A Câmara Municipal de Loures aprovou o financiamento de praticamente 150 mil euros para a igreja Hillsong Portugal e revelou um apoio de 250 mil euros para a construção do futuro Templo de Shiva em Santo António dos Cavaleiros. A autarquia, em resposta ao Observador, justifica este investimento de 400 mil euros a entidades religiosas pelo “princípio da valorização do papel social” e defende que a Hillsong Portugal tem-se “destacado como uma entidade de referência” pela “capacidade de implementação de iniciativas de intervenção social”.
A Hillsong, internacionalmente conhecida como a igreja dos famosos — que atingiu o cume da fama com Justin Bieber e tem estado no centro de variadíssimas polémicas — é uma das beneficiárias desse investimento público do município de Loures, para obras na sede em Portugal. A proposta, aprovada por maioria numa reunião extraordinária no dia 30 de julho, serviu para autorizar um investimento de 149.139,16 euros para a organização, sendo este 20% do valor do investimento total do projeto.
Na fundamentação, a câmara de Loures explica que “ao apoiar a Hillsong Portugal” está a reforçar uma “política de parcerias estratégicas com organizações da sociedade civil que partilham o compromisso com a melhoria das condições de vida da população”. Mais do que isso, o executivo justifica que o apoio às obras de adaptação do edifício sede da Hillsong Portugal está “alinhado com os objetivos do concelho em promover iniciativas que tenham impacto positivo no bem-estar da população e na promoção da coesão social”.
Assim, conclui o executivo, “esta parceria deve ser encarada como um investimento estratégico, cujos benefícios serão amplamente percebidos a curto, médio e longo prazo” e poderá “atrair eventos de grande porte e reforçar a imagem de Loures como um território inclusivo e aberto à diversidade cultural e religiosa”.
Município elogia Hillsong e investiu cerca de 150 mil euros neste tipo de projetos nos últimos anos
Desde o início do mandato, que está praticamente no fim, Ricardo Leão registou um investimento de 147 mil euros em “projetos deste género, identificando como beneficiários as comunidades católica, evangélica e islâmica”, mas argumenta que até agora nenhuma entidade religiosa tinha “apresentado qualquer pedido apoio para construção de novos edifícios religiosos” — pelo que, neste valor, não está incluído qualquer investimento para construção, como a autarquia aprovou nos últimos dias.
Em declarações ao Observador, a autarquia de Loures esclareceu que o “racional” para a atribuição destas verbas foi “idêntico àquele que tem sido aplicado para investimentos realizados por outras instituições sociais, ou seja, 20% do investimento total, tendo presente a relevância social do mesmo” — o que levou aos quase 150 mil euros para a Hillsong e aos 250 mil euros para a Comunidade Hindu, o que totaliza 400 mil euros nos dois.
Mais do que isso, o executivo liderado por Ricardo Leão justifica o apoio de projetos com os “objetivos estratégicos” de “fomentar a coesão social, a inclusão e a integração de comunidades no concelho” e “apoiar projetos que valorizem a identidade cultural do município e promovam a convivência inter-religiosa”.
“O município de Loures tem procurado mostrar abertura à diversidade cultural e religiosa, o que é coerente com os princípios democráticos e pluralistas da sociedade contemporânea”, acrescenta em resposta ao Observador.
Assim, aos olhos da autarquia, a Hillsong Portugal tem “contribuído para o fortalecimento do tecido social do concelho, em especial em bairros que enfrentam desafios socioeconómicos significativos e em situações de grande vulnerabilidade, como o apoio a pessoas na condição de sem abrigo”.
O pastor da Hillsong que tem defendido Leão
A Hillsong Portugal tem sede no Prior Velho, em Loures, apesar de haver reuniões um pouco por todo o país, desde o Porto até ao Algarve. Nas redes sociais tem milhares de seguidores: quase 40 mil no Instagram, mais de 14 mil no Facebook e praticamente o mesmo número no YouTube.
Nas muitas publicações, destaque para Mário Rui Boto, que é pastor principal na Hillsong Portugal, e quem mais surge a dirigir-se aos crentes. Na sua página do X, nem só a Hillsong é tema: a política também entra. Além de partilhar diversas intervenções de protagonistas políticos, faz várias críticas à “doutrinação woke nas escolas”, à “esquerda racial”, aos “jornalistas lacaios” e questiona decisões de política externa, desde logo ao dizer que “a Europa está reduzida a uma insignificante voz, fruto de líderes fracos, medrosos, acomodados e sem estômago para lutar e defender, nem valores nem fronteiras”.
Quem há muito tem sido poupado é mesmo Ricardo Leão, presidente da Câmara Municipal de Loures, que agora atribuiu 150 mil euros à Hillsong Portugal. No último mês, não só criticou o facto de à esquerda “não [haver] linhas vermelhas”, sugerindo que o PS “não aprendeu nada com os resultados eleitorais”, por se estar a coligar com o Livre, PAN e Bloco de Esquerda, como concluiu que “o presidente da câmara da Câmara Municipal de Loures, Ricardo Leão, parece ser a exceção”.
Em novembro, Rui Mário Boto escrevia que “Ricardo Leão foi ‘forçado’ a demitir-se da presidência da FAUL por ter tido bom senso e não deixar que os extremos da política tomassem de sequestro as questões que realmente preocupam os munícipes”, salientando que o “bom senso e coragem já não têm lugar no PS”.
No mesmo sentido, também referiu Leão ao dizer que “foi muito maltratado por alguns dos senadores do PS, como a Alexandra Leitão, que deveria desistir da candidatura à CM Lisboa”, defendendo que o autarca “colocou os interesses dos munícipes à frente dos ideológicos” e que até de “favores ao Chega o acusaram”.
Recorde-se que Ricardo Leão viu-se envolvido numa polémica, que levou até socialistas a demarcarem-se do autarca, quando aprovou uma recomendação do Chega em Loures, no seguimento dos distúrbios em várias zonas de Lisboa após a morte de Odair Moniz, onde se sugeria que devia ser dada “imediata ordem de despejo” quando se provasse que os arrendatários de casas municipais tivessem cometido crimes.
As palavras de Ricardo Leão — quando pediu a palavra na reunião para dizer que “quem é maior de idade, é titular de um arrendamento na habitação municipal de Loures e seja comprovado que participou nestes atos é para retirar a casa, ponto final parágrafo, sem dó nem piedade” — ecoaram durante semanas, tiveram repercussões dentro do partido, de tal forma que se demitiu mesmo da presidência Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL) do PS.
Já após esta polémica, Ricardo Leão ficou novamente debaixo de fogo quando as construções ilegais no Talude Militar, em Loures, foram demolidas enquanto dezenas de famílias, muitas delas com crianças, ainda ali viviam. Foi alvo da oposição, de diversas associações e desdobrou-se em explicações: não só revelou que foi feita uma denúncia ao Ministério Público porque se estão a comercializar barracas naquele bairro como assegurou que a autarquia disponibilizou todas as soluções e que as pessoas só estão “na rua porque querem”.
Dos famosos aos escândalos: a história da Hillsong
Justin Bieber, Hailey Bieber, Selena Gomez, Kylie e Kendall Jenner, Kourtney Kardashian, Vanessa Hudgens, Chris Pratt ou Kevin Durant são alguns dos famosos que fazem ou fizeram parte da Hillsong. O fenómeno mundialmente conhecido por eventos que misturam música e oração foi fundado em 1983 em Sydney, Austrália, pelo casal Brian e Bobbie Houston e nos anos seguintes cresceu para marcar presença em dezenas de países.
[Um jovem polícia é surpreendido ao terceiro dia de trabalho: a embaixada da Turquia está sob ataque terrorista. E a primeira vítima é ele. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o terceiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]
Com bandas da igreja que se tornaram famosas a nível mundial, chegando mesmo a ser referências da música gospel, o movimento ganhou proporções enormes sendo que o auge acontece com a entrada em força nos EUA — onde teve a capacidade de se tornar atrativa para jovens e cultos modernos, nomeadamente com associações de celebridades à Hillsong.
O maior de todos esses nomes (e embaixadores) foi Justin Bieber que, anos mais tarde, veio a público afastar-se da igreja, argumentando que a “igreja não é um lugar” e que fazia parte de “uma igreja em casa”. Antes da rutura, a história de Bieber na Hillsong foi amplamente partilhada na comunicação social, a começar pela aproximação do artista à igreja numa fase em que atravessava momentos desafiantes na carreira e na vida pessoal.
▲ Justin Bieber ao lado de Carl Lentz, que era líder da filial da Hillsong em Nova Iorque
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A pessoa que levou Bieber para a Hillsong — e grande parte dos artistas norte-americanos — foi Carl Lentz, que era líder da filial da Hillsong em Nova Iorque. O pastor não só se tornou um conselheiro espiritual como um amigo íntimo e uma figura muito presente na vida do cantor. Batizou-se num evento privado, chegou a estar com a ex-namorada Selena Gomez em eventos da igreja e o mesmo se passou com Hailey Bieber, com quem o músico acabou por se casar e ter um filho.
Bieber foi apenas uma entre dezenas de celebridades que, de diversas formas, estiveram associadas à Hillsong. Essa ascensão quebrou-se quando o pastor Carl Lentz foi demitido devido a “falhas morais”, segundo um comunicado assinado por Brian Houston, fundador da Hillsong. O documentário “The Secrets of Hillsong”, produzido com base em reportagens da Vanity Fair, confirma que na origem da decisão esteve uma relação extraconjugal “inapropriada”.
Nos últimos anos, a Hillsong viu-se envolvida em vários escândalos, desde logo quando o próprio Brian Houston, fundador da igreja, renunciou aos cargos de liderança devido a denúncias de assédio a mulheres. Antes, tinha renunciado a outras funções quando foi noticiado que o pai tinha cometido abuso sexual e que o fundador tinha procurado encobrir os crimes para defender a família.
Ao mesmo tempo, um documentário da Discovery Plus, publicado em 2022, deu conta de polémicas relacionadas com exploração e manipulação de voluntários, com ex-membros e ex-funcionários a denunciarem práticas dentro da igreja, tornou públicos escândalos pessoais de pastores, deu conta que a Hillsong protegia figuras públicas, noticiou denúncias por homofobia, regras rígidas sobre sexualidade — em mulheres em específico — e revelou como foi construído um império financeiro pela igreja.
Independentemente da história dos últimos anos, a igreja Hillsong Portugal vai receber quase 150 mil euros do orçamento do executivo de Loures para obras na sede.