Poucos dias separam um sinal de abertura da IL registado por Moedas e um travão dos liberais à boleia da operação Tutti-Frutti. A conclusão do processo por parte do Ministério Público colocou os holofotes em protagonistas do PSD/Lisboa e complicou a possibilidade de os liberais serem seduzidos para um acordo na maior autarquia do país.

A decisão não está totalmente fechada, mas PSD e IL ainda não se sentaram à mesa para negociar a entrada dos liberais na coligação de Carlos Moedas — que recusaram há quatro anos. O Observador sabe que operação Tutti-Frutti pode mesmo pôr em causa a presença da IL na coligação em Lisboa.

Aliás, ainda durante o debate quinzenal, Rui Rocha não poupou Luís Montenegro nem deixou passar o tema em branco, procurando saber junto do primeiro-ministro se o pacote anticorrupção apresentado pelo Governo “se aplica também às estruturas locais do PSD/Lisboa”. “É para aplicar a todos”, garantiu o chefe de Governo.

Questionado pelo Observador, Rodrigo Mello Gonçalves, coordenador do núcleo da IL em Lisboa, garantiu que “a Iniciativa Liberal está a trabalhar no seu projeto autárquico para a cidade de Lisboa” — uma ideia que já tinha deixado anteriormente —, mas rematando que “questões sobre o PSD devem ser dirigidas ao PSD, porque este é o momento do PSD arrumar a sua casa”.

Por outro lado, também a vice-presidente Mariana Leitão, disse em entrevista ao Now que está em causa “um facto grave” que “certamente será devidamente ponderado pelo núcleo de Lisboa” no momento de tomar a decisão. Já que, sublinhou, foram estabelecidos princípios basilares para avaliar em casos de coligações e um deles era a existência de uma “equipa idónea” — “A partir deste momento isto está em causa”, sugeriu.

“Arrumar a casa” passou, portanto, a ser a palavra de ordem e a recomendação dos liberais a Carlos Moedas, num momento em que perdeu o vereador Ângelo Pereira, que suspendeu o mandato, além de presidir à distrital do PSD de Lisboa. Também Luís Newton,o deputado e presidente da Junta de Freguesia da Estrela suspendeu o mandato na Assembleia da República.

Moedas registou abertura dos liberais, mas não está com pressa

Tudo se precipitou com a operação Tutti-Frutti — que veio reforçar as muitas dúvidas que os liberais tinham sobre dar a mão ao autarca. Ainda há dias Carlos Moedas tinha gostado de ver algumas das principais figuras da Iniciativa Liberal a defenderem uma eventual coligação com o autarca em Lisboa e o partido a chumbar em peso uma moção que rejeitava expressamente qualquer tipo de aliança pré-eleitoral em Lisboa. Perante o cenário, o social-democrata acreditava que o mais difícil já tinha sido ultrapassado e esperava apenas que os liberais dissessem exatamente o que pretendiam para entrar no barco. Mas nunca houve — nem há — almoços grátis. Com ou sem Tutti-Frutti, se quiser fazer parte da solução, a IL terá de se sujeitar às regras de Moedas; não o contrário.

De resto, a primeira sondagem que pôs frente a frente o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e a adversária socialista, Alexandra Leitão, e que foi feita antes de terem sido conhecidas as acusações no Tutti-Frutti, veio reforçar a confiança da equipa do autarca: no estudo de opinião da Intercampus para o Correio da Manhã, 46,2% dos inquiridos disseram considerar Moedas mais competente para continuar a liderar a autarquia e apenas 27% disseram preferir a candidata socialista. Mesmo descontando as três fragilidades da sondagem — o universo de inquiridos é curto; a amostra é nacional e não apenas da cidade; Alexandra Leitão ainda não se apresentou formalmente —, não deixa de ser um sinal reconfortante para Moedas.

Ora, em teoria, isto retira alguma pressão ao autarca para fechar um acordo com os liberais e, ao mesmo tempo, aplacar os estados de alma do CDS, parceiro de coligação que continua a sobredimensionar a sua relevância eleitoral. A hipótese de que uma frente de esquerda (ainda para mais privada do PCP) venha a derrubar Carlos Moedas é, por esta altura, muito reduzida, o que dá maior latitude de movimentos ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa. “Haverá espaço para todos os que vierem por bem. E vir por bem significa saberem que o líder é Carlos Moedas”, diz-se a partir da Câmara Municipal de Lisboa.

Traduzindo: Moedas pode decidir com quem quer contar (e em que termos) com maior liberdade. Isto se a IL não lhe virar as costas por iniciativa própria — um cenário que, agora, no rescaldo do processo Tutti-Frutti, volta a ganhar força. Para já, a exclusão dos liberais não preocupa Moedas — até porque o PS também foi atingido por esta acusação.

O recado da equipa de Moedas é evidente e tem dois destinatários muito concretos: Rui Rocha e Nuno Melo. Moedas não tem gostado de ver a Iniciativa Liberal a fazer campanha aberta contra o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e esperava que, depois de uma Convenção em que várias figuras do partido — Cotrim Figueiredo, Mariana Leitão e Bernardo Blanco, por exemplo — pediram juízo aos liberais, existisse uma atitude renovada por parte da Iniciativa Liberal. Acima de tudo, que o partido escolhesse em definitivo um interlocutor que pudesse começar a negociar as bases de um entendimento com Moedas — coisa que tem faltado até aqui. Agora, isso só poderá acontecer caso a IL não decida que o Tutti-Frutti encerra definitivamente as hipóteses de haver acordo. Se for o caso, haverá tempo para reavaliar todas as opções.

Quanto a Nuno Melo, a equipa de Moedas espera que o líder do CDS resolva os problemas que tem dentro de casa e perceba, em definitivo, que o partido não está em condições políticas de fazer exigências de maior. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa quer contar com Filipe Anacoreta Correia, mesmo que na qualidade de independente, e pode reservar mais um lugar para os democratas-cristãos. Aceitar mais é, por esta altura, muito improvável.

Sem decisão fechada, há pedidos de contenção e avaliam-se riscos

Durante a Convenção da IL saltaram à vista duas visões sobre a possibilidade de o partido embarcar num voo autárquico ao lado de Carlos Moedas: houve altos dirigentes a pedir contenção e a convenção chumbou a moção de recomendava Rui Rocha a recusar coligações pré-eleitorais, designadamente em grandes municípios como Lisboa, Porto ou Braga. E ainda que as moções setoriais não passem de recomendações, esta foi mais uma maneira de o presidente liberal poder manter com convicção o que tem dito: a IL prefere ir a votos sozinha, mas há espaço para exceções. Em linguagem liberal, a leitura serviu para sublinhar que os núcleos têm autonomia e não vão ser empurrados para qualquer escolha.

As apostas dão para todos os gostos. Entre dirigentes, deputados e liberais do núcleo de Lisboa vão-se equilibrando as odds entre quem acredita que, no final das contas, haverá coligação e aqueles que estão mais certos de que a IL vai acabar por ter nome próprio no boletim de votos. Mas o partido esteve focado na Convenção e o núcleo de Lisboa ainda nem sequer tomou uma decisão sobre uma possível coligação com Carlos Moedas — muito menos deu o caso como encerrado.

Seja como for, a Convenção da IL permitiu medir o pulso a vários protagonistas liberais sobre este tema e foi deixada no ar uma ressalva importante: contra uma frente de esquerda, os liberais não devem deixar Moedas na mão. João Cotrim Figueiredo, em entrevista ao Observador, avisou que “as exceções” — leia-se não ir a votos com listas próprias — “partem dos núcleos locais” e “têm de ser muito bem justificadas”, contudo considerou que Lisboa parece uma “boa exceção“, tendo em conta que há o “risco que parece real, de haver uma grande coligação à esquerda”.

“Não gostaria de ver a IL ser responsável por uma maioria de esquerda que má memória nos deixou na última vez que lá estiveram”, reiterou. Mariana Leitão, líder parlamentar e vice-presidente da IL, aproximou-se da mesma visão. Apesar de admitir “alguma reserva” sobre a hipótese de os liberais se juntarem a Carlos Moedas, que acusou de não ter feito um “trabalho excecional”, deixou um guião claro: o partido deve juntar-se ao resto da direita se se concretizar a frente de esquerda que vários partidos defendem para a Câmara Municipal de Lisboa; caso contrário, não deve juntar-se a uma frente eleitoral. “Seria o mais sensato a fazer”, reconheceu.

Também Bernardo Blanco, semanas antes, entrevistado no Observador, tinha dito exatamente o mesmo: “Temos a noção política de que não queremos entregar a Câmara de Lisboa, que é talvez a mais importante do país, a uma frente de esquerda, e isso tem impacto na decisão, pelo menos na minha opinião pessoal.” Já Rodrigo Saraiva explicou que faz parte do crescimento do partido deixar de ter necessidade de concorrer sempre sozinho, mas avisou que, no caso de Carlos Moedas, falar de ideias e não de lugares seria um “ótimo” ponto de partida.

O vice-presidente da Assembleia da República entende que para a IL seria fundamental reformar o sistema de higiene urbana em Lisboa ou pôr a derrama na taxa mínima, o que o leva a defender que, nesses temas, “há caminho para andar”. Porém, não sem antes deixar outro aviso: “É o presidente [da câmara] que tem de perceber isso e falar com a IL. Se for para manter o que tem feito não vejo que possa haver entendimento.”

Posto tudo isto, à medida que as movimentações aceleram vão sendo acrescentadas camadas a uma negociação que, mesmo sem Tutti-Frutti, já iria ser presumivelmente exigente: se a tal frente de esquerda (coxa sem o PCP) for considerada incapaz de derrotar Moedas, os liberais podem bem ser os primeiros a recuar, o que os possibilitaria de irem sozinhos a votos sem o peso de serem responsabilizados por uma derrota; mas também podem ensaiar um cenário em que conquistam um lugar certinho na maior autarquia do país — que vale o que vale num partido que tem como chavão o facto de as ideias virem antes dos cargos.

Agora, a operação Tutti-Frutti tornou-se uma pedra no sapato que pode bem contribuir para um afastamento de Moedas, sem necessidade de se fazer grandes contas à vida e cientes de que um processo desta dimensão que afeta o coração do PSD/Lisboa é uma justificação mais do que suficiente para abandonar o barco — melhor, para nem sequer embarcar.

Atento a divisões na IL, CDS negoceia sozinho

Entretanto, o CDS assiste aos avanços e recuos com apreensão. Não é para menos: entre as previsões — que entre democratas-cristãos são uma tese comum — de que Anacoreta Correia vai acabar por candidatar-se como independente, ficando menos um lugar livre no esqueleto da coligação de Moedas, e a possibilidade de os liberais se juntarem ao mix, o caminho começa a estreitar-se. E o CDS impacienta-se por começar as negociações — que quer concretizar só com PSD e ignorando o mais possível a existência da IL.

Nesta fase, o CDS quer evitar pronunciar-se sobre a hipótese de os liberais entrarem nas contas, aconselhando-se dentro do partido que se adote um “posicionamento muito conservador” sobre o assunto: “Primeiro negociamos os nossos temas, para nós não há IL. O nosso peso não depende da IL“, dispara um responsável democrata-cristão, tentando separar as negociações. Até porque o CDS sabe que, mesmo referindo sempre que não tem qualquer problema de princípio com uma coligação com os liberais, sairá prejudicado de uma negociação com tantas partes. “O CDS tem intenção de manter todas as coligações particularmente as ganhadoras e que são poder. Sobre intenções ou não de terceiros que não conhecemos, nada a dizer”, atira uma fonte da direção democrata-cristã.

Sem contactos formais com o PSD — só conversas informais — e acreditando que quanto mais o processo se atrasar menos capacidade de influência poderá assegurar, o CDS vai avisando: o processo tem “obrigatoriamente” de acelerar, sendo desejável que haja novidades concretas no fim de fevereiro ou início de março. E continua a acreditar que a IL é um protoparceiro que não ajuda à agilidade do processo, por considerar o partido muito errático e dividido quanto ao assunto.

Logo no encerramento da convenção da IL, os enviados do CDS fizeram questão de deixar um recado claro: “É bom dizer que pela IL a Aliança Democrática não estava na maior câmara do país”, atirou o democrata-cristão Tiago Durval Ferreira, lembrando que o acordo entre CDS e PSD “funcionou” — depois de ter ouvido os liberais sugerirem, durante a convenção, que a AD só venceu as eleições há quatro anos porque contou com votos de eleitores da IL.

Nos corredores do partido, a acrimónia é ainda mais evidente: “Os termos da coligação são importantes para nós, não vale tudo. A IL está constantemente numa oposição não construtiva e não parece que exista margem ou cabimento para integrarem este modelo de gestão, com que não concordam”, atira uma fonte do CDS com conhecimento do processo, que também admite que quanto mais o tempo passa mais “exigente” se torna a negociação futura. Assim sendo, a negociação terá de ser feita de forma mais apressada que o CDS desejaria. E, se tudo correr de acordo com o plano A de Moedas, também com menos conforto e espaço do que o CDS desejaria. Ou não, se a IL decidir correr em pista própria.

Lutas por lugares, irritações e desconfianças mútuas podem fazer ruir grande aliança de Moedas