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Tim Harford, de 47 anos, é um economista inglês, autor de vários livros e podcasts e da coluna Undercover Economist no Financial Times

Getty Images

Tim Harford, de 47 anos, é um economista inglês, autor de vários livros e podcasts e da coluna Undercover Economist no Financial Times

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Tim Harford, o economista que nos quer pôr a fazer contas para perceber o mundo /premium

Peritos em Vermeer enganados? Vacinas que acabam com pandemias? Negacionitas? Tudo é explicado por matemática e estatística, diz-nos o autor do livro "O Que Os Números Escondem" em entrevista.

Tim Harford é um economista que tem uma relação próxima com o público não especializado, seja através dos livros ou dos podcasts e programas de rádio. Livros como O Economista Disfarçado ou 50 Coisas Que Mudaram o Mundo são ferramentas úteis para o cidadão comum, quer esteja por dentro ou não da Economia. Não estando, Harford propõe-se a ajudar tais curiosos a olhar para o mundo de uma forma menos cínica, a encontrar ligações e a fazer as perguntas certas, antes de ter uma opinião ou uma emoção. Tendo isto em conta, o novo livro do britânico, O Que Os Números Escondem, foi publicado com um timing mais que certo, garantindo mesmo que tem “10 regras para aprender a decifrar informação e compreender melhor o mundo”.

Mas o livro não fala – bom, fala, mas não diretamente – da pandemia que atravessamos. Fala de estatística e de como pode ser usada a bem da verdade. Tim Harford resolveu escreveu este livro um pouco por reação ao seu programa de rádio na BBC4, “More or Less”: quer que as pessoas passem a desmontar os números, não contra a mentira, mas a favor da verdade. O livro está cheio de exemplos sobre como os números enganam, enganaram e nos podem continuar a enganar. Mas também está cheio de histórias que nos enchem de ferramentas para vencer os vícios do cérebro. E, no final, revela-se mais como um livro cheio de utensílios para olhar e pensar o mundo, do que um livro “simplesmente” sobre números. Embora sejam eles a origem de tudo o que aqui se lê.

A capa de "O que os números escondem", de Tim Harford (Objectiva)

Este livro surge nesta altura com uma pontaria assinalável…
Bom, não previ que algo como o que estamos a viver iria acontecer…

Porque a importância dos números na sociedade, e do uso quotidianos desses números é cada vez maior, mesmo sem uma pandemia, é isso?
No meu papel de intérprete de estatística no Reino Unido e, cada vez mais, no mundo, estou sempre em contacto com a forma como os números são bem e mal usados. Uma das razões que me levaram a escrever o livro foi a preocupação exagerada que a sociedade tem com o mau uso dos números. As pessoas diziam – em relação ao meu podcast – de que gostavam do meu programa, e de como chamava a atenção para o mau uso dos números e das falsas estatísticas. Gosto que as pessoas digam que me ouvem e que gostem do meu programa, mas ao mesmo tempo isso faz-me sentir desconfortável, porque não é só sobre as mentiras, as estatísticas falam também sobre a verdade. E as estatísticas podem ser bem usadas. Quando a pandemia começou, reescrevi algumas partes do livro. Mas não foi algo difícil de fazer, porque um dos argumentos do meu livro é a importância da estatística: é matéria de vida ou de morte, mostra-nos os factos importantes do mundo. De repente, isso tornou-se óbvio. Toda a gente o conseguia perceber. E a pandemia continuava a dar-me exemplos relevantes daquilo que andava a dizer há anos.

Não coloca a hipótese de que, não só devido à pandemia, mas ao modo como tudo é questionado hoje, o seu livro possa ser mal usado? Que reforce a ideia de que as pessoas procuram a mentira nos números e não a verdade?
Espero que motive as pessoas a ver os números de uma forma mais prática. Como já disse, queria que as pessoas fossem lembradas de que o mundo pode ser percebido pelos números: eles podem ajudar a compreender a verdade. A segunda razão que me levou a escrever este livro é a de que queria ajudar as pessoas a perceber os filtros e os vícios que moldam a forma como interpretam tudo. Por exemplo, durante o Brexit existiam dois lados: um deles queria evidências, o outro queria dados. Mas depois há pessoas que só têm sentimentos, é isso que as faz decidir o que querem dizer, em cada um dos lados. Até percebermos os nossos próprios sentimentos, os preconceitos, não vamos entender o mundo de forma clara. Há muitos bons livros sobre estatística no mercado. Mas este dois pontos que mencionei são tópicos que normalmente não são abordados.

"Como consumidores de informação, temos de estar despertos para as nossas próprias reações. É OK estarmos chateados, bem-dispostos, mas por vezes temos de colocar as emoções de lado. E pensar. E só depois de pensar, trazer a emoção de volta. E ficar chateado, se for caso disso."

Do livro de Darrell Huff [Como Mentir Com A Estatística] só conhecia o título. Convenceu-me a lê-lo. É um daqueles livros que mudou a forma como as pessoas olham para os números. Sobretudo como começou a ser usado nos anos 1950, pelas empresas de marketing…
Sim, mas quanto disso foi o Huff que construiu e quanto já existia? Não sei. O que acho interessante no livro do Huff é que é provavelmente o livro mais popular sobre estatística que foi escrito. Não é o único a ter esta visão tão negativa da estatística, existem outros. Mas muito deles são sobre como os jornais leem mal os números, ou os políticos, ou as pessoas. Mas o Darrell Huff foi a um sítio mesmo sombrio, porque a tese dele é que é todo um truque. É uma espécie de “vou mostrar como eles estão a mentir”. E, na altura [1950], isso caiu bem na estratégia que as tabaqueiras estavam a usar. A estratégia de salientar a dúvida, as incertezas e os desacordos entre especialistas. Foi uma estratégia brilhante. E ao esticar essa estratégia até ao limite, chegaram a um ponto que tudo era tão confuso que já ninguém sabia no que acreditar. No final, o Darrell Huff aceitou o dinheiro delas e testemunhou a seu favor. É um final triste para a história. Mas quando o ler, irá perceber que o livro é bom.

Como especialista, por vezes não se sente atraído pelo pensamento ilusório? Também fala disso no livro.
Sou uma presa do pensamento ilusório todos os dias. Ou, pelo menos, sinto a tentação. Quando vejo uma manchete, tenho uma reação emocional: espero que isso seja verdade ou espero que isso seja mentira. Ou isso prova que estou certo ou prova que estou errado. A grande diferença é que, agora, estou mais consciente dessa reação e estou constantemente a reparar nela. Mas sim, claro que às vezes sou enganado. A história que conto no livro, sobre o retweet de um gráfico, mostra isso: pensei que eram boas notícias e queria partilhá-las com toda a gente. Mas se tivesse pensado durante dois segundos, teria percebido que era um pouco mais complicado do que isso. Penso que agora caio menos na tentação, não pelas emoções não estarem lá, mas porque me treinei a reparar nelas e a hesitar antes de fazer retweet. O que quero dizer é que o ecossistema dos média está desenhado para ativar emoções. É o propósito do marketing, também. E das redes sociais, querem que as pessoas fiquem bem dispostas ou chateadas. Nem tudo são más emoções, as pessoas partilham vídeos de gatos, ou há aquela história que nos faz chorar de alegria. Mas depois há as histórias de pessoas desaparecidas. Ou da bicicleta que foi roubada e não é encontrada. São essas emoções que têm retweets. O mesmo se aplica às manchetes dos jornais. Elas não são pensadas para serem aborrecidas ou neutrais, são desenhadas para envolver as pessoas. É assim que o mundo funciona. Como consumidores de informação, temos de estar despertos para as nossas próprias reações. É OK estarmos chateados, bem-dispostos, mas por vezes temos de colocar as emoções de lado. E pensar. E só depois de pensar, trazer a emoção de volta. E ficar chateado, se for caso disso.

O Tim é economista, mas todos os livros seus que li contêm muita informação de outras áreas. Por exemplo, algo como o pensamento ilusório vai muito além da economia. É algo que procura pessoalmente, enquanto Tim Harford, ou enquanto economista?
Eu sou o Tim Harford antes de ser economista [risos]. Mas percebo o que está a dizer. Sempre fui interessado pelo mundo. Tanto na escola secundária como na universidade procurei estudar outras matérias. Na universidade, além de economia, estudei filosofia. Sempre me interessou o quadro geral. Como escritor, tudo fica mais fácil se explicar as conexões entre a coisas. Como a partir de algo aparentemente improvável se pode retirar ensiamentos sobre psicologia ou comunicação. O processo é bem melhor para mim assim. E espero que também seja mais divertido para os  leitores.

"Se tivermos dores no estômago, vamos ao médico, ele dá-nos uns comprimidos, um tratamento. Há uma relação pessoal com o médico. Mas as vacinas são matéria do governo, é ele que diz que o bebé tem de tomar esta, aquela e a outra. E agora o governo é responsável pelas vacinas do coronavírus. Tem muito a ver com a nossa relação com a autoridade."

Mas no meio disso, contar uma boa história será sempre um trunfo. Se a introdução não for suficiente para agarrar o leitor, talvez ele fique rendido com a história do falso Vermeer…
É uma história incrível, não é? Gosto de histórias e gosto de contá-las. Para mim são a magia da comunicação humana. Para explicar algo a alguém, que pode ser difícil de seguir, a melhor forma que há é contar uma história: alguém fez isto, depois aconteceu algo surpreendente, e depois alguém tentou parar essa pessoa, etc. Esse tipo de construção é feita para as pessoas perceberem. E as pessoas percebem boas histórias. Por isso, estou sempre à procura delas.

E onde as encontra?
O mundo está cheio delas. Oiço muitos podcasts, leio muito e tento lembrar-me delas, tomo notas. Por vezes, vejo uma boa história e penso: não sei qual é a lição a tirar disto, mas há uma lição. E um dia mais tarde, lembro-me dela e faço uma associação. Ou então, tenho só a lição, e preciso de encontrar uma história que sirva para a contar. As boas histórias estão sempre a flutuar. E elas andam aí. É como comprar um carro vermelho e, a partir do momento que saímos do stand, vemos carros vermelhos em todo o lado. Eles sempre estiveram lá, mas não reparávamos neles. Se estivermos à procura de histórias, elas vêm sempre ter connosco. E as boas histórias estão sempre no bom jornalismo ou livros que as contam. O falsificador dos Vermeer, o van Meegeren, tem três ou quatro biografias escritas, há imensos programas de televisão com diferentes perspetivas, diferentes visões. O objetivo depois é tentar perceber como é que essa história nos pode levar à estatística. Porque já se contou a história de muita forma, mas nunca ninguém o tinha feito sobre estatística. É essa a minha contribuição.

No livro também aborda o fenómeno dos negacionistas, especificamente, por exemplo, os que negam a existência da sida. Tenho isso em conta, o que acha que vai acontecer com a vacina contra o coronavírus?
As vacinas são interessantes e são um terreno fértil para teorias da conspiração. Pessoas que têm visões muito sensíveis sobre tudo o resto, têm depois visões estranhas sobre as vacinas. As vacinas são organizadas pela autoridade, pelos governos. Se tivermos dores no estômago, vamos ao médico, ele dá-nos uns comprimidos, um tratamento. Há uma relação pessoal com o médico. Mas as vacinas são matéria do governo, é ele que diz que o bebé tem de tomar esta, aquela e a outra. E agora o governo é responsável pelas vacinas do coronavírus. Tem muito a ver com a nossa relação com a autoridade: se confiamos ou não no governo. Além disso, a maior parte das vacinas foram criadas para doenças que hoje são raras. Mas essas doenças são raras por causa das vacinas. E isso cria um potencial de problemas.

"Não podemos perder uma hora da nossa vida de cada vez que vemos uma notícia, eu sei. Mas o meu ponto de partida não é acreditar ou não: é fazer questões. Se for uma afirmação interessante, talvez valha a pena ver o que está por trás disso."

E o futuro?
Não sei o que irá acontecer com esta vacina. Mas, de momento, não existem muitas doses e existe muita gente que a quer. Por isso, a curto prazo não será um problema. Mas vejo um potencial problema a longo prazo. Teremos de esperar. Mas é muito importante não nos concentrarmos muito nos grupo de militantes negacionistas de vacinas. Eles são só barulhentos, mas não são muitos. Há, sim, um grupo de pessoas que está preocupada e tem hesitações. E é compreensível que as pessoas tenham dúvidas, que queiram saber se a vacina foi testada, se é segura. Algumas pessoas que já leram o meu livro perguntam-me como podem convencer outras que acreditam em coisas absurdas. Bom, o meu livro não é sobre a persuasão. Quem compra o meu livro é porque está interessado no mundo, porque é curioso e quer percebê-lo. Se querem ganhar uma discussão com alguém que tem uma visão estúpida do mundo, não vos posso ajudar. É muito difícil vencer essas discussões. E não era isso que estava a tentar fazer com o meu livro.

Mas para quem não está habituado aos números, o seu livro não pode contribuir para vê-los de uma forma mais cínica? Por exemplo, quando somos confrontados com estudos que defendem que crianças que vão para o pré-escolar têm mais hipóteses de sucesso na vida…
Bom, não diria cínico. Será mais “curioso”. É a minha regra de ouro. Quando vemos essas notícias, que dizem que as crianças que vão para o pré-escolar fazem mais dinheiro no futuro, podemos partir do ponto de que é interessante. Porque será? Há explicações diretas: aprendem mais rapidamente a ler, matemática, mesmo a gerir as tarefas: e é assim que se faz mais dinheiro. Ou então, são os pais que são muito trabalhadores e profissionais, ganham bons salários, e isso reflete-se nas crianças. Ou, então, são notícias falsas, foi um estudo pago pelo pré-escolar, para influenciar as pessoas a colocar lá os seus filhos. Eu quereria perceber. Por isso, prestava mais atenção à notícia: que outras coisas me diria? Iria googlar e ver se há académicos a defender isso. Ou se um deles fez um post num blog. Não podemos perder uma hora da nossa vida de cada vez que vemos uma notícia, eu sei. Mas o meu ponto de partida não é acreditar ou não: é fazer questões. Se for uma afirmação interessante, talvez valha a pena ver o que está por trás disso. É muito mais interessante do que dizer que é verdade ou mentira. Fim da história.

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