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Depois de muitos anos sem ouvir falar de Gwyneth Paltrow (não que ela não trabalhe, eu é que não acompanho muito os “Avengers” e outros filmes que tais), esbarrei de frente com ela duas vezes seguidas. Primeiro foi a vela que cheira como a sua vagina (a dela, não a do leitor), à venda na loja da atriz, a Goop, e imediatamente esgotada, apesar dos 67 euros cobrados…

Confesso que não conhecia a Goop. O que eu andava a perder! Tudo, menos dinheiro. É que a loja online de Gwyneth vende todo o tipo de artigo, desde repelente para vampiros até anéis de três mil dólares. Vende tanto que até conseguiu vender uma série à Netflix: “The Goop Lab”. Suponho que o “lab” seja para dar um ar científico à coisa. E foi esse o segundo assunto a catapultar o nome da atriz para as páginas dos jornais. Quando pensávamos que “Altos Voos” era o pior trabalho da atriz americana, eis que surge esta série. Mas enquanto que o filme era assumidamente ficção, e uma suposta comédia, “The Goop Lab” é para ser levado a sério, embora dê imensa vontade de rir.

Os próximos parágrafos contêm alguns spoilers, por favor encare-os não como uma desfeita, mas como um enorme favor que lhe faço. É que eu já perdi três horas da minha vida, escusa de as perder também. A série começa com uma explicação de Gwyneth Paltrow: “Quando criei a Goop, em 2008, pensei: a minha vocação é outra coisa, além de curtir com o Matt Damon nos filmes.” Certo. A maioria dos artistas opta por abrir restaurantes, e é normalmente má ideia. Gwyneth foi mais esperta… Uma espécie de loja dos trezentos (mas trezentos euros), e um documentário sobre pseudo-ciência rende mais de certeza. Logo após o genérico, surge um aviso da Netflix: “O objetivo desta série é entreter e informar, não fornecer informações médicas”. Deviam ter-se ficado pelo entreter, porque a única informação que retiramos da série é de que Gwyneth é mais chalupa do que poderíamos pensar.

[o trailer de “The Goop Lab”:]

Cogumelos psicadélicos

No primeiro episódio, a atriz presenteia a equipa que trabalha com ela com uma viagem à Jamaica. Mas não se pense que é uma viagem qualquer. Não vão para um daqueles resorts de pulseirinha beber daiquiris e fazer aulas de hidroginástica. Vão para um hotel em que o “tudo incluído” se refere apenas aos cogumelos mágicos. Podem ingerir todos os cogumelos alucinogénios que quiserem! Os colaboradores de Gwyneth estão animados com a oferta. Uma delas quer descobrir o seu “eu autêntico” (que pena ainda não terem traduzido a obra de Gustavo Santos), outra ia em busca de uma experiência “psicoespiritual” e Kevin, que trabalha com Gwyneth há dez anos, queria curar um trauma. Suponho que o trauma seja esse. Se eu tivesse uma chefe que me obrigasse a ir para destinos exóticos tomar drogas, também estaria perturbada.

Talvez o truque para atingir a felicidade seja vestir só uma cor, da cabeça aos pés…

“Vai ser a minha primeira experiência com cogumelos”, diz uma das cobaias, que claramente nunca comeu risotto al funghi. Quando a experiência começa, a rapariga contorce-se como se estivesse a ter uma convulsão, diz que sentiu a energia do pai, e que acha que ele não ficaria feliz por ela estar a fazer aquilo. Ou seja, mesmo depois de morto é o mais sensato da família. A experiência na Jamaica vai sendo interrompida por testemunhos de gente que se deu bem com alucinogéneos, como um veterano de guerra que tentou suicidar-se vária vezes e foi salvo pelo MDMA, ou uma senhora que faz smoothies de cogumelos: esmigalha-os, guarda no conservador e depois vai usando. No fundo, tem a mesma relação com cogumelos mágicos que eu tenho com polpa de tomate.

Água gelada e outras curas

No segundo episódio, Gwyneth Paltrow apresenta-nos Wim Hof, “o homem do gelo”, que diz que o sistema nervoso autónomo pode ser controlado pela mente. Wim afirma que consegue que a temperatura da sua pele não baixe quando entra em água gelada. Imagens de arquivo mostram-nos que Wim foi usado como cobaia, algures nos anos 90, por cientistas holandeses. Injetaram-lhe a bactéria e-coli e ele não ficou doente. Estamos perante o único homem que desembarcaria neste momento em Wuhan sem qualquer problema. E sem precisar de máscara. Em conversa com Wim Hof, Gwyneth Paltrow solta este desabafo: “Era ótimo levar o pessoal da Goop e enchê-los de endotoxinas mas a Netflix nao deixou”. Primeira grande surpresa desta série: descobrir que a Netflix ainda tem algum bom senso, apesar da quantidade de banha da cobra que exibe.

“Não se mexam, não. Depois digam que está frio. Não brinquem comigo…”

O resto do episódio é muito divertido, e passa sobretudo por colaboradores de Gwyneth de fato-de-banho na neve, fazendo uma espécie de aeróbica. Se além daquela famosa eleição do “Great place to work”, que distingue as melhores organizações para trabalhar, houvesse uma lista dos piores empregadores, a empresa de Gwyneth ganhava. Ir de calções de banho para a neve, fazer exercícios bizarros com o “homem do gelo”? Isso consegue ser pior que aqueles team buildings que incluem paintball na Serra da Arrábida e concurso de karaoke depois de jantar.

Também neste episódio surgem alguns testemunhos, porque os casos reais ajudam sempre a trazer verosimilhança, e o caso de Gwyneth parece apenas surreal. Desta feita, a história de um homem que começou a tomar duches de água gelada todos os dias e curou assim a sua doença auto-imune. Se eu soubesse… Sofri alguns anos com uma doença dessas e podia simplesmente ter desligado o esquentador…

Um orgasmo solitário em grupo

O terceiro capítulo desta verdadeira enciclopédia da charlatanice é talvez o mais inofensivo. Mas também dos mais constrangedores. Gwyneth e as suas amigas vão conhecer Betty, uma senhora de oitenta anos que ensina mulheres a atingirem o orgasmo sozinhas. Sozinhas porém em grupo, uma espécie de alcoólicos anónimos da sexualidade. Betty faz lembrar a Sue Johanson, aquela sexóloga velhíssima que apresentava os “Conselhos da Sue” na SIC Mulher.

Por favor, faça a sua legenda, talvez seja melhor

Provavelmente ninguém se lembra disto, mas eu tenho este problema (uma espécie de síndroma auto-imune que nem com baldes de água fria lá vai) de arquivar informação absolutamente inútil no meu cérebro. É por isso que, tenho a certeza, daqui a muitos anos ainda saberei de cor algumas passagens deste “The Goop Lab”.

“Esta dieta vai salvar-me. Ai vai vai”

No quarto episódio, as incansáveis colaboradoras de Gwyneth Paltrow juntam-se a ela em mais uma experiência que parece retirada daqueles sites suspeitos, estilo adietadoseutipodesangue.com. Começam por medir a idade biológica, depois fazem uma colheita de sangue e, com base na informação recolhida (não sei se são os leucócitos ou os triglicerídeos) experimentam diferentes “protocolos alimentares”, que é como quem diz dietas absurdas. Wendy terá de ser vegan durante três semanas, Elise piscitariana e a Gwyneth calha um jejum de cinco dias. Ninguém me tira da ideia que as empregadas dela viciaram o sorteio para se vingarem. E na esperança de que, comendo menos, fique com menos energia para desenvolver ideias parvas.

Os vinte minutos seguintes são vídeos caseiros em que temos a oportunidade única (felizmente, porque não aguentava uma segunda vez) de assistir à dieta de cada uma. Parece um Jackass mas com desafios ainda menos interessantes… são só senhoras a comer pizza vegan ou a fazer peixe no forno… Mais à frente há também um segmento em que espetam agulhas na cara e fazem abrasão da pele da cara, mas saltei uns minutos, porque o sofrimento tem limites (para elas, aparentemente, não, mas para mim sim). No fim do período de teste das respetivas dietas, voltam a juntar-se e constatam que todas desceram uns estonteantes dois anos na sua idade biológica!

Elise e Wendy, respetivamente CCO e marketing VP da Goop, à procura da dieta perfeita

Eu depois de cinco dias sem comer só ficava satisfeita com 15 anos. E com um cabrito assado à padeiro, também. Por outro lado, é uma boa desculpa para dar sempre que uma dieta não resulte: não perdi peso nenhum mas de certeza que diminuí imenso em termos de idade biológica.

Um massagista que só pode ser português

O quinto episódio desta saga chama-se “a experiência da energia”, e dá-nos a conhecer John Amaral, massagista e quiroprático. Quero acreditar que este apelido é português, porque somos um povo que tem talento natural para a charlatanice. Descobrimentos e embustice é connosco. Ao lado de Amaral está Apostolos Lekkos (os gregos também têm jeito para a coisa), um “profissional de medicina integrativa”.

Trocado por miúdos, um tipo que perdeu anos de vida a estudar medicina para agora envergar uma espécie de pijama e fazer qualquer coisa parecida com reiki. O Dr. Lekkos diz que estudou medicina enérgica, terapia magnética, terapia laser, terapia da luz e terapia vibracional. Tudo cadeiras em que o Professor Karamba teve excelentes notas, e que são injustamente ignoradas pelo comité do nobel da medicina.

Aqui está ele, John Amaral. E agora digam lá que não há qualquer coisa muito portuguesa naquela pose?

O episódio é um bocadinho maçador: o quiroprático ensina o médico a curar pessoas com as mãos, quando fazia mais sentido que o médico ensinasse o quiroprático a curar pessoas com outros procedimentos, mais sofisticados. Uma das “pacientes” é Gwyneth Paltrow, um caso clínico que não parece apresentar melhoras, já que de episódio para episódio parece mais alienada.

A vidente que parecia não ver, mas que afinal via tudo

O melhor para o fim, sempre ouvi dizer. “O sexto sentido” é, até ver, o último episódio desta “The Goop Lab”, e traz até nós uma médium que, por sua vez, consegue trazer até nós almas penadas. Se em vez de Gwyneth Paltrow o episódio fosse conduzido por Iva Domingues, podia ser um “Depois da Vida”, aquele programa com a médium Anne Germain, em tempos transmitido na TVI.

A médium não nos traz nada de novo (lá está, a especialidade dela são antepassados), mas há uma participante na experiência com a qual me identifiquei especialmente. A rapariga começa por dizer que para ela os médiuns são com o Pai Natal (embora ache uma crítica injusta ao homem das barbas brancas, que tem um trabalho sério). Quando arranca a sessão, a médium pergunta-lhe: “Há gémeos na família? Ou um aniversário de Gémeos, em junho?”. A rapariga acena negativamente, mas a médium não desiste, e diz que vê duas pessoas de costas voltadas, que parecem gémeos. Nada. Não há registo de gémeos… “Vou dizer-lhes para voltarem a mim com isso de outra forma mais tarde!”, diz ela, que é como quem diz “esta não resultou, vou inventar outra”. E inventa mesmo: “Sinto que tens uma tia avó que morreu”. A rapariga responde, seca: “A minha avó não tinha irmãs”. Mas as médiuns são como os políticos experientes: nunca ficam sem resposta. “A tua leitura é interessante porque estão a aparecer pessoas que nem sequer estão ligadas a ti”. Boa desculpa! E tenta mais um rol de perguntas, sem grande sorte: “Alguém na família faleceu de repente? Há uma foto de um burro? Algo com o Shrek? Uma viagem ao México?”. Nada! Não acerta uma, parece o Mestre Alves a adivinhar o próximo campeão nacional.

“Mãos ao ar, eu vou roubar teu coração agora”

Estava eu espantada, pela primeira vez, com esta série, não pelas conclusões inovadoras a que chega, mas por terem deixado passar na edição este autentico falhanço mediúnico, quando estragam tudo! Entra em cena uma assistente de produção a chorar… A médium estava a lê-la a ela, e não à outra miúda. Foi um cruzamento de linhas, como acontecia antigamente. É fantástico, bate tudo certo! A produtora tinha uma avó com uma irmã gémea, um avô que faleceu de repente, vai casar para a semana no México e tirar fotografias com um burro. A médium fica com pele de galinha, ambas se comovem, a miúda cética continua lá sentada à espera que lhe provem que estava errada…

Na cena final da série, Gwyneth Paltrow deixa uma pergunta no ar: “quem vai ser o presidente em 2020?”. A médium faz cara de quem não sabe. Só poderia saber se viesse do mundo dos mortos. Eu também não faço ideia mas já me dou por contente se me garantirem que não é Gwyneth Paltrow. O sistema de saúde americano já funciona mal, não precisa de quiroprática, banhos de gelo e injeções de colagénio para piorar. Que saudades dos bons velhos tempos, quando Gwyneth só queria curtir com Matt Damon nos filmes.

Joana Marques é humorista, faz rádio muito cedo e deita-se demasiado tarde