Quando se ouve o alarme tocar dentro da maternidade e nos computadores do serviço, surge a pergunta: “Onde é que está o bebé?”. Na grande maioria das vezes, o som estridente e os sinais de luz emitidos pela pulseira eletrónica habitualmente colocada no tornozelo de um recém-nascido traduzem-se num “falso alarme” por alguém se ter aproximado com o bebé da porta — que se tranca automaticamente — ou por determinados movimentos do próprio bebé que fazem disparar o dispositivo. No entanto, esta quarta-feira, num momento de verdadeiro alarme, a pulseira não tocou. No Hospital de Gaia, uma mãe conseguiu remover a pulseira eletrónica da filha sem fazer soar qualquer aviso. Escapou do internamento de Pediatria e o paradeiro da bebé de quatro meses só foi conhecido ao final da tarde desta quinta-feira, quando o bebé foi entregue no posto da GNR dos Carvalhos, em Vila Nova de Gaia. Fonte oficial da unidade hospitalar confirmou ao Observador que a bebé está de novo internada neste hospital e que se encontra bem.
Bebé desaparecida do hospital de Gaia entregue no posto da GNR dos Carvalhos
A mãe, apesar de ter acesso livre à divisão do internamento de Pediatria onde se encontrava a filha, havia recebido a notícia naquela manhã de que a bebé iria ser entregue a uma família de acolhimento no dia seguinte. Não é ainda claro o que terá acontecido no início da tarde desta quarta-feira e, por isso, o próprio hospital abriu um inquérito interno para perceber se as falhas na segurança foram técnicas, ou falta de atenção dos profissionais em serviço. Contactado pelo Observador, Carlos Carapeto, que lidera a Inspeção-Geral de Atividades em Saúde (IGAS), confirmou que iria abrir um “processo de inspeção relacionado com a segurança dos utentes”.
Bebé estava no berço 15 minutos antes de desaparecer
Pelas 14h45, a bebé continuava no seu berço e com a pulseira no pé. Foi só 15 minutos mais tarde, quando um profissional de saúde voltou a entrar no quarto, que perceberam que a criança tinha desaparecido. A mãe tinha cartão de acompanhante, por isso as suas visitas não eram monitorizadas e podia entrar e sair à vontade daquelas instalações. “Ainda não conseguimos compreender totalmente como é que isto aconteceu”, diz ao Observador fonte oficial da Unidade Local de Saúde Gaia/Espinho. Quando os profissionais entraram no quarto e notaram a ausência da bebé, repararam num pormenor essencial: a pulseira eletrónica, intacta, dentro do caixote do lixo do quarto onde estava hospedada.
“A pulseira da criança foi retirada sem corte ou dano e encontrada no caixote do lixo do quarto, pelo que o alarme não foi acionado”, continua a mesma fonte, recordando que “todas as crianças internadas utilizam uma pulseira eletrónica que emite alarme caso ultrapassem as portas do serviço ou caso sejam danificadas ou cortadas”. Assim, deparam-se com um mistério: Como é que a pulseira poderá ter sido removida, permanecendo em perfeitas condições e o alarme completamente silencioso? As autoridades já têm em sua posse as imagens de videovigilância das instalações e o inquérito aberto internamente deverá permitir responder a esta questão nas próximas semanas.
Neste caso específico, a bebé de quatro meses — que iria para uma família de acolhimento por falta de condições de habitabilidade da família — tinha no seu tornozelo uma pulseira com um sensor que media o contacto com a pele. Ou seja, se o sensor deixasse de estar a tocar na pele da bebé, o alarme apitaria. De acordo com o presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos, Ricardo Costa, a pulseira só não tocaria se não estivesse a funcionar, ou se tivesse sido desativada pela equipa de enfermagem.
Nas suas declarações aos jornalistas na manhã de quinta-feira, o presidente do conselho de administração da ULS, Luís Cruz Matos, garantiu que a pulseira estava a funcionar e que a testaram no próprio dia para tentarem perceber o que terá acontecido. Mas a pulseira não apitou e, para o especialista em pediatria, só resta a segunda opção.
“Apenas os enfermeiros têm acesso ao sistema que permite anular os alarmes, após apresentação de uma justificação que fica registada” digitalmente, confirma Ricardo Costa ao Observador. É um hábito recorrente, uma vez que as crianças têm de abandonar o local onde estão internadas para fazer exames e consultas e, para a pulseira não estar sempre a tocar, desativam durante algum tempo até regressarem ao internamento.
Da ULS, Luís Cruz Matos insiste que a mãe,“ao retirar a pulseira, inibiu o sistema de segurança e conseguiu violar o sistema de segurança”. Mas com a pulseira a funcionar poucos momentos após ter sido notificado o rapto, esta falha técnica levanta ainda mais questões. “Nunca houve problemas com o sistema”, garante o presidente da Associação dos Administradores Hospitalares. Xavier Barreto admite que “não é perfeito”, mas desde que o sistema de vigilância eletrónica começou a ser obrigatório nestes serviços, desde 2009, o número de episódios envolvendo o rapto de recém-nascidos diminuiu drasticamente.
Especialistas consultados pelo Observador admitem a possibilidade de a pulseira ter sido mal colocada na criança, referindo que esta deve estar “bem justa” ora ao membro inferior ou superior, de modo a evitar que o dispositivo esteja afastado da pele do recém-nascido. Vítor Varela, presidente da Associação Portuguesa dos Enfermeiros Obstetras (APEO), admite a possibilidade de ter sido um ato “estudado” pela mãe; por outro lado, Ricardo Costa recorda o excesso de trabalho de enfermeiros e médicos e coloca uma hipótese: “a saturação do serviço poderá ter levado a que a ocasião fizesse o ladrão”. O presidente do conselho de administração já deixou uma garantia: “Vamos avaliar o sistema das pulseiras, para retirarmos uma aprendizagem para que não se repita. Não pode voltar a acontecer”.
▲ Maioria dos hospitais portugueses usa esta pulseira eletrónica nos bebés
Securitas Healthcare
A sirene no pé, as portas bloqueadas e o alerta no serviço. O que é suposto acontecer em caso de alarme?
A maioria dos hospitais portugueses recorre às pulseiras eletrónicas Hugs Infant Protection, da Securitas Healthcare, que são muito sensíveis, detalha Ricardo Costa. Basta que o seu sensor se aproxime um par de metros de uma das portas sinalizadas do internamento para que comece a soar “a sirene”. Ao mesmo tempo, as entradas e saídas são bloqueadas e quem estiver no interior da sala fica retido no mesmo local sem a possibilidade de o abandonar antes da autorização dos enfermeiros no serviço, que têm a autoridade para desativar o aviso caso concluam que não existe ameaça.
Quando é acionado o alarme, a área central de enfermagem recebe um aviso no sistema informático, onde é identificado o código associado à pulseira da criança em situação de alerta, para garantir que os profissionais conseguem avaliar o grau da ameaça em mãos. “São pulseiras de plástico com um sensor interno”, explica ao Observador fonte oficial do Hospital de Gaia, pelo que quando a corrente é cortada, o alarme é também “imediatamente acionado”.
“Nunca aconteceu”, mas em casos de risco mais aparente, os enfermeiros podem esperar por uma intervenção do serviço de segurança do hospital até voltarem a abrir as portas do internamento. De forma geral, explica o presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos, o som do alarme até é algo frequente nestes serviços. “As crianças, quando já conseguem andar sozinhas, às vezes acabam por gerar alguma confusão, porque se aproximam daquelas áreas sinalizadas e acionam o alarme”, conta ao Observador.
Pulseira eletrónica pode ter ficado mais solta e fácil de remover
Mesmo nos primeiros dias após o nascimento, a pulseira precisa de ser adaptada, uma vez que o peso do recém-nascido varia bastante. “No início, até a deixam mais alargada”, continua, referindo que a formação de hemorragias também é frequente nesta altura e, por isso, vão apertando a pulseira à medida que o bebé vai crescendo na maternidade. “Às vezes, os próprios bebés acabam por tirar a sua própria pulseira por ter os membros demasiado reduzidos. Quando os levantamos a pulseira fica na cama e só percebemos porque o alarme começa a tocar”, acrescenta o presidente da Associação dos Portuguesa dos Enfermeiros Obstetras, Vítor Varela.
É por isso também que o dispositivo é habitualmente colocado no tornozelo, porque o pé representa uma maior barreira à remoção da pulseira, seja ou não voluntária. Nesse sentido, “não é fácil alargar a pulseira”, como refere o enfermeiro ouvido pelo Observador. “Quando se coloca, tem mesmo de ficar justa ao membro inferior”, afirma, referindo que a opção mais provável para a remover seria através do corte. Não sendo o verificado em Gaia, Vítor Varela acredita que a mãe da criança de quatro meses pode ter reparado que esta estava mais folgada em torno do tornozelo e de fácil acesso para remover.
A questão do alarme não ter tocado é que dificulta a questão. Equipada com um sensor que deteta qualquer afastamento da pele, são vários os momentos em que a pulseira — melhor ou pior colocada — acaba por apitar após determinados movimentos inconscientes feitos tanto pela criança como pelos pais, sem o intuito de a remover.
“A pulseira não se cala até se fazer o bloqueio. Toda a gente fica a olhar”, acrescenta ainda Ricardo Costa, referindo que quando se desativa o alarme, é preciso apresentar uma justificação no sistema eletrónico. É um som relativamente comum nestes espaços — em conjunto com o choro de bebé que é um “ruído permanente” nesta secção hospitalar —, mas não é tratado com indiferença, assegura o pediatra.
A passagem das crianças perto dos pontos de sinalização nas portas do serviço, que acionam o alarme, trancam as portas e obrigam uma reação das enfermeiras, explica Sara do Vale, presidente da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto (APDMGP). “Nunca vi ninguém indiferente por ouvir a pulseira tocar.”