Maria do Carmo Neves, cofundadora e presidente do Conselho de Administração do Grupo Tecnimede, fala sobre o Prémio Jorge Ruas. Um galardão de 100 mil euros que, pelo segundo ano consecutivo, une Academia e Indústria em torno de um objetivo comum: transformar ciência em soluções de saúde. Entre a homenagem a um fundador visionário, Jorge Ruas, e o debate sobre o papel da inteligência artificial no desenvolvimento de medicamentos, este prémio é, nas palavras de Maria do Carmo Neves, muito mais do que um reconhecimento; é a construção de pontes.
Jorge Ruas era um inovador na área da saúde. De que forma é que este prémio presta homenagem ao seu legado?
O Prémio Jorge Ruas é, antes de mais, uma homenagem a uma visão. Jorge Ruas acreditava que a indústria farmacêutica portuguesa podia ser competitiva, científica, internacional e profundamente comprometida com a saúde das pessoas.
Este prémio presta homenagem a esse legado porque transforma a sua visão em ação concreta: apoia projetos científicos com potencial real de chegar à industria, ao mercado e, acima de tudo, aos doentes. Para o Grupo Tecnimede, este prémio tem um significado muito especial. Não é apenas uma iniciativa de responsabilidade corporativa ou de mecenato científico. É uma forma de manter vivo o espírito fundador do Grupo: apostar na ciência, na inovação, na coragem empresarial e na capacidade de criar valor em Portugal a partir do conhecimento.
Jorge Ruas foi um homem de ciência, mas também um empreendedor. Este prémio junta precisamente essas duas dimensões: a qualidade científica e a ambição de transformar investigação em soluções concretas para a saúde.
Qual o significado deste prémio para a Tecnimede?
Para a Tecnimede — e para mim, em especial —, é homenagear o Jorge Ruas, pela visão e pelo legado que nos deixou.
O Prémio Jorge Ruas nasce do compromisso da Tecnimede em apoiar a próxima geração de inovação farmacêutica. Como e porque é que esta “preocupação” começou?
Quais os principais objetivos do Prémio Jorge Ruas, e de que forma contribui para o avanço da investigação científica em Portugal?
O principal objetivo é reconhecer e apoiar projetos inovadores na área da tecnologia farmacêutica, com potencial para gerar impacto real na indústria e na saúde.
Este impacto pode surgir de várias formas: através de novas plataformas tecnológicas, novas formulações, novas formas de administração de medicamentos, soluções digitais, aplicadas ao desenvolvimento farmacêutico, tecnologias de produção, terapias inovadoras ou abordagens que melhorem a eficácia, segurança, qualidade ou acessibilidade dos medicamentos.
O prémio contribui para a investigação científica em Portugal porque dá visibilidade, financiamento e ligação à indústria a projetos que, de outra forma, poderiam ter mais dificuldade em avançar para uma fase seguinte.
A ciência precisa de financiamento, mas também precisa de validação, contactos, mentoria, visão regulatória e conhecimento industrial. O Prémio Jorge Ruas procura reunir estes elementos e ajudar projetos promissores a sair do laboratório e aproximar-se da aplicação concreta.
Quem é que se pode candidatar a este prémio?
O prémio dirige-se a investigadores, equipas científicas, startups e empresas com projetos inovadores na área da tecnologia farmacêutica.
O que procuramos são projetos com qualidade científica, ambição, potencial de desenvolvimento e relevância para a indústria farmacêutica. Não basta uma boa ideia; é importante que exista uma base científica sólida e uma perspetiva clara de evolução.
Qual o impacto que iniciativas como esta podem ter no percurso de jovens investigadores e na valorização da carreira científica no nosso país?
O impacto pode ser muito significativo. Para um jovem investigador, receber um prémio desta natureza não representa apenas apoio financeiro. Representa reconhecimento, credibilidade e acesso a uma rede de conhecimento e experiência industrial.
Também ajudam a aproximar dois mundos que devem trabalhar cada vez mais em conjunto: a academia e a indústria. Quando um jovem investigador percebe que a sua investigação pode interessar a uma empresa farmacêutica, ganhar escala e contribuir para melhorar a vida dos doentes, isso é extremamente motivador.
De todos os projetos, não só do vencedor?
A Tecnimede não tem qualquer influência na eleição do projeto vencedor, mas tem a possibilidade de acompanhar e avaliar os restantes projetos finalistas que, apesar de não serem o eleito, revelem elevado mérito científico e forte potencial de desenvolvimento.
De que forma a Tecnimede se posiciona como impulsionadora da ciência e da inovação através do Prémio Jorge Ruas e de outras iniciativas semelhantes?
O Grupo Tecnimede posiciona-se como um parceiro ativo da ciência e da inovação.
Somos uma empresa portuguesa, com uma forte base industrial, atividade internacional e experiência em desenvolvimento farmacêutico, produção, regulação e comercialização.
Temos uma ligação muito prática à inovação. Desenvolvemos produtos, trabalhamos com autorizações de introdução no mercado em vários países, temos centros industriais e uma presença internacional significativa. Essa experiência permite-nos olhar para a ciência não apenas do ponto de vista académico, mas também do ponto de vista da sua aplicação real.
O Prémio Jorge Ruas é uma das formas mais visíveis desse compromisso. Mas ele enquadra-se numa visão mais ampla: colaborar com universidades, centros de investigação, startups, parceiros tecnológicos e entidades internacionais para transformar conhecimento em valor.
A inovação farmacêutica exige ecossistemas. Nenhuma empresa, universidade ou centro de investigação consegue fazer tudo sozinho.
Os jurados do Prémio
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Apesar de ser promovido pela Tecnimede, o Prémio Jorge Ruas pauta-se por um princípio de total independência e isenção relativamente a quaisquer interesses do Grupo. Nesse sentido, o júri responsável pela avaliação das candidaturas é integralmente composto por personalidades externas à Tecnimede, garantindo um processo rigoroso, imparcial e assente exclusivamente no mérito científico dos projetos.
“São convidados especialistas que já deram provas na academia e em instituições de investigação nacionais e internacionais ligadas à ciência. São pessoas com percurso reconhecido, em Portugal e no estrangeiro, e com experiência consolidada na avaliação de projetos de elevada exigência científica”, explica Maria do Carmo Neves, Presidente do Conselho de Administração do Grupo Tecnimede.
Na entrega do Prémio Jorge Ruas deste ano, haverá um keynote speaker dedicado a um tema muito quente da atualidade: a inteligência artificial (IA) — “AI in drug discovery”. Na perspectiva da Tecnimede, de que forma a IA está a transformar a investigação e o desenvolvimento de medicamentos?
A inteligência artificial está a transformar o I&D farmacêutico porque permite analisar uma quantidade de dados que seria impossível tratar apenas por métodos tradicionais.
Na descoberta de medicamentos, a IA pode ajudar a identificar novos alvos terapêuticos, prever a interação entre moléculas e proteínas, selecionar candidatos com maior probabilidade de sucesso e antecipar riscos de toxicidade ou problemas de desenvolvimento.
Isto significa que a lA pode ajudar a tomar melhores decisões mais cedo. E isso é crítico na indústria farmacêutica, porque muitos projetos falham tarde, depois de anos de investimento. Se conseguirmos identificar mais cedo os candidatos com maior probabilidade de sucesso — ou excluir os menos promissores — estamos a ganhar tempo, recursos e foco.
Mas a lA não se limita à descoberta de novas moléculas. Também pode beneficiar o desenvolvimento galénico, o desenho de formulações, a previsão de estabilidade, o scale-up industrial, a análise de dados clínicos e a farmacovigilância.
Na perspetiva da Tecnimede, a IA deve ser vista como uma ferramenta de aceleração científica. Não substitui o conhecimento humano, nem o rigor experimental, nem a validação regulatória. Mas aumenta a capacidade dos investigadores e das empresas para trabalharem melhor, mais depressa e com maior precisão.
Qual a importância de reunir, num mesmo evento, o reconhecimento científico e a discussão de temas de vanguarda, como a inteligência artificial aplicada à farmacologia?
É muito importante porque mostra que a inovação não é apenas uma palavra; é uma prática que exige reconhecimento, debate e visão de futuro.
Ao reunir o Prémio Jorge Ruas com uma discussão sobre inteligência artificial aplicada à descoberta de medicamentos, estamos a ligar duas dimensões essenciais: por um lado, o reconhecimento do talento científico; por outro, a reflexão sobre as ferramentas que vão moldar o futuro da indústria farmacêutica.
A ciência evolui quando há diálogo entre investigadores, empresas, reguladores, profissionais de saúde e decisores. Um evento como este permite criar esse espaço de encontro.
O que torna o Prémio Jorge Ruas uma ocasião que não deve ser perdida por quem trabalha ou tem interesse na área da investigação científica?
Podemos esperar um momento de celebração da ciência, da inovação e do talento. Mas também um momento de reflexão sobre o futuro da indústria farmacêutica.O anúncio do vencedor será naturalmente o ponto alto, porque dará visibilidade a um projeto com elevado potencial. Mas o evento é mais do que uma cerimónia de entrega de prémio. É uma oportunidade para conhecer tendências, ouvir especialistas, aproximar investigadores da indústria e discutir temas que vão marcar os próximos anos, como a inteligência artificial aplicada à descoberta e ao desenvolvimento de medicamentos.
Para quem trabalha em investigação científica, tecnologia farmacêutica, desenvolvimento de medicamentos, inovação ou empreendedorismo em saúde, é uma ocasião relevante porque reúne ciência, indústria e visão estratégica.
Com o Prémio Jorge Ruas, o Grupo Tecnimede não está apenas a recordar o seu fundador; está a projetar para o futuro aquilo que sempre esteve na origem do grupo: acreditar na ciência, investir em inovação e transformar o conhecimento em melhores soluções de saúde. O Jorge sempre foi futuro.