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Tahar: "Na minha transferência, Vale e Azevedo ficou com o dinheiro" /premium

Tahar, o marroquino que passou por Benfica e Leiria e foi melhor assistente do Mundial 98, recorda o 7-0 em Vigo com compras pelo meio e os 30 guarda-costas em Inglaterra. E lança o Marrocos-Portugal.

Caracóis. Há caracóis em Marraquexe, na praça Jemaa el-Fna. Que fartote. Entre um cacho de lojas a vender camisolas de futebol e loiça de fino gosto, o centro da almedina concentra restaurantes com caldos (harira = carne, lentilhas, grão-de-bico ou bisara = favas, alho, azeite mais especiarias), cuscuz, méchoui (espetadas de carneiro), tajines (refogado de galinha ou carneiro) e sardinhas. É uma cobóiada pegada. Ainda por cima, é Ramadão. Ou seja, a noite é meeeeesmo intensa. Diz Tahar com um português impecável. “Ficamos em casa até às dez e meia, depois saímos toda a noite para beber café e chá com amigos.” Ya, daí que a entrevista comece às onze da noite, no Hotel Sofitel todo pink. Com Tahar fresquíssimo para falar.

Amigo, estás bom? Chegaste quando?
Hoje de manhã.

E onde é que estás instalado?
Mesmo junto à praça Jemaa el-Fna.

Eischhh, espectáculo. Vais divertir-te à grande, é garantido.

És daqui?
Claro, Marraquexe é a melhor cidade que conheço.

E a segunda?
Lisboa.

Então e Casablanca?
Lisboa. Aaaaaaaah, muita indústria, muito trabalho. Aqui há paz, descanso.

Rabat?
Lisboa.

Fez?
Lisboa.

Pronto, já entendi.
Lisboa é linda. Um pouco como Marraquexe. Nasci e cresci na almedina, a cidade velha, agora vivo na parte nova. Como em Lisboa há a Baixa e aquela parque.

Expo?
Isso. Tanto a parte velha como a parte nova de Marraquexe têm bons restaurantes, bons hotéis, bons casinos. Há magnatas que vêem cá só passar uma noite para jogar e depois voltam aos seus países. Marraquexe é um paraíso, acredita.

E é uma cidade do futebol?
Claro que é, há muito, muito muuuito tempo.

Nasceste já a jogar à bola?
Quase, ahahahah. Aqui toda a gente é louca por futebol. Quando era miúdo, jogava o dia todo e não me cansava. A gente jogava de manhã à noite e nada de cansaço ou comer. Queríamos bola, bola e bola. Era o nosso trabalho diário. Saías à rua e vias campos improvisados de miúdos a jogar futebol, como no Brasil em que ainda se vê crianças a jogar nas estradas. Aqui também é assim, estás a perceber?

Se eras louco por futebol, deves lembrar-te do Portugal-Marrocos em 1986.
Se me lembro? Claro que sim, ganhámos 3-1 e saí à rua para festejar. Foi uma festa enorme, nem te passa pela cabeça. Nesse dia, Marrocos fez história e foi a primeira equipa africana a passar a fase de grupos.

[Portugal-Marrocos em 1986]. "Se me lembro? Claro que sim, ganhámos 3-1 e saí à rua para festejar. Foi uma festa enorme, nem te passa pela cabeça. Nesse dia, Marrocos fez história e foi a primeira equipa africana a passar a fase de grupos".

O seleccionador era brasileiro, não era?
Era o José Faria. Gostou tanto de Marrocos que ficou cá e morreu aqui. Grande homem. Casou-se com uma marroquina e até mudou de nome para Mehdi. Essa selecção era muito boa: o Zaki na baliza, o Krimau na frente mais o Bouderbala que depois jogou no Estoril

Tinhas quantos anos na altura do México-86?
Deixa-me ver, 15.

E já jogavas profissionalmente?
Entrei no Kawkab Marraquexe aos 9 anos. Em 1986, estava nos juvenis e fomos campeões marroquinos nesse ano. Depois também ganhei o campeonato de juniores e ainda o de seniores, claro.

Claro?
Claaaaro, o Kawkab era uma grande equipa. Ganhámos dois campeonatos seguidos, em 1992 e 1993, mais três Taças.

E a selecção, quando é que começou a fazer parte da tua vida?
Aos 18 anos, com a Costa do Marfim, em Casablanca.

Como médio defensivo?
Central, ainda defesa central. Só mudei para o meio quando um treinador marroquino chegou ao Kawkab e disse que eu tinha muita técnica para um central.

E que tal?
Sempre me adaptei bem, jogava sempre bem, ahahahahah.

Tão bem que foste ao Mundial-94.
Nem mais, ahahahah.

Correu-vos bem essa experiência?
Antigamente era diferente. Agora, por exemplo, Marrocos só joga uma fase. Seis jogos e está apurado. Nessa altura, eram duas fases. Na primeira, com cinco vitórias em seis e só um golo sofrido. Na segunda, quatro jogos. Apanhámos o Senegal e a Zâmbia, que ainda estava de rastos pelo acidente de viação. Passámos e estávamos confiantes para um bom Mundial. Isto apesar do grupo difícil, com Bélgica do Preud’homme, com quem me cruzei no Benfica, mais Holanda e Arábia Saudita.

Começaste como suplente, certo?
Sim, suplente no primeiro jogo. Perdemos 1-0 com a Bélgica.

E foste titular no segundo. Porquê?
Houve umas confusões de balneário [Tahar faz uma careta]. Vê bem, não joguei o primeiro, fui titular no segundo e capitão no terceiro.

Foste capitão? Nem sabia,
Houve umas confusões, já desde o último jogo da fase de qualificação.

Entre quem?
O seleccionador [Abdellah Ajri] e a imprensa. Ele não convocou um jogador e aquilo levantou muita polémica. Até saiu antes do tal jogo de qualificação, só que voltou atrás na sua decisão e até foi connosco para o Mundial.

Que não correu bem.
Nada bem, três derrotas, zero pontos e casa.

Esse Mundial foi nos EUA. Já tinhas viajado para tão longe?
Já já. E não falo da Taça Africana das Nações. Antes desse Mundial, fizemos uma digressão na América do Sul, onde perdemos 2-0 com a Argentina do Maradona e ganhámos 1-0 ao Chile do Zamorano. Ainda tenho a camisola do Maradona desse particular, ahahahahah.

Imagino a diferença de temperatura da América do Sul para os EUA.
Ai não imaginas não. Aquilo foi insuportável. Jogámos com 45 graus mais humidade. Jogámos ao meio-dia só por causa [Tahar mexe os dedos]

Dinheiro?
Claro, transmissões para a Ásia e sei lá mais para onde. Aquilo foi um inferno, porque também a relva emanava um calor dos diabos. Não dava para jogar futebol. Só a Bélgica é que jogou.

Porquê?
A Bélgica tinha garrafas de oxigénio no banco. Sempre que havia uma paragem de jogo, lá iam eles ganhar ar. Nós, não. Nunca mais me esquecerei do jogo com a Arábia Saudita, em Nova Iorque,

Porquê?
Antes desse jogo, ganhávamos sempre à Arábia por cinco, seis ou sete. Quando saiu o sorteio, ficámos todos contentes e a pensar nos três pontos. E não é que perdemos 2-1? Achhhhhh. Foi um Mundial para esquecer, bem diferente do de 1998.

Espera aí, espera aí. Nesse ano de 1994, chegas a Portugal, certo?
Exatamente.

Negociaste durante o Mundial ou depois?
Só depois, já estava de férias. Tinha 24 anos e iniciaram-se os contactos com a União de Leiria. Que só se finalizaram a um minuto do fecho do mercado.

A sério?
Juro. Aquilo foi uma confusão tremenda, ahahahahah. Aterrámos em Lisboa e fomos a abrir até Leiria, onde estava o Bartolomeu à nossa espera. Gritos para ali, berros para aqui, só se resolveu no último instante. Ufffff.

E tu conhecias alguma coisa de Leiria?
Nada.

E de Portugal?
Só conhecia Benfica, Porto e Sporting.

Mas tinhas marroquinos em Portugal para ajudar-te.
Sim, disso não me queixo: Hajri e Hassan.

"Ao fim de três/quatro meses, o Sporting já me queria para a época seguinte. Só que nunca mais houve contactos. Depois, o Leiria acabou em quinto ou sexto e o Porto interessou-se, através do Pinto da Costa. Houve até um jantar e estava obviamente interessado em jogar lá. Quando saí de Marrocos, sabia do meu potencial e sabia que podia jogar num dos grandes".

E os primeiros tempos em Leiria?
Comecei bem, sabes? Ao fim de três/quatro meses, o Sporting já me queria para a época seguinte. Só que nunca mais houve contactos. Depois, o Leiria acabou em quinto ou sexto e o Porto interessou-se, através do Pinto da Costa. Houve até um jantar e estava obviamente interessado em jogar lá. Quando saí de Marrocos, sabia do meu potencial e sabia que podia jogar num dos grandes.

E então, Porto?
Era para ser era, só que, entretanto, o Toni ligou para mim e fomos almoçar. Ele era o director-técnico do Benfica e convenceu-me a assinar pelo Benfica, até porque via muitos jogos do Benfica aqui em Marrocos. Culpa do Hajry, o primeiro marroquino de sempre a chegar a uma final europeia [Taça dos Campeões 1988]. E ele marcou um dos penáltis ao PSV Eindhoven.

Quem era o teu treinador em Leiria?
O nome dele está aqui, espera…

Mário Reis?
Não, não.

Manuel José?
Nãããão.

Quem, então?
Ele está agora na Bola TV.

Ahhhh, Vítor Manuel.
Isso, Vítor Manuel. Que figura. Grande, grande pessoa. Aprendi muito com ele.

Em quê, por exemplo?
Taticamente. Ensinou-me muito e fez um excelente trabalho em Leiria. Além disso, acompanhou-me sempre. Levava-me a casa dele para comer, dava-me férias de três dias em Marraquexe quando fazia boas exibições e era o melhor em campo. Ahahahahah. Ah, e falava muito comigo.

Tu entendias o português?
Não, nada.

Ahahahahah. Foi fácil?
Que remédio, tinha de aprender. Posso dizer-te que aprendi em dois meses.

Dois meses, só? Numa escola ou…
Sozinho.

A ver televisão?
Fui à mesquita de Lisboa, comprei o livro ‘A Arábia em português’ e comecei a estudar tudo, tudo, tudo no hotel, onde morei os dois primeiros meses.

Mal chegaste, começaste a marcar. Até marcavas aos pares, às vezes.
Sim, sim, bons tempos. E há outra: sempre que era Ramadão, marcava. O Vítor Manuel até me dizia para ser Ramadão o ano todo, ahahahah.

Depois, Benfica.
João Pinto, Calado, Preud’homme, Paulo Nunes, Donizete, Panduru, Iliev. Bom plantel.

E tu jogavas a quê?
Meio-campo, lateral-direito, defesa-central, méddio defensivo, tudo menos à baliza. Foram cinco anos complicados, com sete ou oito treinadores. Um deles, agora sim, era o Manuel José. Mas eram anos complicados: todos os Verões, saíam 20 e entravam 30 jogadores.

E os adeptos do Benfica?
Espetaculares, nunca me assobiaram e sempre me deram apoio. Quando o Estádio da Luz enchia, era uma maravilha.

João Pinto, que tal?
Grande capitão, grande pessoa. Só que o Souness entrou em conflito com ele e, depois, o Heynckes. Não vamos falar disso.

Então?
Não vamos, não vamos [Tahar dá um gole no chá].

E o Preud’homme?
Excelente profissional, nunca vi ninguém assim. Ele não gostava nada de dormir com alguém no quarto. Nem eu. Então, dividíamos o quarto, ahahahahah. Quando eu estava suspenso ou lesionado, ele aí é que se sentia bem, ahahahahah. Mas era um craque. No campo e fora dele. Lia imenso. Mas lia a sério, não é ler revistas. Lia livros grossos, assim [Tahar faz sinal de um calhamaço com o polegar e o indicador], umas 200/300 mil páginas. Como eu, não via televisão. Só lia, lia e lia. Como guarda-redes, dez estrelas. Com uma equipa dessas, nunca fomos campeões.

Sempre o Porto.
Sempre o Porto [em tom de desabafo inconformado].

Então?
Não vamos falar sobre isso, não vamos.

Outra vez?
Havia ali coisas esquisitas.

Com árbitros?
Se eu fizesse uma falta assim, era vermelho. Se um do Porto fizesse uma igual, nada. Assim, não. Desigualdade é que não.

Tu apanhaste muitos amarelos e vermelhos. Eras duro?
Só era expulso perto dos jogos com o Porto.

"Não vamos falar sobre isso, não vamos. Havia ali coisas esquisitas. Se eu fizesse uma falta assim, era vermelho. Se um do Porto fizesse uma igual, nada. Assim, não. Desigualdade é que não. Só era expulso perto dos jogos com o Porto".

Culpa tua ou dos árbitros?
Os árbitros são todos iguais. Julgava eu. Na seleção, por exemplo, nunca fui expulso. Fosse por dois amarelos ou vermelho direto.

E acumulaste 99 internacionalizações?
99 jogos, zero vermelhos.

Porque é que nunca chegaste ao 100?
Não sei bem porquê, o selecionador era o Humberto Coelho e ele não me pôs a jogar. Fiquei muito triste.

Imagino.
Só espero que o meu filho chegue aos 100.

O teu filho?
Tenho dois, o Yassine e o Ahmed. O Yassine é o mais velho, tem 18 anos e está nos bês do Kawkab Marraquexe. Já passou pelo Benfica.

Ah bom.
Foi campeão português de juvenis, com o Renato Sanches e o Bernardo Silva. Olha, o Bernardo esteve aqui de passagem há uns dias. Veio com uns amigos antes de ir ao Mundial. Vocês vêm cá muito.

Vocês?
Olha, o Nuno Gomes. Vem cá muitas vezes. O Ronaldo também.

O Cristiano Ronaldo?
Sim, o Ronaldo. Ou, às vezes, só a mãe dele com o filho. Encontro-os muitas vezes nesta zona de Marraquexe. Gente fina. Nós aqui estamos ansiosos por jogar contra Ronaldo.

Só contra ele?
Só Ronaldo, Cristiano Ronaldo.

Ahahahahah. Enquanto jogador do Benfica, davas-te com os outros africanos dp Sporting?
Então não, a toda a hora: Amunike, Naybet, Ouattara. O Amunike era um brincalhão. A gente comia junto e ria-se, ria-se. Também havia o Fertout, do Belenenses.

Ias lá visitá-lo e comer um pastel de Belém?
Ahhhhh, isso não. Tinha de manter a forma. Já viste as horas que teria de treinar para abater as calorias de um pastel de Belém? Ahahahahahah.

Qual é a tua melhor memória futebolística do futebol português?
O 1-0 em Florença, para os quartos-de-final da Taça das Taças. Podíamos ter chegado às meias-finais, seria um feito bem bonito.

Golo do Edgar, não é?
Ahahahahahahahah [e mais] ahahahahahahah. Desculpa.

Então?
Lembrei-me do Edgar, era cá um brincalhão. O que a gente se divertia nos treinos, gosto muito dele.

Falas com ele?
Nunca mais falei desde que saí para Inglaterra.

Pois, o teu último jogo é o 7-0 em Vigo.
Entrei a 15 minutos do fim, já havia 6-0.

E como é que foi esse dia, por exemplo?
Acho que os jogadores não estavam com a cabeça no sítio. Quer dizer, o Celta era uma equipa normal, só que era do futebol espanhol e tinha craques como Makelele, Karpin e Mostovoi. Entrámos em Vigo para jogar com o Celta, como se fosse em Setúbal. Atenção, não quero ofender, foi só o primeiro clube do meio da tabela que me veio à cabeça. O Celta era assim. Lembro-me desse dia, claro que sim. Estávamos no hotel e, de repente, alguns jogadores saíram para fazer compras ao centro comercial muito conhecido que também há em Portugal [El Corte Inglés].

"Entrámos em Vigo para jogar com o Celta, como se fosse em Setúbal. Atenção, não quero ofender, foi só o primeiro clube do meio da tabela que me veio à cabeça. O Celta era assim. Lembro-me desse dia, claro que sim. Estávamos no hotel e, de repente, alguns jogadores saíram para fazer compras ao centro comercial."

E o regresso a Portugal?
Foi um inferno, o primeiro dia de treinos. Treinámos à noite e deixaram a porta do estádio aberta para entrar os sócios. Vieram uns dez mil e o presidente disse-nos ‘vão fazer vinte minutos a correr, mas vão ver tudo o que nunca viram, preparem-se’.

O que há a dizer sobre o Vale e Azevedo?
Tu falaste dele a sorrir, já disseste tudo. Nada mais a dizer. Quando saí para o Southampton, a meio dessa época do 7-0 em Vigo, ele disse a todos os dirigentes que só ia para empréstimo.

E não era?
Não, eu fui vendido para o Southampton. Fui lá e assinei por três anos. Quando voltei a Portugal para fazer as malas todas, encontrei um dirigente do Benfica no aeroporto. Aquele que era está às vezes na SIC. Um que tem óculos.

Não sei quem é.
Pronto, já me vou lembrar do nome dele. Encontrei-o no aeroporto e ele ‘então tudo bem, voltas para o ano, não é? Perguntei-lhe ‘voltar para onde’? E ele insistiu na pergunta, falou-me do empréstimo. Disse-lhe que não, que tinha assinado três anos. Ele ficou a olhar para mim e disse ‘ele disse-me que ias um ano por empréstimo’. Naquela transferência, ele [Vale e Azevedo] ficou com o dinheiro.

Uauuuuu. Na estreia em Inglaterra, marcas um golo ao Tottenham.
Foi a única nota positiva, perdemos 7-2. Ahahahah. O meu golo foi o 2-1 para nós, ainda na primeira parte. Depois, 7-2. Fiz um bom jogo e o Ginola nunca conseguiu passar por mim. A malta do Southampton ficou toda contente, mais ainda o treinador Glenn Hoddle.

No final da época seguinte, há aquele episódio com o Dyer, do Newcastle. O que se passou?
Era o último jogo do campeonato e o Dyer já estava nos 23 da Inglaterra para o Mundial-2002. Numa jogada normal, o joelho dele chocou com o meu pé e fixou assim [Tahar entorta a mão direita]. Nunca esquecerei esse momento e os seguintes.

Porquê?
Tive de contratar guarda-costas para a minha casa, uns 30.

Trinta guarda-costas? Eras pior que a Whitney Houston.
Ahahahahah. Nem sonhas com o que se passou. Apareciam-me jornalistas de todo o lado. Subia ao primeiro andar da casa e lá estava um, em cima de uma árvore. Abria uma janela e lá estava outro. Andavam em todo o lado. Até parecia que tinha cometido um crime.

"Tive de contratar guarda-costas para a minha casa, uns 30. Apareciam-me jornalistas de todo o lado. Subia ao primeiro andar da casa e lá estava um, em cima de uma árvore. Abria uma janela e lá estava outro. Andavam em todo o lado. Até parecia que tinha cometido um crime".

E o Dyer no meio disto tudo?
Foi ao Mundial. Escrevi-lhe uma carta a pedir desculpa e ele, um ano depois, depois de um jogo da Premier League entre as nossas equipas, ofereceu-me a sua camisola.

Por falar nisso dos Mundiais, ainda não falámos do França 98?
Ahhhhhhhh, fui o melhor assistente do Mundial. Dos quatro golos de Marrocos, três foram a passes meus. O Zidane também fez três assistências, só que também fez mais jogos. Portanto, a FIFA atribui-me o título. Ainda o tenho lá em casa.

Marrocos voltou a falhar na fase de grupos.
No primeiro jogo, empatámos 2-2 com a Noruega. Estivemos a ganhar 1-0 e 2-1, só que eles empataram com erros da nossa parte. No jogo seguinte, com o Brasil, perdemos 3-0.

https://www.youtube.com/watch?v=REZgAPMUuxY

Marcaste quem nesse dia?
Não marquei ninguém, quem me marcou foi o Bebeto.

Hein?!
Volta lá a ver o jogo e diz-me de tua justiça. Como tinha feito os passes para os dois golos com a Noruega, o Zagallo mandou o Bebeto seguir-me todo o campo. Sem mim, não havia mais passes perigosos para os avançados.

Pediu-te a camisola no final do jogo?
Estou a falar verdade: quando a gente tinha a bola, o Bebeto encostava-se a mim. No final do jogo, falei foi com o Ronaldo em português.

Disseste-lhe o quê?
‘Fazes-nos um favor e ganhas à Noruega?’ E ele ‘tranquilo, nós não vamos perder com eles’.

Só que.
Que dia triste, o que eu chorei. Estávamos a ganhar 3-0 à Escócia e, de repente, vejo todo o nosso banco de suplentes sem se mexer e o nosso seleccionador, o Henri Michel que morreu há meses, a dar um pontapé monumental numa garrafa de água. Estranhei porque, minutos antes, estavam todos aos pulos.

Quando é que soubeste do resultado do Brasil-Noruega?
No final do nosso jogo. Nunca imaginei que o Brasil fosse perder. Se passássemos, íamos jogar com a Itália, que estava fraca e até passou o grupo com dificuldades. Foi pena, tínhamos equipa para ir à meia-final.

E aqui em Marrocos, como é que as pessoas vos receberam?
Em festa, até fomos ao palácio do Rei, em Rabat. Foi um momento inesquecível. De bom. O outro, o 2-1 da Noruega ao Brasil, foi inesquecível de mau. Como é que o Brasil perde na fase de grupos?

Com Portugal.
Nos tempos do Eusébio, certo? Em 1966.

Isso mesmo, 3-1. Conheceste o Eusébio?
Tirámos umas fotografias, ele gostava muito de mim.

https://www.youtube.com/watch?v=lzJ3dHek3GY

É, porque é que dizes isso?
Vou dizer-te isto: uma vez, ganhámos ao Lokomotiv, em Moscovo, para a Taça das Taças e ele, mal acabou o jogo, desce da tribuna para o relvado a pedir-me a camisola. ‘Nunca pedi a camisola a ninguém, dá-me a tua’. Tinha feito um grande jogo, dei tudo o que tinha e o que não tinha. Ganhámos 3-2.

E nos treinos, como é que era o Eusébio?
Estava sempre connosco, sobretudo com os avançados. Fazia remates à baliza e dizia aos avançados para não ter medo de rematar de bico. Porque as pessoas, às vezes, têm vergonha de rematar de bico. Não é muito artístico, digamos assim. Só que é altamente eficaz e o Eusébio dizia-nos sempre que o remate de bico é uma solução como outra qualquer e que a bola até sai com mais força. O que chorei quando ele morreu.

"Fazia remates à baliza e dizia aos avançados para não ter medo de rematar de bico. Porque as pessoas, às vezes, têm vergonha de rematar de bico. Não é muito artístico, digamos assim. Só que é altamente eficaz e o Eusébio dizia-nos sempre que o remate de bico é uma solução como outra qualquer e que a bola até sai com mais força. O que chorei quando ele morreu."

Estavas onde?
Aqui.

E foste a Portugal?
Todos os voos estavam cheios, não consegui arranjar lugar. Não é como agora que há quatro aviões por semana. Fiquei a ver o velório e o funeral pela televisão.

E vais a Lisboa com frequência?
Claro que sim, adoro Portugal. Os meus filhos nasceram lá e davam-se com o Simão Sabrosa, quando vivíamos no Parque dos Príncipes. Sempre que vou, tenho pessoas a quem recorrer. Como o Pepe.

Quem é o Pepe?
O treinador do Tondela.

Ahhhhh, desculpa, percebi mal: Pepa.
Pepa, ya. Antes do último Benfica-Tondela, desejei-lhe boa sorte e ele respondeu-me ‘tranquilo, vamos lá ganhar’. E ganharam mesmo. Depois mandou outra mensagem a dizer ‘tranquilíssimo’.

Vais ver o Benfica?
Sempre que posso. Só vou aos grandes jogos, tipo Porto e Sporting.

Ouvi dizer que ainda jogaste em Marrocos, depois de Portugal e Inglaterra.
Verdade.

Onde?
Que pergunta.

Kawkab?
Claaaaaro.

Quando?
Em 2005.

E foste campeão?
O objectivo era subir à 1.ª divisão.

Ai estavam na 2.ª?
E mal, bem mal. Se não subíssemos nesse ano, ficava complicado e íamos passar uns 15/20 anos na 2.ª. Deu certo e subimos como segundo classificado, atrás do Fez.

Maravilha.

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