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Porque é que França se tornou no alvo preferido do Estado Islâmico?

O processo de guetização e auto segregação isolou a comunidade muçulmana na periferia urbana, em busca de uma identidade. E os "lobos solitários" compõem agora a base de recrutamento dos jihadistas.

Sete ataques. 230 mortos. Um ano e meio. França, “a capital da prostituição e do vício”, tornou-se no alvo número um dos jihadistas a caracterização do país é feita pelo próprio Estado Islâmico. A primeira esfera foi colocada a 7 de janeiro de 2015, quando os irmãos Saïd e Chérif Kouachi mataram 12 pessoas num ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo. As que se seguiram passaram por um centro comunitário judaico, por Lyon, por um comboio que circulava entre Amesterdão e Paris, por Saint-Denis, pelo Bataclan e pelo Stade de France. Esta quinta-feira, 84 pessoas morreram em Nice, quando Mohamed Bouhlel, 31 anos, conduziu um camião contra uma multidão que festejava o dia da Bastilha, feriado nacional francês. Este sábado, o Estado Islâmico veio reivindicar o ataque.

França não está sozinha. Faz-se acompanhar de todas as nações que estejam a traçar um caminho semelhante ao seu, garantiu o Estado Islâmico. Se dúvidas existissem sobre o ódio dos jihadistas pelos “franceses nojentos”, ficariam esclarecidas no veículo mais utilizado para divulgar as mensagens de ódio que apelam à carnificina: as redes sociais. A ideia ficou clara em 2014, numa mensagem divulgada pelo Estado Islâmico que pede a morte dos infiéis, sobretudo a “dos franceses malévolos e nojentos”.

E estão a matar. Não só em França, mas sobretudo lá. “Por uma questão estatística, a probabilidade de haver uma radicalização violenta é maior”, explica ao Observador Filipe Pathé Duarte, professor universitário e autor do livro “Jihadismo Global: Das Palavras aos Atos”. Se formos às estatísticas, as contas são estas: cerca de 10% dos cidadãos franceses crê no Islão, ou seja, esta “forte comunidade muçulmana” transforma o país num alvo mais fácil de recrutamento para o Daesh (acrónimo do Estado Islâmico em árabe). E é a religião que os move? Também, mas não só.

"Aqui, não é o extremista religioso que se transforma num radical violento. É o radical violento que se transforma num extremista religioso"
Filipe Pathé Duarte, professor universitário

Para o especialista em ciência política, os massacres que estão a acontecer em França não são fruto de um problema religioso, mas de um problema social e político. “É pré-religião. Aqui, não é o extremista religioso que se transforma num radical violento. É o radical violento que se transforma num extremista religioso”, afirma. António Nunes, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT) acrescenta que esse recrutamento já nem precisa de entrar ou sair das fronteiras.

“Basta que se consiga filiá-lo a um determinado site, onde se propaguem ideias, transformando isto numa radicalização à distância. Onde aparecem estes lobos solitários que são muito mais difíceis de controlar do que uma rede”, explica António Nunes. Filipe Pathé Duarte acrescenta que o maior número de combatentes jihadistas europeus que estão a combater no e pelo Daesh são de cidadania francesa. “Pelo número significativo de muçulmanos que vivem em França e também por aquilo que França acaba por representar”, diz.

E o que é que França representa? Representa um “farol de liberdade, igualdade e de valores sociais”, explicou ao News.com.au Neil Fergus, responsável executivo da Intelligent Risks, uma organização australiana que se dedica a estudar o terrorismo internacional. “Paris e França são o coração da filosofia ocidental. Isto é repugnante para estas pessoas. A Europa é repugnante para estas pessoas. E França é o epicentro”, referiu Neil Fergus.

"É a necessidade de o Daesh demonstrar ao mundo que está presente e que como está prestes a ter algumas derrotas significativas no seu próprio território, precisa de se projetar para o exterior"
António Nunes, presidente do OSCOT

Uma testemunha do ataque ao Bataclan, em novembro de 2015, disse ao The New York Times que um dos terroristas afirmou que “tudo isto estava a acontecer por todo o mal feito por François Hollande [presidente francês] aos muçulmanos no mundo todo”. E Will McCants, autor do livro The ISIS Apocalypse, disse ao Business Insider, na altura, que o atentado poderia ter sido um aviso para que França deixasse de atacar a Síria.

António Nunes corrobora. Diz que uma das explicações para “este ciclo mais forte de ocorrências tem muito a ver com o enfraquecimento do Daesh” na Síria e no Iraque. “É a necessidade de o Daesh demonstrar ao mundo que está presente e que como está prestes a ter algumas derrotas significativas no seu próprio território, precisa de se projetar para o exterior. Porque, para existir, precisa desta publicidade. Todos estes atos de terror têm a ver com isto”, explicou o presidente do OSCOT.

Para Filipe Pathé Duarte, é verdade que as ações de política externa francesa têm contribuído para os atentados, mas não são o ingrediente principal. “A instabilidade do Médio Oriente ajuda ao processo de recrutamento [levado a cabo pelo Estado Islâmico], mas isto deve-se muito mais às políticas europeias dos anos 1980 e 1990, que favoreceram processos de auto segregação, do que ao que se passa na Síria e no Iraque. São estas políticas, esta bolsa de ressentimento, que dá margem para o processo de recrutamento [jihadista]”, explica o académico.

oitenta e quatro pessoas perderam a vida em NIce a 14 de julho de 2016

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Quem está na “bolsa de potenciais jihadistas” são os migrantes de segunda e terceira geração, que nasceram já na Europa, frutos dos fluxos de migração das antigas colónias francesas no Norte de África. “O processo de integração acabou por criar fórmulas de auto segregação. E é importante referir que é auto segregação”, diz o académico. São estes filhos e netos da primeira vaga de migrantes que se isolam, que se fecham socialmente, em comunidades na periferia urbana.

“Nasceram já na Europa, mas ao mesmo tempo nessa bolsa auto segregada cujo elemento identitário não é a classe social, mas étnica, cultural e religiosa. Se os migrantes de primeira geração trabalhavam e tinham como posse identitária a sua cultura ancestral, os de segunda e terceira vivem numa espécie de limbo identitário. Já não se reconhecem na cultura ancestral e como nascem no Ocidente são engolidos pelo imaginário das expectativas que o Ocidente lhes garante”, explica.

E o que e é que isto significa? Que estes migrantes são educados na promessa e nas expectativas que o Ocidente lhes dá, mas “talvez por fruto da sua própria condição social” não conseguem cumpri-las. É aqui que nasce o sentimento de revolta. “Acabam por encontrar na sociedade anfitriã as principais razões para o não cumprimento dessas expectativas”, afirma Filipe Pathé Duarte. Já António Nunes explica que estas minorias encontram no Estado Islâmico “algum refúgio espiritual, alguém que os represente e isso faz com que o seu recrutamento seja mais fácil”.

"Se antigamente a extrema esquerda e a direita capitalizavam estas ansiedades, isto já não existe, deixando hoje um vazio ideológico numa geração que se encontra permeável"
Filipe Pathé Duarte, professor universitário

John R. Bowen, professor de Antropologia na Universidade de Washington, lembrou na revista Time que a ligação de França ao Islão começou em 1830, com a conquista da Argélia. Continuou depois da Primeira Guerra Mundial, com o controlo da Síria e do Líbano. Se na altura muitos franceses se instalaram no Norte de África, depois da segunda guerra, foram eles que começaram a migração para França, para trabalhar em fábricas.

“Isto tem muito a ver com a fixação de comunidades. França é um dos países da Europa que maior relação teve com o Norte de África. Teve vários territórios sob domínio e teve uma saída bastante trágica, com a guerra”, recorda António Nunes, para quem só é possível circular e passar despercebido num país, seja ele qual for, se estivermos inseridos numa comunidade. “Isto é muito importante para vivermos em sociedade. Porque se alguém que não tem raízes, não tem família, não tem ninguém começa a aparecer, é notado. E se eu me movimentar dentro de uma comunidade é completamente diferente”, acrescenta.

O problema está, então, no não cumprimento das expectativas. Filipe Pathé Duarte explica que, “se antigamente a extrema esquerda e a direita capitalizavam estas ansiedades, isto já não existe, deixando hoje um vazio ideológico numa geração que se encontra permeável e onde é permitido utilizar a violência na transformação da sua própria condição“, afirma. E o artefacto não tem de ser sofisticado. Para avançar num atentado terrorista, basta “um indivíduo agarrar num camião e abalroar as pessoas”.

"Quando não há autossatisfação, as pessoas procuram refúgios, porque estão mais vulneráveis. E ficam mais abertos a essa radicalização"
António Nunes, presidente do OSCOT

Para o especialista, a Europa “também criou condições que favoreceram a auto segregação” em que estas comunidades vivem. “Era preciso ter-se evitado a disseminação, o isolamento social. Era preciso ter-se evitado a guetização ao máximo”, afirmou Filipe Pathé Duarte, que acredita que a Europa não se apercebeu das consequências a longo prazo que a dificuldade da integração social poderia causar nestes migrantes de segunda ou terceira geração. “E isto não tem nada a ver com bloquear fronteiras. Tem a ver com um processo de integração social”, sublinha.

António Nunes vai mais longe e fala das condições sociais em que este migrantes vivem e dos níveis de auto satisfação mais baixos em que alguns possam sentir por causa de motivos como desemprego ou exclusão social. “Quando não há auto satisfação, as pessoas procuram refúgios, porque estão mais vulneráveis. E ficam mais abertos a essa radicalização que pode acontecer pela internet, na comunidade ou numa tentativa de propagar uma determinada religião“, conta. Com uma radicalização feita, sobretudo, à distância, a questão do terrorismo torna-se muito mais complexa. “Porque não há entrada e saída de fronteiras.”

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