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© Raquel Martins/Observador

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Porque traímos e porque dói tanto? /premium

É um tabu, censurado e pouco compreendido. No seu novo livro, a especialista Esther Perel desconstrói a infidelidade. Há traições que são histórias de amor?

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Quando lhe perguntam se é ou não a favor da infidelidade, Esther Perel responde “sim”. A resposta ambígua é propositada, uma vez que a psicoterapeuta é conhecida por olhar de forma particularmente diferente para as questões da vida em casal. Perel não desresponsabiliza quem trai mas também não vitimiza quem é traído — pelo contrário, procura perceber os motivos por detrás de um caso amoroso, seja ele fugaz ou duradouro. Desde que publicou em 2006 o livro “Mating in Captivity” que Esther Perel tem viajado pelo mundo para falar sobre amor, sexo, intimidade e infidelidade. E é frequentemente entrevistada por publicações como a New Yorker ou o The Guardian. A sua TED Talk sobre o tema da traição teve mais de 13 milhões de visualizações.

Esther Perel — que nasceu em Antuérpia, é filha de sobreviventes do Holocausto e tem uma clínica privada em Nova Iorque — é autora do livro “(In)Fidelidade — Repensar o amor e as relações”, recentemente publicado em Portugal, e bestseller do The New York Times, sobre o qual refletimos, adicionámos reflexões de outros especialistas na área, e ainda testemunhos reais. Há algo de positivo a retirar das traições? Porque é que elas acontecem? Os casais podem superar um ou mais momentos de infidelidade? Há traições que são grandes histórias de amor? Ao longo do trabalho tentamos responder a essas e outras questões.

O adultério como espaço para o amor

Esther Perel diz que o adultério existe desde que o casamento foi inventado, bem como o tabu contra o mesmo — algo que é “universalmente praticado” e, ao mesmo tempo, “universalmente proibido”. “Em quase todos os lugares onde as pessoas se casam, a monogamia é a norma oficial e a infidelidade é a conduta clandestina.” Mas antes de avançar pela traição adentro — sua possível definição e seus possíveis motivos, sejam eles ou não clandestinos para quem a pratica –, importa conhecer a evolução do conceito de casamento ao longo do tempo: “Durante milénios, o matrimónio não era tanto uma união de dois indivíduos, mas mais uma parceria estratégica entre duas famílias para assegurar a sobrevivência económica de ambas e promover a coesão social”, escreve Perel no livro. Noutros tempos o amor não era essencial, ainda que pudesse decorrer da união, e os filhos não eram o fruto de uma relação afetiva. Numa realidade em que o casamento era visto como aliança económica, o adultério arranjava espaço para o amor.

"Vale a pena recordar que, até há pouco tempo, a fidelidade conjugal e a monogamia nada tinham que ver com o amor. Eram o sustentáculo do patriarcado, imposto às mulheres, para garantir o património e a linhagem -- quem é meu filho e quem fica com as vacas (ou as cabras ou os camelos) quando eu morrer", recorda Esther Perel

Perel cita a historiadora Stephanie Coontz para reforçar esta ideia: “A maioria das sociedades tinha o amor romântico, essa combinação de excitação sexual, paixão e romantização do parceiro. (…) Mas, muitas vezes, tudo isto era visto como inapropriado quando vinculado ao casamento. Como o casamento era um acontecimento político, económico e mercenário, muitos acreditavam que o verdadeiro e imaculado amor só poderia existir sem ele”. A ideia é sustentada pela socióloga Sofia Aboim, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que ao Observador explica que até ao século XIX o matrimónio era uma “união motivada pela tradição e por interesses económicos”, na qual a mulher tinha um papel mais submisso — união essa dissociada do romantismo, da paixão, e encarada como uma “célula de organização social fundamental”. A propriedade, a função reprodutiva e a sobrevivência da mulher eram pilares assim assegurados.

“Isso já não é aplicável à sociedade ocidental atual, sendo que hoje a ideia de casamento por interesse é moralmente condenável”, continua Sofia Aboim, assegurando que agora subimos ao altar por amor. Segundo a socióloga consultada pelo Observador, construiu-se um mito, isto é, de que o matrimónio obedece apenas ao amor romântico, desligado de quaisquer posicionamentos sociais. “Apesar de tudo, os casamentos fazem-se dentro dos grupos sociais a que pertencemos, o que não quer dizer que as pessoas se unam por interesse.” E podemos voltar de imediato a Esther Perel: “Vale a pena recordar que, até há pouco tempo, a fidelidade conjugal e a monogamia nada tinham que ver com o amor. Eram o sustentáculo do patriarcado, imposto às mulheres, para garantir o património e a linhagem — quem é meu filho e quem fica com as vacas (ou as cabras ou os camelos) quando eu morrer.”

Casar diz algo de bom de nós, significa estabilidade e é para a vida — o casamento está assente em princípios culturais, sociais e até religiosos, mesmo que, por vezes, não nos sejam evidentes. Quem o lembra é a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva, que faz ainda o seguinte apontamento: “Olhamos para a traição enquanto pecado, algo de muito errado que exige penitência. Continuamos a ter francas influências da religião cristã”.

“Fui traída na minha primeira relação, um namoro de uns 5 anos. Descobri que estava a ser traída com várias pessoas diferentes no dia em que o pai dele morreu. Nunca tinha tido qualquer tipo de indício que tal pudesse estar a acontecer. A relação estava saudável, equilibrada, bem como a parte sexual. Senti-me injustiçada porque, ainda por cima, estava numa situação em que não podia exercer o meu direito de abandonar a relação. Afinal, havia toda uma família que também tinha sido a minha nos últimos anos e que estava de luto e inconsolável. Demorei um mês a terminar a relação por achar que não o podia fazer naquele momento tão sensível. Tinha 19 anos. Até hoje ele nega a traição, mesmo depois de lhe dizer que vi as mensagens que até fotos íntimas tinham.” (Sexo feminino, 25 anos)

Segundo os dados mais recentes da Pordata, em 2017 registaram-se 64,2 divórcios em cada 100 casamentos em Portugal — um número astronómico se compararmos com o valores de 1960, isto é, 1,1 divórcios em 100 casamentos. O aumento destas taxas pode, no entanto, não representar uma descrença da conjugalidade ou uma crise do casamento e da família, argumenta Sofia Aboim. Em causa pode estar o maior investimento na esfera privada, uma vez que mais recentemente associa-se ao bem-estar individual o ideal de felicidade e intimidade em casal: “A associação do romantismo ao casamento não é um fenómeno novo. Mas hoje compreende-se que o vínculo pode não ser duradouro, que é preciso reforçar a intimidade e a felicidade individual. Antes o divórcio era visto como uma falha, hoje não é.”

“Estávamos casados há alguns anos. Ela era mais nova. Um dia, quando estou a trabalhar, recebo um email de um desconhecido. Contava como mantinha um caso com ela, como as viagens de trabalho dela não passavam de desculpas, partilhava imensos pormenores, e enviou-me fotos explícitas que não deixavam margem para dúvida. Fartara-se de lhe pedir para deixar o marido e resolveu arriscar tudo ao expor a história. De repente o meu mundo desabou. Confrontei-a com tudo e separámo-nos, apesar de ter perdido a conta ao número de cartas que me escreveu a pedir para voltar, e de ter a lata de negar imagens em que aparecia na cama com outro.” (Sexo masculino, 45 anos)

Esther Perel é terapeuta, escritora, formadora, oradora e tem vindo a investigar as complexidades do amor há três décadas. Talvez isso lhe dê alguma autoridade moral para escrever e dizer que o romantismo mudou tudo e que, agora, enfrentamos outro desafio: “O individualismo iniciou então a sua desapiedada conquista da civilização ocidental. A seleção dos parceiros ficou impregnada de aspirações românticas destinadas a contrabalançar o crescente isolamento gerado pela vida moderna”. A ideia de que a intimidade conjugal se tornou uma espécie de antídoto para vidas mais solitárias é recorrente no discurso de Perel, que explica que passámos a exigir do nosso parceiro/a que nos “ame e deseje”, isto é, não só deve ser o nosso melhor amigo, como “bom confidente e um amante fervoroso”. “A imaginação humana concebeu um novo Olimpo: nele, o amor permanece incondicional, a intimidade arrebatadora, e o sexo excitante, até ao fim, com a mesma pessoa. E esse fim está cada vez mais longe.”

O nosso modelo de amor romântico faz-nos esperar que o nosso companheiro seja o nosso principal parceiro emocional — o único com quem partilhamos os nossos desejo, arrependimentos e anseios mais íntimos.” Esther Perel

Os ideais são contraditórios, no sentido em que passamos a exigir de uma mesma relação estabilidade e segurança, por um lado, e espanto, mistério, aventura e risco, por outro. “Dá-me conforto e dá-me energia. Dá-me familiaridade e dá-me novidade. Dá-me continuidade e dá-me surpresa. Os amantes hoje procuram abrigar debaixo do mesmo teto desejos que, desde sempre, existiram em domicílios separados”, continua Perel. O discurso da psicoterapeuta não é propositadamente desmotivador e pretende abrir a porta à reflexão: talvez a visão utópica deste amor moderno possa estar “a deixar para trás um exército cada vez maior de desencantados”; talvez seja por isso que a autora escreve, e apregoa, que já não nos divorciamos porque estamos infelizes, mas sim porque poderíamos ser mais felizes.

“A permanente consciência das alternativas disponíveis convida às comparações desfavoráveis, enfraquece os compromissos e impede-nos de desfrutar o momento presente.” Esther Perel

Esther Perel não é a única a falar de uma utopia que nos cega. Também a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva diz que, atualmente, é-nos vendida a ideia de que é “possível sermos felizes a 100 por cento e ter uma relação perfeita”. É uma utopia perigosa, insiste, que nos retira conceitos importantes de que uma relação dá trabalho. “Não devemos ambicionar ser pessoas perfeitas. Vivemos aprisionados a ideias preconcebidas do que é uma relação feliz. É por comparação com os outros que começamos a pôr em causa a nossa relação.”

“Até me casar nunca levei muito a sério a lealdade nas relações. Para mim trair ou ser traída não era uma coisa que me incomodasse por aí além. Não que as pessoas com quem estive soubessem que eu pensava assim porque não era um assunto discutido, mas com o feitio que eu tinha era perceptível que não estava a 100% numa relação. Uma dessas relações durou 5 anos e, apesar de nunca termos falado sobre isso, eu sei que ele esteve com outras pessoas. Eu também. Nunca foi motivo para deixarmos de estar juntos. Havia ciúmes mas, por outro lado, como assumi desde o início que o jogo era assim nunca me senti no direito de cobrar nada. Ao longo de 5 anos traí em três momentos diferentes. Ele não sei quantas vezes me traiu, mas houve duas vezes em que soube de casos por terceiros. Isto nunca foi uma relação aberta, não me sentia minimamente culpada e a minha única preocupação era que ele não soubesse de nada para não o magoar. A relação durou até eu já não me identificar. Quando terminei com ele tinha 28 para 29 anos.” (Sexo feminino, 44 anos)

O que é traição e os seus clichés

Serve isto tudo para explicar que, na ótica de Esther Perel, todas estas novas prerrogativas nos levam à história da infidelidade contemporânea. Ou seja, não foram os nossos desejos que mudaram, mas sim o direito — encarado quase como uma obrigação — de os perseguir, mesmo que isso resulte em traição. É nesse sentido que a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva deixa o alerta: em caso de dúvida faça uma viagem ao campo do auto-conhecimento, de maneira a diferenciar o que é genuína insatisfação de utopias que comprámos como sendo verdadeiras.

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Num mundo onde é tão fácil sentir-se insignificante — ser despedido, descartado, apagado com um clique, desamigado –, ser-se escolhido adquiriu uma importância que nunca tinha tido. A monogamia é a vaca sagrada do ideal romântico, visto vir confirmar que somos especiais. A infidelidade diz: ‘Afinal de contas, não és assim tão especial’. E estilhaça a grande ambição do amor.” Esther Perel

O tema da infidelidade é pouco compreendido e envolto em vários clichés. Uma das frases mais comuns proferidas por quem trai pode muito bem ser “Sou melhor do que isto” ou “Eu tinha inteligência para não vir aqui parar”. Para quem vê de fora é fácil associar o traidor a uma pessoa sem valores, que não se preocupa com a família, caso a tenha, ou a alguém de carácter duvidoso, explica Filipa Jardim da Silva que, com isto, não procura normalizar a infidelidade, nem omitir o facto de que é um ato capaz de causar grande dor a todos os intervenientes, sobretudo a quem é traído. “Estamos a falar de um comportamento que coloca em causa tudo aquilo que pensávamos de nós e isso é reforçado pelos outros. O maior cliché é esta colagem entre o comportamento que leva à traição e os valores pessoais. Somos muito rápidos a julgar e não podemos separar o mundo entre as pessoas que traem e que não traem.”

“Ele era o meu chefe, era mais velho. Eu estava solteira há algum tempo e já trabalhávamos juntos há uns 4 anos. Quando nos envolvemos ele tinha uma namorada. Lembro-me perfeitamente que o facto de ele ter namorada não era importante e de lhe dizer que, se algum dia isso mudasse, ele era o primeiro a saber. Nas primeiras semanas estávamos só a divertir-nos. Mas, depois, o sentimento começou a crescer até que um dia percebi que estava apaixonada. Aí disse-lhe que não estava disposta a partilhá-lo com outra pessoa e ele tomou a decisão de terminar com a namorada. Hoje estamos casados quase há 20 anos e temos três filhos. Desde o início que esta foi a relação mais forte que alguma vez tive, pelo que, mesmo hoje, não desconfio dele.” (Sexo feminino, 38 anos)

“A complexidade do amor e do desejo não se podem resumir a categorizações simplistas de ‘bom’ e ‘mau’, ‘vítima’ e ‘culpado'”, acrescenta Esther Perel no livro já citado. “Deve ficar bem claro que não condenar não significa aprovar e que existe uma grande diferença entre compreender e justificar. Mas quando reduzimos a conversa a simples juízos de valor, ficamos sem nada para debater.” O mesmo vale para argumentar, de maneira simplista, que não há traição se tivermos tudo aquilo de que precisamos em casa ou que os casos extraconjugais são sempre nocivos e nunca poderão trazer nada de benéfico a um casamento.

Porque é que achamos que os homens traem por aborrecimento ou medo de intimidade, mas as mulheres traem devido a solidão e desejo de intimidade?, interroga-se Esther Perel

Há quem cometa uma traição sem querer saber das consequências e há quem o faça em real sofrimento, assegura a psicóloga clínica, que defende por isso mesmo que não devemos ser tão rápidos a julgar. Filipa Jardim da Silva faz ainda questão de distinguir duas realidades: há traições que nascem de impulsos, são atrações fugazes que resultam de encontros imediatos e, depois, há traições continuadas no tempo que podem vir a ser grandes histórias de amor. Havendo traição no registo do amor moderno a nova vergonha é ficar num casamento. O divórcio tornou-se, de certa forma, mais socialmente aceite, no sentido em que gera mais respeito por nós ao invés do perdão, continua Perel.

Outro cliché remete para o papel da amante que, em terapia, quase nunca é mencionada. Perel escreve mesmo que esta personagem chega a ser “ignorada ou desconsiderada”, com a maioria dos terapeutas a centrar-se “tão rápido quanto possível” no casal, tratando a amante “mais como um agente patogénico do que como uma pessoa”. Esther Perel vai mais longe e deixa críticas à sua área de atuação, ao escrever que a literatura clínica “é muito rica em tipologia de traidores”: “O jargão da psicologia substituiu o palavreado religioso e o pecado foi eclipsado pela patologia. Já não somos pecadores, estamos doentes”.

“Estamos a falar de um comportamento que coloca em causa tudo aquilo que pensávamos de nós e isso é reforçado pelos outros. O maior cliché é esta colagem entre o comportamento que leva à traição e os valores pessoais. Somos muito rápidos a julgar e não podemos separar o mundo entre as pessoas que traem e que não traem", alerta a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva

Importa ainda explicar que não existe uma definição fechada para o que constitui uma traição. Isso depende única e exclusivamente dos intervenientes da relação. Há pessoas para quem o flirt já constitui um ato desonesto, outras para quem isso só é representado pelo sexo. Independentemente de acertos que só podem ser feitos a dois, uma coisa é certa: a era digital veio em muito dificultar as relações conjugais e extraconjugais. Certo que cabe aos casais definir os próprios termos, mas Esther Perel dá uma ajuda, ela que considera que uma infidelidade tem três destes elementos: secretismo, alquimia sexual e envolvimento emocional.

Infidelidade: os motivos e as consequências

“Solidão, anos de apatia sexual, ressentimento, remorsos, negligência conjugal, juventude perdida, necessidade de atenção, voos cancelados , bebida em excesso — são estes os elementos básicos da infidelidade quotidiana. (…) Os casos extraconjugais são um ato de traição e, simultaneamente, uma expressão de desejo e perda.” Esther Perel

Uma traição pode representar várias coisas, de engano e abandono a rejeição e humilhação. Coisas das quais, diz Esther Perel, o próprio do amor devia proteger-nos. Na sua falência, aniquilado pela infidelidade, fica um turbilhão de emoções que já obrigou muitos psicólogos dos dias de hoje a levar vocabulário emprestado à área do trauma para melhor explicar os sintomas de quem é traído: “ruminação obsessiva, hipervigilância, dormência e dissociação, fúrias inexplicáveis e pânico incontrolável”. Tratar de casos de traição, garante a autora, tornou-se uma especialidade entre profissionais da saúde mental. Mais do que a perda de um amor, a infidelidade por significar a perda de identidade.

“É este toque de caráter inalcançável que confere aos casos extraconjugais a sua mística erótica e mantém acesa a chama do desejo.” Esther Perel

O piloto automático é um dos gatilhos mais vezes responsáveis por traições, uma vez que vivemos anestesiados. A sintonia com outra pessoa que não aquela com quem estamos numa relação pode muito bem ser “o nosso corpo a reclamar por se sentir vivo“, diz Filipa Jardim da Silva. E esse é precisamente um dos argumentos mais usados: há quem traia e reclame como esse ato em particular o fez sentir vivo/a.

“A teoria dos ‘sintomas’ é a seguinte: um caso é um simples sinal de alerta para uma condição preexistente, seja ela uma relação atribulada ou uma pessoa problemática. E, em várias situações, isto é verdade. Muitos relacionamentos culminam num caso extraconjugal para compensar uma carência, preencher um vazio ou preparar uma saída. (…) A ideia de que a infidelidade pode acontecer na ausência de problemas conjugais sérios é difícil de aceitar. A nossa cultura não acredita em casos sem faltas. Por isso, quando não nos é possível culpar a relação tendemos a culpar o indivíduo”, escreve Esther Perel sobre como é difícil conceber a ideia de que pessoas felizes com as relações que têm também traem.

“Devia ter 20 anos, estava na faculdade. Éramos colegas de faculdade e não era, de todo, uma relação assumida como namorados, mas os nossos amigos ou colegas dir-te-iam que sim. Chegou o verão e, quando volto das férias, noto que há qualquer coisa estranha. Eventualmente, depois de uma conversa muito adiada, ele conta-me que é bissexual: ‘Agora já sabes, sou um livro aberto’. Custou-me ouvir isso. Pensei ‘Como é que não percebi isso? Será que ele é, na verdade, gay?’ Pensei que ele estivesse a fazer um caminho de descoberta e respeitei. Até que o meu melhor amigo na altura, que era gay, admitiu-me, depois de uma saída à noite e alguns copos, que eles os dois tinham dormido juntos nesse verão. Esta informação partiu-me em mil bocados. As duas pessoas que durante um ano tinham sido os meus maiores pilares, as pessoas com que passava mais tempo… Acabei por aceitar a situação, mas nunca fiz as pazes por terem traído a minha confiança.” (Sexo feminino, 31 anos)

Pode acontecer que uma pessoa é infiel porque está numa descoberta pessoal, em busca de uma identidade nova ou até perdida. Nesse sentido, é mesmo provável que o caso extraconjugal não seja uma manifestação de problemas na relação e simbolize, na verdade, uma questão de crescimento ou transformação pessoal. É por isso que Esther Perel fala na “busca do novo eu”: “Por vezes quando buscamos o olhar de outra pessoa, não é ao nosso companheiro que viramos as costas, mas à pessoa em que nos tornámos. Mais do que um novo amante, procuramos encontrar uma outra versão de nós próprios”. A isso adiciona-se outra “condicionante”, isto é, o facto de a infidelidade representar vidas alternativas à que realmente vivemos.

“Namorávamos há cerca de três anos e a nossa relação caminhava lentamente para o precipício. Eu estava numa espiral de destruição (relação, trabalho e família) e comecei a ter consultas na psiquiatra. Quando ganhei coragem para lhe contar, a reação foi tudo menos o que eu esperava. No dia em que precisei dele, ele não esteve à altura. Entretanto, surgiu alguém que tinha passado pelo mesmo e foi-se aproximando. Acabei por trair o meu namorado e acabei a relação por isso mesmo. Terminei-a depois de trair. Era incomportável carregar o peso. Olhando para trás, acho que traí porque estava frágil, porque era imatura e porque, no meio da loucura em que a minha vida estava, tive o azar de apanhar um gajo oportunista que se aproximou de mim usando o pior da minha vida na altura. Mas em última instância, a culpa foi e será sempre minha, não da pessoas com quem traí. Arrependo-me muito de o ter feito. A relação teria terminado de qualquer forma, mas era de evitar o sofrimento todo que foi causado.” (Sexo feminino, 26 anos)

A verdadeira culpa, assegura Perel, leva ao arrependimento, sendo que um pedido de desculpas sentido "assinala o cuidado e o empenho dedicados à relação, a partilha do fardo da dor e a restauração do equilíbrio do poder". Sobre isso, Filipa Jardim da Silva diz que é mais produtivo tentar aprender com o que está a acontecer.

Pode acontecer também que a pessoa com quem se está numa relação extraconjugal corresponda à vida que queremos ter, que nos serve naquele momento, e a pessoa com quem estamos na relação represente um projeto de vida que herdámos, que nos foi transmitido, uma dualidade capaz de gerar grandes conflitos internos. É por isso que Filipa Jardim da Silva reitera: “Não podemos generalizar”. De referir ainda que há infidelidades que podem ajudar a preservar um casamento.”A procura do eu inexplorado é um poderoso tema da narrativa do adultério. (…) E depois, há aqueles cujas fantasias os levam de volta às oportunidades perdidas ou falhadas e à pessoa que poderiam ter sido”, define Esther Perel

Tendo em conta a pessoa que trai, a transição da vergonha para a culpa é encarada como fundamental. Enquanto a vergonha é um “estado de egocentrismo”, a culpa resulta “de uma resposta empática e relacional, inspirada pelo sofrimento que causamos ao outro”. A verdadeira culpa, assegura Perel, leva ao arrependimento, sendo que um pedido de desculpas sentido “assinala o cuidado e o empenho dedicados à relação, a partilha do fardo da dor e a restauração do equilíbrio do poder”. Sobre isso, Filipa Jardim da Silva diz que é mais produtivo tentar aprender com o que está a acontecer. “A culpa em si não transforma. A responsabilização, sim, é importante.”

“Conhecemo-nos no Tinder e começámos a sair. Conheci alguns amigos dele. Nunca suspeitei de nada. Isto durou uns quatro ou cinco meses. Estávamos juntos, era uma relação aberta, mas nem eu nem ele tínhamos outra pessoa, supostamente. No Alive ele passou por mim com o braço por cima de uma gaja. Disse-me que era uma ex-namorada, na altura passei-me. Achei que devia tirar a história a limpo e mandei uma mensagem à miúda no Facebook. Ela contou-me que era namorada dele há três ou quatro anos. Fez questão de vir cá a casa, ler as mensagens que eu e ele trocámos. Ela estava cá em casa quando pediu-me para mandar uma mensagem ao namorado a pedir para ele vir jantar comigo. O gajo respondeu-me “A tua sorte é que gosto muito de ti, vou despachar-me”. Entretanto, ele liga-lhe a dizer que vai jantar com uns clientes. Ela esconde-se no quarto. Abro a porta quando ele chega, confronto-o logo, ele continua a dizer que ela era uma ex-namorada. Desta vez é ela que se passa, sai do quarto furiosa e confronta-o. Meti-os aos dois fora da minha casa. Passados uns dias ela ainda mandou umas mensagens a pedir mais detalhes, mas eu cortei com aquilo. Isto foi em 2015 e ele já me tentou adicionar umas três ou quatro vezes. Eu acho que eles ainda estão juntos.” (Sexo feminino, 31 anos)

“Quando decompomos a traição deixamos de olhar para a traição como algo terrível e deixamos de fazer a associação ‘Eu sou aquilo que faço’. Isso dá-nos mais capacidade para sermos honestos connosco próprios. Devemos reservar tempo para pensar e garantir que estamos mesmo onde queremos estar. Daí que a flexibilização das crenças e de conceitos seja fundamental. Se acreditarmos que a traição é uma coisa terrível estamos a exercer uma auto-observação com lentes limitadas por medo de sermos uma daquelas pessoas que trai”, conclui a psicóloga clínica.

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