As campanhas eleitorais são uma coreografia testada e preveem, por isso, passos próprios: é natural que um candidato arranque a falar das suas ideias, organize um fim de semana com ações fortes, passe a segunda semana a apelar ao voto e nos últimos dias, num tom de crescente urgência, já não peça outra coisa — toda a gente tem de votar e levar um amigo também. Ora, sinal de que uma campanha está mesmo, mesmo renhida é quando essas etapas encolhem — e quando o candidato, neste caso Pedro Duarte, usa os primeiros dias para deixar um aviso sério à navegação: é preciso votar e apostar no voto útil para evitar o regresso do “velho PS” à câmara do Porto.
Na sede de campanha de Pedro Duarte (candidato de PSD, IL e CDS), em plena Avenida dos Aliados, o ambiente era nesta quarta-feira de motivação: foi por pouco, mas a última sondagem sobre a campanha na autarquia, da Universidade Católica, coloca o candidato ligeiramente à frente de Manuel Pizarro. Mesmo que a distância seja muito curta e que não ultrapasse o empate técnico, já vai servindo a Pedro Duarte para garantir que há uma “dinâmica” crescente de vitória na campanha e para motivar as tropas, que encheram a sala para ouvir, primeiro, uma série de elogios rasgados vindos de José Pedro Aguiar-Branco e, depois, as promessas de Duarte de devolver ao Porto a “liderança nacional” e derrotar o “velho PS” representado por Manuel Pizarro.
À frente de uma sala abafada para apresentar as linhas gerais do seu programa, de microfone junto à cara e movimentando-se em modo Ted Talk diante da plateia, Pedro Duarte não hesitou em dramatizar. A corrida pode ter um número recorde de candidatos, mas “ninguém sério” negará que os concorrentes à presidência se resumem a ele próprio e Manuel Pizarro. E a escolha é essa, entre uma visão do PS — “repetida, lá de trás, que defende endividamento e mais betão” — e do PSD, IL e CDS — “de futuro, de alguém que percebe os ventos de mudança e olha para a qualidade de vida”.
Não fosse o apelo ao voto útil suficientemente direto, Pedro Duarte assumiu-o de caras: dirigindo-se a quem vota ao centro e à direita, pediu que não se dispersem votos pelas muitas candidaturas, porque nesse caso irão contribuir para “eleger o regresso ao passado” do PS. “Chamem-lhe apelo ao voto útil, porque é mesmo isso: útil para eleger o presidente de câmara. Todo o voto dispersado e que vá para outros lados está a ajudar o velho PS”, disparou.
E apesar de os indicadores positivos para a sua candidatura serem ainda muito tímidos, o social democrata vestiu, como também é próprio na coreografia das campanhas, o papel de preferido e pediu mesmo que não se “entre em euforias“. O mesmo que dizer: ninguém pode ficar no sofá, até porque a vitória está bem longe de estar garantida. “Apesar de termos todas as razões para estarmos otimistas, só no dia 12 se vai decidir. E continua a haver um núcleo muito significativo de portuenses que está indeciso, e se todos forem para o velho PS perderíamos. Isto não está ganho”, alertou.
▲ A apresentação do programa decorreu na sede de campanha, em plena Avenida dos Aliados.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Tiro ao PS: “bancarrota”, atitude “velha” e a “Amadora do norte”
O tal “velho PS” foi o alvo constante de Pedro Duarte durante a apresentação, apostado em polarizar a corrida e fazer do socialista (ou “dos socialistas”, como ia repetindo) o seu inimigo número um (mesmo que boa parte da sua campanha também tenha passado, até agora, por entrar em conflito com o vice de Rui Moreira, o candidato Filipe Araújo).
Fê-lo em várias frentes: se Manuel Pizarro tem sido criticado pela proposta — para uns ambiciosa, para outros simplesmente fantasiosa — de construir cinco mil casas num mandato, aproveitou para prometer que manterá o “exemplo de rigor e contas certas” dado nas gestões de Rui Rio e Rui Moreira, nos últimos 24 anos. Mas não pelas gestões anteriores do PS. “Não era assim antes, quando cá estavam os socialistas, é bom lembrarmos. Foi uma mudança enorme e temos a responsabilidade de estarmos à altura desse legado. Não vou vacilar com este património. Vai ser ponto de honra”, prometeu.
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O currículo de Manuel Pizarro como secretário de Estado de José Sócrates tem sido uma das armas mais arremessadas contra o socialista, e desta vez não foi diferente: ironizando sobre o “recorde mundial, que nunca aconteceu em lado nenhum”, que Pizarro bateria se construísse as casas prometidas neste prazo, Duarte garantiu que pelas suas contas o custo seria de mais de mil milhões, pagos ao longo de trinta anos.
Desta vez, dava o passo de associar Pizarro ao tal “velho PS” a nível nacional: “É uma diferença de atitude. É o velho PS que regressou. Lembramo-nos de como foi no Porto e no país. Não custa nada e um dia depois outras gerações pagam — até pode ser que haja uma bancarrota”. A sua ideia, lembrou, será apostar na recuperação de casas devolutas e manter a tabela de preços acessíveis que já existe, “direta” para jovens e classe média que precise de apoio — com rendas acessíveis “abaixo do preço prometido pelos socialistas”.
A questão da construção, que tem gerado uma contínua discussão entre os candidatos sobre a visão de uma cidade maior ou mais pequena no futuro, levou a novas e pesadas críticas aos socialistas: querem voltar ao tempo em que o Porto tinha mais 100 mil habitantes, em que se vivia em “bairros de lata”, “em ilhas em que as pessoas estavam amontoadas sem dignidade”, “mais betão, mais confusão, mais ruído”; em resumo, e atendendo a que o Porto tem níveis de densidade populacional semelhantes ao de Odivelas e Amadora, “querem-nos transformar na Amadora do Norte”.
Também o “desastre” do Metrobus foi atribuído à irresponsabilidade das administrações socialistas (a nível nacional), que deixam “a fatura para pagar” — Duarte quererá “reequacionar todo o projeto”, na medida em que não tiver mais custos nem implicar mais obras que prejudiquem a vida diária dos portuenses.
▲ À frente de uma sala cheia Pedro Duarte apresentou, em modo Ted Talk, as linhas gerais do seu programa.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O “empolamento” do “clima de insegurança”
As 107 páginas de programa apresentadas por Pedro Duarte deixam bem claro que a questão da segurança é mesmo a “prioridade das prioridades”, como tem dito: as primeiras oito páginas são dedicadas ao tema e o candidato fez questão de começar por dizer que o mesmo é “polémico” — uma vez que as estatísticas existentes não refletem essa urgência — e que “ninguém contesta a ciência”, mas “só vale a pena olhar para os dados quando fontes são fidedignas e têm credibilidade” (e estes, sugeriu, não têm).
“O que sentimos é que há uma degradação do clima de segurança, que não é só perceção, mas é muito de perceção. E a perceção condiciona a nossa vida”, argumentou. “Tudo o resto fica comprometido”. Por isso, insistindo no acréscimo de polícia de proximidade e visibilidade na rua, assim como de mais iluminação e videovigilância, defendeu que a mudança principal é outra: “Mudar a atitude de alguma complacência” que tem existido.
Já durante a manhã desta quarta-feira, num passeio pelo bairro municipal de Francos, Pedro Duarte assumia aos jornalistas que está “feliz por empolar” a questão da segurança — “é deliberado” — precisamente por acreditar que é assim que se combate, enquanto os fenómenos ainda não têm “tanta gravidade”, os problemas potenciais de segurança.
À noite, seguiu a mesma narrativa: prometeu como presidente da câmara “instigar a polícia”, fazer com que deixe de ser “admissível vermos toxicodependentes a consumirem droga na via pública” — “acontece diariamente à porta de escolas na cidade, à frente de crianças” e ter “tolerância zero” para as situações de sem abrigo, prometendo que toda a gente vai ter um tecto debaixo do qual vai dormir, aproveitando a rede de voluntariado e criando albergues e espaços de acolhimento.
Foi acrescentando mais exemplos: os de casas em que habitam “largas dezenas” de pessoas e a suspeita de “comportamentos ilícitos” nesses casos. O mesmo vale, disse, para as centenas de lojas de souvenirs (180 em 41 ruas). “Não é normal, não é habitual”, descaracteriza a cidade e “não é difícil imaginar que por trás há situações de ilegalidade que têm de ser reprimidas”, atirou, garantindo depois que a câmara irá fiscalizar esses casos e, se houver suspeitas, alertar as autoridades e a própria AIMA.
As promessas de “liderança” e os elogios de Aguiar-Branco
Se as promessas sobre segurança entusiasmaram claramente os presentes, o momento de maior aplauso tocou num tema que puxava ao coração dos portuenses: prometendo defender a “identidade” do Porto, prometeu também devolver uma “liderança a nível nacional” do Porto para combater um centralismo que só piora.
“Se o presidente da câmara do Porto não assumir este papel ninguém o vai assumir”, anunciou. “Aqui vai haver uma mudança. Não é uma crítica às anteriores lideranças da câmara. Eu percebo a frustração com que muitas vezes bateram em paredes”. Mas os tempos, explicou, “são os outros, quase de emergência nacional. “Comigo a presidente, o norte estará líder também”, assegura. “Quando o presidente da câmara do Porto fala, o país vai ter de ouvir”. Provocaria assim o maior aplauso da noite.
A este momento juntava-se o dos rasgados elogios de Aguiar-Branco, que também chegou a ser falado como hipótese para se candidatar à autarquia, e que caracterizou como “inevitável” a candidatura do amigo de há mais de 30 anos. Assegurou ao público que Pedro Duarte tem “tudo o que é preciso” para exercer bem a função — currículo, “identidade portuense”, peso político e um caráter confiável que verificou quando Duarte assumiu “frente a frente” que apoiaria Pedro Passos Coelho contra o próprio Aguiar-Branco, nas eleições do PSD de 2010.
▲ Aguiar-Branco entrou ao lado de Pedro Duarte e discursou antes da apresentação do programa.
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“Com o Pedro, o Porto continuará a ser o Porto, sem projetos radicais que descaracterizam a cidade, sem despesismos que nos retiram autonomia financeira e peso negocial com o Governo”, argumentou. Entre o discurso de Aguiar-Branco e o vídeo de apresentação de Pedro Duarte, que o mostrava em dois momentos diferentes ao lado de Rui Moreira, os apoiantes saíam galvanizados pela porta da sede para a noite do Porto. Mas a corrida, como Pedro Duarte lembrou, está bem longe de ter terminado.