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Getty Images/iStockphoto

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PJ deteve três violadores. Uma vizinha, uma desconhecida e uma filha foram as vítimas /premium

Sintra, Loures e Beja. Em comum, três mulheres que foram vítimas de predadores sexuais em circunstâncias diferentes. Uma delas resistiu ao agressor e acabou morta por asfixia.

Aquela manhã do dia 8 de novembro era o momento ideal. A companheira acabara de sair de casa e a inquilina do quarto arrendado ao lado do dele, num apartamento em Loures, estava sozinha. Aproximou-se, empurrou a porta no trinco e atacou-a. Quando a vítima, de 21 anos, percebeu que ia ser violada resistiu-lhe. Bateu-lhe. Mas o agressor insistiu e, na luta, acabou por estrangulá-la. Só parou quando percebeu que ela já não respirava.

Durante dois dias, deu voltas à cabeça e pensou em todas as formas possíveis para se livrar do corpo. Não encontrou nenhuma. Acabaria por deslocar-se à sede da Polícia Judiciária, na Rua Gomes Freire, em Lisboa, e confessar à equipa de piquete o que tinha feito. O violador está agora em prisão preventiva. É um dos três detidos que a Polícia Judiciária anunciou esta quarta-feira e que vieram aumentar a lista de violadores detidos em Portugal, neste ano de 2018. Nos últimos três anos, 2,7% dos crimes praticados contra as pessoas foram crimes sexuais.

Aos 27 anos, o suspeito não tem qualquer ocupação profissional conhecida. Mas, nos registos da Polícia Judiciária, está marcado como suspeito de pequeno tráfico de droga — embora não seja toxicodependente. Estrangeiro, tal como a vítima, mas de outra nacionalidade — que a polícia prefere não revelar — o homem ainda furtou vários eletrodomésticos de uso pessoal da mulher que tinha acabado de violar e matar, e que acabou por vender para fazer algum dinheiro.

“A vitima foi-se debatendo e conseguiu, a determinada altura, resistir ao ato sexual. A resposta acabou com força física: ele manietou-a e estrangulou-a provocando-lhe a morte. Depois disso, furtou-lhe alguns objetos, nomeadamente eletrodomésticos de uso pessoal e de uso diário que vendeu”, disse ao Observador o coordenador da PJ responsável pelo caso, Pedro Maia.

O coordenador explicou também que, na altura, o agressor manteve a vítima fechada no seu quarto e que a ideia era livrar-se do corpo. Ainda pensou em vários cenários possíveis, mas não conseguiu concretizar nenhum. Até que terá pedido ajuda a alguém. “Tê-lo-ão aconselhado a entregar-se porque esconder o corpo nunca resultaria”, explica a mesma fonte.

Temendo que o cadáver começasse a soltar cheiro e que a companheira descobrisse o que tinha feito, ele próprio foi à Polícia Judiciária entregar-se. E fê-lo depois do almoço, numa sexta-feira, aos polícias que estavam ao serviço de piquete da PJ — que, de imediato, mandou uma equipa ao local e informou a família da vítima.

"A vitima foi-se debatendo e conseguiu a determinada altura resistir ao ato sexual, a resposta acabou com força física, ele manietou-a e estrangulou-a provocando-lhe a morte. Depois disso furtou-lhe alguns objetos, nomeadamente eletrodomésticos de uso pessoal e de uso diário que vendeu", disse um coordenador da PJ.
Pedro Maia, coordenador da PJ

Em Sintra, na primeira semana de novembro, foi a família de uma vítima de violação quem foi à polícia apresentar queixa, lançando uma caça a outro suspeito. Naquele dia, ela acabava de chegar de comboio e preparava-se para entrar no seu carro quando foi abordada por um homem armado que a ameaçou. A rapariga, de 19 anos, obedeceu-lhe. Foi vendada, para não testemunhar o destino que seguiria, enfiada no carro do agressor e obrigada a dar o código do seu cartão multibanco.

O suspeito ainda fez um levantamento em dinheiro, cujo valor não foi avançado pelas autoridades, mas manteve a vítima raptada. Levou-a para um local que tinha previsto, violou-a e, cinco horas depois, abandonou-a, deixando-a entregue a si própria junto a outra estação de comboio. “Traumatizada”, mas consciente, a rapariga correu para casa e contou à família o que se tinha passado. Foram eles que foram à polícia fazer queixa e só depois o caso passou para a alçada da Judiciária.

A investigação não foi tão rápida porque o trauma da vítima fê-la guardar memórias sobre as quais nem conseguia falar. Os inspetores decidiram, então, ir com ela ao local do crime e tentar reconstruir o percurso que tinha feito com o criminoso. Acabaram por chegar a um motel, com acesso direto aos quartos — longe de olhares de possíveis testemunhas. “Valeram-nos alguns pormenores que a vítima captou através de outros sentidos que não os da visão”, explicou o mesmo coordenador da PJ.

Também ele foi detido e ficou em prisão preventiva.

Num caso o agressor atacou a mulher que vivia no quarto ao lado e matou-a, noutro o violador já cadastrado obrigou a vítima a levantar dinheiro. O terceiro caso agora divulgado aconteceu entre pai e filha.

Já depois destes dois casos, foi detido um terceiro suspeito de violação. A denúncia chegou por telefone e referia-se a pai e filha. Há apenas duas semanas em Portugal, o pai tinha violado a rapariga por duas vezes.

Os investigadores partiram para o terreno e encontraram o local do crime: uma casa na zona de Beja, onde viviam vários cidadãos estrangeiros numa situação precária. Terá sido um deles que se apercebeu do que o homem fez à própria filha e telefonou para a Judiciária. Não serão os únicos casos de que a vítima foi alvo, uma vez que as autoridades acreditam que os crimes tenham ocorrido ao longo dos últimos anos e que começaram quando ela era ainda menor. Mas só estes ocorreram em território português. “A recolha de relevantes elementos probatórios culminou na detenção do presumível autor, a 19 de Novembro do corrente”, referiu a polícia em comunicado enviado esta quarta-feira. O suspeito tem 42 anos e, tal como os outros dois, também está em prisão preventiva.

Neste caso, a vítima precisou de tratamento hospitalar devido à violência das sevícias de que foi alvo.

A psicóloga da Polícia Judiciária que se tem debruçado sobre estes casos explicou ao Observador que os perfis deste tipo de suspeitos podem corresponder a dois padrões diferentes: um que corresponde à violação e outro ao padrão de abuso sexual de jovem e adolescente. “Do ponto de vista psicológico, temos duas tipologias de violador que normalmente têm vítimas diferentes”, explica.

No caso dos abusadores sexuais, existem os chamados “preferenciais” e os “situacionais”. No primeiro caso, a psicóloga fala de agressores sexuais que têm preferência por crianças. Dentro destes existem os pedófilos, uma parafilia que os faz ter verdadeiramente uma preferência sexual por crianças abaixo dos dez anos. “Têm mesmo uma atração sexual, reagem fisicamente a uma criança como um homem adulto reage sexualmente a outra mulher, ou a outro homem”, exemplifica.

Por outro lado, no caso dos “situacionais”, o interesse pelas crianças “resulta da perda de auto estima, de disfunção sexual, ou do consumo excessivo álcool”, revela Cristina Soeiro. Estes agressores têm, normalmente, “baixas competências sociais e acabam por se aproximar das crianças por serem mais fáceis de dominar e seduzir”. Neste grupo de abusadores, fala-se em hebefilia, ou seja, numa preferência por crianças com mais de 11 anos. O agressor perspetiva as crianças do sexo feminino como “mulherzinhas”, desculpabilizando, assim, os seu comportamento.

"Normalmente nesses casos [violação] há sempre um crime associado, de roubo, por exemplo. Como o agressor que faz um assalto a uma casa e aproveita para violar a vítima".
Psicóloga da PJ, Cristina Soeiro

No Departamento de Psicologia que funciona na Escola Superior da Polícia Judiciária, em Loures, a especialista tem estudado casos que já foram fechados em tribunal. E, no caso dos crimes praticados contra menores, faz também a distinção dos registado em ambiente familiar (intrafamiliar) e fora dele (extrafamiliar). Neste grupo, depois de um levantamento que o departamento de Cristina Soeiro fez ao analisar alguns processos registados ao longo de cinco anos, concluiu-se que 19% dos agressores no seio familiar eram pais. “A maior parte deles tem uma relação com as filhas, os abusos começam numa fase após os 10 anos de idade, mas há  uma franja de indivíduos que podem ser considerados hebéfilos.

Os abusos em seio familiar resultam, muitas vezes, “de um desequilíbrio familiar”. A criança acaba por substituir a mãe na gestão da família e na parte da sexualidade. “E isto tanto pode acontecer no meio rural como nas cidades”, adverte. A vítima, por seu turno, vai mantendo esta dinâmica porque se sente responsabilizada e só mais tarde percebe que este não é o comportamento adequado a ter entre pai e filha. “Os pais atuam com base na coação, na indução do segredo, no controlo da vitima e das sua relações com amigos. Tivemos um caso em que a vítima só revelou aos 18 porque suspeitou que a irmã estava também a ser vítima e não queria que ela passasse pelo mesmo”, diz.

Analisando se acontece entre conhecidos ou desconhecidos, 90% dos casos de abuso sexual relatados ocorreram em contexto familiar ou social. Os agressores eram familiares ou conhecidos. A franja de casos ali estudados referente a violadores de adultos que não conhecem as suas vítimas é menor. “Normalmente, nesses casos, há sempre um crime associado, de roubo, por exemplo. Como o que faz um assalto a uma casa e aproveita para violar a vítima”, exemplifica. É o que parece serem os casos que a PJ resolveu em Loures e em Sintra.

Aliás, uma média feita às estatísticas da criminalidade registada nos últimos três anos revela que 38% dos crimes sexuais são praticados contra crianças e jovens, enquanto 15% se refere a violação de adultos.

Na chamada “violação por oportunidade”, as autoridades encontram suspeitos “agressivos e violentos que têm muitas vezes a perceção que as mulheres são um objeto”. Chegam a a ter relações não consentidas com elas por divertimento. “Estes indivíduos tentam aproximar-se à vitima para obter um ganho, ficar com a mala, com o telemóvel”.

Por outro lado, admite a psicóloga, há poucos casos em violações que acabam em homicídios. “Normalmente, as situações não estão relacionadas, resulta de uma relação sexual mal conseguida e da perda de controlo para que a vítima não apresente queixa ou o identifique depois”, explica Cristina Soeiro.

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