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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Pulseiras para a recuperação de AVC e próteses personalizadas. Como a impressão 3D está a revolucionar a área da Saúde

Com parcerias estabelecidas com "quase todos" os hospitais públicos de Lisboa e arredores, o 3D Printing Centre for Health, na NOVA FCT, já tem mais de 200 protótipos diferentes a funcionar.

Próteses, modelos de ossos e dispositivos de sinalização para paraplégicos. Quando se entra no laboratório do 3D Printing Centre for Health, no Edifício Excelência da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCT), encontramos “brinquedos” espalhados um pouco por toda a sala. É o único centro em Portugal que se dedica à impressão tridimensional de protótipos exclusivos para a área da saúde, contando com múltiplas colaborações com quase todos os hospitais públicos de Lisboa e arredores. Agora, o foco está na recuperação dos sobreviventes de AVC, através de pulseiras.

O que chama à atenção é o contraste do cor de laranja da bracelete com o azul claro da caixa envolvida pelo PLA (Poliácido Láctico, um bioplástico utilizado frequentemente na impressão 3D). Num primeiro momento, aquela poderia parecer uma mera opção estética. Mas Sofia Lopes, a estudante de mestrado responsável pelo projeto, explica que não. “É o primeiro protótipo que vamos testar, através deste estímulo visual com as cores mais fortes. No interior da caixa vão estar componentes eletrónicos, para também ser possível transmitir outros estímulos numa fase mais avançada, como vibração e luzes”, esclarece.

O público alvo desta nova invenção são as pessoas que desenvolvem síndrome de negligência espacial unilateral, uma condição que se caracteriza pela incapacidade de responder a estímulos apresentados de um dos lados do corpo, manifestando-se através da perda de sensibilidade ou de função motora, que afeta entre 30% a 70% dos sobreviventes de AVC. Um dos exames que é feito para avaliar a intensidade desta condição é um desenho — seja de uma casa, de uma pessoa ou de um relógio. O resultado é sempre uma imagem incompleta, com uma espécie de eixo invisível e uma parede que os doentes parecem não conseguir transpor com a caneta.

▲ Desenho feito por um sobrevivente de AVC que desenvolveu síndrome de negligência espacial unilateral, ao lado de um modelo

O processo de recuperação é demorado e complicado para o paciente, pelo que a Unidade Local de Saúde de São José, em Lisboa, pediu a Sofia que desenhasse algo com o objetivo de contribuir para a reabilitação, tanto na redução dos sintomas como no aumento da autonomia nas atividades do dia a dia.

A pulseira laranja e azul vai chegar ao Hospital de São José nos próximos dias, para receber as primeiras avaliações da equipa de especialistas naquele serviço. “Vamos dar já este protótipo à terapeuta, para ver o que é preciso ser alterado”, conta a estudante ao Observador, referindo que contam começar a acrescentar a componente eletrónica para os estímulos já em janeiro. “Depois, vamos adicionando e corrigindo o que for preciso ao longo dos próximos seis meses”, acrescenta. Neste período, as pulseiras já vão estar nos pulsos de quem pode beneficiar com esta opção inovadora.

O mecanismo “não demora mais de um dia a fazer”, refere Sofia Lopes. A caixa que vai eventualmente segurar a eletrónica toda é feita em cerca de meia hora, por ser num material mais rijo e acessível. A bracelete, que ficará presa ao braço do paciente com uma fita de velcro, uma vez que tem de ser flexível para se adaptar a cada um dos seus utilizadores, tem de ser fabricada com um material diferente que, por sua vez, pode demorar 13 horas até estar pronto. O projeto, que está prestes a ser estreado, venceu a Bolsa de Investigação “Vida após AVC”, atribuída pela Associação Portugal – AVC, União de Sobreviventes, Familiares e Amigos, com um valor de 5 mil euros.

Desde 2022, a equipa coordenada pela professora e investigadora Cláudia Quaresma já conseguiu preparar mais de 200 protótipos que foram distribuídos por hospitais e centros de reabilitação em todo o país, desde pulseiras para sobreviventes de AVC a próteses para crianças que nasceram com amputações.

  • Cláudia Quaresma, coordenadora do 3D Printing Centre for Health
    DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
  • Sofia Lopes, estudante de mestrado e responsável pela pulseira utilizada para sobreviventes de AVC
    DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A nádega que abriu as portas às pulseiras de apoio à recuperação de AVC

“A impressão 3D surgiu na minha vida há cerca de 12 anos, através do Hospital Dona Estefânia”, conta a coordenadora do centro, Cláudia Quaresma. A ideia só passou pela cabeça da professora quando lhe ligaram a pedir um modelo de um glúteo para um adolescente que nasceu com uma malformação. “Eu disse: ‘Olha, nunca fiz nada disso… Vou tentar.’ E foi, lá conseguimos e correu bem”, conta ao Observador.

Foi a partir deste “primeiro sim” que a palavra começou a passar pelos diferentes hospitais. Da Estefânia, os projetos desenhados e impressos em três dimensões começaram a aparecer noutras instituições. Ao lado de uma impressora 3D que está ao serviço do 3D Printing Centre for Health está um conjunto de réplicas de ossos e corações que Cláudia Quaresma explica terem sido concebidos para ajudar na preparação de cirurgias, a pedido de um cirurgião do Hospital de Santa Marta. “É sempre o mesmo procedimento: pedem, eu digo que nunca fiz, mas depois corre bem”, acrescenta. Todos os materiais são construídos nas duas impressoras 3D instaladas no laboratório.

O número de elementos da equipa tem vindo a crescer com o aumento da procura — que até já levou a que fosse criada uma lista de espera. O 3D Printing Centre for Health é uma organização sem fins lucrativos, pelo que conta com a colaboração de mais de 50 voluntários, sejam eles investigadores ou estudantes nas áreas de engenharia como Biotecnologia, da Informática ou de Mecânica. Ana Maria Oliveira juntou-se no ano de fundação do centro no campus da NOVA FCT enquanto estudante de mestrado e, agora, está sentada à mesma mesa a desenvolver a sua tese de doutoramento.

Como existe uma grande quantidade de voluntários a passar pela instituição, as centenas de próteses desenvolvidas acabam por surgir de projetos individuais com diferentes fins. No ecrã do computador da coordenadora, existe uma outra pulseira — também para sobreviventes de AVC, mas com um propósito completamente distinto. Para além de ser significativamente maior, foi desenhada para ajudar os pacientes que ficaram com dificuldades de comunicação após o episódio agudo.

▲ A pulseira desenvolvida pelo 3D Printing Centre for Health para ajudar sobreviventes de AVC com dificuldades na comunicação

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Esta pulseira surge numa parceria com a ULS de Gaia/Espinho. Queriam uma pulseira para pessoas que têm dificuldades a verbalizar, que conseguem perceber o que lhes é dito mas que não conseguem responder”, esclarece Cláudia Quaresma. A pulseira, que ocupa uma grande parte do antebraço, tem três ímans coloridos. Existem duas versões do mesmo protótipo, mas o esquema é sempre o mesmo: um íman verde, um amarelo e um vermelho. Num dos dispositivos, o verde tem a palavra “sim”, um “talvez” amarelo e um “não” a vermelho. No outro equipamento, as palavras são substituídas por símbolos com o mesmo significado.

Como todos os projetos, “a ideia é ir evoluindo” mesmo depois de já estarem nas mãos — ou nos braços — dos pacientes. “Podemos tirar as peças todas e substituir por outras, dependendo da dificuldade da pessoa. Por isso é que temos ímans. Se a pessoa quiser ir à casa de banho, se quiser comer… a ideia é ir fazendo mais símbolos”, explica a coordenadora do 3D Printing Centre for Health. Depois de terem ficado um mês a testar o primeiro protótipo enviado, a ULS Gaia/Espinho já encomendou outras três unidades.

Todas as semanas têm tido entregas para fazer, dos mais variados engenhos, para as mais variadas demografias. Enquanto já têm pronto um molde que foi adaptado para ajudar na recuperação de uma cirurgia ao polegar, dão uns ajustes finais a uma prótese destinada a um ex-combatente. “Era militar durante a guerra colonial, uma bomba explodiu e ficou biamputado e cego”, conta Cláudia Quaresma, referindo que antes de encontrar o centro na Caparica, utilizava uma prótese em madeira feita por um amigo, mas que entretanto se tinha tornado demasiado pesada.

A inspiração na arte, o guitarrista com uma amputação e o coração da Carolina

O “passa a palavra” tornou-se a melhor publicidade do 3D Printing Centre for Health, confessa a investigadora Ana Maria Oliveira, enquanto trabalha no seu projeto individual de doutoramento. Para além dos hospitais com os quais já colaboram, várias associações de pais de crianças com amputações ou instituições de solidariedade social promovem os trabalhos do centro, o que se tem traduzido numa maior procura pelos seus dispositivos fora do mercado habitual.

Carolina nasceu com uma amputação congénita da mão esquerda. Sempre viu as outras pessoas fazer coisas que ela não conseguia e, quando a família ficou a conhecer os serviços deste projeto, não foi preciso pensar duas vezes. Para garantir que o conforto é máximo e que se consegue extrair a máxima utilidade das próteses, os voluntários fazem moldes específicos para cada caso que recebem. Para além disso, os futuros utilizadores têm “controlo criativo total” no processo do desenho, tendo a possibilidade de escolher a cor do modelo que lhes vai chegar. “Queremos ter a certeza de que se sentem bem com aquilo que lhes damos”, afirma a coordenadora Cláudia Quaresma.

Já houve, por exemplo, quem tenha pedido uma prótese arco-íris — e a tenha recebido da equipa. O pedido de Carolina foi mais simples: uma mão cor-de-rosa. Além de importante para determinadas atividades, como cortar a comida ou escrever com uma caneta, Carolina tinha uma clara prioridade definida, que pôde executar assim que a sua prótese ficou pronta. Quando ficou ‘equipada’ com a sua “nova” mão cor-de-rosa, tal como a imaginou, a primeira coisa que fez foi o gesto de um coração com as duas mãos, algo que via outros a fazer com frequência e que sempre sonhou vir a replicar. O gesto fez os pais cair em lágrimas, e os membros do centro tiveram de se “manter firmes” para não perder a compostura.

▲ O laboratório do 3D Printing Centre for Health no campus da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade NOVA de Lisboa

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O trabalho no 3D Printing Centre for Health divide-se, sobretudo, por três valências, conforme indica o poster afixado na parede perto da porta. A primeira ilustração representa os modelos anatómicos, que são utilizados por médicos e cirurgiões para fins educativos ou para a preparação de intervenções cirúrgicas com maior rigor. Imediatamente abaixo das costelas verde fluorescentes utilizadas para ilustrar esta componente está uma criança, com uma camisola do Benfica e uma prótese vermelha.

O modelo da prótese que aparece na criança benfiquista e ao lado da fotografia de Carolina a fazer o coração para os pais foi desenhado pela e-NABLE, uma organização internacional que disponibiliza diferentes modelos de próteses para os membros superiores de crianças. Em Portugal, o centro coordenado por Cláudia Quaresma é a referência da empresa, que envia os modelos para a Caparica, para serem posteriormente adaptados às condições específicas de cada uma das crianças que os procura.

A terceira valência é totalmente independente de outras organizações. É onde se enquadram as duas pulseiras desenvolvidas para apoiar a recuperação de sobreviventes de AVC, mas também dezenas de outros objetos que são desenhados de raiz naquela sala do Edifício Excelência da NOVA FCT, com o objetivo de encontrar respostas às questões que lhes são colocadas. O grande objetivo é a criação de dispositivos para ajudar pessoas com dificuldades motoras a fazer tarefas do quotidiano.

Entre os braços prostéticos e dedos de silicone que se assemelham aos verdadeiros, estão múltiplas versões de projetos desenhados para abrir novas portas aos seus utilizadores. Um dos exemplos que a investigadora mostrou ao Observador é o de Frederico, que, à semelhança de Carolina, também tinha uma amputação na mão. Mesmo com esta diferença biológica comparativamente aos seus colegas, Frederico sempre quis ter a possibilidade de tocar guitarra.

  • DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
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A solução? Um produto dois-em-um. Num protótipo desenhado para que as crianças conseguissem cortar a sua própria comida — onde podia ser inserida uma faca, um garfo ou uma colher, se necessário —, montaram um suporte para colocar uma palheta. Agora, Frederico “já não toca guitarra, mas continua a utilizar o dispositivo”, conta Cláudia Quaresma. De forma semelhante, desenvolveram um engenho que permite às crianças com amputações andar de bicicleta, que acaba também por ser uma das opções mais procuradas.

Para além dos jovens ou adultos com amputações, os objetos são também desenhados para pessoas com diferentes tipos de dificuldades motoras. Aí entram diferentes mecanismos para que os utilizadores possam também realizar as mais variadas tarefas, como escrever. Existem várias opções em cima da mesa. Uma delas chama à atenção pelo formato, que se assemelha a um rato ergonómico utilizado para o computador. Questionada sobre as semelhanças, a coordenadora do centro admite que tal como estes ratos serviram de inspiração para este dispositivo em concreto, até o mundo das artes já chegou a contribuir para o desenho de um engenho.

Na ponta de um dos objetos, a componente essencial para garantir que talheres ou utensílios de escrita ficam suficientemente estáveis para poderem ser utilizados sem problema surgiu na sequência de um passeio pela margem do rio Tejo. “Foi uma aluna italiana, que estava a estagiar connosco, que se inspirou numa escultura que estava fora do MAAT, com uns anéis. Estávamos aqui sem saber como é que iríamos fazer e, depois, foi essa a inspiração”, conta ao Observador, apontando para os diferentes materiais — rijos e flexíveis — que foram utilizados para montar aquela peça fundamental.

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