Tem óculos? Tem. É careca? Não… Foi o líder que mais tempo esteve na liderança do partido a seguir a Cavaco Silva. Foi o único que ganhou eleições e não conseguiu governar. É Pedro Passos Coelho, correto. Parece o jogo “Quem é Quem”, em que um jogador faz perguntas para tentar adivinhar em que pessoa é que o outro concorrente está a pensar, mas é apenas um “Quem é Quem” do congresso do PSD, que começa esta sexta-feira em Lisboa. E além de Passos — que vai discursar antes de Rui Rio, o líder que vai ser entronizado –, há outras peças importantes. Desde apoiantes do novo líder, que vão ocupar lugares de destaque na equipa de Rui Rio; a críticos da estratégia de aproximação ao PS que defende, passando por candidatos a líder num futuro mais ou menos distante. O congresso deste fim de semana vai ser um medidor de forças em duas frentes: o pré-2019 e aqueles que se posicionam para o pós-2019.

Rui Rio, o líder entronizado

Ganhou o partido com 54,3% dos votos, depois de uma disputa interna com Pedro Santana Lopes. Mas está longe de ser unânime. O antigo presidente da câmara do Porto fez campanha interna com uma mensagem pouco mobilizadora para o militante-base: a ideia de que ganhar as legislativas é o objetivo central mas que, se isso não for possível, é preciso equacionar cenários. E esses cenários passam por uma aproximação ao PS, para evitar que os socialstas se voltem a aproximar da extrema-esquerda. Ou seja, não é só de pactos de regime em matérias estruturantes que Rui Rio fala, mas também de uma possível viabilização de um governo socialista, caso António Costa ganhe em 2019 sem maioria absoluta. Foi o que fez Marcelo Rebelo de Sousa quando António Guterres ganhou, diz Rio… (e o argumento Marcelo é sensível). Mas, nessa época, o PS não tinha alternativas à esquerda.

O “banho de ética” que defendeu na campanha, e a ideia de que não vai ser um líder da “corte de Lisboa”, também causam anticorpos entre algumas alas social-democratas. Rui Rio veste a pele de político que não faz vida nos corredores do poder, mas que dá mais atenção às políticas em prol do interesse nacional. O congresso deste fim de semana, no Centro de Congressos de Lisboa, tem tudo para estar cheio de zum-zum e de críticas — mais ou menos audíveis — que vão estar sempre em ruído de fundo durante a aclamação do líder eleito.

Rui Rio vai fazer pelo menos duas intervenções de fundo ao longo do fim de semana: uma, na abertura, que deverá ser mais virada para dentro do partido, e outra, no encerramento, que deverá ser mais virada para fora, para o país, e para os desafios que se seguem. Tal como o Observador explicava, Rio pode começar logo a “destrunfar” os críticos internos ao posicionar-se como adversário eleitoral do PS e ao deixar para os críticos — como Luís Montenegro, Pinto Luz ou Pedro Pinto — a narrativa dos cenários pós-eleitorais (de derrota). Visto como um líder que decide sozinho, a dois dias do congresso a especulação sobre quem é que Rio vai escolher para integrar a sua equipa ainda é muito grande. Também por isso, todas as atenções estarão concentradas nele.

Pedro Passos Coelho, o ex-líder aplaudido

Há dois anos, Rui Rio não foi ao congresso de Espinho para não “ofuscar” o líder. Dois anos depois, Pedro Passos Coelho vai ao congresso de Lisboa, sem correr o risco de “ofuscar” ninguém. Apesar do tabu que se instalou sobre se o presidente cessante iria ou não iria discursar, já é certo que falará e que depois de ouvir Rui Rio se vai embora. A partir daí, o palco deixa de ser seu.

Na verdade, a dúvida sobre o que faria Passos no congresso deste fim de semana só se instalou porque, desde que foram introduzidas as eleições diretas nos estatutos do PSD, em 2006, nunca nenhum líder cessante foi falar no congresso que entronizaria o líder seguinte. Marques Mendes não o fez, Luís Filipe Menezes também não, e Manuela Ferreira Leite só o fez num congresso onde o seu sucessor, Passos Coelho, ainda não tinha sido eleito. Ao Observador, fonte próxima de Passos afirma que as situações não são “comparáveis”, uma vez que, destes, Pedro Passos Coelho é o único que foi primeiro-ministro. E que ganhou eleições, mesmo sem conseguir governar. “Só pode ser comparado a Cavaco Silva”, dado que Passos foi o presidente do PSD que mais tempo esteve no cargo (oito anos), a seguir ao ex-Presidente, que esteve dez anos em funções, de 1985 a 1995. E, de facto, Cavaco Silva esteve presente nos três dias do congresso de 1995, que entronizou o seu sucessor, Fernando Nogueira, visto como uma opção de continuidade.

Num plano diferente, ou melhor, num partido diferente, Passos é também comparado a Paulo Portas, que liderou o CDS durante 16 anos, e que, há dois anos, esteve no congresso de Gondomar que entronizou Assunção Cristas. Na verdade, esse tornou-se não só no congresso da aclamação da nova liderança, como no congresso da despedida da antiga liderança. Até lágrimas houve.

OS AMIGOS DO LÍDER

Salvador Malheiro, a incógnita desconfortável

Chegou tarde à política partidária — entrou para as fileiras do PSD nas autárquicas de 2013 — mas depressa lhe parece ter tomado os vícios. Salvador Malheiro, presidente da câmara de Ovar, distrito de Aveiro, poderá vir a ficar conhecido, como tantos outros, como um aparelhista. Homem do terreno, foi peça-chave na campanha interna que deu a vitória a Rui Rio a 13 de janeiro. Enquanto diretor de campanha, esteve ao lado do agora líder desde o primeiro momento. Mas, no dia das eleições, foi filmado pelo Observador num esquema de transporte de militantes de Esmoriz, tendo já sido noticiado um esquema de militantes fantasma e de pagamento de quotas em Ovar.

Com o rótulo de cacique, Salvador Malheiro pode ser um ativo tóxico na equipa de Rui Rio, mas permanece a incógnita sobre se, depois de uma campanha lado a lado, Rui Rio o vai premiar ou deixar para trás. Podia ser secretário-geral do partido, ou vice de Rio, mas ainda não se sabe o que o líder quer fazer. É que, além do esquema de angariação de votos, a Procuradoria-Geral da República está também a investigar o facto de o autarca ter alegadamente entregado, como o Observador noticiou, 2,2 milhões de euros a clubes e associações do concelho para a instalação de relvados sintéticos nos respetivos campos de futebol, num negócio que beneficiou o líder da concelhia do PSD de Ovar e futuro vereador.

Com o lema do “banho de ética” a ecoar na memória de todos, o que vai Rui Rio fazer com Salvador Malheiro é uma das incógnitas do congresso.

David Justino, o homem-programa

De Durão a Cavaco para chegar a Rio. David Justino foi ministro da Educação de Durão Barroso, presidente do Conselho Nacional de Educação e ainda conselheiro de Cavaco Silva — então Presidente da República — para os Assuntos Sociais. Voltou à primeira linha da política para coordenar a moção de estratégia com que Rui Rio se candidatou à liderança do partido, e que agora leva ao congresso. Ou seja, é o homem da moção (que não é um programa, como quis sublinhar Rui Rio, mas quase), e pode muito bem vir a fazer parte da Comissão Política nacional de Rio — órgão de direção política permanente do partido.

Nas várias entrevistas que deu na reta final da campanha, David Justino fez uma defesa acérrima da estratégia política de Rio. Em entrevista à Antena 1 defendeu que o partido “tem de estar preparado” para segurar o líder, mesmo que venha a perder as legislativas. “Não podemos estar condenados a uma espécie de determinismo político de dizer que quem perde tem que se ir embora. Não necessariamente! Porquê? Se a estratégia está bem construída, se o desempenho foi bom, porquê? Os adversários também não têm mérito?”, disse na altura.

Na mesma entrevista também deixou antever que o PSD de Rio vai acolher e agregar quem quer ser unido, e não quem quer ficar de fora a fazer caminho. Tem de haver da parte do líder a vontade de unir, e da parte dos que são liderados a vontade de integrar essa união, se não houver vontade, então há que considerá-los como alguém que não quer ser unido e que quer ter um caminho próprio”, disse.

Ao Público também tinha afirmado que a moção de estratégia global teve para se chamar “Portugal 2030”, porque, mais do que um programa eleitoral para a próxima ida às urnas, é um documento com uma visão estratégica de longo prazo. “Tudo aquilo que concebemos para um período de dois anos é feito em função de uma visão que temos para a próxima década”. O lugar de vice-presidente é uma hipótese viável. Fernando Alexandre, o economista responsável pelo programa económico da moção de estratégia de Rio, é outro dos nomes apontados como futuros membros do núcleo restrito da direção de Rio. Assim como Manuel Castro Almeida, ex-presidente da Câmara de São João da Madeira e antigo secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, e como Álvaro Amaro, presidente da câmara da Guarda e presidente dos autarcas sociais-democratas.

Feliciano Barreiras Duarte, o braço direito nos bastidores

Feliciano Barreiras Duarte é um dos possíveis secretários-gerais do PSD. Feliciano é apoiante de Rui Rio desde a primeira hora, estando há mais de um ano nos bastidores com o ex-presidente da câmara do Porto a preparar terreno para a candidatura. Foi chefe de gabinete de Pedro Passos Coelho nos primeiros anos de presidência do partido, mas acabaria por sair em desacordo com o ex-líder; e foi secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, entre 2011 e 2013.

Ficou com a tarefa de organizar os trabalhos do Congresso juntamente com o atual secretário-geral do partido, José Matos Rosa, o que faz com que a associação de cargos seja previsível. Resta saber se Rui Rio quererá um nome político para o cargo de secretário-geral, que é um cargo técnico e burocrático, que controla não só as contas do partido como é o elo de ligação entre a direção do partido e todas as estruturas do país, locais, distritais e regionais. Rui Rio, por exemplo, foi o nome escolhido por Marcelo Rebelo de Sousa para ser seu secretário-geral, função que assumiu entre 1996 e 1997. Nessa época, Marcelo queria um perfil menos político (o que não é hoje o caso de Barreiras Duarte).

Nuno Morais Sarmento, o senador-apoiante

Tem o estatuto de ex-ministro de Estado e da Presidência, cargo que ocupou nos governos de Durão Barroso e Santana Lopes, e tem o peso de ter passado os últimos oito anos de liderança de Passos Coelho como comentador crítico do rumo seguido pelo partido. Nuno Morais Sarmento esteve ao lado de Rio desde o início e foi mandatário nacional da sua candidatura. No encerramento na campanha de Rio, em Vila Nova de Gaia, subiu ao palco para defender a tese dos consensos: “No momento em que faltam consensos não é época de extremismo”, disse, pedindo também união para o day after. Para Morais Sarmento pode estar reservado um lugar de senador, como a presidência da Mesa do Congresso (órgão máximo do partido), lugar atualmente ocupado por Fernando Ruas.

António Carvalho Martins, o melhor amigo

Deputado do PSD entre 1987 e 2002, António Carvalho Martins foi secretário-geral adjunto de Rui Rio quando era secretário-geral de Marcelo Rebelo de Sousa. Foi governador civil de Viana do Castelo e é, sobretudo, amigo pessoal do agora líder do PSD. Economista de formação, Carvalho Martins é visto como um homem de confiança do ex-autarca do Porto, pelo que pode ser chamado para a sua equipa mais próxima. Os dois costumam até passar férias juntos, uma vez que, pelo verão, Rio é visitante assíduo de Ponte de Lima, terra natural de Carvalho Martins — o “melhor amigo”, segundo apontava uma reportagem da TSF, em janeiro deste ano.

Fernando Negrão, o líder parlamentar que não terá vida fácil

Apoiou Santana mas já está no outro lado da barricada, numa lógica de agregar fações e de apaziguamento interno (mas que pode ter o efeito contrário). Depois de longas semanas de tabu sobre a liderança da bancada parlamentar, com vários nomes, próximos de Rio a saltarem para a primeira linha da especulação, Fernando Negrão anunciou esta quinta-feira que era candidato à liderança da bancada parlamentar. As eleições serão no dia 22 de fevereiro, depois de o atual líder, Hugo Soares, ter apresentado a demissão, no seguimento de uma conversa final que teve com Rui Rio, onde o líder lhe disse que queria trabalhar com “outra direção” no Parlamento.

Fernando Negrão foi juiz e diretor da Polícia Judiciária, foi ministro da Segurança Social no governo de Pedro Santana Lopes e foi, por um curto período de tempo, ministro da Justiça no Governo de Passos Coelho e Paulo Portas saído das eleições de 2015 (e deitado abaixo pouco depois). Acontece que, apesar de ter apoiado Santana e não Rio na corrida interna, o nome de Negrão não está a unir a bancada do PSD — que teme que a autonomia da bancada esteja a cair nas mãos do novo líder do partido. Muito duvidam de que Negrão tenha mais votos a favor do que votos em branco, numa forma de protesto político contra a “imposição” de Rio por uma nova liderança. Hugo Soares tinha sido eleito pelos deputados há apenas seis meses, por larga maioria.

Outros nomes que podem vir a integrar a direção nacional de Rui Rio: Paulo Mota Pinto, António Maló de Abreu, Francisco Araújo e António Tavares.

OS RIVAIS, OS CRÍTICOS, E OUTRAS FORMAS DE DIZER ASPIRANTES A LÍDER

Pedro Santana Lopes, o derrotado reintegrado

Foi o candidato derrotado, e como o lema de Rui Rio na reta final da campanha era unir no dia seguinte, Pedro Santana Lopes está agora a ser repescado. Esta semana foi noticiado que tinha sido convidado para ser o número um de Rui Rio na lista para o conselho nacional, podendo vir também a ser cabeça de lista do PSD ao Parlamento Europeu. A ideia seria fazer o mesmo que Passos Coelho fez com Paulo Rangel depois das diretas de 2010. Unir no day after.

Conhecido pelo dom da oratória e entusiasmar congressos, a intervenção de Santana Lopes é uma das mais aguardadas do fim de semana. No último congresso, há dois anos, apareceu no último dia e fez recordar os velhos tempos em que os líderes eram eleitos em congressos. “Keep cool”, disse, mantendo o tabu sobre se seria ou não candidato…a Lisboa.

O facto de estar a ser agregado, contudo, não quer dizer que Santana não vá fazer um discurso crítico quando subir ao palanque. Numa entrevista ao Expresso no sábado antes do Congresso, Santana foi crítico e disse que ia manter o tom: “É a primeira vez que o PPD-PSD vota uma estratégia de subalternização face ao PS”, disse, acrescentando que “há uma legitimidade para liderar mas também há uma legitimidade para discordar e não faço tenções de renunciar a ela”. “[Rui Rio] tem de explicar como é que fará para ganhar as eleições e o que fará se ganhar. Mas o facto é que aquilo de que mais se falou da parte dele foi o que faz se não ganhar. É algo nunca visto”, disse ao Expresso

Luís Montenegro, o rosto da oposição interna (e candidato a líder?)

Não tem falado publicamente para se guardar para o Congresso. Ex-líder parlamentar de Passos Coelho, que saiu por limitação de mandatos tendo sido sucedido por Hugo Soares, era visto como o mais provável sucessor do “passismo”. Teria o apoio de grande parte do partido, mas decidiu não se candidatar, invocando razões “pessoais e políticas”. “Após a reflexão que fiz entendo que, por razões pessoais e políticas, não estão reunidas as condições para, neste momento, exercer esse direito“, disse na altura. Era a segunda nega que o PSD levava, um dia depois de Paulo Rangel ter dito que também não estava disponível. Luís Montenegro estaria a guardar-se para outros voos, possivelmente para o pós-2019 ou para o próximo ciclo no PSD.

Quando se mostrou indisponível para avançar, garantiu que não iria apoiar diretamente nenhum dos candidatos à liderança do partido, afirmando que iria manter uma posição de “total equidistância face às candidaturas que vão surgir”. Mas, no último dia, mudou de ideias. Numa sessão de militantes em Aveiro, na reta final da campanha, Montenegro anunciou o seu apoio a Pedro Santana Lopes e foi duro nas críticas a Rui Rio: disse que a ideia de Rio de viabilizar um Governo minoritário do PS era “suicidária” e até sublinhou que concordava com Miguel Relvas, que tinha dito nesse mesmo dia numa entrevista ao Público que “o próximo presidente do PSD tinha mandato de dois anos”.

Hugo Soares, o líder parlamentar descartado

Foi o tabu das últimas semanas. Desde que Rui Rio ganhou as eleições que se previa que a liderança de Hugo Soares na bancada parlamentar do PSD estivesse por dias. É certo que o grupo parlamentar de um partido é um órgão autónomo, sendo os deputados eleitos pelos portugueses e a direção parlamentar eleita pelos deputados. Mas há regras não escritas na política e uma delas é que a direção do partido deve trabalhar com um líder parlamentar da sua confiança. Ainda para mais num cenário em que o líder do partido não tem lugar no Parlamento. O impasse manteve-se, com Rio a dizer sempre que a direção da bancada estava em funções até ao Congresso — mas o assunto teria de ficar fechado antes do conclave, para a especulação não minar, nem “ofuscar”, o debate político.

O ponto final aconteceu entre esta quarta e quinta-feira. No fim de semana Rio e Hugo Soares tiveram a conversa “que faltava”, e Hugo anunciou a sua demissão aos deputados, convocando eleições para a semana a seguir ao congresso. “O presidente do partido manifestou a vontade de trabalhar com uma nova liderança parlamentar. A conversa de sábado era a que faltava”, disse. O Observador sabe que Hugo Soares vai subir ao palco do Centro de Congressos de Lisboa este fim de semana, esperando-se uma intervenção em linha com o que tem dito: que não é oposição interna, e que será um “soldado” do novo líder. Importante vai ser ler o que está nas entrelinhas.

Miguel Pinto Luz, o crítico que precisa de dar nas vistas (mais um candidato a líder?)

É vice-presidente da Câmara de Cascais e foi líder da distrital de Lisboa do PSD durante seis anos e foi um nome lançado por Miguel Relvas como um possível candidato à liderança do partido. Escreveu na última sexta-feira uma dura carta aberta a Rui Rio com instruções precisas sobre aquilo que o presidente do partido pode ou não fazer enquanto líder eleito. A carta de Miguel Pinto Luz era muito crítica da atitude de “messias” de Rui Rio e tinha “um caderno de encargos exigente”, com linhas vermelhas concretas. “O mandato agora conquistado não lhe permite não vencer as próximas eleições legislativas”, escrevia, avisando que “as eleições europeias serão o primeiro teste” à liderança de Rio. Por outras palavras, Miguel Pinto Luz diz que o partido não poupará o líder se não vencer.

Lançado por Relvas, que disse em entrevistas que “o futuro do PSD, nas gerações mais jovens, passa por um Luís Montenegro, por um Miguel Pinto Luz, que têm combate político, que têm afirmação”, Pinto Luz precisa de palco para dar nas vistas se quer aspirar a voos maiores. Em todo o caso, numa entrevista de 10 minutos na SIC, Pinto Luz quis deixar claro: “Não tenho padrinhos, mas também não tenho afilhados”. Espera-se um discurso crítico da estratégia de Rio de aproximação ao PS, mesmo que Pinto Luz diga que no pós-congresso todo o partido estará unido, com o líder.

Pedro Pinto, um crítico feroz em Lisboa

Amigo de Pedro Passos Coelho, apoiante de Santana da primeira linha, o líder da distrital de Lisboa vai subir ao palco do Congresso para meter os pontos nos “is”. Pedro Pinto é o primeiro subscritor da moção setorial da distrital de Lisboa que, das 20 moções apresentadas, é a menos setorial e a mais política de todas. O texto exige clarificação ao presidente do partido sobre qual deve ser o posicionamento do PSD face ao PS, diz que o PSD se deve assumir como um “bloco de moderação” e como uma alternativa clara ao Governo de esquerdas liderado por António Costa. Mas Pedro Pinto também tem dito que o objetivo não é “desafiar” o líder. É apenas “clarificar a posição interna, para não haver dúvidas na sociedade”.

Pedro Duarte, o inadiável adiado (ou outro candidato a líder?)

Faz parte do leque de nomes que surge agora sempre que se fala nos rostos do futuro do PSD. Ex-líder da JSD é visto como um dos representantes da geração de 70, que ficou sem candidato quando só Pedro Santana Lopes e Rui Rio decidiram avançar. Nem Montenegro, nem Paulo Rangel, nem Pedro Duarte, nem José Eduardo Martins. “A minha opção pela vida profissional e percurso académico é inabalável. Limitar-me-ei a apresentar uma moção com as minhas ideias, no próximo Congresso”, disse Pedro Duarte quando descartou qualquer hipótese de se candidatar à liderança. Desde 2011 que Pedro Duarte exerce funções de direção na Microsoft Portugal. Na altura, Pedro Duarte defendeu que o PSD precisava de “um Congresso que recentrasse o partido do ponto de vista estratégico e programático”.

No último congresso, onde pouca oposição e críticas internas havia, o discurso de Pedro Duarte (a par de José Eduardo Martins) era dos mais aguardados — mas acabaria por ser morno. Dois anos depois, Pedro Duarte subscreve à cabeça, e a par do comissário europeu Carlos Moedas, uma moção temática sobre as desigualdades sociais. Diz que pretende ser “um contributo construtivo e não concorrencial” ao texto do presidente Rui Rio, e dedica-se a avaliar o impacto da evolução tecnológica e da globalização na sociedade e no agravamento do fosso entre ricos e pobres.

Carlos Moedas, o preferido de Marcelo (ou será um dia outro candidato a líder?)

Comissário europeu para Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Moedas foi secretário de Estado-Adjunto de Passos Coelho entre 2011 e 2014, e foi depois o escolhido para ser o responsável por acompanhar o desenvolvimento do programa de assistência económica e financeira da troika, cargo que lhe valeu o apelido pejorativo de “ministro da troika“. Tirou um MBA em Harvard e trabalhou no Goldman Sachs, onde conheceu António Borges que o convidou para integrar o centro de estudos do PSD. Carlos Moedas parece ter-se tornado numa espécie de preferido de Marcelo Rebelo de Sousa. Ainda recentemente, o Presidente da República o elogiou publicamente, dizendo que quando se olha para o presente de Carlos Moedas consegue-se antever-lhe o futuro.

Questionado sobre esse elogio, numa entrevista ao DN, Moedas deixou escapar que, apesar de não estar em Lisboa, não perdeu o gosto pela política portuguesa. “A política portuguesa obviamente que me continua a seduzir, eu gosto de política, gosto daquilo que fiz na política e tenho sempre a atração por essa política”, disse, o que deixa viva a hipótese de estar a equacionar uma possível candidatura à liderança do PSD no ciclo pós-Rio. Ou pós-2019, dependendo do resultado das eleições. Para já, limitou-se a desenhar, com Pedro Duarte, uma moção setorial sobre a temática das desigualdades. A moção é arrojada, questionando a progressividade fiscal, admitindo a criação de um rendimento básico para toda a gente, e defendendo mais flexibilidade no mercado laboral, bem como uma aposta na cultura.

José Eduardo Martins, crítico inconveniente (ou mais um dos muitos candidatos a líder?)

Ex-secretário de Estado dos governos de Durão Barroso e Santana Lopes, José Eduardo Martins é o eterno “crítico”. Posicionou-se como crítico da estratégia seguida por Passos Coelho durante os anos de governação, e foi ao congresso de Espinho, há dois anos, fazer um dos discursos políticos com teor mais crítico. Nessa altura, como quase sempre, apareceu rodeado de uma nuvem: seria ou não seria uma hipótese para o ciclo pós-Passos? Não foi. Na altura de se alinharem os sucessores, José Eduardo Martins não apareceu.

Este ano ganhou novo palco político quando se candidatou a presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, tendo feito a candidatura do PSD a Lisboa lado a lado com Teresa Leal Coelho. A pesada derrota e todo o processo conturbado que envolveu a candidatura do PSD a Lisboa fizeram-no concluir que não tinha condições, nem vontade, de avançar. Acabou por sair da Assembleia Municipal depois de um golpe do aparelho. Na semana pré-Congresso disse no espaço de comentário que tem na RTP3 que, “para ser líder, é preciso alguma capacidade de superação e conciliação”. Antecipou que iria ao Congresso “dizer umas coisas inconvenientes”.

Paulo Rangel, o eurodeputado que era para ser líder e não foi (ou eterno recandidato à liderança?)

Quando Passos Coelho reuniu o Conselho Nacional do partido para confirmar que, na sequência da derrota nas autárquicas, não se iria recandidatar, usou o mesmo discurso para elogiar o eurodeputado Paulo Rangel. Rangel não confirmou nem desmentiu qualquer intenção, mas naquele dia saiu do hotel Sana em Lisboa com a aura de candidato. No dia seguinte, contudo, viria dizer que não era candidato à liderança. “Infelizmente, e independentemente das condições políticas subsistentes, por razões de ordem familiar, que tentei solucionar ao longo dos últimos dois dias, nas atuais circunstâncias, afigura-se inviável a apresentação dessa candidatura”, disse na altura. Mas é certo que Rangel não é um trunfo fora da corrida.

O primeiro desafio é saber se Rangel vai continuar como cabeça de lista ao Parlamento Europeu. Passos apostou nele, Rangel ganhou. Resta saber se Rio vai optar por lançar, por exemplo, Pedro Santana Lopes. O segundo desafio são as autárquicas de 2021, que Paulo Rangel poderá aproveitar para regressar a Portugal, e ao Porto, de onde é natural, e depois então deverá vir a liderança do partido. Mas tudo num cenário longínquo e cheio de equações variáveis. Para já, e depois de uma campanha interna onde optou por não declarar o apoio a nenhum dos dois candidatos, Rangel deverá adoptar uma atitude mais pró-Rio do que uma postura de crítico. Pode ser o número dois de Rio na lista ao Conselho Nacional, que deverá ser encabeçada por Pedro Santana Lopes.