Um caleidoscópio é um objeto que vive da luz, movimento e reflexo para construir um puzzle de cores e combinações que convidam os olhos a aplaudir. A Rua do Benformoso, em Lisboa, é um segredo bem guardado até para quem pisa a vaidosa calçada da capital todos os dias. Com negócios e lojas para todos os gostos, começa algures na Rua Cavaleiros, perto da Rua da Mouraria e do Martim Moniz, e desagua no Largo do Intendente Pina Manique, onde está a Casa Independente, um sitio cool para relaxar pela tarde ou dar um pezinho de dança enquanto o sol descansa.

Católicos, muçulmanos e hindus navegam por ali nas mesmas águas. Partilham metros quadrados, dividem lojas, dizem “bom dia” e compram os produtos uns dos outros. A riqueza cultural grita, as diferenças transformam-se em normalidade e toda aquela experiência transporta-nos para outro planeta. A degradação dos prédios promove uma espécie de mixed feelings. Mas a grande mistura é mesmo a das nacionalidades. Há as mais badaladas — o Bangladesh é o campeão –, por isso há também conforto e o sentimento de que cheira a casa, que acontece quando podemos conversar na nossa língua a muitos quilómetros da terra onde nascemos. Afinal, a frase de Fernando Pessoa pode servir para muitos dali: “A minha pátria é a língua portuguesa.” Ou chinesa, ou bengali, ou hindi, ou urdu…

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O Observador aventurou-se por esta rua para saber como seria o Natal daquelas pessoas. Os muitos natais. E quão diferentes. Houve alguma desconfiança, portas fechadas, ares carrancudos, timidez apesar da simpatia. Ainda assim houve quem partilhasse um pouco da sua história.

Foi o caso de José Almeida, um português que fugiu de casa aos 12 anos e que deu corda aos sapatos desde então. Já trabalha na zona há 20 anos, mas só há seis meses estacionou no Bar Palma. Shaheem Reza, um homem do Bangladesh, de 46 anos, que passou 20 deles na Marinha do seu país, idem. Aterrou em Portugal há nove meses, está encantado e espera agora que a família venha ter com ele. Erineu, um brasileiro de 28 anos, trabalha lado a lado com uma chinesa e não tem “sonhos muito grandes”, quer apenas uma “vida boa”. Já Bhavesh Kumar, um indiano de 43 anos, considera “fantástica” a riqueza cultural da Rua do Benformoso. Quanto ao Natal, tem uma teoria: “Para festejar só preciso de um motivo, não preciso de religião.”

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José Almeida, 58 anos — Portugal

“Cá estamos” e “vamos vivendo assim”. São as grandes muletas de José Almeida, um homem que trabalha na zona do Intendente há 20 anos. Este português afável, que gosta de desenrolar a fita do passado, fugiu de casa aos 12 anos. Desde essa tenra idade fez de tudo: “Fui colocador de papel, calceteiro, empregado de mesa, vigilante de uma casa grande em Odivelas…” A vida noturna, que sempre o fascinou, começou-a aos 17, 18 anos. “Estou aqui há 20 anos, no Intendente, com o Bar Palma. [Na Rua do Benformoso] estou à volta de seis meses no 266.”

Lamenta que tudo tenha fechado nos últimos anos — “as casas de petiscos, de vinhos, de presuntos” — e culpa os novos horários pelo descarrilar da coisa. “Há 20 anos éramos 26 bares na zona do Intendente. O senhor António Costa fez umas obras excecionais, mas tiraram-nos o nosso viver, porque fechamos à meia-noite. Fomos morrendo todos”, diz, avisando que no fim de semana é melhor, pois estão autorizados a encerrar às 2h00. José Almeida faz do seu karaoke de sexta-feira e sábado um dos trunfos.

“”Esta viragem cultural [da rua] foi há coisa de seis meses mais ou menos. Estava tudo fechado…” — José Almeida

“Hoje em dia, há outro português na Rua do Benformoso. Atualmente há casas de conveniência, restaurantes do Bangladesh e indianos. Cá vamos vivendo uns ao pé dos outros: ‘bom dia, boa tarde’, ‘olá, tudo bem?’. Não sei a língua deles e eles falam pouco a nossa”, conta. “Esta viragem cultural [da rua] foi há coisa de seis meses mais ou menos. Estava tudo fechado…” É necessário dizer, contudo, que há mais portugueses na rua, com outro tipo de lojas. São poucos, muito poucos, mas há.

E o Natal? “Em princípio, [dia 24] estarei aberto até às oito da noite. [Depois] fecho o estabelecimento e vou para casa jantar com a família”, revela, sem entusiasmo e desencantado, anunciando que dia 25 será a mesma cantiga. Este homem “nascido e criado em Lisboa, e um bocadinho na província, em Tomar”, desconfia que o Natal dos seus vizinhos da rua será diferente: “Em princípio vão estar abertos, eles continuam a trabalhar normalmente…” Será?

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Aminul Islam, 45 anos — Bangladesh

Nasceu no Bangladesh, em 1970. Voou para Lisboa em 1999 e mora por ali desde então. “Eu gosto desta zona, antes tinha problemas, mas agora está tudo bem”, avisa. “O nosso restaurante é do Bangladesh, está aberto há um ano.” Aminul Islam tem uma boa relação com o português José Almeida, precisamente aquele que facilitou a conversa do asiático com o Observador.

“Antes trabalhei num supermercado, fui feirante e depois trabalhei numa loja. Agora o restaurante. Já mudou a vida, vamos ver se sobe ou não”, disse. O termo é intrigante e roça o poético: subir, como quem diz melhorar. Vamos ver se a vida melhora, portanto. “Sou muçulmano, não temos Natal”. O Islão tem datas importantes como o Ramadão e o Eid Al-Fitr, que marca o fim do jejum do primeiro. E trabalhará Aminul nos dias 24 e 25 de dezembro? “Sim, a casa vai estar aberta.”

“”Antes trabalhei num supermercado, fui feirante e depois trabalhei numa loja. Agora o restaurante. Já mudou a vida, vamos ver se melhora ou não” — Aminul Islam

Não muito longe da loja de Aminul Islam, o Observador tropeça num outro muçulmano, mas este de origem africana, que trabalha numa agência de viagens. “Sou moçambicano.” O ping-pong foi curto, graças às pressas e à presença de um cliente de última hora que queria um avião “agora” para Bissau, na Guiné. “Homem, isto não é como os autocarros! Quer ir quando?” E lá se trocaram uns sorrisos entre todos, apertos de mão e um adeus. Foi o primeiro e único africano que o Observador encontrou por ali a trabalhar. O mapa-mundo ganhava dimensão…

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Erineu, 28 anos — Brasil

Erineu tem riso fácil. Foi ele quem socorreu a colega chinesa que não percebia bem o que o Observador pretendia. O brasileiro abriu a porta, a do estabelecimento e a do seu tempo, para nos dizer umas coisas. É de poucas palavras também, por isso foca-se no essencial das perguntas. O Natal de Portugal é muito diferente do Natal do seu Brasil, pois claro. Por lá está calor, dá para uma picanha na grelha forasteira ou para uma caipirinha sem congelar as mãos. Em Portugal é diferente, mas pouco: “Vai ser por cá, a festejar com amigos, família e namorada”.

Erineu chegou a Portugal há oito anos e trabalha na Rua do Benformoso há sete. “Mudaram bastantes coisas desde que entrei aqui. Tanto na rua, como no movimento e nas pessoas. Evoluíram muito”, explica. “Há várias pessoas de muitas nacionalidades. Muitos já foram embora, muitos entraram e conhece-se muita gente.”

O brasileiro sempre trabalhou em vendas, como agora faz numa loja de conveniência chinesa. Antes entrara no campeonato das feiras e artesanato. O sonho de menino era só “ter uma vida boa”, atira, sem hesitação. “Sonhos muito grandes nem tenho… Talvez ganhar o Euromilhões um dia”, diz, soltando uma gargalhada bem formosa.

Liang, mais ou menos 50 anos — China

O nome é fictício, a simpatia nem por isso. A comunidade chinesa foi a mais difícil de “invadir”, pois preferem o sossego, trabalhar e, no fundo, o anonimato. O Observador conversou com alguns e algumas chinesas, que se localizam maioritariamente no princípio da Rua do Benformoso, que pisca o olho ao Martim Moniz.

Liang está há três anos em Portugal e acha que o seu português é mau, mas não é. “Antes trabalhava no centro comercial do Martim Moniz”, conta, com poucas palavras, como quem paga ao caractere. “Nós não festejamos o Natal, mas agora que estamos na Europa vamos festejando, juntando a família.” Ou seja, jantam e celebram o dia 25, porque é assim por cá, não pelo cariz religioso da data. A grande festa que esta mulher mencionou foi o fim de ano chinês, que acontecerá entre janeiro e fevereiro, dependendo da lua.

Liang vende pulseiras e mais alguns produtos e acessórios na loja, que estará a funcionar dia 24 até às 18h. Dia 25 deverá estar fechada, arrisca. Afinal, o movimento não o justifica.

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Abidul Islam Abid, 24 anos — Bangladesh

Desconfiado, mas de sorriso aberto, Abidul Islam Abid dividiu-se entre o português, francês e o inglês. A nossa língua ainda o deixa desconfortável, embora se faça entender muito bem. “Estou em Portugal há um ano. Gosto de Portugal, gosto do Cristiano Ronaldo” — e pausa para uma gargalhada e um momento fugaz de felicidade no estado puro. O fascínio pelo futebol é óbvio. Cristiano Ronaldo tem muito sucesso na Ásia e, pelo menos no sudeste asiático, veem-se muitos garotos com a camisola da seleção portuguesa graças a ele. Portugal e Cristiano Ronaldo é ligação direta e obrigatória para quem recebe os viajantes de terras lusas.

E lá continuou: “As pessoas são calmas e amigáveis. (…) As pessoas dizem ‘olá’, são boas aqui. Trabalho nesta rua há seis meses.” No Bangladesh, Abidul Abid estudava: primeiro, foi inglês e depois história. Agora ganha a vida na Rua do Benformoso, a mais ou menos nove mil quilómetros de casa.

Quanto ao Natal, a data festiva dos católicos apenas significará um dia de descanso: “Sou muçulmano. É Natal aqui, por isso não vai haver trabalho. Fico em casa, estará tudo fechado.”

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Bhavesh Kumar, 43 anos — Índia

O olhar mexe-se lentamente, a voz é calma, o tom sereno. Tudo emana calma na vida deste homem, um indiano de 43 anos. O português é perfeito, resultado dos 11 anos de vida em Portugal. “Estava à procura de uma vida melhor e tive a oportunidade de vir para cá. Estou muito feliz, a família também está comigo”, conta. Bhavesh Kumar trabalha naquela loja encafuado em aparelhos eletrónicos há quatro anos, mas, ressalva, é só empregado.

“É fantástico”, diz sobre a riqueza cultural da rua. “É melhor para nós porque aparece muita gente da nossa terra. Há várias culturas, sabem a nossa língua. Quase metade dos clientes fala a nossa língua materna. É bastante melhor. Assim faço amigos.”

“”Na religião hindu não temos data fixa, porque depende da lua. Aqui juntamos família e conhecidos no templo” — Bhavesh Kumar

O negócio não tem corrido de forma espetacular, mas também não vai mal. Dia 25 de dezembro há stop. “Não trabalho, certamente. É aquele dia para a família. Leva-se as crianças para fora, passear e ver.” Esta decisão levanta a dúvida: qual é a religião de Kumar? “Sou hindu. Na minha religião não festejamos [este] Natal, o nosso já passou”, conta. Kumar festeja o Diwali, que é uma festa religiosa hindu — este ano foi celebrada em novembro. Para o ano, por exemplo, será em outubro. “Mas pronto, para festejar só preciso de um motivo, não preciso de religião”, assegura, ganhando ânimo. E complementa: “Na religião hindu não temos data fixa, porque depende da lua. Aqui juntamos família e conhecidos no templo. (…) Quando chega o dia juntamo-nos, faz-se um convívio e jantamos.”

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Shaheem Reza, 46 anos — Bangladesh

Vinte anos na Marinha e uma passagem pelos Estados Unidos. Shaheem Reza consegue misturar entusiasmo com calmaria. Naquela memória têm de morar muitas histórias, não engana. Comunica num inglês perfeito, pois os nove meses de Portugal ainda não lhe permitem dominar a nossa língua. “Portugal é um país muito simpático, eu adoro. Os homens são bons, sempre a pensar como ajudar as pessoas dos outros países. O Benformoso é uma boa rua, com mais gente do Bangladesh, indianos, chineses, do Sri Lanka… Eles vêm à minha loja, perguntam como estou. É bom!”, conta. O Observador procurou pela Rua do Benformoso para confirmar a presença de pessoas do Sri Lanka, para estender este mapa-mundo, mas sem sucesso. O que acabou por encontrar foi uma loja com dois paquistaneses, com quem não foi possível chegar à fala.

“O tempo é porreiro, como no meu país. A minha mulher virá para viver aqui, os meus pais virão também”, revela Reza. Este senhor foi particularmente simpático porque “adora jornalistas”. Porquê? “A minha filha é jornalista, trabalha na televisão pública do Bangladesh e ganha bem.” Dúvida desfeita.

O gosto pelo Natal aprendeu-o nos Estados Unidos. “Eu amo o Natal. Aqui é dia 25 de dezembro, está tudo a transformar-se com as decorações de Natal, com os portugueses à espera do dia 25.” Reza é muçulmano e explicou que há o Eid Al-Fitr, dia no qual também se recebe pessoas e “está toda a gente feliz, como os portugueses”. E trabalho dia 25? Nem vê-lo. “Tenho folga.”

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