A vitória de António José Seguro na primeira volta era, no arranque destas presidenciais, uma miragem. A falta de pujança inicial do candidato levou o PS a arrastar o apoio e a desejar alternativas, mas foi com este que acabou por, 20 anos depois, ficar a um passo do Palácio de Belém. É um “balão de oxigénio”, mas não é grande o suficiente para o PS poder descansar à sombra de uma Presidência que parece prestes a cair do céu.
Depois de umas legislativas traumáticas e de umas autárquicas sofríveis (que o líder procurou camuflar como “positivas”), os socialistas tentam conter a euforia de um possível regresso à Presidência — não só pela distância que Seguro tem cravado como pelo ambiente pouco propício a passos em falso. A convicção é de que a recuperação ainda está longe. Por isso mesmo, até existe alguma surpresa com a pressa de José Luís Carneiro em marcar novas eleições diretas, como se temesse um assalto repentino ao seu poder — a convocatória para a Comissão Nacional onde serão tomadas essas decisões foi conhecida na noite da vitória de Seguro.
Nas últimas horas, o Observador ouviu vários socialistas que não esconderam alguma estupefação com este pontapé de saída do líder a meio das presidenciais. O partido terá um congresso, precedido de novas eleições diretas (as de junho foram intercalares, pelo que é necessário repeti-las para iniciar todo o novo ciclo no partido, elegendo todos os outros órgãos de direção) e isso estava alinhado para depois das presidenciais.
No entanto, a Comissão Nacional já foi convocada pelo presidente do partido para, no próximo sábado, os socialistas analisarem a situação política — onde não faltará o regozijo com a vitória do antigo líder na primeira volta presidencial — mas também a discussão do calendário das diretas e do congresso.
José Luís Carneiro será recandidato ao cargo onde está há apenas seis meses e não há adversários temíveis à sua recandidatura. “As coisas dentro do PS estão amplamente serenas“, comenta um dirigente com o Observador, acrescentando: “O PS precisa de tempo. Nada mudou na posição do partido com as presidenciais. Continuamos a precisar de tempo”.
“É um balão de oxigénio, mas não serve para nada de imediato”, diz a mesma fonte. Outro destacado socialista nota que, “num clima desfavorável para quem tem um pensamento social-democrata, eleger um Presidente com esse pensamento é positivo”. Mas é apenas um sinal: não é possível ver nada mais além disto nesta primeira vitória eleitoral de Seguro.
“Agora o desafio passa por eleger Seguro. Depois existem vantagens de não termos eleições tão cedo“, acrescenta ainda o mesmo socialista sobre as preocupações do partido no imediato, empurrando para a frente a existência de um eventual desafio à liderança de Carneiro. O tempo é de “estabilidade“, defende a mesma fonte, dizendo mesmo que “só interessava que o país tivesse eleições depois das europeias e das autárquicas” de 2029.
Nas redes sociais, o socialista Ascenso Simões foi mais duro com Carneiro e questionou o timing do líder em disparar agora com a discussão interna: “Não haverá no Rato quem tenha um pingo de bom senso? Carneiro ainda não percebeu que não vai ter nenhum adversário, que a sua liderança só será avaliada em 2028 e que o PS vai passar oito anos na oposição até voltar a poder sonhar com a governação?”
O debate sempre adiado dos pós-legislativas
No partido tem-se reclamado tempo para uma reorganização interna. Ascenso Simões, por exemplo, escreveu que o que José Luís Carneiro deveria estar a fazer neste momento era “renovar o PS de baixo a cima, pôr os militantes a debater, as estruturas a funcionar, os autarcas a trabalharem em conjunto, reciclar os deputados, constituir novos espaços de pensamento com gente que tenha menos de 50 anos”. “Mas não”, lamentou o antigo secretário de Estado.
No pós-legislativas e depois da demissão de Pedro Nuno Santos, José Luís Carneiro foi rápido a posicionar-se para a sucessão e foi criticado por isso, nomeadamente por Duarte Cordeiro, Mariana Vieira da Silva e Fernando Medina, que ainda estudaram um concorrente para essas diretas. Carneiro acabou por correr sozinho, o mesmo que se prepara para acontecer desta vez.
Mas a prometida discussão interna continua por fazer e com um quadro político que já se alterou desde as legislativas — o avanço do Chega é notado por todos — o posicionamento do partido para o futuro continua a ser um tema indefinido. Por exemplo, entre deputados há quem questione se a postura de “pactos” que Seguro promete levar para Belém, aliada à “estratégia das cartas” ao Governo de Carneiro não seja poucochinho para o partido. “O que sobra para o PS? Não pode ficar neste registo. Ou então desaparece.”
José Luís Carneiro já começou contactos para preparar esses novos tempos, segundo sabe o Observador, mas, por agora, o mais que fez foi apanhar a onda de Seguro. O antigo líder socialista procurou sempre vincar a fronteira que separa a sua candidatura dos partidos, remetendo o PS para uma segunda linha durante toda a campanha, ainda que a máquina do partido tenha sido determinante para a mobilização.
Na noite eleitoral, Carneiro seguiu o guião traçado por Seguro e só falou do resultado a partir da sede nacional do partido em Lisboa, não aparecendo nas Caldas da Rainha. Mas, na declaração que fez aos jornalistas, não deixou de se colar ao feito: “Naturalmente que é um candidato suprapartidário, mas o PS vive com muita alegria este momento da vida democrática”.
Nas televisões, à mesma hora, socialistas mais críticos da atual direção deixavam avisos a Montenegro que também soavam a avisos internos, sobretudo apontando para o crescimento do Chega. Foi o que fizeram, no canal Now, Mariana Vieira da Silva e Duarte Cordeiro. A primeira criticou Montenegro porque a “esperança que alimentou de conseguir secar o eleitorado à sua direita, tomando conta da sua agenda, não resultou”. “[Está] numa tenaz que o PS também conhece: [a dúvida de saber] como é que vai recuperar o seu eleitorado”, disse a antiga ministra.
Já Duarte Cordeiro puxou por outro ponto, considerando que o PS deve preservar a sua relação com o PSD. “O equilíbrio do sistema político é fundamental”, avisou o também ex-ministro de António Costa, ao mesmo tempo que dizia que “o PS não podia estar precipitadamente a empurrar o PSD para o Chega”.
Entre socialistas ouvidos pelo Observador existe o receio de que a trajetória de crescimento do Chega esteja longe do fim, A questão da recuperação de eleitorado é uma preocupação porque condiciona qualquer regresso ao poder, mesmo admitindo que o caminho ainda possa ser longo até lá. Existe, aliás, uma vantagem na possível eleição de António José Seguro para PS e PSD: os socialistas perceberam que a instabilidade permanente e a aceleração dos ciclos políticos nos últimos anos conduziu sempre ao reforço de quem vota no Chega ou na IL.
“A instabilidade no curto prazo beneficia o Chega e Ventura”, comenta um destacado socialista com o Observador, considerando avisado que “os partidos que defendem a estabilidade trabalham agora para eleger quem a garanta e depois mantê-la”. “O PS tem de compreender e defender isso”, comenta a mesma fonte sobre o seu próprio partido.
O quadro parlamentar está preso por arames, mas mesmo com uma eventual tentação do Chega para provocar uma crise política terá de contar com o PS, que tão cedo não parece querer entrar nesse jogo. E enquanto o poder não aparecer como uma possibilidade no horizonte, as águas internas também continuarão aparentemente serenas.