Portugal tirou partido da “conjugação mais sortuda de fatores” para a economia crescer o que cresceu. Ainda assim, cresceu-se pouco e fez-se pouco para reduzir as vulnerabilidades, diz Steen Jakobsen, economista-chefe e chief investment officer do banco dinamarquês Saxo Bank. Dois anos e meio depois de outra entrevista, também ao Observador e também em Lisboa, na qual o economista considerou que Portugal tinha acabado de ter “a pior troca de governo de sempre”, Jakobsen avisa que o contexto externo não vai estar tão famoso no próximo ano.

Diz ser um “enorme fã” de Portugal e é visto por muitos como um libertário (e, por outros, como um pessimista — algo que refuta por completo). Apesar de ser um defensor dos mercados livres, acha boa ideia haver controlo no mercado imobiliário para evitar que Lisboa seja tomada por investidores estrangeiros que não põem cá os pés (e, muitas vezes, têm segundas intenções para comprar casas na capital portuguesa). Mais importante do que tudo o supracitado, porém, Jakobsen avisa que se os países europeus não se unirem, a civilização europeia está em risco.

Na nossa última entrevista, em abril de 2016, adivinhou que Donald Trump iria ganhar as eleições norte-americanas, porque era “impossível eleger” Hillary Clinton. Foi, portanto, um dos que não ficaram surpreendidos com a vitória de Trump.
É verdade, mas o que é curioso é que essa tendência mantém-se, por todo o mundo. Houve eleições na Irlanda e foi derrubado o governo num país onde havia uma taxa de crescimento de 8%. Houve o referendo do Brexit, que também já foi depois de falarmos e que, igualmente, previmos corretamente (no Saxo). Na Suécia acaba de ser substituído o governo num país que tem uma das economias mais robustas da Europa. Ou seja, estamos numa fase do pêndulo político e socioeconómico em que toda a gente quer protestar, mesmo que não saibam muito bem contra o quê.

Falando sobre Portugal, o Steen considerava que tinha havido a “pior troca de governo de sempre” mas que, na realidade, não importaria quem estava no governo porque a sorte do país seria, na verdade, determinada por fatores que não estão nas mãos de qualquer executivo. Além disso, dizia que dificilmente a economia cresceria mais do que 1%, mas acabou por crescer mais de 2%. Foi demasiado pessimista?
Em Portugal, vocês tiveram a conjugação de fatores mais sortuda que podiam ter tido. E, visto de fora, é curioso ver o governo a reclamar os louros de algo a que foram e são totalmente alheios. Como disse na outra entrevista, importa muito pouco aquilo que os políticos fazem — pelo contrário, na maioria das vezes a influência que os políticos podem ter é uma prejudicial. No melhor dos casos, não acrescentam nem tiram nada ao resto da sociedade.

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