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AFP/Getty Images

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Simpatizantes desiludidos, ainda acreditam que Costa apareça

100 dias depois de António Costa ter sido eleito líder do PS acabou-se o 'estado de graça'? Entre os independentes que o apoiaram nas primárias há rasgos de desilusão. Mas ainda muita expectativa.

“Nunca acreditei em salvadores”, mas que os há, há. Quem o diz é o maestro António Vitorino de Almeida, que, não sendo filiado no Partido Socialista, fez parte do leque de personalidades que assinou a petição ‘A Cultura apoia António Costa’ e que se inscreveu nas primárias de setembro para votar no candidato desafiador. Na altura, o sucessor de António José Seguro foi visto por muitos como o salvador que iria transformar o PS numa melhor alternativa de governação. Agora, precisamente 100 dias depois de ter sido eleito secretário-geral do partido, a “escassa margem nas sondagens” e a “estratégia por vezes demasiado cautelosa” parecem estar a dissipar a neblina de D. Sebastião, e a não deixar os apoiantes tranquilos. Ainda assim, nada está perdido: “O jogo ainda não começou”.

Entre as personalidades independentes apoiantes de Costa ouvidas pelo Observador, há quem dê sinais de desapontamento e arrisque justificações para a morna recuperação socialista: o facto de adiar a apresentação de propostas concretas; a ausência no Parlamento; a proliferação de pequenos partidos à esquerda; ou, por outro lado, a alegada necessidade de o líder socialista estar resguardado na sombra a preparar um programa “sólido e responsável” para as legislativas.

▲ Maestro António Vitorino de Almeida em setembro, durante uma ação de apoio a António Costa

LUSA

Em todo o caso, o discurso dos simpatizantes é agora mais acautelado do que aquele que rodeava as petições de apoio à sua candidatura. “António Costa já provou ter a integridade, a inteligência, a autenticidade, o dinamismo, a convicção e a responsabilidade que o tornam uma referência para todos os que não se resignam a viver num país humilhado e acreditam que é possível restituir a dignidade a Portugal e mobilizar os portugueses para a esperança no futuro”, lia-se na petição das personalidades da cultura. Foi há seis meses. A adjetivação mantém-se?

Uma coisa é certa, já não há euforia. Há pés assentes na terra e uma ponderação expectante, apenas variável entre um maior ou menor grau de confiança na vitória ao apito final. Todos concordam que os trunfos e as cartas mais altas estão a ser guardados para o verão.

Um período cinzento

“Seria bom que houvesse uma margem mais alargada nas sondagens, e há que ter muito cuidado nesse sentido, mas também não posso dizer que estivesse à espera de uma mudança flagrante e assim tão rápida”, começa por dizer ao Observador o maestro António Vitorino de Almeida. Na verdade, as últimas sondagens SIC/Expresso, divulgadas esta sexta-feira, não sorriem muito ao PS. Apesar de apontarem para uma vitória socialista caso o PSD decida avançar sozinho, apontam para um quase empate técnico caso PSD e CDS avancem em aliança pré-eleitoral. E isso, a confirmar-se, deitaria abaixo aquele que foi o primeiro, e talvez único, grande objetivo das primárias: “ganhar as eleições”. Uma meta que, segundo o maestro, continua a ser o foco central de toda a discussão.

"Só a partir do verão, na pré-campanha e na campanha eleitoral, é que o ambiente vai voltar a ser colorido e intenso"
António Vitorino de Almeida

Passados mais de três meses desde a tomada de posse, António Vitorino de Almeida continua convicto de que a escolha foi a acertada, mas agora chuta a euforia de outrora para a frente, para o período da campanha eleitoral. Até lá, admite que será “tudo muito cinzento” – sem promessas que não possa cumprir, nem muitas propostas em cima da mesa. “Só a partir do verão, na pré-campanha e na campanha eleitoral, é que o ambiente vai voltar a ser colorido e intenso”, antevê, admitindo que o atual período de contenção esteja a ser dificultado por um conjunto de fatores externos. Como a ausência de Costa do Parlamento, que “dificulta” – “não prejudica, dificulta” – o diálogo e lhe tira um palco político importante, ou o facto de o líder socialista ter outras pastas pesadas em mãos, como a presidência da Câmara de Lisboa, que exige a sua atenção e dedicação.

Mas “o jogo ainda não começou”. “Há por vezes a sensação de que já estamos em campanha, mas não estamos, estamos só a treinar”, afirma o maestro. A tática usada tem sido à defesa, sim, mas aí não vê problemas de maior. Para Vitorino de Almeida, as “promessas esplendorosas nunca foram boas em tempos de pré-campanha” e, de resto, Costa tem “sabido lidar de forma discreta e diplomática” com os obstáculos no caminho, nomeadamente com o maior de todos, chamado Sócrates. Enfim, é deixar a bola rolar.

Impaciência e algumas sugestões

Nem todos, no entanto, estão tão pacíficos com o rumo que António Costa está a dar ao PS. Uma personalidade ligada à cultura que também votou em Costa nas primárias, enquanto simpatizante, admitiu ao Observador a sua “impaciência”. Não querendo identificar-se por uma questão de “lealdade”, já que quer primeiro conversar diretamente com o líder socialista, são vários os fatores que lhe causam inquietação.

▲ Escritora Lídia Jorge durante a apresentação de um 'Manifesto contra a Crise', em janeiro de 2014

LUSA

A posição que o partido tem assumido perante as questões do dia-a-dia, é um deles. A passividade face ao caso RTP, ou face aos processos de privatização de empresas públicas levados a cabo pelo Governo, assim como a questão da Grécia, levaram este apoiante independente a escrever mesmo uma nota ao secretário-geral do PS com “alguns tópicos” sobre os quais não está de acordo. Apesar disso, ainda admite o benefício da dúvida, porque pelo caminho têm-se metido outros fatores mais ou menos imprevistos, como a prisão de Sócrates ou o facto de “ter encontrado o partido muito dividido”, que “têm dificultado” o processo. Certo é que o que tem sido feito “não chega”. “Vê-se pelas sondagens”, diz.

O sentimento parece roçar a desilusão. Para a escritora Lídia Jorge, declarada simpatizante do autarca de Lisboa, não chega a tanto. “Não sinto desilusão, não é isso, mas estou à espera de uma maior clarificação”, disse ao Observador, arriscando que essa clarificação poderia chegar aos portugueses através de “hipóteses disjuntivas: ou isto ou aquilo”. Ou seja, através de propostas concretas.

"[Costa] não quer mentir, muito bem, nisso concordo. Mas estou à espera de uma maior clarificação sobre as soluções concretas"
Lídia Jorge, escritora

Mantendo o voto de confiança na liderança do atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Lídia Jorge admite que “a estratégia tem sido talvez demasiado cautelosa”, ainda que não seja apologista da “combatividade no sentido de denegrir o outro”. “O que interessa é clarificar os portugueses sobre aquilo que pretende fazer nesta situação tão delicada em que nos encontramos”, diz, “porque as pessoas sentem-se sozinhas” e precisam de uma alternativa clara de confiança.

Os trunfos

A ideia é que António Costa já podia estar a destrunfar, em vez de estar a guardar os ouros todos (ou as espadas) para jogar no fim. Ao Observador, Lídia Jorge defende que o PS “ganharia se se antecipasse à conjuntura em vez de estar à espera que a conjuntura se explique”. Como assim? “Costa ganharia vantagem se começasse a explicar concretamente o que faria ‘se isto’ ou ‘se aquilo'”, isto é, se fosse mais claro quanto àquilo que faria se fosse Governo nas diferentes situações.

Para a escritora, esse seria o caminho certo para o “eleitorado ficar mais esclarecido”, e para o PS transmitir “mais confiança às pessoas” enquanto alternativa de Governo. Mas nem todos concordam. “António Costa não pode ter uma postura de Governo não sendo Governo”, contrapõe o também escritor e ex-presidente do CCB António Mega Ferreira, primeiro subscritor da petição ‘A Cultura apoia António Costa’, para quem o registo contido da oposição “não podia ser de outra forma”. “Uma combatividade prematura retirava-lhe argumentos para as eleições”, defendeu, elogiando a “discrição” de Costa e a “autoridade” que tem sobre o partido.

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Opinião partilhada pelo musicólogo Rui Vieira Nery, que na década de 90 chegou a exercer funções de secretário de Estado ao lado do então ministro Manuel Maria Carrilho, no governo de Guterres, e que agora é presença frequente nos bastidores do trabalho de António Costa na preparação do programa de governo. Para o músico, os primeiros meses do novo líder socialista teriam de passar necessariamente por um período de “calma e ponderação” porque o “trabalho de construção de uma alternativa leva tempo”.

Vieira Nery admite que as jogadas à retaguarda possam não agradar a todos, mas afirma que o registo mais vazio de conteúdo do PS nada tem a ver com “alheamento da realidade”. “É no sentido de consolidar primeiro o trabalho para prometer depois”, defende ao Observador, admitindo que espera que “vá havendo, gradualmente, uma intervenção mais assertiva de apresentação de propostas concretas”.

Ora, é tudo uma questão de gestão de expectativas e, sobretudo, de gestão dos trunfos – se os houver. António Mega Ferreira também é dos que prefere pôr a pressão toda no momento da campanha (e da pré-campanha). “A partir de junho é que se vão jogar as cartas todas, os trunfos, se preferir”, disse em conversa com o Observador, referindo-se à altura em que o PS já deverá ter um programa de Governo, com propostas concretas e um guião mais claro, para acertar o passo.

"A preparação de um programa de fundo não é compatível com as medidas a conta-gotas que fazem manchetes nos jornais"
Rui Vieira Nery

“Tudo a seu tempo”, diz. Mas neste momento, nem a melhor mão do baralho, deve conseguir ser suficiente para uma maioria absoluta. A última semana foi especialmente negra para o PS, com a polémica que estoirou na quarta-feira depois de o centrista Nuno Melo ter tornado públicas as declarações de Costa perante a comunidade chinesa. Para muitos, a imagem do líder da oposição a traçar um cenário positivo do país foi um autêntico tiro no pé, e foi o bastante para fazer as delícias da direita. O incidente de comunicação juntou-se a outros que, feitas as contas, acabaram por deixar algumas figuras do partido de cabelos em pé, e num estado de aparente desorientação.

Para António Mega Ferreira, a maioria absoluta está realmente cada vez mais longe, mas não necessariamente pelos acidentes de percurso. O escritor recorda a proliferação de partidos à esquerda, nomeadamente o surgimento do Livre e até do partido de Marinho e Pinto, para desculpar o facto de o PS não descolar nas sondagens. De resto, maiorias à esquerda sempre foram fenómenos raros por cá. “Porque são muitos partidos e, ainda por cima, partidos que nunca se coligam”. É a regra implícita da esquerda, nota.

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