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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Paula Rego e Adriana Varejão, juntas para curar uma ferida: "Olhamos para o mundo com os dentes à mostra"

Cruzando obras no CAM, em Lisboa, pinta-se uma nova história entre Portugal e Brasil. Com os curadores, visitámos a montagem da exposição que inaugura dia 11, e falámos com a artista brasileira.

São criações que falam de violência e de subordinação, falam de poder, de domínio e de submissão e falam da injustiça que tudo isso significa, mostram o outro lado das histórias e da História, aquele que as narrativas oficiais não contam, aquele que cada corpo usurpado guarda, que cada vontade ignorada encerra na memória, e revelam outras realidades, outros mundos, que são, afinal, o mesmo, só que visto e apresentado da perspetiva do outro.

Paula Rego (1935-2022) e Adriana Varejão (1964), duas das mais conceituadas e internacionais artistas de Portugal e do Brasil, pintam e denunciam as agressões que o mais forte sempre incutiu no mais fraco, apontam o dedo ao patriarcado, ao colonialismo e a todas as formas de opressão, civilizacionais ou individuais, físicas ou intelectuais, transformadas em códigos e estruturas aceites e estabelecidas. E juntas conseguem mais do que sozinhas, juntas transformam o nosso olhar, juntas chamam-nos para esse lado escondido do mundo, da vida e da história e fazem com que também nós sejamos outros, experimentos outros sentimentos, nos questionemos, questionemos o que sabemos, o que conhecemos e o que julgamos ser certo, verdade, realidade ou um facto inalterável. As suas ficções passam a ser reais e a nossa realidade torna-se mera efabulação, deitando por terra premissas e s

tatus quo. É um murro no estômago. Mas todos precisamos dele. A mensagem é só uma: cada indivíduo merece respeito, cada corpo e cada povo também.

As duas artistas (mulheres, sublinhe-se) e as obras que construíram apresentam-se da sua forma mais inteira em Entre Os Vossos Dentes — o título é uma citação de um poema de Hilda Hilst —, uma exposição que o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian inaugura na sexta-feira, 11 de abril. Um encontro de ideias que teve início há oito anos, no Rio de Janeiro, na galeria da Carpintaria, um espaço expositivo mais experimental e independente, e que agora, em Lisboa, toma a forma de uma conversa longa, urgente, frontal, determinada, e vital para a arte, a sociedade, a História e o Homem.

▲ A exposição é inaugurada na sexta-feira, dia 11 de abril. Na última foto, os curadores: Víctor Gorgulho e Helena de Freitas

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Em 2011, a Pinacoteca de São Paulo dedicou a Paula Rego uma extensa mostra individual. Adriana Varejão, que já conhecia a obra da portuguesa, visitou a exposição e descreve o impacto dela como uma “epifania”. A identificação com o trabalho de Paula Rego foi grande e a aproximação aos universos por ela criados também. Márcia Fortes, a diretora da galeria Carpintaria, que a representa no Brasil, pôs-se então em campo para promover um encontro entre as duas artistas, o que veio a acontecer no ateliê de Paula Rego, em Londres. As duas artistas conversaram e deram-se tão bem que o passo seguinte foi uma exposição conjunta, em 2017, no Rio de Janeiro. Benjamim Weil, hoje diretor do CAM, em Lisboa, visitou essa mostra e não a esqueceu, ao ponto de ter guardado a ideia de voltar a expor Paula Rego e Adriana Varejão em conjunto, a escala, essa, no entanto, é agora muito maior e a dimensão do diálogo entre obras bem mais extensa e intensa.

“A obra da Paula sempre me tocou profundamente, desde antes de conhecê-la pessoalmente. Há nela uma força visceral, uma fricção entre o íntimo e o político, que me interessa muito. Como artista e como mulher, reconheço nas suas imagens um espaço de tensão, de dor, de erotismo, de denúncia — mas também de invenção e liberdade. Nossos trabalhos partem de lugares diferentes, com linguagens próprias, mas acredito que se cruzam justamente nesse terreno movediço das contradições. A Paula nunca teve medo de encarar o grotesco, o doméstico, o corpo feminino em suas múltiplas camadas. E isso ressoa fortemente na minha prática também. Nesta exposição, o diálogo entre as nossas obras acontece quase como uma coreografia afetiva e política — uma conversa entre duas mulheres artistas que olham para o mundo com os dentes à mostra”, diz ao Observador, a partir do Rio de Janeiro, Adriana Varejão.

“O encontro entre as duas artistas resulta numa terceira obra. Cada trabalho de cada uma delas mantém sempre a sua autonomia, mas do contraponto entre as várias obras surge uma espécie de terceira instância. Vemos a autoria de cada uma, mas chegamos a um terceiro lugar muito bonito, que é um lugar onde a autoria se confunde.”
Víctor Gorgulho, curador

Com carta verde para trabalhar a obra das duas artistas, a equipa curatorial da mostra do CAM, composta por Helena de Freitas, curadora da casa, Víctor Gorgulho, curador brasileiro que tem acompanhado o trabalho de Adriana Varejão, e à qual se juntou a própria Adriana, começou por fazer uma pesquisa de obras com o objetivo de encontrar pontos de sintonia. Estabeleceram-se muitas conexões luminosas. A exposição, que exibe cerca de 80 obras, vai explorar 13 momentos de clara interseção entre os discursos das duas autoras, mas, dizem ao Observador os curadores, podiam ser mais, o dobro, “assim houvesse espaço e possibilidade de juntar num mesmo momento outras tantas peças de arte”.

“Esta exposição não é de todo mimética ou parecida com a primeira. Aqui o percurso das artistas, que traduz caminhos paralelos — elas trabalham cada uma no seu continente —, é pautado por temáticas que se cruzaram e que cintilaram. Encontrámos 13 espaços onde essas conversas foram muito férteis e muito intensas”, explica Helena de Freitas. “De facto”, diz Víctor Gorgulho, “o encontro entre as duas artistas resulta numa terceira obra. Cada trabalho de cada uma delas mantém sempre a sua autonomia, mas do contraponto entre as várias obras surge uma espécie de terceira instância. Vemos a autoria de cada uma, mas chegamos a um terceiro lugar muito bonito, que é um lugar onde a autoria se confunde”.

O acordo em torno das 80 obras escolhidas estendeu-se ao desenho da arquitetura, da autoria de Daniela Thomas, e que se compõe precisamente de 13 salas, quase celas intersticiais, onde a oposição entre interior e exterior, privado e público, se molda às narrativas de cada artista num percurso labiríntico, sinuoso, mas livre, em que o visitante decide avançar ou retroceder à vontade por entre essa intimidade que fere e que cura, e que aponta sempre mais luz para o caminho. Seja qual for o itinerário, há sempre uma tensão entre o interior e o exterior das salas que se percorrem e que também está presente no trabalho das duas artistas.

▲ Paula Rego (Lisboa, 1935-Londres, 2022) e Adriana Varejão (n. Rio de Janeiro, 1964)

REMY-PIERRE RIBIERE/LUSA

“É intenção, propósito, que as paredes exteriores não estejam contaminadas com nenhuma obra, com nada”, esclarece Helena de Freitas. “É como se fosse um espaço de passagem, exterior, onde convergem umas celas onde vibra o coração de cada um destes encontros, onde podemos sentir melhor a vibração e a conversa entre as obras. Há aqui um batimento cardíaco. E esta ideia de coração também tem a ver com a violência e com a sensibilidade à violência das duas artistas.” E será para cada espectador/visitante um passaporte para sentir a sua ou a vulnerabilidade dos outros. Neste outro lugar criado na nave central do CAM, “a obra de cada artista provoca a obra da outra e faz com que essa obra apresente uma camada de leitura que não era exatamente a que existia antes desde encontro, ou pelo menos não era a mais óbvia”, sinaliza Víctor Gorgulho.

[Já saiu o quarto episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]

Na realidade, há obras, tanto de Paula Rego como de Adriana Varejão, que são amplamente conhecidas dos públicos, mas que aqui vão ser encaradas de outra forma. Se a condição da mulher na obra de Paula Rego foi sempre algo que os portugueses identificaram — até porque o trabalho da artista ajudou a mulher portuguesa a votar pela legalização do aborto —, já a sua atitude crítica e a denúncia que faz da colonização, do racismo e do antigo regime foi menos divulgada a nível geral e tem aqui um enfoque redobrado e absolutamente notável ao lado de uma Adriana Varejão que fala na primeira pessoa das feridas do Brasil, da violência racial, ainda mais da violência racial e de género em simultâneo.

“O encontro entre as duas artistas resulta numa terceira obra. Cada trabalho de cada uma delas mantém sempre a sua autonomia, mas do contraponto entre as várias obras surge uma espécie de terceira instância. Vemos a autoria de cada uma, mas chegamos a um terceiro lugar muito bonito, que é um lugar onde a autoria se confunde.”
Víctor Gorgulho, curador

É quando lemos pela primeira vez no título de uma pintura de Paula Rego, datada de 1961 — Quando tínhamos uma casa no campo, dávamos festas maravilhosas e depois íamos para o mato matar os pretos — que nos assustamos ou que tomamos consciência, à mesma em sobressalto, de que a realidade é, foi, era, grave, e de que ela, Paula Rego, a gritava como podia. De repente, há vários outros quadros onde a racialização e a impunidade do dominador/agressor saltam à vista. Faz-se luz, não tínhamos reparado. Como não tínhamos reparado? Não tínhamos reparado porque não ouvíamos nem víamos o outro. Aquele grande protagonista da obra inteira de Adriana Varejão, as suas narrativas decoloniais, a sua história do Brasil e o pluralismo que a envolve, a total subversão do discurso oficial do Descobridor e dos códigos por ele utilizados, códigos estéticos, códigos éticos, códigos morais, doutrinas escolares, discursos históricos, litúrgicos.

“Esta preocupação e esta denúncia feitas por Paula Rego existiam desde os anos 60. A obra Quando tínhamos uma casa de campo dávamos festas maravilhosas e íamos para o mato matar os pretos é o primeiro indicio de uma atenção a este tema. Na verdade, a artista tinha uma atenção a todas as formas de violência. O colonialismo era uma forma de violência que pulsava na sociedade portuguesa, que ela conhecia, que identificou e denunciou. Mas não é a única obra na exposição aonde isso se vê, essa denúncia está muitas vezes encriptada na pintura, por vezes de forma menos clara, mas está lá”, elucida Helena de Freitas, enquanto visitamos a exposição ainda durante a montagem. “A questão das mulheres e o feminismo eram para ela fundamentais, “yes, I am a feminist”, assumiu desde a primeira hora, mas há extensões da sua preocupação a todo o tipo de violência”, remata a curadora do CAM.

▲ esta mostra tem uma ação, que também é a ação das próprias artistas, muito transformadora sobre o tempo que vivemos, sobre o presente

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Está lá todo esse discurso, a vontade de dizer, está lá o seu ato político, está no desenhar e no pintar, no que desenha e no pinta, na forma como o faz. Paula Rego, tal como Adriana Varejão, põe sempre o dedo na ferida. A primeira fá-lo muitas vezes metaforicamente, a segunda prefere fazê-lo quase literalmente. Se uma aponta para a ferida a outra esgravata e faz sangue. Na pintura intitulada O Anjo, uma recente aquisição do CAM, por exemplo, “Paula Rego faz o gesto, dá a ordem. Adriana Varejão executa-a. Paula empunha a espada em O Anjo e Adriana pega nela e fere ou faz o rasgão em Parede com Incisões à la Fontana. Para Paula Rego, de resto, só o gesto de desenhar já era um gesto de ferir, ‘desenhar é ferir’, dizia”, conta Helena de Freitas.

E essa espécie de ação/reação que parece adivinhar-se entre obras é assinalável em toda a mostra, onde trabalhos datados de épocas diferentes e oriundos de diferentes geografias, originais de ambas as artistas, se aproximam por diferentes razões, “quer por afinidades, quer, outras vezes, por conflitos, quer por tensões, narrativas ou discursos”, como explica Víctor Gorgulho. A subversão de relatos vigentes, de teses e teorias de caráter histórico, científico, religioso, a utilização de materiais e estéticas convencionais com propósitos opostos ou o uso de códigos antigos para assumir novos processos é também uma constante na obra de Paula Rego e Adriana Varejão.

“Acredito que meu trabalho atua mais como um exercício de escavação e exposição de violências — principalmente aquelas que foram naturalizadas ou silenciadas ao longo da história. Ele não oferece respostas nem soluções, mas insiste em manter certas feridas abertas, visíveis, às vezes até estetizadas, para que não sejam esquecidas. Não é um testemunho direto, mas simbólico."
Adriana Verão, artista

Vejamos os exemplos de A Primeira Missa no Brasil (1993), de Paula Rego, que parte do painel pintado, em 1860, pelo artista brasileiro Victor Meirelles, e que revê na tela o que terá sido um processo não tão pacífico e evangelizador como se pretendeu dizer que foi, e compare-se com Filho Bastardo e Mapa de Lopo Homem (1992), de Adriana Varejão, duas obras que voltam a ler o que a História disse que aconteceu no Brasil depois da chegada dos portugueses. Vejamos o que há de limpo e o que há de sujo nos espaços asséticos onde os corpos femininos, vulneráveis e desprotegidos, são sujeitos a expurgas, tratamentos, purificações; vejamos em que ponto o sagrado e o profano se tocam ou se contrariam, e de que forma, mais radical em Adriana, menos formal em Paula, a simbologia bíblica mas também a iconografia portuguesa dão uma autêntica cambalhota interpretativa e adquirem outro sentido; e vejamos ainda os rituais de poder e as formas de submissão que sobre os quais as artistas refletem, encontremo-los nos comportamentos humanos mas também nas reações animais e na estreita relação/aproximação entre humano e animal, formas de vida comuns; descubramo-los ainda nos silêncios e nas Línguas (Adriana Varejão) que se calam violentamente, “mastigadas”, como sugere o título da exposição, “entre os dentes” daqueles que impõem valores, ordens, forças e vontades.

“No meu trabalho, existe uma ética no gesto de olhar para a história, para as feridas do colonialismo, para o corpo feminino, para os apagamentos. Mas esse olhar precisa passar para a linguagem da pintura. O discurso não está apenas no que se representa, mas também em como se representa. Às vezes ele aparece na fissura, no excesso, no ornamento, no sangue, no vazio. A estética, para mim, é o próprio território onde essas tensões éticas se encarnam”, explica a artista brasileira em resposta ao Observador. Adriana Varejão criou uma peça original para esta mostra que apresenta e define: “É uma pintura marcada por fissuras. Essa superfície quebrada carrega uma carga simbólica muito forte, relacionada à instabilidade e tensão. Sobre essa base, apliquei motivos de renda renascença, uma técnica brasileira, ligada ao trabalho manual feminino e à herança colonial. A renda funciona aqui como um vestígio — algo entre o adorno e a tentativa de sutura. Estar nesse espaço junto das figuras femininas da Paula, tão intensas e ambíguas, amplia ainda mais a potência desse diálogo. O quarto, nesse caso, não é apenas um lugar doméstico, mas também um espaço de conflito”.

▲ Adriana Varejão nota que o diálogo entre a sua obra e a obra de Paula Rego “acontece no lugar onde o feminino é complexo e por vezes brutal"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Nessa tensão permanente que fere, muitas são as pontes e janelas com outras circunstâncias opressivas. As questões permanecem: onde fica a ficção, onde começa a realidade? O que é ilusão e o que é real? Que diferença existe entre o literal e o figurado? Onde está a metáfora? Tantas perguntas para as quais encontramos respostas em Entre os vossos dentes. Efetivamente, trata-se de uma exposição reveladora. Ou, como lhe chama a curadora Helena de Freitas, “transformadora”. “Para lá do encontro de duas artistas de grande consagração internacional, e este é o lado formal da exposição, diria que esta mostra tem uma ação, que também é a ação das próprias artistas, muito transformadora sobre o tempo que vivemos, sobre o presente. Em todas estas salas e na configuração geral, há uma dinâmica de chamar a atenção para zonas e temas muito sensíveis também do presente”, acredita a curadora. E, aqui, o condicionamento das obras no espaço e a sua escala impedem a indiferença do público, numa respiração conjunta entre cada peça e esse público individualmente.

“Acredito que meu trabalho atua mais como um exercício de escavação e exposição de violências — principalmente aquelas que foram naturalizadas ou silenciadas ao longo da história. Ele não oferece respostas nem soluções, mas insiste em manter certas feridas abertas, visíveis, às vezes até estetizadas, para que não sejam esquecidas. Não é um testemunho direto, mas simbólico. A arte não trava a violência, mas pode interromper o fluxo da sua invisibilidade. Pode criar um espaço de desconforto, de fricção, de memória”, defende Adriana Varejão, que frisa a sua necessidade de continuar a questionar o mundo e de perguntar em particular a Paula Rego “de onde vem essa coragem? Essa capacidade de encarar os fantasmas, os desejos, as violências, com uma frontalidade tão crua e, ao mesmo tempo, com tanta invenção?”

Adriana Varejão termina, notando que o diálogo entre a sua obra e a obra de Paula Rego “acontece no lugar onde o feminino é complexo e por vezes brutal. Há um reconhecimento silencioso ali, uma espécie de espelhamento torto, intenso, que não precisa de palavras para existir”. É por isso que ver a exposição não se substitui à leitura nem à escrita de nenhum texto.

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