora deste organismo, que está dependente da Comissão para a Pastoral Social e Mobilidade Humana.

Questionada sobre o caso, a diocese de Vila Real não explicou oficialmente o processo de transição para o Canadá. O Observador também contactou a diocese canadiana de Hamilton, mas não recebeu nenhuma resposta sobre o processo de transferência de Heitor Antunes, que agora continua a celebrar com a comunidade católica no Canadá.

Seja como for, a transferência de Heitor Antunes para o Canadá também não cumpriu as normas internas da Igreja Católica relativas aos procedimentos a adotar em casos de padres que têm filhos. A existência deste documento foi revelada recentemente pelo jornal norte-americano The New York Times, a quem o psicoterapeuta irlandês Vincent Doyle, ele próprio filho de um padre, garantiu ter lido o documento. Numa entrevista ao Observador, Vincent Doyle revelou alguns dos conteúdos deste guia interno da Igreja.

Esta semana, o cardeal italiano Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero (organismo da Santa Sé responsável pelo acompanhamento dos padres católicos) explicou, numa entrevista ao serviço de informações do Vaticano, que, salvo exceções “muito raras”, um padre que tem um filho deve sempre ser dispensado do estado clerical para poder assumir as responsabilidades enquanto pai, dedicando-se inteiramente à família.

“Procura-se, então, fazer o possível para que a dispensa das obrigações do estado clerical seja obtida no tempo mais rápido possível – alguns meses – para que o padre possa ficar disponível ao lado da mãe para acompanhar os filhos. Uma situação desse género é considerada ‘irreversível’ e requer que o sacerdote abandone o estado clerical mesmo que ele se considere idóneo para o ministério”, explicou o cardeal Stella.

“Às vezes acontece que os Bispos e os Superiores religiosos apresentem a situação de sacerdotes que não pretendem solicitar a dispensa, mesmo diante da presença de filhos, sobretudo quando terminou a relação afetiva com a mãe deles. Em tais casos existem, infelizmente, Bispos e Superiores que pensam que, depois de ter organizado economicamente os filhos ou depois de ter transferido o sacerdote, o clérigo possa continuar a exercer o ministério“, sublinhou o cardeal italiano.

Sempre, continuou Stella, que um bispo entende que o padre deve acompanhar os filhos — tal como sucedeu com o bispo de Vila Real —, “a situação requer que o sacerdote assuma a responsabilidade derivada da paternidade”. Se ele quiser pedir a dispensa do sacerdócio, “o caso é apresentado à Congregação para a demissão do clérigo do estado clerical”. “A perda do estado clerical ocorre porque a responsabilidade parental cria uma série de obrigações permanentes que, na legislação da Igreja latina, não prevê o exercício do ministério sacerdotal”, sublinhou.

O cardeal apresentou dois exemplos em que esta regra poderá não ser seguida. Uma delas é se o filho for acolhido numa família “já consolidada, em que um outro pai assume o papel de pai”. Outra é no caso de a situação ser descoberta quando o padre em questão já é idoso e o filho já é de “idade madura”. “Nessas situações, o Dicastério não obriga os Bispos a convidarem os padres a solicitar a dispensa”, explicou Stella.

A situação do padre Heitor Antunes não corresponde a nenhuma das exceções admitidas pela Santa Sé, pelo que o bispo deveria ter promovido, de acordo com as normas, um processo de dispensa das obrigações sacerdotais.

Em vez disso, Heitor Antunes continua a exercer funções, com o conhecimento da diocese de Vila Real. O sacerdote ainda mantém contactos esporádicos com a filha — e com a mãe, por causa dela. Pelo processo de regulação paternal, ficou obrigado a pagar metade das despesas e cumpre essa decisão.

Mariana ficou com a criança a seu cargo e ainda não conseguiu acabar o curso com que sempre sonhou, mas continua a ir às aulas na universidade. Fontes próximas dizem ao Observador que a jovem também ainda não conseguiu ultrapassar as marcas deixadas pela relação. Perdeu a infância e a adolescência atrás do padre Heitor Antunes — que abusou dela antes mesmo de ela saber o que isso queria dizer.

*O nome de Mariana é fictício para proteger a sua identidade

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