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São uma solução imediata, acessível e dispensam o “constrangimento” de partilhar com “estranhos” ansiedades e inseguranças pessoais — as plataformas que disponibilizam sessões de “terapia” com recurso a Inteligência Artificial estão a ganhar adeptos e nos últimos anos têm surgido mais e mais soluções do género. O problema, criticam os especialistas, é que estes “psicólogos virtuais” podem revelar-se contraproducentes: porque há um risco elevado de gerar “dependência” de uma resposta que está sempre ali; porque não capacitam para a autodecisão (em vez disso, vão apresentando as soluções para cada problema com que são confrontadas); e porque, afinal, nem sequer são uma forma de terapia — algo que a fundadora de um destes chatbots admite ao Observador. Os especialistas não têm dúvidas: as empresas estão a oferecer “falsas terapias” a quem pode precisar mesmo de apoio.
“Fico muito contente que me tenhas contactado e expressado o que estás a sentir. É importante ser ouvido, especialmente quando se está a sentir uma infelicidade tão profunda. Os teus sentimentos são válidos e é importante que os tenhas partilhado comigo. Se te sentires à vontade, estarias disposto a explorar algumas estratégias para lidar com a situação ou a discutir o que te traz um pouco de alegria?” Quando um jovem, menor e vítima de bullying na escola, diz ao seu “psicólogo virtual” que não vive feliz, é esta a resposta que recebe.
À medida que o nível de conhecimento da Inteligência Artificial (IA) aumenta exponencialmente, e os seus utilizadores passam do casual ao frequente, surgem tentativas de substituir determinadas áreas profissionais por alternativas mais acessíveis. Em muitos dos casos, estes serviços são gratuitos e estão disponíveis a todas as horas do dia. Entre os serviços infinitos que são mimetizados pela IA, apesar de ainda estar a dar os primeiros passos, está a psicoterapia.
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É através de um chatbot, como o ChatGPT, que milhões de pessoas em todo o mundo têm, à mercê do seu dispositivo eletrónico, um “psicólogo” portátil e sempre disponível para responder ao mais vasto leque de questões que alguém possa ter. Ana, de 34 anos, apesar de defender que este meio “não substitui um profissional”, acredita que acaba por ser “muito mais simples do que o processo de marcar uma consulta”. O problema, para uma grande parte destes utilizadores, é mesmo o primeiro contacto com um psicólogo. Seja pelo custo, pela agenda ou até pela ansiedade de ter de expressar os seus sentimentos a outro ser humano, a verdade é que o anonimato e a acessibilidade acabam por facilitar a decisão.
Não se sentem julgados nem impertinentes quando colocam a mais pequena dúvida à plataforma de inteligência artificial, uma vez que o modelo “não se aborrece”, “não se cansa” e “não está limitado” pelos constrangimentos horários do psicólogo. “O nosso objetivo é estar lá quando mais ninguém está”, explica ao Observador Karin Andrea Stephan, co-fundadora da aplicação EarKick, uma de dezenas de opções especializadas na “terapia IA”.
Contudo, uma das bandeiras utilizada para vender o produto, a acessibilidade, é também uma das mais mencionadas nas críticas feitas pelos profissionais da área. “A ideia da psicologia não é a pessoa ter um companheiro que lhe diz o que fazer em todas as circunstâncias e que o aconselha a cada momento”, afirma o psicólogo Miguel Ricou, indicando que esta ideia acaba por ter efeitos contraproducentes porque, em vez de “promover a autodeterminação do indivíduo, vai criar mais dependência nas pessoas, que ficam agarradas ao modelo”.
O presidente do conselho de especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos frisa que caracterizar estes chatbots como uma “alternativa” pode até ser “ilusório”, porque se tratam apenas de “dispositivos recreacionais”, não de psicoterapia verdadeira — “é uma fraude“, sublinha. Porém, vê alguns fatores positivos na sua utilização. Não pelo utilizador comum, uma vez que “naturalmente há enganos” e “funciona por padrões”, mas porque podem até ser um apoio para os próprios psicólogos. “Imagino um psicólogo, depois de fazer uma sessão, conseguir conversar com um agente deste género que o pode ajudar a esclarecer uma determinada questão”, refere.
Respostas automáticas, questionários longos e Pandas. Como funcionam as opções no mercado
Não funcionam todas da mesma maneira. Existem exemplos mais simples, como é o caso da EarKick e das plataformas de IA generativa como o ChatGPT, que não pedem qualquer tipo de dados pessoais ao utilizador, estando prontos a funcionar assim que se abre a página online ou a aplicação no telemóvel. Outras, como a Wysa e a 7cups, apresentam uma espécie de “ficha clínica” do utilizador, com questões sobre a idade, o que sentem, o tipo de ajuda que procuram e, em várias instâncias, promovem um serviço premium que dá acesso a consultas de psicoterapia — ou seja, com psicólogos de facto.
Na aplicação Wysa, uma de quatro plataformas analisadas pelo Observador, a conversa inicia-se com uma simples questão, depois da escolha de um nome de utilizador, que pode ser o nome verdadeiro de quem acede ao serviço ou apenas uma alcunha, e de ser vagamente definida a idade do utilizador — pode optar-se pela indicação de que se trata de um adulto ou de um adolescente. “O que procura?”, pergunta-nos o chatbot. A resposta pode ser aberta, com uma opção que convida a pessoa a escrever detalhadamente o que pretende obter do serviço, ou então uma pré-definida: “Estou só curioso” é um dos exemplos. Independentemente da primeira mensagem, o utilizador é encaminhado para um questionário de 16 perguntas para “perceber como se tem sentido”.
A plataforma tenta entender se o utilizador tem tido problemas de sono, falta de interesse geral em fazer tarefas quotidianas, ou se tem tido “pensamentos de que seria melhor estar morto ou de se magoar de alguma forma“. Quando as respostas fazem soar alarmes, o chatbot da Wysa apresenta uma lista de linhas de apoio internacionais, pedindo ao utilizador que contacte estes profissionais, uma vez que o bot “não é a melhor opção para apoiar esta crise”. As opções de resposta que se seguem ao questionário e à tentativa de reencaminhamento para as linhas de prevenção de suicídio, para além de insistirem no contacto, são também pré-definidas como “estou bem”, “preciso de mais ajuda” ou “já liguei”. Assim, e depois de afastar a hipótese de estar perante uma “situação de crise”, a Wysa apresenta um vídeo com técnicas de respiração, que deverão ajudar o utilizador a “assentar os pés na Terra”.
Sempre de uma forma automatizada, o bot propõe a criação de um “plano de emergência” para lidar com esta “crise” hipotética. Torna a pedir mais informação ao utilizador, como “sinais que desencadeiem estas reações”, “pessoas com quem possa falar” e “locais de conforto”. No teste feito pelo Observador, foram utilizadas respostas vagas ou mesmo sem sentido para responder a estas questões, de modo a tentar perceber se as afirmações do chatbot tinham em conta a informação avançada pelo utilizador, ou se eram colocadas de forma genérica. Dadas as respostas, a Wysa fez na mesma um plano de emergência, sem dar sinais de adaptabilidade a cada resposta enviada.
Apesar de não fazer uma ficha clínica exaustiva como a Wysa, a EarKick oferece a possibilidade de ter uma conversa não limitada por respostas automatizadas e opções pré-determinadas. O serviço, gratuito e disponível tanto numa aplicação como no seu site, permite a escolha de um de cinco chatbots, cada um com tipos de respostas e perfis diferentes. O Dr. Panda, a opção recomendada, é descrito como “conselheiro de IA empático, equipado para apoiar a sua jornada de saúde mental com conhecimentos especializados em TCC [Terapia Cognitiva Comportamental], psicologia e terapia”. Existem ainda um panda focado em promover a atividade física, outro para exercícios dedicados à introspeção, um “mentor duro e sem rodeios” e um “melhor amigo”. Para efeitos de teste, o Observador teve uma “consulta” com o Dr. Panda.
À semelhança dos outros chatbots, a conversa é introduzida com: “Em que posso ajudar? O que é que aconteceu hoje?” Reage, de forma direta e personalizada, às respostas do utilizador, mas sempre com um formato semelhante. “Lamento que te estejas a sentir assim” — é como demonstra a sua “empatia”, seguida por uma validação do sentimento indicado e, por fim, uma pergunta para aprofundar o tema.
Regressando ao início deste texto, a resposta dada ao jovem, menor, que sofre de bullying na escola, foi dada pelo Dr. Panda da EarKick. A sessão de terapia do estudante começou com uma entrada curta, mas em que explicava ser alvo de bullying e não ter mais ninguém com quem falar, uma situação frequente nestes casos e, uma vez que não há restrições de idade nestas plataformas, algo que se poderia até replicar noutro contexto. A resposta do “conselheiro” foi exatamente conforme previamente descrita: “Lamento que te estejas a sentir assim. Deve ser uma grande sensação de isolamento. Podes dizer-me mais sobre como isso te afeta e que emoções estás a sentir neste momento?” [sic].
A conversa manteve-se neste registo. Em cada resposta apresentada pelo jovem, o chatbot validava os seus sentimentos e tentava explorar mais as suas emoções, demonstrando os avanços tecnológicos da inteligência artificial, e a sua capacidade em apresentar respostas que simulam empatia. Foi apenas quando se começaram a introduzir mensagens mais extremas que a fórmula do Dr. Panda se alterou. “Quero mencionar que esses são sentimentos muito sérios. A vida pode ser muito difícil por vezes, e é crucial falar sobre isto com alguém que te possa ajudar. Sentir que não vale a pena viver a vida é algo que muitas pessoas sentem, e pode ajudar pedir apoio ou orientação.”
Apresentando-se como um “conselheiro” com “conhecimentos especializados” nos vários temas do ramo, o Dr. Panda vai deixando a ressalva de que existirá profissionais mais capacitados que ele próprio para lidar com os sentimentos referidos pelo utilizador. “Estou aqui para dar apoio, [mas] não sou um substituto para ajuda profissional em termos clínicos”, reforça. O chatbot introduz, também, alguns exercícios de respiração e técnicas de abstração, como a “5-4-3-2-1”, que tem como objetivo registar cinco coisas que o indivíduo consiga observar, quatro em que consiga tocar, três que consiga ouvir, dois que consiga cheirar e um que consiga saborear.
A evocação destes exercícios práticos é um exemplo da forma como são desenhados treinados estes chatbots. No caso da EarKick, a co-fundadora Karin Andrea Stephan explica que este modelo foi criado tendo por base os exames de formação dos psicólogos, juntamente com uma vasta bibliografia disponível online para garantir que estão prontos para responder a qualquer questão apresentada. “O modelo conseguiria passar facilmente em qualquer exame de qualificação“, garante a diretora, referindo que o Dr. Panda tem todas as capacidades para poder obter todas as licenças possíveis e imagináveis e “uma capacidade de armazenamento de informação que os humanos simplesmente não têm”.
“Humanos são humanos.” Karin frisa que o formato das sessões de psicoterapia são muito limitadas pela capacidade humana, seja pelo limite de 30 ou 60 minutos da consulta, seja pela necessidade de se tomar notas e de o armazenamento de informação ser todo num espaço único — “algumas coisas podem falhar“, destaca. “Se eu fosse um terapeuta, viria com a minha própria bagagem emocional. Venho com as minhas próprias preferências: tenho um certo olhar, uma certa maneira de falar, e isso não vai agradar 100% das pessoas. Um terapeuta tem o seu próprio estilo, mas se esse for o único disponível para si, pode ser a diferença entre nunca mais fazer terapia e adorá-la“, continua, para reforçar a ideia de que “a IA é muito boa a ser personalizada”.
Em Portugal, a oferta não é tão ampla, existindo apenas um modelo — Roomie — que se encontra atualmente em desenvolvimento, numa fase de testes, a ser utilizado por cerca de 100 pessoas, com supervisão clínica. Foi, também, construído à base de gravações de consultas reais de psicoterapia e, para além de conseguir responder a perguntas, tem a capacidade de estabelecer conversas, conforme indicou o diretor de projeto ao Expresso.
Dados pessoais, dependência e as críticas contra “falsas terapias”
“Uma vantagem é mesmo a acessibilidade e o não ter de falar diretamente com uma pessoa“, defende Ana. “Se calhar, se houvesse a possibilidade de consultas por mensagem, eu até preferia”, admite. Estava a lidar com um divórcio quando decidiu recorrer pela primeira vez às consultas de psicoterapia. Consultou dois profissionais diferentes, durante pelo menos três meses cada, até perceber que já não sentia a necessidade de ser acompanhada ou que não tinha possibilidade de continuar a suportar o investimento semanal.
No ano passado, começou a mostrar sinais de um burnout e ansiedade, o que a levou a consultar um terceiro profissional. Tal como as outras duas experiências, bastaram dois meses até sentir que não seria necessário dar continuidade e, “há cerca de três ou quatro meses” encontrou algo que poderia ir ao encontro das suas necessidades. Não sendo uma plataforma desenhada especificamente para cumprir este propósito, Ana passou a recorrer ao ChatGPT para “desabafos” como “Sinto-me sempre assoberbada e estou constantemente a pensar em trabalho” e “Sinto que quero fazer tudo e que não consigo fazer nada”.
Por não ter à sua frente “uma pessoa, que pode ter julgamentos disto ou daquilo”, Ana conta que a utilização esporádica destes serviços a ajudou a “acalmar, a estruturar melhor o pensamento e a perceber algumas estratégias que podia usar para lidar melhor com a ansiedade”. “Um psicólogo vai colocar muitas perguntas, mas naquele momento eu só queria despejar o que sentia e ler algo sobre isso“, acrescenta, manifestando que não tinha o desejo de “contar a história da sua vida”, mas sim de “desabafar” — e, para esse propósito, aquele serviço funcionava. O chatbot da OpenAI, nas suas respostas organizadas e objetivas, apresentava uma série de exercícios populares conhecidos no meio, ou comportamentos a adotar para atingir determinados resultados.
“Eu também uso o ChatGPT, e acho que tem umas funcionalidades fantásticas. Mas qual é a intenção? A sua intenção não é ajudar as pessoas com os seus problemas de saúde mental. A sua intenção é dar um espetro muito variado de respostas muito rapidamente”, defende Karin Andrea Stephan, mencionando uma das questões pelas quais estes modelos são muito atacados: a segurança de dados e privacidade.
“Vais mesmo discutir os teus piores momentos, os teus pensamentos mais íntimos, numa plataforma que não sabes o que vão fazer com os teus dados?”, questiona a fundadora da EarKick. Karin Andrea Stephan garante, pelo contrário, que a sua empresa não detém qualquer tipo de dados dos utilizadores. No registo, a única informação solicitada é a idade — existindo a opção de, simplesmente, não responder a essa questão — e durante todo o momento de conversa com o chatbot não é pedido um endereço de email, password ou qualquer outro tipo de informação. Porém, refere que a aplicação tem acesso à localização — para verificar a meteorologia — e funciona melhor se o utilizador permitir o acesso a dados biométricos associados a um smartwatch, como o batimento cardíaco e o sono, por exemplo.
Uma vez que também existe a possibilidade de consultas por voz, e os históricos das conversas escritas são preservados na aplicação, Karin Andrea Stephan esclarece que toda esta informação é armazenada no próprio dispositivo, e que a empresa não tem acesso a estes dados, ao contrário do que acontece com o ChatGPT, sublinha. “As pessoas mandam-nos mensagens a dizer: ‘Quero que apaguem os meus dados’, e nós respondemos: ‘Não os temos’”, afirma a diretora, reforçando que “se não se armazenar alguma coisa, então não existe a necessidade de a proteger”, colocando-se “livre” de qualquer risco associado a fugas de dados.
Mas há outra crítica que os especialistas fazem relativamente a estes modelos: a dependência. “As pessoas criam relações com os chatbots, mas normalmente são relações que resultam em desequilíbrios“, sublinha Miguel Ricou. Na ótica dos profissionais, a dinâmica criada entre humano e a inteligência artificial é “incompleta” e “não funciona bem”, uma vez que não consegue “assumir todas as dimensões”. Para a co-fundadora da EarKick, no entanto, o fenómeno pode ser comparado ao filme “her” (2013), onde um escritor introvertido utiliza um sistema de IA para o ajudar a escrever e, quando descobre a sua capacidade para aprender e adaptar, fica apaixonado.
No filme de Spike Jonze, o protagonista acaba por ficar dependente do sistema em várias vertentes mas, no fim, depois de um longo período de separação, a IA demonstrou ser “uma porta para uma nova vida”, dando-lhe novas competências sociais e criativas, que de outro modo não conseguiria obter, compara Karin Andrea Stephan. “Eu acredito na humanidade, e acredito que as pessoas não são tão burras” até chegarem ao ponto de ficarem viciadas e ligadas, acrescenta, mencionando ter criado “barreiras” na plataforma para assegurar que nenhuma situação atinge esse patamar. Os psicólogos, mais uma vez, não têm outra leitura desta realidade.
Para Miguel Ricou, o efeito da terapia “não tem a ver com a quantidade” de consultas que um paciente frequenta. O papel da psicologia, refere o presidente do conselho de especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos, é contribuir para a autodeterminação do paciente, garantir que tem as ferramentas para ser autónomo, e não criar uma dependência através da acessibilidade. Além disso, realça que os modelos de boa qualidade até podem “enganar” em termos da “simulação de relação” que constroem, mas que “não deixam de estar a enganar” e “vão ter falhas”.
A aliança terapêutica entre o paciente e o profissional “é fundamental para que as coisas aconteçam” e, neste caso, essa relação não existe. “O problema das falsas terapias é que estão a levar as pessoas a não terem resultados. Confundem e inibem as pessoas de ir buscar ajuda. Se a coisa corre mal, é uma oportunidade que se perde”, acrescenta o especialista. Além disso, Miguel Ricou nota que estas aplicações não estão equipadas para lidar com pessoas já diagnosticas com distúrbios como a bipolaridade ou a esquizofrenia. Questionada sobre o assunto, a co-fundadora da EarKick disse que iria averiguar sobre a inexistência de qualquer advertência ao tema na plataforma, e diz que a IA não é adequada para estes casos.
Ausência de responsabilidade e regulação. Como a IA enfrenta as questões éticas da psicologia
“O utilizador reconhece e concorda que a EarKick não fornece, através da aplicação ou de outra forma, qualquer forma de cuidados médicos, opinião médica, aconselhamento médico, diagnóstico ou tratamento, e que a EarKick não avalia a necessidade de procurar assistência médica. A EarKick apenas fornece a plataforma através da qual o utilizador pode monitorizar e acompanhar a sua saúde mental e os seus objetivos personalizados”. Apesar de se apresentarem ao mercado enquanto terapeutas gratuitos de IA, todas estas plataformas mencionadas afastam-se, nos seus termos e condições, de qualquer responsabilidade que possa ser associada às respostas dos seus chatbots, uma vez que não representam, nos parâmetros da lei, uma entidade médica licenciada.
Como indica o psicólogo Miguel Ricou, todos os dispositivos médicos têm de ser aprovados pela Comissão de Ética para a Investigação Clínica (CEIC), existindo um conjunto de regras e níveis de segurança que têm de ser avaliadas, especialmente ao nível dos ensaios clínicos. No caso da IA e dos exemplos referidos, “evitam passar por este processo” e, por isso, acredita que dizer às pessoas que a utilização de um chatbot se equipara a uma consulta de psicoterapia, além de ser “um engano”, é algo que “pode pôr as pessoas em risco”.
Mas é precisamente isso que a EarKick faz. No primeiro momento, conta a co-fundadora, o projeto apresentava-se como um “AI Companion”, ou um companheiro de Inteligência Artificial. Mas a plataforma começou a ser cada vez mais associada ao conceito de terapia por Inteligência Artificial. E, mesmo reconhecendo as limitações da sua ação, a solução não parece ter suscitado grandes dúvidas: a empresa começou a promover-se como uma “AI Therapy.”
“O que estamos aqui a propor é a isenção total da responsabilidade“, reage Miguel Ricou. No caso da psicoterapia licenciada, existem consequências caso as sugestões dos psicólogos não se concretizem de acordo com o esperado, se algo que esperam que aconteça acaba por não acontecer, os profissionais são responsáveis por perceber o porquê, ao contrário dos casos de utilização de IA com fins psicoterapêuticos, reforça, onde ninguém assume esta responsabilidade.
As plataformas, apesar de terem em atenção a idade dos utilizadores, não adaptam as respostas para que possam serem aplicadas a menores de idade. Inclusive, é possível que haja uma falsificação da idade, uma vez que não é preciso apresentar qualquer tipo de identificação e, deste modo, não há filtro dos conteúdos nem a perceção do sistema de que está a ser utilizado por uma criança ou adolescente.
Confrontada por este tema, Karin refuta a ideia, dizendo que funciona “muito bem com crianças e adolescentes, porque se consegue adaptar”. De acordo com a co-fundadora da EarKick, o modelo “percebe no primeiro minuto se está a falar com uma criança ou com um adulto”, apontando para a “grande diferença” no estilo de escrita e, quando aplicável, o tom de voz e forma de falar.
IA: alternativa ou complemento?
As visões, de todas as perspetivas contactadas, apontam sempre para a complementaridade dos dois serviços, e não para a exclusividade de um, em detrimento de outros. “Acho que os melhores resultados aparecem quando se tem mais do que uma solução e conseguem juntar tudo”, admite Karin Andrea Stephan. Mas a responsável do Earkick diz também acreditar que, “olhando para limitações” de ambas as soluções, “o ideal será o que estiver mais à mão” — “acho que o melhor apoio é o que se consegue aceitar”.
Com uma opinião absolutamente contrastante, o especialista em psicologia clínica Miguel Ricou acredita que esta ferramenta apresenta ainda mais riscos do que benefícios, apesar de reconhecer alguns aspetos que demonstram a sua utilidade. Defende que “os psicólogos têm que aumentar a sua literacia a este nível”, de modo a tentar perceber “como é que estas coisas funcionam, como é que não funcionam, quais são os seus potenciais”, com o objetivo de passar a “utilizá-los a seu favor”. “Acredito que isto pode nos trazer coisas muito boas“, conclui.
Para o psicólogo, o maior detalhe é a ausência de uma relação humana. “Esta tendência de antropomorfizar a tecnologia, como se fosse uma pessoa, vai com muita probabilidade acabar numa desilusão porque, evidentemente, o chatbot não vai depois corresponder a todas as expectativas das pessoas, porque aquilo não é uma relação com a pessoa humana”, explica Miguel Ricou, que destaca as respostas padronizadas e o “enviesamento” das mensagens enviadas pela inteligência artificial, como as maiores diferenças para as consultas com humanos, ou “com máquinas”.
“Toda a informação é enviesada”, defende o psicólogo. Mas a grande discrepância entre IA e os profissionais está, mais uma vez, no facto de que o psicólogo sabe que corre esse risco de enviesamento e tenta corrigi-lo, de modo a colocá-las numa “dimensão condicional” — uma sugestão — e a não “limitar o acesso a outras perspetivas”. Segundo Miguel Ricou, “é todo um cuidado relacional que se faz, que se toma, que se consegue, porque é uma relação que se constrói entre duas pessoas”, algo que não é replicável“, uma vez que a IA, um “modelo único”, se limita a “simular uma relação”.
A co-fundadora da EarKick, neste debate indireto, apesar de salientar a importância da relação humana, aponta que o problema é a sua aceitação. “É chegar até ao ponto de ter essa relação, algumas pessoas não estão dispostas a isso, ou foram magoadas”, acrescenta, indicando que a ausência do contacto com uma pessoa, num primeiro instante, pode ser benéfico para introduzir alguém à psicoterapia. Para Karin Andrea Stephan, algumas pessoas podem nem entender que se trata de um modelo de IA, o importante é que funcione para algumas pessoas, e se a única forma de chegar a alguém é através do telemóvel ou do computador, então o caminho deve passar por aí.
Stephan diz que tem tido conhecimento de cada vez mais psicólogos que apoiam esta iniciativa, que estão abertos a experimentar uma nova ferramenta e que é através desta cooperação que será possível “criar algo fantástico”. Sobre os que são mais críticos e não tão recetivos da ideia, Karin afirma aceitar todo o tipo de contradições — “com mais críticas, conseguimos trabalhar melhor em conjunto“.
E é, também, esta complementaridade — a utilização de IA como recurso adicional — que Ana, pela sua experiência, defende. Reconhece que não é uma alternativa, uma vez que se limita a responder às questões que lhe foram colocadas, e que a experiência de ter uma consulta com uma pessoa é insubstituível. Porém, para “questões mais limitadas”, acredita que “pode ajudar bastante”.