Os discursos do primeiro-ministro e do Presidente da República marcaram o dia da tomada de posse do novo Governo. Contudo, em saídas e chegadas a conta gotas, os ministros novos, os cessantes (quase todos) e os políticos da oposição tiveram a oportunidade de deixar recados à porta do Palácio Nacional da Ajuda. Alguns, como André Ventura e Pedro Duarte, estenderam-se durante mais tempo em declarações. Outros, como Marcelo Rebelo de Sousa ou José Pedro Aguiar-Branco, passaram rapidamente pelos microfones sem comentários.
A primeira protagonista da tarde a chegar foi Maria Lúcia Amaral, a Provedora da Justiça que tomaria posse como nova ministra da Administração Interna. De seguida, entrou pela porta do Palácio Nacional da Ajuda quem lhe passaria a pasta minutos mais tarde: Margarida Blasco. A agora ex-ministra, que pediu para não ficar no executivo por motivos pessoais, foi das que mais interagiu com a comunicação social à saída. Após os discursos, com óculos de sol e com um ar leve, acenou aos jornalistas, em jeito de despedida.
Como manda o protocolo, os ministros cessantes Pedro Reis, da Economia, e Pedro Duarte, dos Assuntos Parlamentares, também estiveram presentes. O candidato social-democrata à câmara municipal do Porto seria dos mais disponíveis para fazer declarações, aproveitando o palco já com um olho nas eleições que disputará depois do verão. Quanto à pasta que deixou, disse mesmo que “houve claramente uma melhoria” com a subida de Carlos Abreu Amorim, que foi seu secretário de Estado e que considerou ser “alguém muitíssimo bem preparado”.
Dalila Rodrigues seria a única ministra cessante do primeiro Governo de Montenegro a não marcar presença na tomada de posse desta quinta-feira. A ministra da Cultura, cuja saída de cena fica marcada por acusações de despedimentos à última hora, até tem alguma afinidade com o local onde ocorreu a cerimónia. Quando, há um ano, entrou em funções, a sede do ministério da Cultura era no Palácio da Ajuda. Após uma mudança para o Campus XXI para se juntar a outros ministérios, Rodrigues voltaria a tentar, sem sucesso, voltar à casa de partida.
A rejeição da segunda oportunidade e os “dossiês” por estudar
Últimos a entrar, primeiros a sair. Foi assim a presença das duas mais altas figuras de Estado na tomada de posse dos ministros do XXV Governo Constitucional. Marcelo Rebelo de Sousa e o recentemente reeleito José Pedro Aguiar-Branco entraram e saíram do Palácio da Ajuda sem fazer comentários à margem da cerimónia.
Luís Montenegro entrou de maneira semelhante, vinte minutos antes da hora marcada e de mão dada com a mulher. Após ter sido empossado chefe do Governo pela segunda vez, tranquilizou aqueles que antecipavam a nomeação dos secretários de Estado. “Já está tratado. Mais tarde, saberão”, disse.
De modo geral, os dezassete ministros chegaram e saíram do edifício, retribuindo os pedidos de entrevista dos jornalistas com todas as variações possíveis da resposta “hoje não“. Paulo Rangel e António Leitão Amaro foram os mais dispostos a falar. Ambos rejeitaram que tenha sido dada ao governo uma “segunda oportunidade”, preferindo falar em “continuidade” legitimada pelo voto dos portugueses. No fim, o ministro da Presidência foi quem mais rapidamente recusou falar com a imprensa. “Eu falo convosco tantas vezes”, desculpou-se.
Quando questionado se estava entusiasmado para assumir o cargo de ministro, Carlos Abreu Amorim acenaria de forma positiva, mesmo se a sua expressão à saída da cerimónia não traduzisse exatamente isso. Margarida Balseiro Lopes também se limitaria a uma resposta curta e afirmativa, sobre se estava contente por assumir a pasta da Cultura.
No fim, porventura ainda em processo de sintonização com os restantes colegas do executivo, Maria Lúcia Amaral foi a única ministra recém empossada que parou para falar. A nova ministra da Administração Interna admitiu que “esta não é uma pasta fácil“. A ex-Provedora da justiça não se alongou em explicações por não estar “em condições de responder ao que quer que seja”. “Vou estudar os dossiês”, rematou.
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Ventura dá “benefício da dúvida” a Montenegro César está sintonizado com a prioridade
À entrada para o Palácio da Ajuda, Pedro Duarte só seria ultrapassado, no nível de atenção dada à imprensa, pelo presidente do Chega. André Ventura foi o único número um de um partido da oposição a marcar presença. Assumiu uma pose institucional e a mensagem clara de que o Chega será o líder da oposição.
À entrada, Ventura disse que “a única diferença do panorama político é que há uma oposição diferente” e saiu a dar o “benefício da dúvida” ao Governo Montenegro 2.0. Após, ouvir as promessas do discurso de primeiro-ministro, o líder do Chega mostrou-se disponível para contribuir para as reformas, “se forem a sério”.
Carlos César acabaria por ficar na sombra de Ventura. À entrada, aproveitou a atenção dada pelas câmaras ao presidente do Chega para entrar no Palácio sem ser alvo de perguntas. À saída, teve de esperar vários minutos até que as televisões decidissem retirar o direto a André Ventura para tomar a palavra. O Presidente do PS, que esteve acompanhado do líder parlamentar provisório Pedro Delgado Alves, afirmou que os socialistas concordam com “a prioridade que deve ser dada à reforma do Estado“, sublinhando que não se devem por em causa serviços essenciais como a Saúde e a Educação.
Numa linha parecida à do Chega, Angélique da Teresa assinalou positivamente que Montenegro evocou várias “bandeiras” defendidas pelos liberais. No entanto, a vice presidente da Iniciativa Liberal disse esperar que esta retórica “não seja apenas uma mera ação cosmética”.
A co-porta-voz do Livre Isabel Mendes Lopes foi das últimas a chegar à cerimónia e, no fim, lamentou que o primeiro-ministro tenha assumido apenas querer falar com os partidos grandes da oposição sobre o aumento no investimento da Defesa. “Gostaríamos de participar na discussão”, disse.
Os restantes partidos da oposição, PCP, Bloco, PAN e JPP, não estiveram na cerimónia, enquanto as forças parlamentares que sustentam o executivo da AD seriam representadas pelos líderes de bancada Hugo Soares e Paulo Núncio, que assinalou a 10ª presença do CDS em Governos Constitucionais. Antes do início da tomada de posse, estes dois deputados seriam protagonistas de uma conversa de largos minutos com André Ventura e Carlos César.