Maria estava cansada de correr de médico em médico e de ouvir sempre a mesma resposta: “Traga cá a sua irmã.” Ana não saía de casa, virava-se contra ela, estava cada vez mais agressiva e recusava qualquer ajuda… como poderia convencê-la a ir a um psiquiatra? Maria estava perdida e desanimada quando numa ida às compras se cruzou com Ticas. Desabafou. Ticas olhou para ela e pediu-lhe: “Não desista da sua irmã. Vá contra os seus pais, vá contra o que for, não desista.”
Maria Trigueiros de Aragão Lince nunca mais esqueceu a frase. O conselho da amiga não era apenas teórico. Ticas Graciosa sabia do que falava. Tinha apenas cinco anos quando o pai matou a mãe e posteriormente acabou com a própria vida. Faz questão de dizer que “morreu de suicídio”, em vez do tradicional “matou-se”, porque Ticas não se cansa de dizer que havia doença no pai. “Quem mata e morre de suicídio é quem já não está bem”, diz. “Morre da doença.” Ainda assim, Ticas cresceu a ouvir versões truncadas do que acontecera, a ver o silêncio a ocupar o lugar de respostas ou conversas apaziguadoras e a perceber, demasiado cedo, como a doença mental pode destruir uma família inteira – não apenas pelo sofrimento de quem adoece, mas também pelo que os outros escolhem não ver, não nomear ou não fazer.
Ticas e Maria conhecem-se há décadas. Vieram de famílias que se cruzavam, de histórias antigas, de mundos próximos. Hoje, são também dois testemunhos que se tocam num ponto essencial: numa doença mental grave, a família é determinante. Pode ser colo ou pode ser peso. Pode salvar tempo, pode salvar vidas, ou pode chegar tarde demais. “Sem a família nenhum doente caminha”, diz Ticas. “Um doente mental sozinho, abandonado e desconsiderado, faz maratonas com a perna partida, sem bengalas, sem nada”, ilustra.
Ticas fala do pai sem ódio, com amor. A frase pode soar estranha a quem nunca viveu com a ideia de que alguém pode ter sido, ao mesmo tempo, agressor e doente. Mas é a forma como ela escolheu organizar a própria história. O pai não era apenas um homem violento com comportamentos desadequados. Era um homem doente, a desorganizar-se à frente de todos, numa casa onde os sinais existiam e, ainda assim, não foram tratados como deviam. “Perturbação Obsessivo-Compulsiva” será o diagnóstico mais provável, segundo Ticas, mesmo que à época se fugisse do tema.
Lembra-se de episódios que prefere não descrever em detalhe. Basta dizer que a mãe tentou alertar. Fez reuniões. Pediu ajuda. Disse, mais do que uma vez, que alguma coisa de muito grave podia acontecer. Amigos próximos alertaram. A família desvalorizou. Havia preconceito, vergonha, uma leitura enviesada daquilo que se passava. Há 35 anos não havia nenhuma instituição de apoio à vítima, pelo que o papel da família ainda era maior e o seu pai só poderia ter sido internado com o consentimento da família.
Ticas tinha cinco anos quando a sua vida mudou para sempre. Não soube logo o que acontecera. Disseram-lhe uma versão atenuada, como tantas famílias fazem quando a verdade parece insuportável. Mais tarde percebeu. E o que mais a marcou não foi apenas o que o pai fez. Foi o silêncio que veio depois. O modo como se deixou de falar dele, da mãe, da doença, da morte. “As pessoas ficam definidas pela maneira como morreram e há um silêncio enorme”, diz. Percebeu na pele que quando uma tragédia destas acontece há uma enorme dificuldade das famílias em assumirem, pois foi-lhe dito por um familiar do pai que a mãe tinha sido a culpada do que acontecera, a mãe provocara a tragédia. Uma tentativa desonesta de atenuar o que o pai fez, manchando a honra da mãe. Valeu-lhe ter crescido a ouvir a família materna falar sempre da sua mãe e do seu pai com amor e respeito pelos dois.
Esse silêncio tornou-se, para Ticas, um dos maiores inimigos. Hoje é psicóloga e é contra o silêncio que fala em escolas, empresas, projetos e livros. É contra ele que insiste numa distinção que repete várias vezes: uma pessoa pode matar, mas uma pessoa quando sofre de uma doença mental também pode morrer de suicídio. “Ainda não se olha para a doença mental como uma doença que mata. Enquanto não se respeitar isso, a vergonha e o preconceito vão dar sempre silêncio”, reforça.
Na história de Maria, não houve uma tragédia súbita, mas um longo processo de desorganização que se foi instalando, sempre a piorar. Maria tem hoje 46 anos. Cresceu, diz, numa casa feliz, estável, divertida. Ela e a irmã mais nova, cinco anos de diferença, eram as melhores amigas. E durante muito tempo nada fazia prever o caminho que viria a seguir.
Maria situa os primeiros sinais por volta dos 16 anos da irmã, depois de várias perdas familiares duras, como a morte da avó materna ainda em plena adolescência. Maria lembra-se de Ana ser já mais introvertida, mais calada… mas foi nesse período que alguma coisa se tornou diferente. A leitura clínica que mais tarde lhe deram foi de uma esquizofrenia, precipitada por acontecimentos traumáticos sobre uma vulnerabilidade que talvez estivesse já na irmã.
A partir daí, a vida foi-se fechando devagar. A irmã ainda estudou, ainda tentou reorganizar-se. Mas foi perdendo amigos, cortando laços, abandonando sítios, deixando de ir a lugares onde antes gostava de estar.
Quase 20 anos passaram assim, entre agravamentos, retraimento, agressividade e uma casa onde a doença estava cada vez mais presente, mas nem sempre reconhecida com a urgência que exigia. Maria não descreve este tempo como falta de amor dos pais. Faz até questão de o negar. “Nunca senti falta de amor.” O que sentiu foi outra coisa: uma proteção da irmã, mas de uma forma que a fazia continuar doente e não tratar a esquizofrenia de forma adequada.
Quando a doença já estava muito avançada, a agressividade tornou-se parte do quotidiano. A irmã partia copos atrás de copos. Atirava objetos. Gritava. Dizia que odiava Maria e que queria acabar com ela. Mais tarde, no internamento, já não se lembrava dessas cenas mais graves. Lembrava-se de ter sido agressiva. Lembrava-se dos gritos. Mas a parte mais violenta parecia apagada. Maria prefere ver nisso uma espécie de defesa do cérebro.
O mesmo aconteceu com o cunhado. Houve fases em que a irmã o odiava, em que dizia querer acabar com ele. E, no entanto, em casa estavam também as filhas de Maria, as sobrinhas. E aí a fronteira nunca foi a mesma. Havia medo, claro, sobretudo porque Maria conhecia histórias como a de Ticas e sabia que certas doenças graves podem virar-se contra quem a pessoa mais ama. Mas nunca proibiu a irmã de estar com as filhas, nem o marido o fez. “Se fosse ao contrário, se calhar eu não deixava”, admite Maria, ainda hoje impressionada com a capacidade do marido de segurar também esse lado da história.
O que mais a espanta, olhando para trás, é como a vida pode caber em simultâneo no terror e no afeto. A irmã podia voltar-se contra ela, mas nunca contra as sobrinhas. Podia destruir-lhe a casa, deitar no lixo coisas de valor e, ao mesmo tempo, continuar a ser a tia que elas adoravam. A doença não anulava totalmente a pessoa, mas desorganizava-lhe o mundo ao ponto de a tornar imprevisível dentro da própria família.
O testemunho de Maria é essencial para se perceber a importância da família. O que mais lhe custou não foi apenas a doença da irmã, mas o modo como se tentava suavizar e esconder o que era evidente. Numa doença mental grave, percebeu, a família pode tornar-se um obstáculo precisamente por amor: porque não aguenta ver, porque não suporta nomear, porque acredita que reconhecer a gravidade é desistir da pessoa. Quando, muitas vezes, é o contrário.
Maria passou anos a tentar tratar a irmã. Foram anos de psicólogos, psiquiatras, consultas, faltas de resposta, insistências que batiam num sistema burocrático e numa resistência enorme dentro de casa. Havia profissionais que, aos olhos de Maria, andavam demasiado à volta do problema e pouco à frente dele. O que a revoltava era sentir que o tempo passava e a irmã piorava. Foi quando finalmente encontrou a psiquiatra certa, que se pôs em marcha um pedido de internamento compulsivo, também atribulado, que começou a mudança.
Num dia Maria leu no Observador algo sobre esquizofrenia e lembrou-se que tinha um amigo de infância que lhe indicou a Dr.ª Sofia Brissos, a única psiquiatra que nunca desistiu da Ana.
A irmã de Maria acabou por ser internada. Pesava 39 quilos. Tinha obsessões muito concretas, uma delas era a cor amarela, que associava a desgraças iminentes. Não comia. Vivia fechada. No hospital, pouco a pouco, a equipa foi trabalhando medos, comportamento, medicação, estabilização. Seguiu para quase dois anos de internamento numa unidade dedicada à recuperação de patologias na área da saúde mental.
A irmã hoje “está espetacular”, diz. Não curada no sentido simplista da palavra. Estável. Feliz. Independente. Com vida. Sai, vai, quer aproveitar. Quer tirar a carta, já finalizou um curso profissional na área da saúde, já trabalha e vive sozinha, ao mesmo tempo que quer recuperar o tempo perdido.
Hoje Maria recorda o encontro com Ticas como pequeno e decisivo ao mesmo tempo. Não porque a frase “não desista”, sozinha, tratasse a irmã. Não tratou. Mas porque, por vezes, o que impede uma família de desistir não é uma solução técnica. É encontrar outra pessoa que saiba o que significa chegar tarde demais.
Ticas sabe-o melhor do que ninguém. Por isso diz que o problema das famílias não é falta de amor. É, muitas vezes, falta de conhecimento, de ferramentas, de capacidade para respeitar a doença antes de a julgar. “Nós não somos todos psicólogos clínicos nem psiquiatras”, diz. “Mas temos todos os dias a capacidade de decidir ser peso ou leveza na vida uns dos outros”, mesmo sabendo que acompanhar uma pessoa com doença mental grave é cansativo, assustador e um caminho de muitas dúvidas.
Ticas diz que não se trata de aceitar. Trata-se de respeitar. Respeitar o doente como doente. Respeitar a exigência do caminho. Respeitar o facto de haver comportamentos difíceis, dias maus, momentos em que a empatia falha e o amor não simplifica nada. “Então eu acompanho. Então eu dou o braço e vamos fazer este caminho”, sublinha.
Maria diz mais ou menos o mesmo, por outras palavras. Se não tivesse insistido, a irmã talvez tivesse morrido ou continuado perdida. E se a família tivesse percebido mais cedo, talvez não se tivessem perdido 20 anos. Por isso, hoje conta a sua história, para que mais famílias percebam que podem ser determinantes nestes processos. Às vezes, tudo começa com uma frase pequena, dita no momento certo: “Não desista. A vergonha e o medo atrapalham a vida”.