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Quase a completar um ano de mandato, Paulo Alexandre de Sousa diz que a reestruturação não impediu a Santa Casa de crescer "muitíssimo" nas respostas sociais
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▲Quase a completar um ano de mandato, Paulo Alexandre de Sousa diz que a reestruturação não impediu a Santa Casa de crescer "muitíssimo" nas respostas sociais

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Quase a completar um ano de mandato, Paulo Alexandre de Sousa diz que a reestruturação não impediu a Santa Casa de crescer "muitíssimo" nas respostas sociais

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Santa Casa teve "o melhor ano dos últimos cinco anos". Lucros ultrapassam 30 milhões com recuperação dos jogos sociais

Recuperação nos jogos sociais ajudou a Santa Casa a terminar 2024 com mais de 30 milhões de euros de lucro. Encaixe com imóveis falhou meta, mas provedor afasta "urgência desmedida" em vender.

Depois de ter atravessado um período de turbulência e com impacto na reputação, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa terminou o ano passado com lucros acima dos 30 milhões de euros. Em entrevista ao Observador, o provedor Paulo Alexandre de Sousa diz que 2024 foi o “melhor ano dos últimos cinco anos”. Ou seja, desde 2019, o último ano antes da pandemia. Uma parte desta evolução resulta da recuperação nos jogos sociais que, em 2024, pagaram prémios recorde de 2,7 mil milhões de euros. Há um regresso da lotaria, mas a raspadinha continua a dominar as receitas, com o provedor a desdramatizar o impacto deste jogo na adição. Há “fenómenos muito mais preocupantes” — no jogo online por exemplo — que não têm visibilidade.

Paulo de Sousa assegura que o plano de reestruturação está a ser executado acima das metas. Uma das exceções é a venda de imóveis, que está muito abaixo da previsão. O provedor admite que a crise política pode ter assustado alguns investidores, mas desvaloriza o seu efeito na instituição que está a financiar investimentos com vendas de outros ativos, incluindo ações. E garante que a reestruturação não afetou a prestação de serviços na área social.

O complicado dossiê internacional ainda está por resolver. A Santa Casa vai fechar todas as operações com exceção da de Moçambique (Sojogo) e das parcerias em França. O provedor admite que, do investimento feito, sobretudo no Brasil, pouco ou nada será recuperado. Os prejuízos serão “seguramente acima” dos 50 milhões de euros.

O que está a correr bem na execução do plano de reestruturação? E o que está a correr menos bem ou mal?
Diria que [o plano de reestruturação] está a correr bastante bem. Os últimos dados da semana passada apontam para uma execução da ordem dos 46% das medidas previstas. Destacaria como áreas principais com maior nível de concretização o programa operacional de garantia de receitas e o programa de redução de custos. O programa com menor taxa de execução é o de investimentos e desinvestimentos. Acima de tudo porque é mais demorado, nomeadamente no que diz respeito à alienação de ativos é um processo mais pesado com hastas públicas. Em termos de execução financeira, estamos nos 32,6%. Sentimos que há um gap temporal entre tomarmos as decisões e elas começarem a ter efeito, mas mesmo assim estamos acima do objetivo. No programa de receitas, estamos a 144% e ao nível da redução de custos estamos nos 128%. Nestes dois domínios que são core para garantirmos um equilíbrio operacional da nossa atividade, as coisas estão a correr francamente bem.

Dos milhões do jogo aos prejuízos na saúde e negócios internacionais. O que está a abalar as finanças da Santa Casa

Poderá haver áreas em que o plano seja executado mais cedo do que o previsto?
Nestas duas categorias ultrapassámos o objetivo que estava previsto. Mas só no final é que vamos ser capazes de fazer essa conta. Ainda faltam dois anos de execução. Previsões antes de acabar o jogo são precipitadas. Mas diria que francamente tem corrido bem.

Uma das áreas que não correu bem foi a venda do hospital da Cruz Vermelha. Quer explicar o que aconteceu na operação?
É uma participação partilhada entre a Santa Casa de Lisboa e a Parpública. O hospital tem características muito próprias. Não está integrado numa rede, é uma operação stand alone, e, portanto, tem tido ao longo dos anos problemas significativos. Vale a pena observar que nos últimos anos teve uma evolução muito positiva, mas ainda não conseguiu atingir o equilíbrio operacional. Os custos são superiores às receitas, tem prejuízo na atividade corrente. É um dos temas. No exercício de venda, tivemos um grupo alargado de interessados; evoluímos para uma short-list; e depois para duas best and final offers (ofertas finais). Sentimos que as propostas que tivemos não defendiam o interesse patrimonial da Santa Casa.

Não defendiam porquê? Foi o preço?
Não era só o preço. O preço era abaixo das expectativas, nomeadamente tendo presente o que os acionistas têm aportado à operação. Mas, acima de tudo, tinha um conjunto de cenários contingentes que deixavam em aberto variáveis que seriam difíceis de aceitar.

Porque os vendedores seriam chamados a assumir os custos da venda. É isso?
Sim, e parte do risco da operação. O que, para nós, face às caraterísticas dos acionistas, nunca estará em causa. Vale a pena pensar numa segunda fase para fazer o turnaround (recuperação) da operação. É isso que é necessário fazer. Não é muito diferente do que tem vindo a acontecer na Santa Casa. Há um plano estratégico que será apresentado aos acionistas, será analisado e submetido à tutela e depois, se vier a ser aprovado, há que implementar.

O facto de não serem donos do terreno nem do edifício pode ter sido um obstáculo à operação? Acha que vão ter de chegar a um acordo com a Cruz Vermelha (dona dos ativos) para vender o hospital?
Não vejo que isso seja um constrangimento. É um contrato de concessão. As relações com a Cruz Vermelha portuguesa são excelentes, eu diria. Não vejo nenhum tema relacionado com a detenção ou não da propriedade do ativo. É uma atividade muito própria de exploração da atividade que vale por isso mesmo, pelo franchise que tem no mercado. A marca continua a ser valiosa e portanto o hospital tem prestígio no mercado em que se insere e são ativos fundamentais.

A Santa Casa vai ter de continuar a financiar o hospital com a Parpública?
Quando isso se mostrar necessário, sim.

Leilão de imóveis vazio? Queda do Governo pode ter motivado “algum receio de investidores”

Tem havido notícias sobre as dificuldades que a Santa Casa tem tido na venda de imobiliário, nomeadamente em leilões que, podemos dizer, falharam. Cumpriram os objetivos de receitas para 2024?
A área do património é muito sensível. Devemos ter uma urgência grande na execução do plano, mas não devemos ter uma urgência desmedida. Às vezes, fazer precipitar um processo de alienação de ativos sem ter um conjunto de cuidados e ter bons referenciais de avaliação de ativos pode revelar alguma precipitação. Não tenho uma leitura de que existam leilões falhados. Acho que há hastas públicas que tiveram grande sucesso e outras, como a que referiu em que apenas foi alienado um ativo [de ativos avaliados em 16 milhões de euros a Santa Casa vendeu apenas 59 mil euros].

Venda de imóveis: "As nossas expectativas até eram positivas, confesso. Talvez o momento político que vivemos e que se precipitou mesmo na altura da realização da hasta pública (11 de março) tenha conduzido a algum receio de investidores. Estamos a falar de produtos muitos especificados, por exemplo uma grande urbanização na Ajuda. Não é um produto de retalho".
Paulo Alexandre de Sousa, provedor da Santa Casa

Mas se ficou praticamente vazio pode considerar-se um falhanço…
As nossas expectativas até eram positivas, confesso. Talvez o momento político que vivemos e que se precipitou mesmo na altura da realização da hasta pública (11 de março) tenha conduzido a algum receio de investidores. Estamos a falar de produtos muitos específicos, por exemplo uma grande urbanização na Ajuda. Não é um produto de retalho. É para investidores, onde vão ser construídos cerca de 100 fogos. Exige um investimento significativo para além da compra do terreno. Acho que estamos a falar de um mercado muito particular. Não é um mercado corrente.

O leilão foi no dia 11 de marco, no dia da queda do Governo. Sentiu que isso teve impacto na realização do leilão para venda de imóveis?
Não podemos ter a certeza. Não estivemos com os investidores e não os questionámos. Esta tinha sido uma das hastas públicas onde tínhamos tido maior número de visitas prévias à realização do evento. E normalmente isso é uma boa previsão de que há interesse nos imóveis e de que pode vir a haver propostas.

Não acha que foi por causa do preço?
Não. Se achasse teríamos no devido tempo colocado o ativo com outro valor. É um ativo com uma dimensão muito significativa e que exige um esforço significativo de investimento. Acho que é mais isso. [Em causa está um terreno na Ajuda que foi a mercado por um preço de 12 milhões de euros].

Vão continuar a tentar vendê-lo em leilão?
Acho que a estratégia de comercialização de um ativo não é continuar a repetir indefinidamente um trajeto até que cheguemos ao ponto final de conseguir vender. Pode haver outras formas.

Uma venda direta?
Poderá existir, se for o caso. Neste momento não está prevista. Pode até ser repensado um outro cenário.

Admitem ficar com o ativo para o explorar diretamente?
Eventualmente. Neste momento a carteira de ativos é tão vasta, nomeadamente de ativos que não estão em uso e que não contribuem para a geração da receita — é esse o foco da alienação. Isso dá-nos opções para nos podermos focar mais um ativo ou noutro. Acho que a Santa Casa tem margem, desde que a tutela assim o entenda. E portanto temos vários caminhos.

[Já saiu o quarto episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]

Vai ser possível cumprir a meta de 66 milhões de euros da venda de imóveis para este ano, prevista no vosso plano?
Não temos nenhum projeto de investimento parado por insuficiência de fundos para o financiar. A urgência que colocamos na venda tem que ser proporcional às necessidades de investimento. Não vale a pena atribuir uma urgência desmedida à venda de património, se estamos neste momento a conseguir financiar os projetos que temos. Nenhuma obra parou por falta de fundos. Estão a ser lançados novos concursos. É verdade que com algum diferimento temporal face ao que estava previsto, mas que não nos preocupa minimamente.

Portanto há um desvio na receita que previam na venda de imóveis.
Sim. Mas neste momento temos 12 milhões de euros disponíveis para projetos de investimento.

Já agora, de onde vem esse valor? Da atividade de jogos?
Não. Os jogos são uma das fontes de financiamento da atividade corrente. Estava a referir receitas provenientes do plano de desinvestimentos. Vem da alienação de participações sociais.

Pode dar exemplos?
Sim. A venda de uma participação numa das clínicas CUF onde éramos acionistas minoritários, da venda de carteiras de ações que eram títulos cotados não estratégicos e foram alienados. Na prática [vem] do grupo de ativos que estava identificado no plano e de alguns imóveis que foram vendidos.

Quanto é que venderam em imóveis?
A receita não chega aos 10 milhões de euros.

Da vossa carteira, cerca de 630 imóveis não geram receitas. Quando se fala tanto em crise da habitação e de soluções, já percebeu porque não foi possível colocar esses imóveis a render? Ou criar soluções de arrendamento?
Posso dar alguns exemplos do que já foi colocado a render desde o meio do ano passado. E são muitos. Voltamos a colocar em atividade um piso do edifício Maria José Nogueira Pinto, da unidade de cuidados continuados, onde abrimos mais 15 camas. Fizemos a inauguração da residência Raquel Ribeiro em Monsanto que estava há três anos pronta e sem uso, num total de 66 camas colocadas ao serviço da sociedade. Fizemos o aproveitamento de uma ala que estava completamente abandonada no Hospital de Sant’Ana na Parede com mais 41 camas. Reabilitámos o Convento do Grilo.

▲ Paulo Alexandre de Sousa foi nomeado provedor da Santa Casa em maio de 2024.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A questão tinha mais a ver com o uso do património para habitação a preços acessíveis…
Demos uso social e essa é a prioridade. Há outros ativos que não podem ter este uso. Por exemplo, fizemos um protocolo com o IHRU (Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana) onde colocámos 100 apartamentos no programa arrendar para subarrendar. Estamos a trabalhar na recuperação de alguns ativos para colocar em arrendamento jovem. As características do ativo e o estado de degradação de muitos exigem processos de investimento morosos, caros, e não é de um dia para o outro que os imóveis se colocam no mercado.

“Não há forma de recuperar uma parte significativa do investimento” na área internacional

Haverá projetos que vão exigir decisões da tutela que são políticas e que não podem ser tomadas por um governo em gestão corrente?
Neste momento não temos nenhuma situação. As propostas que vão sendo feitas à tutela decorrem da normal atividade e vão sendo despachadas pela senhora ministra à medida da análise que é feita e dos pareceres. Não sinto nenhuma perturbação. Há temas que são urgentes e inadiáveis e que têm um enquadramento próprio e há outros que seguirão o processo normal ao nível do Governo.

Estava a pensar no plano que entregaram ao Governo para desinvestir na área internacional. Quer-nos dizer o que foi feito?
Esse plano é, na prática, um instrumento muito detalhado que caracteriza, em primeiro lugar, tudo o que é a operação internacional que foi montada nos jogos da Santa Casa. Enquadra as sociedades que nas várias geografias foram constituídas. Faz um ponto de situação sobre a atividade de cada uma delas. Recebemos um número significativo de operações internacionais sem qualquer tipo de atividade. Basicamente com dívidas, processos em tribunal e litígios com outros acionistas. É uma operação difícil. Há uma exceção clara que é atividade da Sojogo em Moçambique em que Santa Casa participa há mais de 20 ano. E também duas sociedades que temos em conjunto com a Française des Jeux em França no domínio dos jogos, nomeadamente também ao nível das parcerias internacionais do Euromilhões e um agrupamento que temos para as questões operacionais. Estas são as exceções.

E estas vão permanecer.
Exatamente. Para todas as outras, já foi comunicada à tutela a intenção de iniciar o processo, que em alguns casos já está em curso, de dissolução e liquidação das sociedades e de resolução dos problemas que existem de forma faseada e controlada, tentando minimizar os seus impactos.

"Recebemos um número significativo de operações internacionais sem qualquer tipo de atividade. Basicamente com dívidas, processos em tribunal e litígios com outros acionistas. É uma operação difícil. Há uma exceção clara que é atividade da Sojogo em Moçambique em que Santa Casa participa há mais de 20 ano. E também duas sociedades que temos em conjunto com a Française des Jeux em França".
Paulo Alexandre de Sousa, provedor da Santa Casa

Sabe quanto vai custar?
Temos estimativas nas nossas contas através das imparidades. Mas importa ter o plano aprovado que é o que vai determinar o caminho e aí poderemos dar nota de um número final de expectativa do que vão ser os prejuízos nesta área. É inequívoco. Não há forma de recuperar uma parte significativa do investimento. Acho que essa consciência já todos temos.

Ainda não têm a aprovação do governo para executar esse plano de desinvestimento na área internacional?
A última versão do plano foi agora remetida. Nós quisemos ter, num conjunto de matérias, segundas opiniões, nomeadamente em áreas jurídicas, sob alguns temas difíceis que estão consagrados no plano. Isso demorou mais tempo e, neste momento, toda a informação está completa e, portanto, eu penso que agora a tutela terá condições de poder vir a tomar a decisão final sobre esta matéria.

A tutela do próximo governo?
Naturalmente, aquela que vier a decidir sobre a matéria. Mas o plano de reestruturação já conceptualizava um conjunto de medidas. Mas não com o nível de informação que hoje temos, que é muito superior, e não com o enquadramento técnico de questões jurídicas, legais, financeiras, que também foram agora abordadas. Acho que é mesmo uma versão muito, muito final daquilo que pode ser o caminho.

Descobriram mais esqueletos no armário ou surpresas desagradáveis em relação ao diagnóstico que receberam da anterior administração, até porque tinha uma auditoria bastante completa às operações internacionais?
Tínhamos uma auditoria que era supostamente uma auditoria forense. Eu penso que temos vindo a ter alguma informação adicional. Mas isso é próprio nestes processos. Até pela dimensão dos mesmos e da complexidade. Eu não revelo isso como aspetos fundamentais. O que eu acho que é fundamental neste momento é percebermos qual é o caminho que temos de traçar e que ações concretas é que têm de ser tomadas em cada uma das sociedades. É o fundamental para tentarmos, de uma vez por todas, arrumar este dossiê.

Já disse que estão a dissolver sociedades. Acha que conseguem vender alguma coisa com algum encaixe que possa reduzir as perdas? Nesta área chegou a falar-se em 50 milhões de euros, não sei se esse número foi revisto.
Depende daquilo que vier a ser o plano aprovado e aí poderemos ter um número final. Eu acho que será seguramente superior a 50 milhões. Isso é garantido. Agora, se conseguiremos vender… por exemplo, nós temos um processo negocial em curso numa das sociedades. Se ele vier a ser aprovado pode vir a ter uma minimização do prejuízo.

É uma sociedade no Brasil?
Vão-me permitir que não adiante porque é um processo com acordos de confidencialidade assinados pelas partes e portanto é natural que não o possa referir. Mas isso pode determinar maior amplitude ou menor dos resultados. Não quereria precipitar nenhum número porque o número final está dependente do resultado destes processos negociais.

Um dos grandes riscos eram os processos judiciais que a Santa Casa poderia enfrentar, em parte porque a anterior gestão deixou de mandar dinheiro nomeadamente para o Brasil. Têm muitos processos e pedidos de indemnização por causa da internacionalização?
Temos alguns processos de dívidas existentes no Brasil que estão a ser tratadas e há uma proposta de lidar com várias áreas de cariz diferente. Algumas na área do trabalho, outras de índole fiscal, outras de relação com sócios fruto da relação comercial estabelecida. Eu penso que não é isso que é o mais importante. É claro que há uma operação com um montante relevante e que teve a ver com a interrupção de um plano de pagamentos…

A lotaria do Rio de Janeiro?
É um aspeto muito relevante, mas esse é um processo totalmente conhecido e portanto há que lidar com ele.

Desde que está em funções a Santa Casa apresentou mais alguma queixa ou fez mais alguma denúncia ao Ministério Público relacionado com a operação internacional?
Sim, tinha havido uma denúncia feita anteriormente pela mesa. O que esta mesa fez foi aportar ao processo um conjunto de documentação relevante que eu acho que pode permitir materializar o processo de investigação por parte do Ministério Público. É uma obrigação que temos e portanto foi o que fizemos.

2024 foi “o melhor dos últimos cinco anos de atividade da Santa Casa”

Um dos focos do plano de reestruturação tem a ver com a redução do número de trabalhadores. Em 2024 saíram 124 pessoas. Espera que sejam menos 143 este ano. É suficiente? Como é que esse plano está a correr, está a ser cumprido de acordo com as vossas expectativas?
O plano foi conceptualizado com esse objetivo e portanto é isso que vamos cumprir. Desde o primeiro momento fizemos um ponto de honra em garantir que não haveria despedimentos na Santa Casa e é isso que estamos a cumprir. Mas estamos, por exemplo, a dar foco a programas de pré-reforma e ainda agora está a correr mais uma iniciativa. Começou no mês passado e vai ainda decorrer durante mais alguns dias.

E já tem quantas adesões?
Tínhamos 42 na passada sexta-feira. É um processo normal que isso entrou na vida da organização. Há pessoas que percebem que podem antecipar o seu termo da colaboração com a Santa Casa num contexto em que as respeitamos e que lhe damos oportunidade para ter outras opções e fazer coisas diferentes. Eu acho que isso é ótimo e portanto acho que é nesse contexto que vamos continuar.

Disse que havia muitas pessoas que já tinham passado a idade de reforma e que continuavam a ter contratos de trabalho. Chegou a dizer que havia pessoas com 80 anos a trabalhar na Santa Casa. Isso ainda acontece? Como é que estão a gerir essas situações?
Se eu disse era porque existia. O que estamos a fazer é, no estrito respeito pelos contratos, quando há lugar à denúncia dos mesmos, a denunciá-los, porque entendemos que a casa tem uma percentagem de pessoas em segmentos mais elevados muito significativa. Os jovens dentro da estrutura etária nem sequer representam 2% do total dos quadros da instituição. É preciso fazer um processo de passagem de conhecimento, de transformação organizacional e isso tem de se fazer com sangue novo, com respeito com aqueles que ali estão há muitos anos, e portanto é isso que estamos a fazer, mas dentro de tudo aquilo que é o espírito normal dos contratos, cumpri-los, mas manifestar a nossa intenção de não os prorrogar.

E têm contratado jovens?
Em algumas áreas mais específicas, por exemplo, na área da enfermagem, houve um crescimento significativo de quadros, nas áreas de apoio social também. Tem havido áreas específicas onde temos tido maior sucesso, depois há áreas onde gostaríamos de o fazer com maior intensidade e temos tido maior dificuldade, nas tecnologias de informação, por exemplo, onde temos uma aposta clara e onde não temos sido tão bem sucedidos porque isso é uma dificuldade do próprio mercado, não tem a ver com a Santa Casa.

▲ Paulo Alexandre de Sousa apresentou no ano passado um plano de reestruturação da Santa Casa que será executado até 2027

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Como é que fechou o ano de 2024 em termos de receitas e resultados?
Nós apresentámos até ao prazo previsto nos estatutos, que era até ao final do último dia do mês de março, as contas para aprovação da tutela, que serão agora analisadas e aprovadas, mas há alguns dados que podemos partilhar. 2024 é o melhor ano dos últimos cinco anos de atividade da Santa Casa em termos financeiros.

O melhor ano após a pandemia?
Exatamente. O resultado líquido é positivo, superior a 30 milhões de euros, e, portanto, acho que é excelente após um período de quatro anos de resultados negativos, de mais de 130 milhões de euros [inclui prejuízos entre 2020 e 2023, considerando que neste ano o resultado seria negativo sem os 32 milhões de euros transferidos pela Segurança Social], e, portanto, acho que é um marco para as equipas da Santa Casa ter conseguido inverter. Recordo que no ano passado o resultado foi de cerca de 2,5 milhões. Este ano estamos a falar de 30 milhões. A receita corrente cresceu 4,2% e os custos mantiveram-se relativamente constantes e, portanto, este é um aspeto muito positivo. A receita corrente cresce 34% se compararmos com 2020, que é um aspeto também muito relevante. Em termos operacionais há resultados ótimos e, acima de tudo, em termos de receita corrente ela ficou 4,5 milhões acima da meta estabelecida no plano de reestruturação e a despesa corrente ficou 14,5 milhões abaixo do estabelecido no plano de reestruturação e, portanto, o resultado líquido superior em 20 milhões ao que tínhamos previsto no plano.

Esse aumento da receita é uma recuperação dos jogos sociais?
É uma recuperação dos jogos sociais. Quando tomámos posse, os jogos sociais tinham um desvio negativo fortíssimo face ao ano anterior e introduziu-se um conjunto de medidas e foi possível chegar ao final do ano com uma variação positiva. As nossas vendas atingiram 3.143 milhões de euros, portanto, muito significativo, acima do ano anterior e de todos os demais anos, só ultrapassado pela receita de 2019 e, portanto, antes da pandemia, onde, de facto, as receitas eram muito significativas. Mas gostava também de destacar nos jogos que este foi o maior ano de sempre em termos de prémios pagos, 2,7 mil milhões. Foi o maior ano de sempre de imposto de selo gerado, 211,6 milhões, cerca de 10,3% do total da receita fiscal do Estado e foi também um dos anos mais significativos do montante gerado e entregue ao Estado, cerca de 895 milhões de euros entregues, quer ao nível da distribuição de resultados, de beneficiários, quer de imposto de selo.

"Gostava também de destacar nos jogos, este foi o maior ano de sempre, em termos de prémios pagos, 2,7 mil milhões, foi o maior ano de sempre de imposto de selo gerado, 211,6 milhões, cerca de 10,3% do total da receita fiscal do Estado e foi também um dos anos mais significativos do montante gerado e entregue ao Estado, cerca de 895 milhões de euros entregues". 
Paulo Alexandre de Sousa, provedor da Santa Casa

E que jogos é que se destacaram nessa recuperação?
Não há alterações profundas no mix dos jogos, globalmente há um crescimento forte nas vendas. Por exemplo, a lotaria cresceu bastante e é importante porque é um jogo que, em termos de adição, nos deixa perfeitamente tranquilos. Foi investido muito naquilo que era o reconquistar de um território de comunicação, da tradição, das lotarias especiais, de alguém que compra uma cautela para oferecer no Natal ou no Dia do Pai e, portanto, conseguiu-se dar esse salto. Foram feitas alterações significativas ao nível da redistribuição, novos mediadores a entrar e a alteração tecnológica de todo o parque de máquinas. Hoje, quando chegam a um mediador da Santa Casa veem um equipamento totalmente diferente, moderno, com novas capacidades.  E, acima de tudo, há uma alteração significativa na logística. E isso permitiu termos sempre jogo disponível, responder aos pedidos dos mediadores de forma muito atempada e isso cria dinâmica e cria resultados, cria vendas na prática.

É expectável que os resultados continuem a crescer?
Temos muito bons indicadores relativamente ao cumprimento dos objetivos até março de 2025 e, portanto, até agora, muito confortáveis.

Raspadinha? “Não sei se esse é o nosso problema maior de adição”

Faz sentido lançar produtos novos ou não está no vosso horizonte?
Faz sentido lançar produtos novos, está no plano. Não vou desvendar quais são os produtos, como compreenderão, mas claro que faz sentido.

Por exemplo, o Eurodreams que foi lançado ano passado não foi um grande sucesso…
O Eurodreams está a ter bons resultados.

O prémio raramente sai…
Mas quando sai é espetacular. Ter durante tantos anos um valor tão elevado (20 mil euros) por mês… Mas o Eurodreams está na fase de introdução e é um jogo que eu acho que vai ter bons resultados.

Que percentagem dos resultados da Santa Casa diz respeito à raspadinha?
A raspadinha é um jogo muito relevante em termos de vendas, tem uma representatividade muito grande.

Há pouco falava em adição, não o preocupa?
Eu acho que hoje temos fenómenos na nossa sociedade muito mais complexos em termos de adição do que a raspadinha. Em primeiro lugar, porque os fenómenos de adição que possam existir na raspadinha são visíveis. Estão garantidos todos os pressupostos, por exemplo, se quiser auto-excluir-se e pedir para deixar de ser permitido jogar. Nós temos os sistemas e os meios de acompanhamento que garantem. Temos uma política de jogo responsável onde estamos a investir imenso e, portanto, temos consciência de que, existindo uma preponderância grande da raspadinha, há outros fenómenos muito mais preocupantes no mercado. Nós temos uma linha de apoio contratada com uma entidade externa para jogadores que acham que estão em situação de risco. Mais de 60% das chamadas que recebemos não têm a ver com os jogos sociais do Estado, com os jogos da Santa Casa, têm a ver com o jogo online, em que continuamos a dar suporte e a atender.

"Temos fenómenos na nossa sociedade muito mais complexos em termos de adição do que a raspadinha.(...) temos uma linha de apoio contratada com uma entidade externa para jogadores que acham que estão em situação de risco. Mais de 60% das chamadas que recebemos não têm a ver com os jogos sociais do Estado, com os jogos da Santa Casa, têm a ver com o jogo online, em que continuamos a dar suporte e a atender."
Paulo Alexandre de Sousa, provedor da Santa Casa

Mas o risco das raspadinhas não é precisamente o facto de as pessoas que apostam não se aperceberem de que grande parte do rendimento, ou uma boa parte do rendimento, vai para aquilo?
Eu acho que lhe vou dar um dado que lhe ajuda. A raspadinha representa cerca de 8% do total do jogo em Portugal. Eu não sei se esse é o nosso problema maior de adição. Os jogos sociais do Estado representam cerca de 15% do total do jogo em Portugal.

O resto é jogo online?
Jogo online, maioritariamente. Que é um fenómeno mais encoberto, com problemas hoje relevantes e, portanto, de facto temos uma preocupação grande com a raspadinha, mas eu acho que temos que conhecer os dados e perceber qual a sua materialidade e o que eles significam para a sociedade.

Acha que não está a ser tratada como deveria, essa questão do jogo online? Também não é um fenómeno assim tão antigo quanto isso.
Não, é um fenómeno recente, mas que ganhou muita dimensão, nomeadamente durante o período da pandemia. Na altura tivemos um decréscimo.

Houve até entidades que fizeram estudos sobre a raspadinha e o perigo da raspadinha. Sente que há um foco maior na raspadinha e que há uma certa desvalorização da questão do jogo online que referiu e que, pelo números que tem, é muito mais grave?
Eu acho que quando estudamos fenómenos de adição temos que olhar para o mercado e ver as várias componentes. Quando nós, à partida, pré-definimos que temos um foco, e estou a referir-me a um estudo conhecido e publicado, e para alguém que vem de uma faculdade onde as áreas da investigação, da estatística são relevantes, eu não me posso conformar que um estudo que é cientificamente bem executado possa deixar de lado a maior das componentes do mercado que hoje, como referi, tem uma relevância muito grande da adição e, em particular, em relação a alguns segmentos etários, como são, por exemplo, os jovens. E, portanto, eu não posso estar de acordo com algumas das conclusões quando elas são parciais.

De que forma é que o plano de reestruturação afetou ou está a afetar a área das prestações sociais?
Eu acho que está a afetar bem, porque nós crescemos muitíssimo em termos de respostas sociais. Este ano, quer na área da saúde, quer na área social, nas várias dimensões, seja na área dos idosos, seja na área das crianças, da infância, quer na área do apoio aos cidadãos em situação de sem abrigo. Portanto, o que o plano queria, e acho que está a conseguir, é não diminuir a atividade social da Santa Casa, se possível aumentá-la, foi o que fizemos, mantendo uma atividade sustentável. Quase todos os meses há novas respostas a serem abertas, e, portanto, isso não tem prejudicado a curva da exploração.

Não sei se quer destacar mais alguns exemplos?
Os dois últimos, na área dos cidadãos em situação de sem abrigo, o recolhimento do Grilo, que pode ir a uma capacidade, quando as obras terminarem, até 90 camas. Mais o alojamento aberto recentemente, já este ano, na Saudade, perto da zona do Castelo, onde temos mais 48 vagas.

Essa é uma área prioritária para vocês, a área dos sem abrigo?
Eu acho que estando na cidade de Lisboa e tendo um papel como aquele que a Santa Casa tem, tendo uma missão, nós não podemos estar longe desta realidade.

E tem sentido necessidade de dar mais resposta nos últimos meses?
Eu acho que é uma realidade que está à volta de qualquer um de nós, com que nos cruzamos no dia-a-dia. É uma atividade que está na missão histórica da Santa Casa. Quando fomos criados, quando a Rainha D. Leonor instituiu as Misericórdias, havia um conjunto de obras de Misericórdia. Esta está lá. E, portanto, faz desde sempre parte daquilo que é o nosso sentido para com a sociedade. E hoje é um problema muito relevante, em particular na cidade de Lisboa. Até tem tido algumas respostas e isso serve também como fator de atração para pessoas que nos procuram, para além do facto de termos hoje uma realidade em termos de imigrantes também diferente.

Há uma parte que tem a ver com a imigração?
Também. Por exemplo, o alojamento da Saudade tem um conjunto de camas reservado para alojamento de emergência para imigrantes.

E vocês conseguem perceber quantas dessas pessoas é que estão nessa situação porque a cidade não dá ofertas de habitação? Não porque estejam necessariamente desempregadas, mas porque não conseguem arranjar casa?
É claro que o problema da habitação agravou de sobremaneira o acesso de cidadãos com menores condições económicas ao mercado da habitação. A Santa Casa investiu 3,5 milhões de euros em 2024 em apoio a rendas a cidadãos com carência económica significativa em que os apoia a encontrar um quarto, uma casa. Não deixámos de ter esse apoio, pelo contrário, até o aumentámos. Quando hoje vemos alguém que tem um trabalho, recebe um ordenado e não consegue ter casa, isso era uma dimensão que para qualquer um de nós era impossível há uns anos. E, portanto, muitas vezes pessoas que vieram para Portugal conseguiram ter um emprego, perderam um emprego, voltaram a entrar no mercado, se calhar em condições diferentes e que não conseguem encontrar uma solução. É preciso dar às vezes este passo, de ajudá-las a voltar a integrarem-se. E houve várias reportagens sobre algumas das pessoas que temos vindo a apoiar e é notável ver o percurso em que, às vezes, esta pequena mão invisível pode dar uma ajuda para transformar vidas.

Provedor faz quase um ano de mandato

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O nome do novo provedor foi anunciado pela ministra da Segurança Social em maio passado numa audição no Parlamento depois de Maria do Rosário Ramalho explicar porque afastou a anterior mesa de Ana Jorge. Paulo Alexandre de Sousa é um economista que fez carreira na banca (no grupo Caixa Geral de Depósitos), com uma passagem pelo setor social, nomeadamente pela Cruz Vermelha Portuguesa. Foi nomeado para um mandato de três anos, renovável. Tem 57 anos. Entre os seus hobbies estão a cozinha e as caminhadas.

Estando há quase um ano em funções, acha que a anterior gestão fez tudo mal ou houve coisas positivas e que consegue destacar?
Quando assumi esta função, aquilo que me propus foi traçar um rumo para a Santa Casa. E esse rumo passava por um rumo de sustentabilidade, de cumprimento da sua missão. E é nisso que estou focado. Na minha missão não está previsto fazer uma avaliação daqueles que me antecederem, nem um juízo de valor, muito menos juízo político. Aqueles que me conhecem sabem que não é esse o meu foco no dia-a-dia. Portanto, não será diferente aqui na Santa Casa do que foi em todo o resto da minha vida, muito focado no futuro da organização, acima de tudo.

Algum dos administradores que foi na altura afastado pelo governo processou a Santa Casa?
Isso é uma questão que eu acho que podem colocar aos próprios.

Houve uns que ameaçaram, por isso é que estava a perguntar.
Eles, melhor do que eu, poderão dizer o que os move, se é que o fizeram e, portanto, quais os propósitos. Também não gostaria de comentar essa questão.

Houve um período com muitas notícias negativas em torno da Santa Casa. Sentiram que houve algum impacto no valor das doações por causa de um aumento da desconfiança em relação à instituição?
Eu acho que a Santa Casa viveu um período, em termos reputacionais, complicado. E, portanto, fingir que nada aconteceu não é a solução. Acho que, acima de tudo, esse período foi muito contundente para as nossas equipas, que continuaram sempre a dar o máximo e que em nada se reviam na imagem das situações que vieram a público. E, portanto, eu acho que é fundamental que essas equipas possam ganhar a confiança de sempre. Uma instituição com 527 anos, que é a idade da Santa Casa, com certeza teve muitos períodos menos bons, períodos fantásticos. Há que ultrapassar este período menos bom e reganhar essa confiança.

"A Santa Casa viveu um período, em termos reputacionais, complicado. E, portanto, fingir que nada aconteceu não é a solução.(...) Mas "não sinto, no dia-a-dia, que a Santa Casa tenha deixado de ser um parceiro ativo na cidade de Lisboa e no país, que tenha deixado de cumprir a sua missão e que as pessoas tenham deixado de acreditar que, se não houvesse Santa Casa". 
Paulo Alexandre de Sousa, provedor da Santa Casa

Portanto, houve impacto?
Eu acho que esses sistemas são sempre conjunturais. Ainda hoje assinei uma carta de agradecimento de uma doação. E, portanto, não lhe consigo dizer se estão ao mesmo ritmo que estavam nos últimos 10 anos, até porque isso depende muito de fenómenos que são efémeros e que não são previsíveis. Não sinto, no dia-a-dia, que a Santa Casa tenha deixado de ser um parceiro ativo na cidade de Lisboa e no país, que tenha deixado de cumprir a sua missão e que as pessoas tenham deixado de acreditar que, se não houvesse Santa Casa, seria muito mais difícil lidar com os problemas sociais que encontramos na cidade e no país. Acho que as pessoas mantêm um voto de confiança na Santa Casa e nas suas equipas e na sua missão e eu acho que isso não está questionado. Acho que estamos numa fase, assim esperamos, positiva e, portanto, é essa a mensagem.

O facto da comissão de inquérito à gestão da Santa Casa ter caído com a dissolução da Assembleia da República, é, de certa forma, um alívio para a instituição e para si?
Eu não diria que é um alívio. É o resultado de um processo que estamos a viver no país. Eu acho que todos nós temos o dever de partilhar informação que é relevante para, neste caso, uma comissão de inquérito em sede da Assembleia da República poder tirar as conclusões que entenda que são relevantes sobre a gestão da instituição e as respetivas tutelas, porque era esse o foco. É claro que isso iria perturbar aquilo que é a imagem pública da instituição porque é impossível não ficar associado à informação que vem a público. Mas acho a comissão de inquérito uma coisa perfeitamente normal e nós iríamos ter que lidar com ela.

E pode voltar… não sabemos.
E pode voltar e, portanto, cá estaremos, se isso acontecer, preparados para fornecer toda a informação. Nomeadamente aquela que a lei consagra que deve ser fornecida. E, portanto, é nesse contexto que estávamos. Mas, acima de tudo, eu acho que isso permite que nos foquemos naquilo que é essencial neste momento, que é implementar as medidas que temos de implementar. Aí vejo que, claro, há uma refocagem da organização.

A Santa Casa teve de disciplinar os apoios ao desporto e à cultura. Acha que essa disciplina era necessária, não só por causa da sustentabilidade da Santa Casa, mas também porque havia um “excesso de generosidade” nos apoios a eventos?
A disciplina é sempre saudável. E nos patrocínios e apoios também. Acima de tudo, permite que se meça o retorno do investimento que é feito. Talvez essa fosse a única área onde era menos visível, em alguns casos, qual era o retorno expectável. E, portanto, ter que haver um compromisso interno de apresentar uma proposta, ter que haver um orçamento que tem que ser respeitado forçosamente e uma medida de impacto, acho que são medidas saudáveis para que se tomem as melhores decisões, independentemente da área se é cultura, se é desporto.

Os cortes nos apoios ao desporto foram, talvez, o primeiro sinal de alerta para os problemas financeiros da Santa Casa, em termos de opinião pública…
Eu diria que o mais visível, talvez. Não o primeiro nem o principal. Porque, infelizmente, e isso é para mim, talvez, o mais relevante, houve muito investimento interno que foi cortado. E hoje, quando temos, por exemplo, património degradado sem ter sido reabilitado, isso é um reflexo, se calhar, de investimento que foi cortado. Ou de investimento que foi utilizado para tesouraria. E, portanto, se calhar hoje não temos o nível de atualização tecnológica que devíamos ter porque foram deixados de executar investimentos relevantes nessa área. Portanto, há muitos temas que eu acho que são muito mais relevantes para a organização do que esse tema. Esse é mais visível, acima de tudo.

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